um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

domingo, 30 de abril de 2017

Grande vitória



Doroteia Peixoto venceu a Maratona de Dusseldorf (Alemanha), completando os 42.195 km da prova em 2:32:00 horas.

E garantiu a marca exacta de qualificação para o Campeonato do Mundo de Atletismo, a disputar em Londres em agosto.

Muitos parabéns! A ela e ao pai Peixoto, camarada e amigo.

GREVE GERAL NO BRASIL







SEMPRE ATENTOS, EM NOME DO POVO

Para alguns, o tema é forte e está na “ordem do dia” da política de Paredes. O Presidente da Câmara de Paredes e assessores gastaram uns "colossais" 2414 euros, em refeições, cobrados às finanças camarárias, desde o início do ano. “Almoços individuais com convidados”, dizem escandalizados esses “alguns”, preocupados com as “custas do município” e com o “dinheiro dos contribuintes”. O relato das facturas apresentadas é quase exaustivo: quem convidou, quem foi convidado, quanto custou, quem emitiu a factura. Faltam as ementas, para se perceber a “gula” despesista dos responsáveis autárquicos. Mas as facturas apresentadas na reunião do Executivo permitem, a “alguns”, leituras e conclusões.  
Ficamos apenas sem saber porque é que os autarcas de Paredes não optaram pelo Prato do Dia. Ficava mais barato e despertava menos cobiça. Uns jaquinzinhos com arroz de tomate ou uma feijoada, enche e não onera a Tesouraria, como um provável cherne regado com um branco especial da Bairrada. Eu, por mim, nunca tive a oportunidade de “meter os pés debaixo da mesa com o Presidente da Câmara” (citação). Mas perante o olhar arguto de “alguns” e para evitar “ditos”, não deixaria de invocar dificuldades de agenda ou pressa de tomar o comboio para… Paços de Ferreira”, se convidado.
Livra!


CR

Sérgio Godinho -O primeiro dia



O PRIMEIRO DIA

A princípio é simples, anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no borborinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.


SÉRGIO GODINHO

sexta-feira, 28 de abril de 2017

frase do dia

“Na segunda volta temos a escolha entre a extrema-finança e a extrema-direita”
APOIANTE DE JEAN-LUC MÉLENCHON, PÚBLICO

terça-feira, 25 de abril de 2017

Concessão da Medalha de Ouro do Municipio de Paredes e titulo de Cidadão de Honra do Municipio de Paredes




Dia 25 de abril de 2017

Intervenção

Exmos Senhoras e Senhores, aqui presentes
Digníssimos Autarcas de Paredes e restantes Autoridades de Paredes 
Distintos cidadãos homenageados
Queridos familiares
Meus amigos e caros camaradas

Quis a Câmara Municipal de Paredes, na pessoa do seu Executivo Municipal, homenagear-me neste dia simbólico do 25 de abril, o Dia da Liberdade.  
Agradeço a deferência e o reconhecimento de um percurso não acabado e de uma presença que sendo política foi também intervenção social e cívica. Sabia das provas de amizade e respeito de muitos que aqui estão, que julgo ter já muitas vezes retribuído.  
Serei breve.
Nasci na freguesia de Rio Tinto, concelho de Gondomar, de uma família normal, aquilo que se chamaria hoje de classe média baixa, pai Armando comerciante e mãe Delfina doméstica, felizmente ainda vivos e aqui presentes. Da educação familiar e escolar (escola primária e liceu Alexandre Herculano) obtive os valores e ensinamentos que me moldaram em vida adulta como ser humano.
Terminado o curso de Medicina, entrei na vida activa e profissional e então cresci como cidadão com identidade e projecto. Os desafios do exercício da Medicina aproximaram-me do ser humano doente, dos problemas da deficiência, da disfuncionalidade, da vulnerabilidade. Nasceu uma expressiva consciência social.
 Ao mesmo tempo tive uma outra escola, comum a camaradas e amigos, (muitos dos quais permanecerão para sempre anónimos), de um colectivo que me ensinou que é possível um Mundo melhor, uma sociedade de igualdade e progresso. E que a contribuição individual, baseada no estudo e na coerência, mesmo que nem sempre reconhecida, pode sempre antecipar o Futuro.
Em 1990 cheguei a Paredes onde passei a residir e a trabalhar. Como autarca, na Assembleia Municipal, atravessei as presidências de Granja da Fonseca e Celso Ferreira, a quem aqui cumprimento. Como político desempenhei cargos e funções, bem como fui candidato pela CDU a eleições legislativas gerais e locais. Perdi muitas vezes, ganhei algumas, poucas vezes, mas do sempre duro combate em Democracia se formou o homem político e resistente.  
Desde cedo coloquei ao serviço de amigos dirigentes de diversas coletividades diversas o meu tempo disponível e o meu compromisso social. São várias as instituições a que tenho tido o prazer de solidariamente ajudar, como Bombeiros, Associações Desportivas e Culturais (Cete, Lordelo, Vandoma, Recarei, Parada de Todeia). Saúdo aqui a disponibilidade ao serviço da comunidade de muitos desses dirigentes.
Assinalo, e perdoe-se-me a imodéstia da referência em sublinhado, a actividade voluntária desde há 15 anos com assistência médica á população de Parada de Todeia. Não esquecerei nunca a inter-relação entre as duas partes de um contrato assistencial mutuamente vantajoso.
Minhas senhoras, meus senhores
A responsabilidade de muitos anos como eleito da CDU transforma-me já num quase “dinossauro político” em Paredes. A quem se permite dois apontamentos neste momento importante na sua vida.
Tenho como certo que a Politica deve qualificar-se com uma componente ética, e com uma disponibilidade de com competência exercer responsabilidades delegadas pelas populações. Ao contrário do que dizem muitos (e o que não será o mesmo do que efectivamente pensam!), sei que se pudesse voltar atrás em atos e intervenções, certamente á luz do que a vida nos ensina permanentemente, fá-lo-ia certamente algo diferente, com o tempo a ser mestre de uma intervenção melhor.
Ao contrário do que dizem muitos de si próprios, certamente em muito errei, fiz por vezes juízos apressados, e mesmo terei sido injusto ou errado em tomadas de decisão. Mas tenho a noção de que nunca errei ou prejudiquei com intenção ninguém.
Neste 25 de abril, afirmo solene e sinceramente de que vale a pena ser de Paredes ou lutar por Paredes. E no pluralismo de opções concretas, nomeadamente do âmbito do Poder Local, encontraremos certamente uma vontade comum de servir.
Neste dia Inicial, inteiro e límpido como diz Sophia de Mello Breyner, permitam-me um Viva o 25 de abril!
Obrigado.


