um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ENQUADRAMENTO DA GUERRA (II) - LÍBIA


Conhecemos da Líbia actual as imagens dos afogados das praias, emigrantes / náufragos africanos e subsarianos na tentativa tantas vezes gorada de através do Mar Mediterrâneo atingir a Itália, a cerca da 300 Km. Conhecemos também as imagens bem encenadas da decapitação de “infiéis” pelo Estado Islâmico, nas mesmas praias. Sabemos do caos, dos poderes fragmentados e sem autoridade dispersos nesse país rico em petróleo.
Sabemos da intervenção militar britânica na Líbia, associada aos franceses, potenciando a sublevação contra o regime de Kadhafi de 2011. Sabemos do “entusiasmo” libertador protagonizado por Paulo Portas e pela intelectualidade francesa. Agora o relatório do Parlamento inglês esclarece responsabilidades: “o governo britânico (de David Cameron) não conseguiu verificar a ameaça real que o regime de Kadhafi representava para os civis”. Linguagem esotérica esta… mas compreensível quando se fala de “premissas erradas” e “análise parcial de provas”. Cameron não respondeu ao relatório. Questões de agenda…
Mas recuamos á crueldade nos tempos de Kadhafi. A revista suíça “Schweizmagazin" publicou agora um artigo intitulado "Kadhafi foi assim tão cruel?". Eis alguns dos "sofrimentos" que o tirano (segundo os media ocidentais), provocou durante 4 décadas:
- Não havia conta de luz na Líbia, porque a eletricidade era gratuita para todos.
-  Créditos bancários, dos bancos estatais, eram sem juros (para todos, por lei expressa).
- Casa própria era considerada direito humano, universal, e o governo fornecia uma casa ou apartamento para cada família.

-  Recém casados recebiam  50.000 dólares para comprar casa e iniciar a vida familiar.

- Educação e saúde eram gratuitas, da pré-escola à universidade. Antes de Kadhafi: 75% dos líbios eram analfabetos. Até o ano de 2010, este número passou para 17% .

- Jovens agricultores recebiam terra, casa, equipamentos, sementes e gado gratuitamente.

- Quem não encontrou formação ou tratamento desejados recebia financiamento para ir ao exterior, acrescidos de 2.300 dólares mensais para moradia e carro.

- Na compra de automóvel, o estado contribuía  com subvenção de 50%.

- O preço de gasolina era por litro: 0,10 €

- Faltando emprego após a formação profissional, o Estado pagava salário médio da classe até conseguir a vaga desejada.

- A Líbia não tinha dívida externa - as suas reservas eram de 150 mil milhões de dólares. Após a ocupação os valores foram retidos ou desviados pelos bancos estrangeiros, incluindo investimentos em bancos estrangeiros e as reservas em ouro.

- Parte de toda a venda de petróleo era diretamente creditada na conta de cada cidadão.

- Mãe que dava á luz recebia 5.000 dólares

-Cerca de 25 % da população líbia tinha curso superior.

- Foi construiu o projeto GMMR (O Grande Rio Artificial), transportando água dos lençóis subterrâneos do Rio Nilo para as cidades e agricultura, irrigando as principais cidades do país e parte do deserto.

Agora morto o homem e instalada a anarquia, a Líbia sofre um atraso de muitas décadas... com consequências terríveis para a sua população.

Mas os "desinteressados defensores dos direitos humanos", os governos dos EUA, da França e da Inglaterra vendem agora muito mais armas e estão a receber o petróleo e o gás natural da tal Líbia por mais algumas décadas.

E até a União europeia tem um programa para treinar a guarda costeira da líbia: remoção diária de cadáveres.

CR

Christy Moore - Viva la Quinta Brigada



Admirável canção e tributo aos Voluntários Irlandeses das Brigadas Internacionais que foram para Espanha para lutar com os trabalhadores espanhóis na tentativa de travar o fascismo na Guerra Civil Espanhola

Around the time I saw the light of morning
A comradeship of heroes was laid
From every corner of the world came sailing
The Fifty International Brigade.

They came to stand beside the Spanish people
To try and stem the rising fascist tide
Franco's allies were the powerful and wealthy
Frank Ryan's men came from the other side.

Even the olives were bleeding
As the battle for Madrid it thundered on
Truth and love against the force of evil
Brotherhood against the fascist clan.

Viva la Quinta Brigada,
No Pasaran, the pledge that made them fight
Adelante was the cry around the hillside
Let us all remember them tonight.

Bob Hilliard was a Church of Ireland pastor
Form Killarney across the Pyrenees he came
From Derry came a brave young Christian Brother
And side by side they fought and died in Spain.

Tommy Woods age seventeen died in Cordoba
With Na Fianna he learned to hold his gun
From Dublin to the Villa del Rio
He fought and died beneath the Spanish sun.

Many Irishmen heard the call of Franco
Joined Hitler and Mussolini too
Propaganda from the pulpit and newspapers
Helped O'Duffy to enlist his crew.

