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domingo, 18 de junho de 2017

A HIPOCRISIA PERIGOSA


Inaudito. Poucos dias depois do novo Presidente dos Estados Unidos da América Donald Trump ter criticado o Qatar, colocando-se em discurso ao lado da Arábia Saudita e dos seus aliados, os Estados Unidos da América anunciaram ter chegado a acordo com Doha para a venda de caças de combate F-15. O negócio ficou fechado pelo valor de 12 mil milhões de dólares (há quem fale em 15 mil milhões de dólares por 36 F-15). É muito incompreensível  isto do ponto de vista ético vulgar e até duvidoso do ponto de vista geopolítico, uma vez que o Qatar encontra-se no meio de um bloqueio articulado e que resulta nas próprias palavras de Trump da sua recente visita á Arábia Saudita.

O que faz correr uma santa aliança constituída pelos Estados Unidos, Arábia Saudita, Israel, países do Golfo, Egipto, Mauritânia, Senegal, Jordânia, Comores e outros pequenos países muçulmanos contra o Qatar? O que está por trás deste bloqueio?

Os pretextos e exigências são vários sob a capa risível do “combate ao terrorismo”: corte de relações diplomáticas com o Irão, expulsão do Hamas palestiniano e fecho contas bancárias, expulsão da corrente jihadistas dos Irmãos ou Fraternidade Islâmica, cessação da emissão da rede televisiva Al-Jazeera.  Mas será “isso”?

A realidade porém é que o Qatar, país muito pequeno, tornou-se o país mais rico do planeta, com um imenso campo de gaz (South Pars) no Golfo Pérsico que partilha com o Irão.  Sem deixar de se assumir e definitivamente apoiante primário do terrorismo, seu financiador e instrumento (o que lhe destruiu recursos e imagem) o Qatar vem-se assumindo como independente da estratégia saudita.  E colocou-se com voz própria como interlocutor e mesmo competidor ao nível da Rússia no mercado internacional do gaz natural liquefeito.

Acresce que é precisamente no Qatar que se localiza a maior base militar dos EUA no Médio Oriente. É a base de Al-Udeid , a 30 km de Doha, com onze mil soldados dos EUA , e uma pista de 3,8km de comprimento, provavelmente a maior base aérea dos  Estados Unidos em todo o mundo.  E também no Qatar se localiza o Centro de Comando  Avançado dos EUA  para a zona do Médio Oriente e Ásia. E não menos importante, a Al- Jazeera constitui um instrumento de influência politica, religiosa e cultural  desde o passado de promover as chamadas “primaveras árabes” até o apoio mediático a operações terroristas  no presente. Compreende-se mal  que os EUA (ao contrário de Israel) pudessem arriscar deitar tudo a perder com uma guerra, perdendo aliados , instalações e redes de influência.

Assim a “guerra” contra o Qatar é uma farsa. Pelos pretextos e pelos condicionalismos geopolíticos. A favor do Qatar estão a Turquia, a Alemanha e o Irão. Um grupo com menos dinheiro do que a “santa aliança” mas com mais poder de fogo. E em melhor situação militar do que os EUA (o policia do mundo) e a Arábia Saudita, atolada na guerra do Iémen. O Irão apressou-se a romper o bloqueio fornecendo alimentos. E a Turquia disponibiliza tropas para o terreno. Estamos possivelmente perante uma tentativa de reorganização do islão politico, que não abdicando de princípios religiosos de construção do Estado,  abandona as clivagens artificiais criadas entre sunitas e xiitas, e o projecto de um Estado Jihadista, e que articula Teerão, Ancara, Gaza , Doha e alguma cidade síria ou iraquiana.

São os produtos petrolíferos e as rotas comerciais que tornarão esta região como apetecível em paz para Londres, Moscovo ou a China. E as multimilionárias vendas de armas recentes aos dois países árabes poderão ter sido o último episódio de um passado de sangue e dor, com muita interferência externa e muita hipocrisia.  

Alguns poderão pensar que isto não nos interessa. Mas quanto mais conhecermos o nosso vizinho, mais facilmente podemos conviver com ele.

CR

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