Cristiano Ribeiro

Sérgio Godinho- Só Neste País

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A EUROPA ELEITORALMENTE A FERRO E FOGO

A 1.ª volta das eleições presidenciais francesas decorreu sob o signo da incerteza e da desilusão dos franceses com os partidos que se alternaram no poder durante a 5.ª República. E para agravar, em plena campanha, na sua recta final, ocorreu um atentado terrorista em Paris, com influência no processo de decisão.

Significativamente, o socialista Presidente Hollande não se recandidatou, o que é inédito na tradição presidencial francesa. Durante a campanha das últimas presidenciais, Hollande prometeu a reversão das reduções fiscais sobre elevados rendimentos, a reposição da idade da reforma nos 60 anos ou a retirada das tropas francesas do Afeganistão. Durante a sua presidência, a idade da reforma sem penalizações foi mantida nos 67 anos e, apesar da retirada do Afeganistão, a França interviu militarmente no Mali, na República Centro-Africana ou na Síria. Hollande assumiu-se como um pilar forte do eixo franco-alemão que gere a Europa do Euro e da Austeridade. É portanto na sucessão de um exercício presidencial descredibilizado que decorrem as eleições. E aqui começam a ruir as tradicionais fidelidades.

 O representante da direita republicana, Fillon, ex-primeiro ministro de Sarkozy envolvido num escândalo relacionado com a contratação de familiares próximos para cargos públicos que nunca ocuparam e indiciado de uso indevido de dinheiros públicos, contou com 19,9% dos votos. O candidato oficial socialista, Hamon, traído por parte do aparelho PS e apesar de legitimado por umas eleições primárias no interior do Partido, tem uns miseráveis 6,5% dos votos. Macron, ex ministro de Economia de Hollande, banqueiro, agora “centrista independente,”, com 23% da votação, aparece como provável sucessor de Hollande. Diz-se o «único candidato pró-europeu» e promete aplicar uma política económica «amiga das empresas». Se internamente apresenta a novidade de querer reconstituir o centrão com novas roupagens, a política que segue é a da continuidade. Marine Le Pen, a líder da fascista Frente Nacional, representa a extrema direita populista, e xenófoba. Alicerçada numa “modernização do discurso” e em críticas justas á União Europeia, com um discurso centrado na soberania nacional, a declaração do estado de emergência em 2015 e os atentados caíram como sopa no mel na sua retórica. Por último, Mélenchon, o candidato das esquerdas incluindo o Partido Comunista, alcança perto de 20%, uma votação notável, apesar da barragem informativa da direita francesa dominante na Comunicação Social. No seu programa político defendia «a renegociação dos tratados europeus para tentar recuperar a soberania para os cidadãos franceses» e o lançamento da «6.ª República», através de um processo de elaboração de uma nova constituição. É igualmente defensor de mais investimento, da criação de mais emprego e da subida de impostos para os mais ricos.

Não por acaso os tempos da comunicação social (Rádio e TV) favoreceram Fillon e Hamon.

A 7 de maio, 2.º volta das presidenciais e eleições legislativas em junho. Esperemos.


CR

quinta-feira, 20 de abril de 2017

as misérias do jornalismo atual

O jornalismo sério e independente já teve melhores dias. Agora, alguns jornais, provavelmente já cansados das notícias falsas e dos silêncios encomendados, apostam na mobilização ativa das consciências dos cidadãos para as "verdades convenientes".
L' Express, um quotidiano francês, "descobriu" em exaustiva investigação que 7 dos 11 candidatos presidenciais franceses são "pró-Putin". Ficam de fora deste amplo "cerco russo" 2 candidatos trotskistas, o candidato "centrista" Macron e o infeliz candidato socialista, traído pelo aparelho de Hollande e Valls. E como obteve o influente jornal da direita francesa esse qualificativo “putinesco” para os candidatos? Aplicou-lhe uma grelha de indícios de suspeição: uma fotografia em comum com o Presidente Russo (de mãos dadas ou não), uma declaração anti-NATO, uma intenção de rever as sanções contra a Rússia, por causa de Crimeia, do Dombass, da Síria, dos direitos humanos, ou uma simpatia pela cultura russa, etc.
E depois...?
Depois será fácil converter o rótulo aplicado numa qualquer manipulação do Kremlin sobre o candidato e sobre o sentido de voto dos franceses. Elementar, dir-se-á. Se o L' Express diz é porque é verdade.