The call came from Maynooth, "support the facists"
The men of cloth had failed yet again
When the Bishops blessed the Blueshirts in Dun Laoghaire
As they sailed beneath the swastika to Spain.

This song is a tribute to Frank Ryan
Kit Conway and Dinny Coady too
Peter Daly, Charlie Regan and Hugh Bonar
Though many died I can but name a few.

Danny Boyle, Blaser-Brown and Charlie Donnelly
Liam Tumilson and Jim Straney from the Falls
Jack Nalty, Tommy Patton and Frank Conroy
Jim Foley, Tony Fox and Dick O'Neill.

informação minimalista

361
milhões de euros. São os lucros da Galp nos primeiros nove meses de 2016.

domingo, 30 de outubro de 2016

texto

A CULPA SÓ PODE SER DA CALDEIRA…

Todas as turmas de uma Escola EB 2,3 de um concelho importante do Vale do Sousa estão sem aulas de Educação Física desde o início do ano lectivo - ou melhor, tem aulas “teóricas”. E porquê? Por causa de uma caldeira avariada no balneário. Ao que consta, o orçamento para reparar ou substituir a caldeira é de 5.000 euros. Que a direcção da Escola diz não ter. Que a entidade que supervisiona os equipamentos escolares, a DGEstE Norte, diz, á direcção da Escola, não ter neste momento e vai reavaliar em janeiro. A Câmara do concelho onde está implantada a Escola diz não ter responsabilidades em reparar ou substituir a caldeira. Que estava a funcionar no final do ano lectivo anterior. Que deixou de funcionar no início do ano lectivo actual. Que foi utilizada por clubes, associações desportivas ou grupos nesse intervalo de tempo. Que entretanto por excesso de utilização ou velhice deixou de funcionar.

Clubes, associações desportivas ou grupos, numa utilização extra-escolar, certamente ao abrigo de um protocolo de utilização firmado com alguém. Com a Escola? Com a DGEstE? Com a Câmara? Com contrapartidas? Despesas de desgaste de equipamentos? Sem nada?

A Escola vai iniciar obras globais em Janeiro. Obras essas que se prolongarão e que na sua programação e concretização das prioridades não atingirão com celeridade a substituição ou reparação da caldeira. Que assim se supõe ser possível em junho, final do ano lectivo. Ou depois. Até lá, aulas “teóricas”. Rica promoção do desenvolvimento psicomotor, das capacidades físicas, da criação da noção de equipa, integração em grupo e objectivo comum, da prevenção da obesidade infantil e juvenil! 

A denúncia partiu de pais. Que não se satisfazem, ao contrário de alguns, com aulas “teóricas” de Educação Física. Que julgam que os seus filhos merecem mais do que viver e aprender condicionados a uma caldeira avariada á espera de melhores dias. Que já não acham justo outros alunos do mesmo ano de outra escola, esta Secundária, situada a cem metros, tenham acesso a piscina municipal e eles não. Como outros de outras escolas da cidade. Com base num protocolo com a Câmara. Um protocolo “discriminativo”. Que não entendem. No mesmo concelho haver alunos de 1ª e alunos de 2ª categoria, os pais querem deveres e direitos iguais para os seus filhos.

Uma Câmara Municipal não pode deixar de assumir papel interventivo no sucesso educativo dos seus cidadãos. Quer este decorra de uma caldeira avariada, um sistema de transportes escolares ineficaz, uma inexistente organização de actividades em férias escolares, da ausência de assistentes operacionais, do consumo de drogas ilícitas á porta das escolas, da insuficiência da Educação de Adultos, do Ensino Técnico – Profissional, da Educação Especial. Digo mais, deve ser promotor em primeira linha da articulação com responsáveis directos, mas muito exigente em nome do interesse da população que serve. E nunca lavar as mãos como Pilatos.  Há até estruturas próprias de envolvimento da população, dos profissionais, das direcções das escolas, dos autarcas, como Conselhos Municipais de Educação. Se não é para tratar problemas concretos, para que serve? Feira de vaidades?

E em democracia somos todos iguais nos direitos de cidadania, na saúde, no ensino, na justiça. Os serviços públicos, e neles incluo as Câmaras Municipais, servem todos de igual forma, ricos e pobres, licenciados e menos qualificados.

Uma qualquer DGEstE terá que ter um fundo de maneio para atender situações de emergência ou ruptura, com intervenções imediatas, soluções expeditas. A educação dos nossos filhos não pode estar sujeito á tramitação burocrática, aos apetites mais ou menos circunstanciais de alguém atrás de uma secretária de mogno.

Darei conta no futuro do futuro da caldeira avariada. Esperemos que seja só ela a dar sinais de incapacidade.


