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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Os amigos não se esquecem


Javier Solana está de regresso. Fazendo prova de vida. Mais do que isso, fazendo jus ao papel que lhe atribuíram de feitor das ambições e estratégia de dominação imperialista. E sobretudo, revelando que no antro em que se move não há ingratidão. Se alguém julgava que Solana, registada a sua entrega no papel que lhe atribuíram quer como alto-representante da UE para a Política Externa e de Segurança, quer como secretário-geral da Nato, seria deixado à sua sorte, engana-se. O homem é presidente do Centro de Economia Global e Geopolítica da ESADE. Seja isso o que for, não sendo difícil imaginar para o que serve, desamparado Solana não fica. Os amigos são para as ocasiões. Não será em vão que Solana passou da rebeldia juvenil anti-Nato, a ministro do governo do Partido Socialista espanhol, até mandante daquela aliança militar agressiva. Favor com favor se paga. Em artigo publicado há dias, Solana sublinhava o facto de nos dias em que os iranianos foram às urnas «Trump estava a caminho da Arábia Saudita, uma escolha notável para a sua primeira viagem oficial ao exterior». Não fosse a ideia perder nitidez, acrescentou os seus votos para que essa «sua breve visita ao Médio Oriente ajude a criar condições favoráveis para o progresso rumo à paz na região». Um leitor menos atento tomaria a afirmação como um exercício de fina ironia. Conhecido que é o papel da Arábia Saudita enquanto centro de formação e recrutamento do terrorismo (ali se criou e armou a Al-Qaeda), conhecido que ali reside um dos mais obscurantistas e retrógrados estados totalitários do mundo, registe-se quer a escolha do presidente dos EUA, em linha com a política das administrações antecedentes, quer a opinião de Javier Solana. Sendo que neste caso, conhecida que é a sua concepção de «razão humanitária» invocada na sua qualidade de chefe da Nato para desencadear os bombardeamentos contra o Estado jugoslavo, tratou-se apenas de um novo momento para exercitar a noção de diplomacia intrínseca aos centros do imperialismo.
Jorge Cordeiro


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