CR

segunda-feira, 17 de abril de 2017

poema

PORTUGAL - Alexandre O’Neill

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .


© 1965, Alexandre O’Neill
From: Poesias Completas
Publisher: Assírio & Alvim, Lisbon, 2000
ISBN: 972-37-0614-8

a direita francesa em pânico com as sondagens


domingo, 16 de abril de 2017

grafismos PC CHILE







Histórica intervenção de Bolivia na ONU sobre o ataque de EE.UU. na Síria

SUGESTÃO DE LEITURA - ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ (de JOSÉ SARAMAGO)

Ensaio sobre a lucidez, de José Saramago, é um romance construído sobre dois pilares: a revisão do conceito de cegueira introduzido nos romances anteriores e um olhar questionador sobre a democracia no mundo contemporâneo. Nesta obra as críticas de Saramago vão muito além de metáforas e insinuações. Neste romance, o escritor português faz uma censura aberta ao sistema capitalista e aos governos contemporâneos que, em nome de uma tão aclamada democracia, cometem atos arbitrários, ilegítimos e anti-democráticos.
O principal objetivo de Saramago no Ensaio sobre a lucidez foi questionar a democracia, tema que, para ele, parece intangível no mundo atual, como declarou para vários jornais na época do lançamento de seu livro: “no mundo tudo se discute, tudo é objeto de debate, mas a democracia surge como pura, inatingível, intocável", disse o escritor, destacando que "é o poder econômico que realmente governa, usando a democracia a seu favor".
O livro Ensaio sobre a lucidez remete-se, não só no título, mas também na trama, à célebre obra Ensaio sobre a cegueira, de 1995, que rendeu ao escritor
português o único Prêmio Nobel de Literatura a um autor de língua portuguesa. Neste romance, Saramago coloca toda a população de um país imaginário (o
mesmo do romance de 2004) acometida de uma cegueira branca, com exceção de uma única mulher, a esposa do médico oftalmologista que examinou em seu consultório o primeiro homem a cegar. A mulher do médico - como a personagem é conhecida, já que, assim como os outros personagens e a cidade em que as histórias se passam, não receberam nomes próprios - é a única testemunha ocular dos horrores de uma sociedade tomada pelo caos, sem ordem ou regra, sem governo, que retrocede a um modo de vida tribal

O TRIBUNAL EUROPEU DE APOIO AO TERRORISMO

O JN titula numa pequena notícia Rússia: Kremlin culpado no massacre de Beslan. E desenvolve: O Tribunal Europeu dos Direitos humanos determinou ontem que a Rússia é responsável por “graves falhas” na gestão da tomada de reféns da Escola de Beslan por separatistas chechenos em 2004. O massacre que se seguiu fez 330 mortes (186 crianças). O mesmo destaque fez o Expresso, a TVI24 e a generalidade da grande comunicação social ocidental.
O que foi o “massacre de Beslan”? A 1 de setembro de 2004, homens e mulheres de caras tapadas e explosivos nas cinturas invadiram a escola nº 1 de Beslan, na Ossétia do Norte, na Rússia e abriram fogo contra professores, alunos e auxiliares de educação que estavam reunidos no pátio para dar início ao ano escolar. As mais de 1200 pessoas que ali estavam foram feitas reféns e colocadas no ginásio, onde os rebeldes chechenos em número de 32 instalaram explosivos dependurados nos  cestos de basquetebol. O grupo exigia às tropas russas que se retirassem da Chechénia. O tenso cerco acabou subitamente quando, ao terceiro dia, duas explosões e uma intensa troca de tiros culminaram na morte de 331 dos reféns. Em 3 de setembro, as forças de segurança russas teriam entrado na escola e atacado os sequestradores, que detonaram explosivos e atiraram nos reféns. A operação das forças de segurança russas foi assim dramática e as tropas usaram artilharia pesada num cenário de elevada vulnerabilidade. Apenas um dos rebeldes que liderou o cerco foi capturado vivo e levado a tribunal. Os restantes foram abatidos.

Há mais de uma década que alguns sobreviventes e os familiares das vítimas pedem uma investigação ao que aconteceu; questionam se o cerco podia ter sido evitado e se era necessário que tanta gente morresse numa operação de resgate. Desde 2004, mais de 400 pessoas ligadas ao massacre interpuseram processos no chamado “Tribunal Europeu de Direitos Humanos” para exigirem que seja feita “justiça”. O tribunal com sede em Estrasburgo está sob a supervisão do Conselho da Europa, um organismo de “defesa dos Direitos Humanos independente da União Europeia” e que conta com a Rússia entre os seus membros.
Na sentença apresentada esta quinta-feira, a instância judicial diz que a Rússia teria informações suficientes para saber que um ataque estava iminente em Beslan e que, apesar disso, nada teria feito para o travar. O tribunal refere ainda que o uso de "armas poderosas como canhões de tanques, lançadores de granadas e lançadores de chamas" pelas forças russas contribuiu para o elevado número de mortos. E condena a Rússia a pagar 3 milhões de euros de indemnização.