CR

Reggie Watts - Radiohead - HUMOR /PARÓDIA



Uma paródia divertida e inteligente aos GRANDES Radiohead

ENQUADRAMENTO DA GUERRA (I) - MOSSUL


Decorre desde 17 de Outubro a fase final da batalha por Mossul, 2.ª cidade do Iraque, com 1,3 milhões de habitantes. A cidade está tomada desde 2014 pela organização terrorista Estado Islâmico, que fez dela sua capital no Iraque. Forças do exército iraquiano, milícias xiitas iraquianas e forças curdas, apoiadas por uma coligação que inclui os Estados Unidos da América, prepararam a ofensiva. Mas Mossul foi cercada deliberadamente para que os terroristas possam fugir para oeste, para a fronteira da Síria. Isso resultou da estratégia dos Estados Unidos da América e do seu aliado turco.

Ao contrário do que seria lógico se se pretendesse matar a serpente jihadista no ovo, com um cerco total e a morte ou prisão da estrutura criminosa que inclui muitos milhares de mercenários de todo o mundo, assiste-se a mais um jogo superperigoso, com a transferência e reforço da ameaça politica e militar dos cruéis radicais para a Síria, nomeadamente para Raqqa, a capital do Estado Islâmico na Síria. Há relatos por parte de forças iraquianas da participação da força aérea americana na retirada dos principais dirigentes do Estado Islâmico de Mossul. Fica-se com a impressão de que Washington não combate verdadeiramente o Estado Islâmico, sua criação, antes o desloca como já fez em Falluja, no Iraque.

Após a aventura desastrosa de tentar mudar o regime Baath na Síria e no Iraque, com milhões de mortos e deslocados, assiste-se a uma tentativa de mudança das actuais fronteiras por parte de países limítrofes como a Turquia, e de potências europeias como a França. A Turquia por exemplo ameaça não permitir que forças curdas tomem bastiões do EI a oeste de Mossul, como em Tel Afar. Que pretende Ancara? Durante 2 anos de ocupação desta cidade iraquiana, de predominância turcomena, a Turquia nada fez, tal como em Kobani. Limitou-se a gerir o desespero e a mão de obra infantil barata dos desalojados em industrias locais. Agora é o “vem aí os curdos…” e a invasão do norte da Síria. O Estado Islâmico é o amigo que geoestrategicamente se abandona.

São inúmeras as tentativas de divisão de povos, comunidades, promovidas pelas potências ocidentais. É o dividir para reinar. Umas vezes são promovidos os interesses dos yazidis, outras vezes são os curdos, outros são os cristãos, ou os turcomanos, ou os árabes ou os drusos, ou os sunitas. Mas sempre o que predomina, aquilo que a maioria da comunidade internacional mais promove, e os media do sistema reproduzem não são os interesses dos povos, são os interesses da Guerra e de Israel.  


CR

poema


PASIONARIA
Morrerei como o pássaro: a cantar,
Penetrado de plumas e firmeza,
Sobre o perene clarão das coisas.
Cantando, a cova terá de me aceitar,
a alma deitada, voltada a cabeça
para as formosuras mais formosas.
Uma mulher que é uma estepe única
habitada de aço e criaturas,
sobe de espuma e atravessa de onda
esta comarca só de formosuras.
Dá vontade de beijar os pés e o sorriso
a esta ferida espanhola,
a expressão desse rosto de nação enlutada,
e aquela terra que de súbito pisa
como se contivesse a terra na pegada.
O fogo a incendeia e a alimenta:
labareda que apaixona e cresce, libertada
ao voar da amendoeira florida do seu vulto.
A seus pés, arde a cinza mais gelada.
Vasca de generosos fundamentos:
azinho, pedra, vida e erva nobre,
nasceste para dar a direcção aos ventos,
nasceste para ser esposa de algum roble.
Somente os montes te podem suster,
gravada estás em tronco sensitivo,
esculpida no sol forte dos vinhedos.
O mineiro descobre para te ouvir e ver
As surdas galerias do mineral cativo
E, pela terra, as leva a teus dedos.
Teus dedos e unhas fulgem como carvões,
ameaçando fogo até aos astros
porque em metade da palavra pões
um sangue que deixa fósforo em seus rastros.
Clamam teus braços que até fazem espuma
ao chocar contra o vento:
transbordam de ti o peito e as artérias
porque tanta maldade se consuma,
porque tanto tormento,
porque tantas misérias.
Os ferreiros te cantam ao som da ferraria,
Pasionaria escreve o pastor no seu cajado
e o pescador com beijos desenha-te nas velas.
Escuro o meio-dia,
a mulher redimida e exaltada,
naufragadas e feridas as gazelas
reconhecem-se sob o fulgor que envia
tua voz candente, manancial de estrelas.
Queimando com o fogo da cal mais abrasada,
Falando com a boca dos poços minerais,
mulher, Espanha, mãe em infinito,
és capaz de produzir clarões astrais,
és capaz de arder de um único grito.
Perdem maldade e sombra tigres e carcereiros.
Por tua voz fala a Espanha das vastas cordilheiras,
a dos braços pobres e explorados,
crescem os heróis cheios de palmeiras
e morrem a saudar-te pilotos e soldados.
Ao ouvir-te bater como coberta
de meridianos, bigornas e cigarras,
o varão espanhol sai à sua porta
e sofre percorrendo planícies de guitarras.
A arder ficarás em chama erguida
sobre o arco nebuloso do olvido,
sobre o tempo que teme ultrapassar tua vida
e toca como um cego, numa ponte
de cenho envelhecido,
um violino queixoso e impotente.
Tua força cinzelada brilhará eternamente,
Fogosamente cheia de esplendores,
E quem pela cadeia foi mordido
Em teus cabelos terminará suas dores.