Vejamos o contexto histórico do terrorismo independentista checheno liderado por Shamil Bassaiev: 9 de novembro de 1991- sequestro de um Tupolev 154 da Aeroflot em Ancara (Turquia); 14 de junho de 1995- sequestro de 1600 civis no Hospital de Budennovsk, no sul da Rússia, com 129 mortos (dos quais 100 civis), utilização de escudos humanos e roubo de césio radioactivo; atentados contra habitações russas -300 mortos; ataque ao teatro de Duvrovka em Moscovo -129 mortos e 39 terroristas mortos; ataque á sede do governo tchetcheno em Grosny -80 mortos, atentado em 12 de maio de 2003 – 59 vitimas, atestado em Grosny 14 vitimas. Atentado 9 de maio de 2004 que matou o presidente tchecheno e mais 5 vitimas. E mais atentados se sucederam na Tchechénia, na Inguchétia, no Daguestão, na Kabardino-Balcária em Moscovo, em 2004 e 2005 com centenas de mortos. É portanto num contexto de guerra total que ocorrem os acontecimentos de Beslan. Como prever estes acontecimentos numa Escola da Ossétia do Norte? Como actuar perante um inimigo tão sanguinário e cruel que tinha como selo de actuação a decapitação dos seus inimigos?

E aqui chegados, temos a inqualificável actuação de uma organização dita de “direitos humanos” e “tribunal de justiça europeu”. A decisão proferida por esse “Tribunal” é intolerável, mesmo sabendo-se parte de uma estratégia anti-russa. Que mensagem fica para o terrorismo internacional? Que complacência pró-terrorismo para quem assim atua! Façamos o exercício teórico de imaginar idênticos acontecimentos numa escola da periferia de Paris ou de Bruxelas. Como atuarão as forças de segurança perante um sequestro de dezenas de terroristas e milhares de reféns? Tudo decorrerá como nos filmes de acção do Chuck Norris, ou do Stallone, ou Pierce Brosnan? Ah e as vítimas colaterais…

O mundo pode estar louco. Mas há sempre alguém que pensa.


CR

quarta-feira, 12 de abril de 2017

QUANDO O DIRECTOR É ASSIM...


O Director do Instituto Politécnico da Guarda obriga os docentes a repor por compensação aulas em feriados ou em situação de baixa. No âmbito de Cursos Técnicos Superiores Profissionais, financiados pelo Programa Operacional Capital Humano, Constantino Rei invoca o propósito de retirar apoios financeiros previstos para a produção científica, nessas situações.
E não contente com esta desfaçatez ridícula (como é o caso de aulas em dias de feriados) e esta irregularidade, ele atreve-se a catalogar como “péssimos funcionários públicos” os que se lhe opõem, bem como divide (para reina) os docentes em “docentes responsáveis” e “docentes egoístas”. Não se lembra a “politécnica” sumidade de por exemplo substituir o doente quando em baixa clínica. Não! Constantino (não o guardador de vacas e sonhos, de Redol!) é adepto do “cumprimento integral”. Até a sua pesporrência é real.
Mas também localmente alguém procurou compensar aulas não dadas com ocupação de outros dias e outras horas. Procurou, vá lá, obter a anuência dos pais, que aparentemente não sentiram justificada a “compensação”. Quando um aluno falta, por razões atendíveis, ao que se sabe também não há a reposição de conteúdos curriculares em falta.
Vão tristes os dias no interior das escolas. E sobram as decisões unilaterais não justificadas.


CR

Extrato do livro Ensaio sobre a Lucidez , de José Saramago

"....O mais corrente neste mundo, nestes tempos em que às cegas vamos tropeçando, é esbarrarmos, ao virar a esquina mais próxima, com homens e mulheres na maturidade da existência e da prosperidade, que, tendo sido aos dezoito anos, não só as risonhas primaveras de estilo, mas também, e talvez sobretudo, briosos revolucionários decididos a arrasar o sistema dos pais e pôr no seu lugar o paraíso, enfim, da fraternidade, se encontram agora, com firmeza pelo menos igual, repoltreados em convicções e práticas que, depois de haverem passado, para aquecer e flexibilizar os músculos, por qualquer das muitas versões do conservadorismo moderado, acabaram por desembocar no mais desbocado e reaccionário egoísmo. Em palavras não tão cerimoniosas, estes homens e estas mulheres, diante do espelho da sua vida, cospem todos os dias na cara do que foram o escarro do que são. ,,,"

domingo, 9 de abril de 2017

A HORA DA MUDANÇA

(reflexão sobre a Cultura que se vai promovendo ou apoiando…)

As autarquias, como lídimos representantes institucionais dos interesses das populações, têm uma capacidade de intervenção no plano cultural que as tornam essenciais. Elas são muitas vezes parceiras de entidades diversas bem como de organizações populares ou associativas de base. As diferentes formas ou expressões de criatividade artística destinam-se á fruição geral de toda a comunidade, que nelas encontra objecto de formação e de aprendizagem, de consumo lúdico e de formação de gostos e hábitos.

Quem nunca viu uma peça de teatro certamente não encontra nessa área uma particular aproximação ou interesse. Quem nunca visitou, mesmo que por simples curiosidade, uma exposição de pintura, certamente terá dificuldade em interpretar as mensagens implícitas ou explícitas, ou apreciar os tons e as formas. Mas há sempre um começo.

 Sem paternalismos ou superioridade intelectual, sei que a cultura nos torna mais capazes de compreender o mundo. E mais aptos em colocar alternativas/soluções ou em enfrentar dificuldades pois o projecto, o sonho e a ficção são sempre ferramentas de futuro. Dito isto, passo ao exemplo concreto da vida.

Comecemos por salientar que Penafiel obteve um Premio da melhor agenda cultural autárquica, patrocinado pela Sociedade Portuguesa de Autores. E o que terá estado na base de tal distinção? Como o nome diz, foi uma Agenda Cultural qualificada e diversificada, aberta a iniciativas e tradições mais populares e a iniciativas de carácter mais elaborado ou elitista. A Escritaria, iniciativa regular e sem hiatos de continuidade, de divulgação e encontro com figuras literárias nacionais de relevo, constitui certamente um bom Cartão de Visita de uma preocupação e orientação, mas muitas outras actividades se poderiam registar. Neste momento, por exemplo, está a acontecer no Auditório do Museu de Penafiel (outro ex-libris do concelho) um ciclo mensal de cinema com filmes ligados á temática da saúde (depressão, demência…), uma iniciativa da CESPU, com apoio do Museu e da Câmara, e do Centro Hospitalar Tâmega e Sousa.  Tantos os especialistas, que no final da projecção do filme, têm oportunidade de o comentar como o cidadão comum, simples espectador, podem adquirir conhecimentos ou emoções ou simplesmente disfrutar desse desafio. Poderia falar das iniciativas da Biblioteca Municipal ou da defesa do rico património, do Mózinho e tantas outras vertentes. Não posso deixar de registar e aplaudir os protagonistas autárquicos nesta área, com esta  movida cultural, que prestigia e dá identidade a uma comunidade.  

Em autarquia vizinha, Lousada tem igualmente uma programação cultural muito significativa. Tem uma companhia de teatro profissional e permanente a Jangada Teatro, com produção regular e a FOLIA, Festival Internacional de Artes do Espectáculo. E iniciativas singulares como umas Rotas de Gourmet, uma visita a especialidades gastronómicas no contexto de jardins de casas senhoriais. E apresenta espectáculos musicais nos auditórios com o melhor da criação nacional de espectáculos populares, como é a programação deste ano, que faz inveja a muita cidade e vila de maior dimensão. As mesmas felicitações aos autarcas responsáveis, fruto do agrado com essa dinâmica. 

É portanto alicerçado nestes exemplos, certamente extensivos a outros locais e a outras experiências autárquicas, que registo como fundamental a persistência e continuidade de projectos culturais que se assumam como transformadores da realidade e do pensamento, libertos de preconceitos ou juízos ideológicos, dinamizados por gente que goste da Cultura, como um Bem Natural e uma Marca dos Tempos.

CR

Geração Prozac (2001)



Ano: 2001
Diretor: Erik Skjoldbjaerg
Ator/ Atriz: Christina Ricci, Jason Biggs e Anne Heche

SINOPSE

Este filme conta a história verdadeira de Elisabeth "Lizzie"Wurtzel . Lizzie é uma brilhante estudante a caminho da renomada faculdade de Harvard com planos de estudar Jornalismo e seguir carreira de crítica de música. Entretanto a sua frágil situação familiar com pais divorciados desde os 2 anos (pai ausente e mãe obcessiva) e a sua personalidade perturbada levam- na uma profunda depressão com perturbações do comportamento Quando suas noites de trabalho regadas a drogas e sua instabilidade emocional a afastam de sua amiga de quarto e de seu namorado, Lizzie procura a ajuda profissional da Dra. Diana Sterling, 
apesar de ter dificuldades para pagar as suas faturas médicas e sessões de terapia. Após um longo período de tratamento sob medicação, e tentativa de suicídio, o, Lizzie estabiliza e ajusta-se ao mundo real. Mas na vida real houve outras crises de dependências na vida de Elisabeh Wurtzel. 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

poemas


(em Cativeiro, de Nuno F. Silva)

SOLIDÃO

Anoiteceu sobre a rosa no jarro,
e mesmo que ainda houvesse água
ela não sabia lidar com a solidão,
com a ausência do poeta que se foi deitar


DO SONO VII

I

Não eleves
a tua voz
sussurrada
acima do nível
do sono.

Sabes bem que
não se acalmam
 calafrios
com ansiolíticos

quarta-feira, 5 de abril de 2017

CICLO DE CINEMA

Data: 07.04.2017, 21h:30m - 07.04.2017, 23h:30m

Local: Museu de Penafiel


A CESPU através da Escola Superior de Saúde do Vale do Sousa, Pólo IINFACTS - Penafiel, associou-se ao projeto do Museu Municipal de Penafiel - 5 Salas. 5 Filmes e, vai dar início a um novo ciclo de cinema dedicado à área da saúde. 5 Filmes. Saúde.
Com início em março e até julho de 2017 serão exibidos filmes, cujo enredo se integra na área da saúde. No final de cada sessão, um grupo de especialistas debaterá o tema do filme e o seu impacto na saúde das populações. 

A exibição do  2º filme está agendada para o próximo dia 7 de abril e tem como temática: Depressão.
Título do Filme: “GERAÇÃO PROZAC”
Realizador: Eric Skjoldbjaerg
Género: Drama Biográfico
Duração: 95 min
Classificação: M/18
Elenco: Christina Ricci; Jason Biggs; Anne Heche; Michelle Williams; Jonathan Rhys Meyers; Jessica Lange.