Miguel Hernandez

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

importante texto

Sobre o Cristianismo Revolucionário
Intervenção lida no debate “O PCP, os Católicos e a Igreja”, org. Partido Comunista Português. Biblioteca de Penacova, 7 Fev. 2015.

Todos os que militais
debaixo desta bandeira
não durmais já, não durmais,
pois que não há paz na terra. (1)

Estas parecem ser palavras de um poeta que resolveu desenvolver o tema da bandeira comunista a partir do potente poema de Ary dos Santos. Mas não são. São versos de um poema de Teresa de Ávila escrito no século XVI.
Cada religião tem a sua história. As religiões não caem do céu. São construções históricas com raízes sociais e culturais, determinadas por complexos de relações económicas (e, portanto, de poder). O cristianismo foi perseguido pelo Império Romano até à publicação do Édito de Milão, no ano 313, durante o reinado do primeiro imperador cristão, Constantino I. Este decreto estabeleceu a neutralidade do poder imperial em relação ao credo religioso, terminando com as perseguições sancionadas oficialmente, especialmente à comunidade cristã. Até esse momento, os cristãos reuniam-se nas casas, nas catacumbas, escondidos. Nos Actos dos Apóstolos, escrito por volta do ano 80, lemos algo que evoca aquilo que o pensamento marxista designa de comunismo primitivo: “Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um.” (2,44-45).
“Igreja” vem da palavra grega ekklesia, que significa assembleia. Esta comunidade de homens e mulheres livres para si e à procura da libertação efectiva ganhou, mais tarde, uma máscara institucional, calcificada. Tal não aconteceu por acaso. Foi uma forma da Igreja se assumir como poder, sendo integrada no poder dominante existente. Isso tornou-se notório em particular quando — ironia das ironias, explicada pela correlação das forças sociais naquela época — o cristianismo se tornou religião oficial do Império Romano no final do século IV, pela mão do imperador Teodósio I. A partir daí, todas as outras religiões foram proibidas. Séculos depois, através de processos e instituições como o Tribunal do Santo Ofício, vulgarmente chamado de Inquisição, a perseguição que se tinha abatido sobre os primeiros cristãos passou de fora para dentro da Igreja.
Em simultâneo, na generalidade, as celebrações litúrgicas foram-se tornando funções da co-existência de classes com interesses antagónicos, sem discurso crítico que enfrentasse essa contradição no terreno religioso. A liturgia da palavra e a liturgia eucarística cumpriam assim o papel de uma normalização social, conseguindo o prodígio de celebrar a igualdade ao mesmo tempo que sancionavam a desigualdade. Só que o lugar de um cristão numa sociedade injusta é na cruz, ou seja, é a falar e a agir assumindo o risco de ser incompreendido, acossado, agredido, e assassinado como Cristo foi. A insurreição contra a sujeição, a supremacia, e a desigualdade vigentes de diversas formas na sociedade esclavagista (na qual emergiu o cristianismo), no feudalismo, e finalmente no capitalismo, permaneceu entre alguns cristãos ao longo de todo este processo histórico — por isso, aqui estou e aqui estamos. Fico-me por alguns exemplos da Ordem dos Pregadores, mais conhecida como Ordem Dominicana.
Frei António de Montesinos, como voz da comunidade dominicana instalada na ilha Espanhola, actual ilha de São Domingos, disse um sermão a 21 de Dezembro de 1511 que enfureceu os colonizadores do Império Espanhol que o ouviram. Insurgia-se ele contra “a crueldade e tirania” que via sem poder ignorar. E perguntava: “Dizei: com que direito e com que justiça tendes este índios em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam nas suas terras [...]? [...] Estes não são homens?” (2). Repreendidos os frades, os representantes da coroa requereram um sermão rectificador. Foi pior a emenda que o soneto. O frade voltou à carga ainda com mais veemência. O rei Fernando II de Aragão ordenou que frei António e os seus confrades fossem expulsos do território. Foi o início de uma longa luta pelos direitos dos nativos das terras conquistadas.
Frei Bartolomeu de las Casas assistiu a tudo isto e narrou-o. Escreveu dois importantes tratados em defesa dos índios e dos negros contra a escravidão que lhes foi imposta pelas forças colonialistas e imperalistas, Brevíssima Relação da Destruição das Índias e Brevíssima Relação da Destruição de África (3). Como diz Fidel Castro numa das suas conversas com frei Betto: “A verdade mais objetiva que encontraram nos países conquistados pelas nações mais avançadas foi a perda de sua liberdade, o abuso, a exploração, as cadeias e, por vezes, inclusive o extermínio. É preciso assinalar que já naquele tempo houve sacerdotes que reagiram contra aqueles crimes inauditos, como por exemplo o padre Bartolomeu de las Casas.” (4) Sobre frei Bartolomeu, Fidel acrescenta o seguinte em tom de elogio: “A Ordem pode se sentir orgulhosa dele, foi um dos exemplos mais honrados, pois denunciou e se opôs aos horrores que se seguiram à conquista” (5).