ENTRADA GRATUITA

 "GERAÇÃO PROZAC"
Baseado na autobiografia do mesmo nome, o filme segue a autora Elizabeth “Lizzie” Wurtzel (Christina Ricci), quando ela era uma jovem de 19 anos de idade, que foi aceite em Harvard com uma bolsa de estudos em jornalismo. Seu relacionamento com seu pai se desintegrou enquanto sua mãe (Jessica Lange) tenta contrabalançar sendo bastante envolvida, mas com boas intenções.
Durante sua infância, devido ao estresse do divórcio de seus pais e da exclusão social, ela já estava mostrando sinais de depressão clínica grave através de auto-mutilação. No entanto, na faculdade, Lizzie faz amizade com sua colega de quarto Ruby (Michelle Williams) e perde a virgindade com um estudante mais velho, Noah (Jonathan Rhys Meyers).
Apesar de inicialmente ser bem-sucedida em sua escrita, sendo presenteada com um prêmio pela revista Rolling Stone, ela logo desenvolve um bloqueio criativo e torna-se incapaz de escrever qualquer coisa. Isto faz com que ela comece a abusar de drogas como cocaína e ecstasy para tentar ficar acordada e abrir sua mente, mas só agrava seu estado mental quando ela fica severamente deprimida.
7 de abril é o dia Mundial da Saúde. Este ano a Organização Mundial de Saúde determinou que se refletisse sobre a Depressão, sob o lema “Let’s talk” (“Vamos conversar”). Visa promover a tomada de consciencia sobre as diferentes formas de prevenção e tratamento desta doença que, deixada em livre curso levará a consequencias graves.
A depressão é um transtorno mental, incapacitante, frequente.Segundo a OMS estima-se que 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem com esse transtorno; O seu impacto no portador é responsavel por muito sofrimento que, se manifesta em vários dominios e, com grande impacto sobre a familia, o trabalho e, a saúde.

Convidados para o debate:
Drª. Alexandra Antunes (Psicóloga do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, HPA)
Dr. Orlando Von Doellinger (Psiquiatra do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, HPA)

pintura


Daniel Hompesch (1948-2017) - Obra do pintor belga que se enamorou pela Póvoa do Varzim e que foi militante do PCP







segunda-feira, 3 de abril de 2017

AS NEGRAS SOMBRAS DE PEPETELA

(ou o discurso inconsequente e reacionário sobre expiação de culpas)

O livro O planalto e a estepe foi publicado em 2009 pelo escritor e antigo guerrilheiro do MPLA Pepetela. Li-o recentemente e impressionou-me muito. Trata-se de um drama pessoal, pungente, que ocorre ao longo de uma viagem, de um percurso, de uma evolução. Mas como é possível que alguém dotado de tanto talento e sensibilidade como é indiscutivelmente o escritor angolano, testemunha direta de realidades tão diversas, com compromissos pessoais e ideológicos, possa escrever uma obra, em tons explicitamente autobiográficos, tão contraditória, e tão sombria?

O tema da ficção escrita é a história de um “amor impossível”, ou “amor impedido” entre Júlio, um branco angolano do Huíla, e uma jovem mongol, que se encontram em estudos de economia em Moscovo na década de 60. Júlio, filho de colono pobre, viveu os tempos da infância no planalto angolano, com a sua multivivência com os amigos negros, a ingenuidade da infância e adolescência vividas num contexto de colonialismo e racismo. Mas aconteceu a deslocação para Coimbra para estudar, e mais tarde os estudos interrompidos pelo apelo da sua crescente consciencialização política levam-no numa longa viagem, que passa por Marrocos e termina em Moscovo, viagem essa que expõe um singular Pepetela.

Que diz surpreendentemente que então (e cito) “Coimbra e Portugal eram terras de gente temente ao poder, respeitando os mandantes, dobrada a espinha perante gansters de feira”. Que “descobre” que os candidatos a guerrilheiros negros são destinados ao treino militar enquanto os seus camaradas brancos são selecionados a tirar cursos nas academias soviéticas, contrariamente a vastos exemplos da verdade histórica (o percurso politico e institucional de Eduardo Santos, Lúcio Lara, Iko Carreira, por exemplo, desmente este “racismo branco”). Que as matérias dos currículos escolares eram “repetitivas e vazias”. Que o “internacionalismo proletário era uma treta”. E aqui começa a cruzada paranoica anti- soviética de Pepetela, que atinge por vezes lamentavelmente o nojo (“todos se sentem úteis, sem noção de serem quase inúteis. Gente feliz, portanto”).

 A trama ficcional (onde Pepetela se mostra sempre competente) é interessante mas é simples pretexto. Luar, a mongol, é filha do Ministro da Defesa, e grávida de Júlio, enfrenta a resistência da família dela baseada em pressupostos rácicos e de nacionalidade. Mais tarde, 35 anos depois, reencontram-se após uma vida de percursos diferentes mas a felicidade será por pouco tempo.

 Os pormenores/comentários são o essencial. São inúmeras as efabulações: é a tese da suspeita dos dirigentes soviéticos pelos africanos brancos, “de olhos azuis”, como espiões de Salazar infiltrados; as guias necessariamente “redondas” que são (veja-se!) “dotadas para as línguas”; o medo dos microfones omnipresente; a diferença racista entre africanos e europeus “a cheirar a alho”, pormenores que fazem parte de uma qualquer sebenta anticomunista.

Predomina a diatribe contra os hospedeiros responsáveis pela formação de uma geração de novos quadros revolucionários. A União Soviética e mais especificamente o Kremlin, “a Meca e Roma da esquerda mundial” (cito), não passaria de um lugar “divino” de “punhais escondidos” onde “se recolhia nos bastidores moedas de ouro”. E é apresentada como “o país mais avançado do mundo na ciência de manipular cérebros, com pouca ou nenhuma rentabilidade no trabalho, mas pleno emprego”. Será difícil encontrar maior reacionarismo e atentado á verdade! Quanto aos partidos comunistas eles seriam todos “iguais” com “métodos semelhantes que se reproduzem como porquinhos”… (fim de citação). Mas a perfídia maior da escrita atinge o PCF e o seu secretário geral Maurice Thorez, a quem se apontam “pequenas traições” e a morte de militantes.

O pico da deriva ideológica é a tese de que os soviéticos fizeram os estudantes africanos deixar de acreditar na religião para mais tarde o abandono de certezas ideológicas os fazerem retomar os deuses. Isto num idiota perspectiva de “acabar o curso primeiro e depois pensar segundo a sua própria cabeça”

Esta escrita de Pepetela lembra a escrita da Curva da estrada, de Ferreira de Castro, dela contudo divergindo radicalmente. Ferreira de Castro faz uma ode ao ideal da liberdade, com peripécias e contornos verosímeis, refletindo a realidade, valorizando ideais positivos, Pepetela faz um ajuste de contas ao (seu) passado, distorcendo a realidade em tons grosseiros e panfletários. A sua caracterização do apoio soviético aos movimentos de libertação nacional das colónias africanas torna-o lamentavelmente indigno do meu respeito: “criaram tremendas injustiças em todos os países onde tentaram espalhar a revolução” (cito). Os limites da ignomínia foram ultrapassados com esta infecção ideológica.

Com a construção da personagem do Júlio, o infeliz general reformado, Pepetela, o ativo general da palavra, vive as sombras de um percurso desencantado. As culpas e fracassos próprios dos quadros e dirigentes angolanos, como ele, são mais difíceis de reconhecer do que atribuir com rancor aos outros indiscutíveis influências negativas. As sombras próprias e as sombras alheias. Que descem sobre Pepetela e o transformam numa vacuidade ideológica.

CR


domingo, 2 de abril de 2017

pintura

A Bicicleta Deslizou Suavemente como se Nenhum Peso Levasse (Rogério Ribeiro)
Bocage (Rogério Ribeiro)

                                                   (Rogério Ribeiro)

The Jesus and Mary Chain - The Two Of Us (2017)

NA ENCRUZILHADA DA PAZ


 BRUNO CARVALHO

Cerca de 19 dias foi quanto tardaram os cerca de sete mil guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) a percorrer a pé, em veículos e embarcações os 8700 quilómetros que os separavam das 26 zonas de transição acordadas com o governo colombiano. Um formigueiro de mulheres e homens que abandonaram a selva profunda e desceram das montanhas para uma das mais difíceis batalhas da história da mais antiga e maior guerrilha da América Latina. Depois de 53 anos de conflito, as FARC estão decididas a entregar as armas e a construir ao lado da população uma Colômbia de paz e justiça social.

La Guajira, o inferno colombiano

A estrada que separa Valledupar de Fonseca, o município onde se encontra o acampamento das FARC de Pondores, é o espelho dos contrastes da região de La Guajira. Um dos passageiros que se atreve a entoar algumas das letras mais conhecidas de vallenato entre os solavancos da camioneta queixa-se do avançado estado de degradação do piso e não compreende para onde vai o dinheiro cobrado pelos portageiros numa das zonas mais pobres da Colômbia. Depois de sucessivos postos de controlo do exército, surge uma ciclovia e uma pista de jogging de intermináveis quilómetros num departamento nas mãos da corrupção. Nos últimos dez anos, nenhum governador chegou ao fim do mandato e três encontram-se presos por desvio de dinheiro e favorecimento.

Nesta região de profundas contradições, dados mais recentes indicam que mais de metade da população vive em pobreza extrema e um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) calcula em 4770 o número de crianças que morreram nos últimos oito anos devido à falta de comida e água. As populações mais próximas da fronteira com a Venezuela vivem sobretudo do contrabando que sendo abundante não chega para todos. É o inferno de uma região que para além do clima tórrido viveu durante anos o drama do conflito e onde persiste o desemprego, o roubo de gado, o elevado número de indígenas que dependem do Estado e o fraco retorno de recursos da extracção de carvão.

A paz sob ameaça

Foi neste barril de pólvora que se movimentaram durante anos os guerrilheiros das FARC que agora se concentram ao lado da aldeia de Conejo, município de Fonseca, e que pertencem à 59ª Frente Martin Caballero, integrada no Bloco Caribe. É aqui que estão concentrados num processo que a ser concluído, conforme os Acordos de Paz assinados em Havana com o governo, passará pela entrega faseada de armas à ONU, pela amnistia dos 4 mil presos políticos e pela criação de um partido que permita às FARC participar legalmente na vida política da Colômbia. 

Debaixo da folhagem e dos grossos troncos, levanta-se o acampamento de madeira entre camas e mesas de tábuas e paus como faziam nas encostas das montanhas da Serranía del Perijá. Jaime é um dos 300 habitantes desta cidade improvisada. Repetiu os passos de milhares de colombianos que para fugir à perseguição paramilitar se viram forçados a trocar a actividade política legal pela clandestinidade nas filas guerrilheiras. Hoje, tem 26 anos, e já passaram alguns anos desde que teve de abandonar a sua cidade e a militância estudantil. De kalashnikov ao ombro, o jovem guerrilheiro descreve a Sermos Galiza a dura travessia para aqui chegar: «Foram dias muito complicados e quando chegámos nada do que o governo havia prometido estava construído. Nada. Nem os dormitórios, nem o posto médico, nem as casas-de-banho, nem sequer a água canalizada». Então conta como os guerrilheiros se juntaram aos operários e decidiram «suar pela paz» sem estarem obrigados a isso e demonstrando o seu compromisso com o fim do conflito de mais de meio século. 