Já depois do feudalismo, em pleno capitalismo, frei Betto, frei Tito, e outros frades de São Paulo, foram presos durante a ditadura militar no Brasil (1964-85) e sujeitos a longos interrogatórios e alguns a terríveis torturas. Tinham colaborado com um dos principais resistentes ao regime, o comunista Carlos Marighella, fundador do grupo de guerrilha Acção Libertadora Nacional (ALN). Numa carta de Janeiro de 1971 dirigida a um companheiro, frei Tito escreveu: “Para mim foi motivo de grande satisfação ter convivido com você durante 12 meses no presídio Tiradentes. Sob o signo deste herói que, infelizmente, virou nome de cárcere, reuniremos os grandes ideais que o futuro do povo brasileiro tanto anseia: a construção do socialismo. E só os verdadeiros homens é que foram chamados para este grande ideal. Contra isso, nada vence; nem tortura e nem perseguições.” (6)
Uma análise científica sobre a função das instituições religiosas ao longo da história da humanidade conduz à conclusão de que a religião tem sido usada por quem oprime e explora para legitimar esse estado de coisas, esse statu quo. Esta legitimação tem como base nomeadamente a invenção de uma autoridade que está acima de todos, arrogando-se o poder de falar em nome dos deuses. Por essa razão, o frade dominicano Yves Congar provocou escândalo, um escândalo necessário, quando afirmou que “[o] Papa não está acima da Igreja, o Papa está dentro da Igreja” (7). O marxismo, por estar interessado na realidade, não pode ter uma visão idealista da religião, isto é, não pode considerar que a religião é independente das condições históricas. A religião é também um campo de batalha, de ideias é certo, mas também de práticas. Lembro, por exemplo, que Joseph Ratzinger, quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, antes de ser eleito papa, acusou a teologia da libertação e a sua defesa de uma prática pela real libertação humana de ortopraxis, uma espécie de reverso da ortodoxia. A teologia da libertação, herdeira de frei António e frei Bartolomeu, atacada mas resistente à eliminação, suportada pela análise marxista no modo como desvenda a exploração capitalista, tem chamado a atenção para o facto de que a teologia se produz em determinadas conjunturas. Por esse motivo, a teologia tem tendência para se alinhar com a ideologia da classe dominadora e dominante. Como Engels admite, “o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma” (8). Esta linhagem revolucionária que Engels identifica não se evaporou.
Nesse sentido, vale a pena voltarmos a um discurso lido por Álvaro Cunhal a 26 de Setembro de 1975 no Porto. Estávamos em plena campanha violenta contra o PCP. Multiplicavam-se os ataques a Centros de Trabalho do Partido. A facção mais reaccionária da Igreja, à qual pertenciam figuras como o cónego Melo e forças terroristas como o MDLP (responsável, aliás, pelo assassinato do progressista padre Max), mobilizava e instigava muitos crentes contra os comunistas. Apesar destes factores, Álvaro Cunhal não perdeu a clareza de leitura da situação, reiterando, em primeiro lugar, a posição do PCP de defesa intransigente da liberdade religiosa e transmitindo, em segundo lugar, uma forte imagem de unidade: “Na luta do povo, nas fábricas, nos campos, nos quartéis, não se pergunta quem é e quem não é católico”, todos lutavam “ombro a ombro” (9). Mas entre uma coisa e outra, é introduzida a ideia de que a “intolerância” e o “desrespeito pela consciência” dessas forças as situavam longe de Cristo: “Para quem alguma vez tenha lido os Evangelhos está perfeitamente claro que não são certamente os caciques locais fascistas e reaccionários, os salteadores e incendiários e os seus inspiradores, que mais próximos estão das palavras e dos actos de Cristo. Entre as aspirações sociais dos Evangelhos na sua época e as aspirações sociais dos comunistas nos dias de hoje há uma proximidade incomparavelmente maior do que entre as aspirações de Cristo e as ideias objectivas dos reaccionários, mesmo que sejam elementos do clero.” (10) Esta passagem está em linha o que eu tenho vindo a dizer. É conhecido o aforismo do bispo brasileiro Hélder Câmara, chamado por alguns de Arcebispo Vermelho: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” Um cristão deve ser radical, na acepção elaborada por Karl Marx, não podendo abdicar de ir à raiz das coisas, à causa dos problemas. Ao reflectirmos sobre uma afirmação tão comum hoje em dia como a de que “não há dinheiro”, a nossa tarefa deve ser percebermos porquê, ou melhor, compreendermos quem se está a apoderar da riqueza que todos nós, trabalhadores, produzimos.
Ninguém nasce cristão como ninguém nasce comunista. Vamos fazendo sentido da nossa vida com opções que nos comprometem. É neste caminho que podemos falar em nós, força unida com objectivos comuns de transformação do mundo, todo animado por diferentes perspectivas e contributos, incluindo neste sujeito todas as pessoas que desejem ser nele incluídas. Nós somos aqueles que não dormem, como diz Teresa de Ávila, porque ainda não há paz — e também porque temos como verdadeiro que sem justiça a paz nunca triunfará. Não é de estranhar que a palavra “esperança” seja das que mais nos une, não só no combate à resignação, mas também no acto de dar outra destinação às nossas vidas — como gosta de dizer José Barata-Moura —, que está, digamos assim, à mão de semear. Termino, esperançoso, precisamente com palavras dele: “A esperança não é uma consolação de bem-aventurança sonhada e prometida em termos de maior ou menor proximidade e imanência. Só ganha sentido, de uma forma não mistificadora, quando unida à força material que um projecto social de transformação encarna, em virtude das próprias condições históricas em que se desenvolve.” (11)

Sérgio Dias Branco

Notas
(1) Teresa de Ávila, OCD, Seta de Fogo, trad. José Bento, 2.ª ed. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2011), p. 109.
(2) António de Montesinos, OP, Bartolomeu de las Casas, OP, e Francisco de Vitória, OP, E Estes Não Serão Homens?: Os Dominicanos e a Evangelização das Américas, trad. Catarina Silva Nunes (Coimbra: Edições Tenacitas, 2014), p. 19.
(3) Bartolomeu de las Casas, OP, Brevíssima Relação da Destruição das Índias, trad. Júlio Henriques (Lisboa: Edições Antígona, 1990) e Brevíssima Relação da Destruição de África, trad. Henriques (Lisboa: Edições Antígona, 1996).
(4) Frei Betto, OP e Fidel Castro, Fidel e a Religião: Conversas com Frei Betto [1985] (Lisboa: Caminho, 1986), p. 192.
(5) Ibid.
(6) Apud. Betto, OP, Batismo de Sangue: Os Dominicanos e a Morte de Carlos Marighella [1982], 9.ª ed. (Rio de Janeiro: Editora Bertrand, 1987), p. 202, http://www.dhnet.org.br/verdade/res....
(7) Apud. Jean Coronel, OP, Acuso a Igreja [1996], trad. José A. Pereira Neto (Lisboa: Editorial Notícias, 2003), p. 40.
(8) Friederich Engels, Contribuição para a História do Cristianismo Primitivo [1895], par. 1, https://www.marxists.org/portugues/....
(9) Álvaro Cunhal, “Discurso no Comício do PCP / Palácio de Cristal, Porto, 26 de Setembro de 1975”, in Obras Escolhidas Tomo V (1974-1975), coord. Francisco Melo (Lisboa: Edições “Avante!”, 2014), p. 675.
(10) Ibid., p. 674.

(11) José Barata-Moura, Estética da Canção Política (Lisboa: Livros Horizonte, 1977), p. 19.

"Ao contrário do CDS e do BE, o PCP defende aquilo que é justo e não aqu...



"Em tempos de demagogia e populismo é mais difícil defender a democracia e o papel dos partidos na democracia do que aproveitar a boleia do discurso anti-democrático contra os partidos. Aquilo que antes CDS e BE defendiam e não questionavam hoje já não vale nada porque defendem exactamente o contrário em nome de uma nova cavalgada oportunista anti-partidos, de que se alimentam, aliás, por essa Europa fora os movimentos de extrema-direita, de cariz fascista, que atacam os partidos para atacar a própria democracia e a possibilidade de ela se aprofundar. Se não estranha que o CDS queira acompanhar esse discurso da extrema-direita, não deixa de ser preocupante que também o BE o faça."

João Oliveira

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

The Waterboys - Old England

FRAGMENTO DA HISTÓRIA


46º Aniversário da ação da ARA contra o navio Cunene!

Em 1970, complementando a luta de massas, é criada a ARA (Ação Revolucionária Armada).

Em 26 de Outubro de 1970, quatro meses após a constituição e instalação do seu Comando Central, a ARA levou a cabo a sua primeira ação.

O alvo foi o navio Cunene que se preparava para partir para o teatro da guerra colonial, carregado de material militar e logístico.

O navio Cunene não foi afundado, nem era esse o objetivo que se propunha alcançar, mas para além do grande impacte político desta ação que constituiu então uma autêntica novidade e inovação na luta contra a guerra colonial, a sua missão militar foi bastante retardada uma vez que ficou imobilizado no porto de Lisboa durante bastantes dias para receber as necessárias reparações dos estragos sofridos.