Durante semanas, os sucessivos atrasos na implementação dos acordos de paz foram alimentando a tensão e o temor de que este processo de paz tenha o mesmo fim de todos os anteriores. Jaime abre o tablet e mostra uma notícia com alguns dias em que o enviado-especial da ONU Jean Arnault pede ao governo de Juan Manuel Santos que recalendarize as três fases de entrega de armas. A poucos dias do primeiro prazo acordado, nenhum dos acampamentos tem sequer os contentores para que as FARC possam desactivar uma terceira parte do seu arsenal militar e entrega-lo à ONU como consta do que foi assinado em Havana pelas duas partes. 

À escuta, Yesid junta-se à conversa e informa-nos que centenas de presos das FARC acabam de decidir encetar uma greve de fome para pressionar o governo a aplicar a amnistia acordada e que já havia sido regulamentada no congresso dos deputados. Dias depois, a polícia colombiana detinha dois guerrilheiros que se dirigiam precisamente para este acampamento. 

O caminho para a paz gera expectativas na maioria dos combatentes que por vezes se atrevem a sonhar com o que gostariam de fazer. Para Yesid que gostava de estudar fotografia e vídeo representou uma tragédia. Na travessia para chegar até aqui muitos guerrilheiros adoeceram e a sua companheira acabou por falecer, um acontecimento denunciado pelas FARC na imprensa acusando o governo e a ONU de não assegurarem a assistência médica. Yesid mostra a fotografia de Damaris Lee e conta com raiva: «Teve de ser levada por guerrilheiros à margem dos protocolos para um hospital e acabou por morrer».

Apesar do cessar-fogo bilateral, a morte continuar a manchar de sangue as cidades e as aldeias da Colômbia. Desde que os grandes grupos económicos começaram a financiar o paramilitarismo, em colaboração com os sucessivos governos, que a barbárie se espalhou como um cancro e continua a ser a maior ameaça ao processo de paz. Agora que as FARC se concentram em zonas de transição, os grupos paramilitares invadiram as regiões de influência da guerrilha para impor o seu reinado de terror. Neste momento, segundo a ONU, a Colômbia é o segundo país com mais deslocados internos. Cerca de 5,3 milhões de mulheres e homens foram expulsos das suas terras pelo conflito armado.

Entre as filas guerrilheiras existe o receio de que a história se repita. Em 1985, quando as FARC encetaram um processo de paz com o governo de Belisario Betancur e criaram o partido União Patriótica, não imaginavam que numa década seriam assassinados cerca de cinco mil dos seus membros, dos quais dois candidatos presidenciais, oito congressistas, 13 deputados, 70 concelheiros e 11 presidentes de camara. A estes dados arrepiantes há que acrescentar a presença da Colômbia durante anos seguidos na frente da lista dos países em que mais sindicalistas e jornalistas são assassinados.

É assim que ‘Gabo’, de 22 anos, sustenta o contexto histórico em que o seu pai e muitos milhares entraram nas FARC nos anos 80 e 90. Posteriormente, foi a sua vez e a do seu irmão gémeo aos 12 anos quando não havia mais segurança do que na guerrilha. «Em Maio, em princípio, vamos fundar o nosso partido e esperamos que as razões que levaram tanta gente a empunhar armas deixem de existir», explica. E conta que a sua e a do seu irmão é a história de muitos combatentes e que não sabem da sua família há mais de dez anos. Ou seja, desde que entrou na organização. No dia a seguir a esta entrevista a Sermos Galiza, ‘Gabo’ com um sorriso do tamanho do mundo conta que a mãe apareceu no acampamento de surpresa com uma irmã que não sabia que tinha.

A rotina à espera da paz

A roupa exposta nos estendais ilustra o carácter político e desportivo dos seus donos. Che Guevara e Manuel Marulanda, fundador das FARC, dominam a estética guerrilheira. Jaime que chega do turno de guarda com a sua inseparável metralhadora e uma t-shirt de Hi Chi Minh assobiando A Internacional quer deixar claro que é comunista: «Luto por uma sociedade sem exploradores nem explorados e com ou sem armas esse é o objectivo de toda esta gente». 

De facto, os tempos da pólvora e da metralha estão apartados mas todas as madrugadas, às 4.50, estas mulheres e homens que lutam pela paz e pela justiça social são acordados por um guerrilheiro do turno de guarda percorre as tendas e as camas improvisadas dos seus camaradas imitando um pássaro como durante a guerra. Depois do asseio num enorme tanque onde também se lava a roupa, os combatentes fazem a formação e um comandante passa a revista às tropas. Às 5.30, chega a hora do café da manhã antes do momento dedicado ao estudo e às notícias do dia. 

A partir daí o acampamento é uma cidade viva de gente que realiza todo o tipo de tarefas. Entre os combatentes, o número de mulheres e indígenas é bastante elevado e não há qualquer distinção na atribuição de responsabilidades. À entrada do acampamento há uma comissão de recepção para que a população e as organizações sociais e políticas possam contactar os guerrilheiros. Diariamente chegam dezenas de pessoas para conhecer as propostas das FARC, para expressar as suas preocupações ou para denunciar algo. 


Enquanto os assassinatos de dirigentes sindicais, políticos e indígenas cresce assustadoramente às mãos dos grupos paramilitares, guerrilheiros como Jaime, Yesid e ‘Gabo’ entendem que a participação da população é essencial para a efectivação dos direitos consagrados nas negociações e que a luta social é determinante para que a paz não seja, uma vez mais, afogada em sangue.

[reportagem publicada no jornal Sermos Galiza]