Esta operação foi antecedida de um trabalho de reconhecimento bastante intenso e algo demorado, dados os modestos recursos de que se dispunha.

Na busca de meios de execução, como por exemplo o barco para transporte de homens e materiais até junto do objetivo, gastaram-se muitas horas, no decorrer de vários dias, em diligências e deslocações ao longo do Rio Tejo.

Desde as docas onde existiam barcos de recreio, na vasta zona que vai dos Olivais à Cruz Quebrada, até às diversas praias onde existiam pequenos barcos de pesca artesanal, tudo foi passado a pente fino.

Ao fim e ao cabo, ponderadas várias hipóteses, acabou por se selecionar a zona dos Olivais-Poço do Bispo, onde parecia fácil a captura de um barco para o objetivo em vista.

Para executar esta operação, que exigia um certo conhecimento dos meandros do rio Tejo, do movimento das suas marés, assim como o domínio da arte de remar e também da arte de furtar..., existia um camarada com as condições exigidas que, já havia tempo, se propusera participar numa operação deste género, o camarada Gabriel Pedro, velho militante comunista que havia estado deportado no campo de concentração do Tarrafal durante vários anos e se encontrava então exilado em França.

Vindo a Portugal por via clandestina, após uma breve estadia numa casa de apoio que lhe foi destinada, no dia combinado e após um reconhecimento prévio do local, Gabriel Pedro, com o à-vontade que lhe era característico, entrou na doca do Poço do Bispo e como bom conhecedor da matéria, depois de passar em revista todo o material existente nesse momento na doca, apoderou-se de um bote adequado à tarefa.

Conduziu de imediato o barco para o local onde se ergueu a Expo-98, que era então uma zona abandonada e muito degradada, estando já ali os restantes membros do comando responsável por essa operação, que incluía o camarada Carlos Coutinho, responsável pela execução desta ação, juntamente com Gabriel Pedro.

Embarcado tudo o necessário, incluindo equipamento de pesca para cobertura da operação, os dois camaradas remaram durante várias horas, porque tiveram de furtar-se a uma inesperada aproximação da lancha da Polícia Marítima.

Navegaram em sentido oposto ao planeado, seguindo percursos não iluminados, viraram para o meio do rio e daí, com a conveniente escuridão, mas com uma corrente tão adversa como a aragem gelada com que não contavam, rumaram finalmente para o objetivo, fintando mais algumas vezes a lancha da Polícia Marítima antes de atingirem o Cais da Rocha do Conde de Óbidos onde se encontrava atracado o navio Cunene.

Aqui, depois das necessárias manobras de reconhecimento do local, do grau de vigilância existente, das condições de execução e de retirada, colocaram no casco do navio, meio metro abaixo da superfície da água, as duas potentes cargas de fixação magnética, reguladas precisamente para explodirem simultaneamente às 4,00 horas da madrugada.

A retirada foi outra manobra difícil pois o comando desconhecia em absoluto o percurso que tinha de fazer para alcançar terra firme.

Depois de lançarem os remos à água e abandonarem o bote, os camaradas tiveram de passar pelo emaranhado dos barcos ali atracados, saltando de um para o outro, até alcançarem a muralha do cais, no lado oeste. Numa das embarcações, quase pisaram os tripulantes que dormiam com um cão no convés. O animal ladrou e um dos tripulantes acordou meio incomodado, resmungando: «Mais cuidado, ó amigo!» Gabriel Pedro respondeu: «Descanse bem, amigo, que a noite vai alta. A gente vai fazer o mesmo, com a missão cumprida.»

Felizmente que tudo correu bem, como foi relatado pelo Carlos Coutinho, cerca das três da manhã, no encontro que havíamos marcado para a Rua Barata Salgueiro.

De facto, nessa madrugada, duas potentes explosões quase simultâneas abalavam meia Lisboa e eram ouvidas com grande estranheza na Margem Sul, fazendo algumas pessoas sair da cama e vir à janela.

Tinha começado uma nova forma de luta contra o fascismo e contra a guerra colonial.

De O Século, de 27-10-1970, respigamos parte da notícia então publicada sobre o acontecimento:

«DUAS EXPLOSÕES A BORDO DO NAVIO "CUNENE"»

Nem toda a Lisboa deu por isso, mas houve na verdade milhares de pessoas que foram acordadas com dois enormes estrondos, que sacudiram alguns prédios da área de Alcântara. A primeira explosão deu-se ainda não eram cinco horas; a segunda, poucos minutos depois, mais forte aquela do que esta. As autoridades foram alertadas e logo se soube do que se tratava. As explosões deram-se no costado do navio «Cunene», da «Sociedade Geral», atracado na muralha norte da doca de Alcântara.

[...] Naturalmente os poucos homens da tripulação ficaram alarmados, mas logo recuperaram o ânimo e procuraram esgotar a água que começou a entrar, pondo a funcionar as bombas de bordo.

O rombo produzido no costado do navio, pelo lado de fora, não era demasiado grande, mas tinha o diâmetro bastante para, se não acudissem a tempo, permitir abundante entrada de água pondo, assim, o barco em perigo.

[...] Foi ordenado um inquérito rigoroso para se apurarem as causas do estranho acontecimento.

O "Cunene" foi construído na Polónia e desloca 16 mil toneladas.»

(Do IV capítulo do livro de Jaime Serra, “As explosões que abalaram o fascismo”, Edições «Avante!», Lisboa, Março/99 e publicado em «O Militante» Nº 240- Maio / Junho – 1999)

 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Para uma melhor compreensão do problema sírio*

Está em curso uma gigantesca campanha de manipulação mediática em torno das operações de reconquista da cidade de Alepo pelo exército sírio. Entretanto, para quem queira ver o que está detrás da gritaria sobre “crimes de guerra”, “hecatombe” e o resto, a questão nada tem de “humanitária”. Do que se trata é, simplesmente, de preparar a opinião pública para uma intervenção ocidental em defesa dos fanáticos terroristas da Al-Nusra, agora transformados em “rebeldes moderados”.

O que está em causa em Alepo é uma parte da cidade, a zona Leste, não a cidade no seu todo, 1 milhão e duzentos mil habitantes na zona governada pelo regime sírio para cerca de 250 mil controlados pelos “rebeldes”. Essa parte é controlada por milícias em que a força dominante e predominante é a AL-NUSRA, agora autodesignada Fateh el Sham, pertencente à Al-Qaeda até há dias. A das Torres Gémeas! Designa-se Frente para a Reconquista da Síria…
É o jihadismo mais fanático, cujo financiamento deve ter os seus canais assegurados pelos regimes feudais da Arábia e do Golfo (de que “ninguém” das agências ousa beliscar quanto a direitos humanos e não se ouve personalizar um “ditador” feudal sequer dos que por lá regem o poder; é o poder financeiro de alto calibre e portanto intocável!). Todos vemos que muitos dos jihadistas vieram de países da Europa e de outras paragens para derrubar o presidente sírio e implantar um “estado Islâmico” na Síria, talvez segundo o modelo saudita, quem sabe. Esses mesmos convertidos e fanáticos que atravessaram a Europa passaram pela Turquia e alinharam com os rebeldes autóctones no combate ao regime sírio. Alguém acredita que são pessoas que podem fazer na Síria uma democracia? E é legítima essa invasão de jihadistas para o “regime change” das potências ocidentais, que já gerou tantas desgraças e misérias no Iraque, na Líbia, no Afeganistão, etc. E à luz do direito internacional é legítima a interferência dos países ocidentais num país que não os agrediu? Os rebeldes são armados por quem? E combatem para quê? A guerra civil desencadeada serviu para algo mais do que para destruir e matar? Balanço? O governo sírio deveria poupar os “rebeldes” “moderados” de armas na mão e os terroristas de mãos nas armas? Para se deixar derrotar?
Para o caos, a somalização? Vejam o programa “Going Underground” de 15 de Outubro, na Russian Television, pois pode-se ouvir o último embaixador britânico na Síria para se aperceber do que por lá vai. A guerra de fora, financiada, alimentada, promovida numa aliança tácita do fanatismo jihadista e do intervencionismo ocidental, é um desastre que desgraçou o povo sírio e transtornou a Europa. Para quê? Quanto aos rebeldes implantados em Alepo Leste pensem nesta ideia muito clara: Não serão eles que têm a população refém?
Não foi o representante da ONU para a Síria, S. Mistura, que disse que os mil “rebeldes” têm cativa a população na cidade; e que lhes assegurava a retirada de Alepo para deixarem em paz a população? Será que o governo sírio está impedido de ganhar a guerra por imposição da coligação ocidental/Arábia Saudita? Porquê? Para implantar um não-regime do tipo da Líbia? Ou um regime do tipo Qatar? Ou da Arábia Saudita? Diz-me com quem andas… Será possível que sejam recomendáveis rebeldes que estão aliados ou do mesmo lado contra o regime sírio com o DAESH e a AL-Qaeda? E, nesse caso, qual a consistência da apregoada luta contra o terrorismo pelas potências ocidentais? Sem perspectiva histórica, numa manipulação noticiosa casuística, a verdade é engolida e o leitor fica à nora, ou, pior, é enganado. Os rebeldes não se poderão render? Se são moderados, não deveriam libertar a população civil?
Uma guerra não pode acabar? Ou esperam a intervenção da NATO para os fazer ganhar a contenda? A Síria é um país com um governo que está representado na ONU. É aceitável que se feche militarmente o espaço aéreo de um país soberano por diktat do Conselho de Segurança, como se fez na Líbia? E o brilhante resultado da intervenção da NATO nesse país não deve ser reflectido? O que pretendeu o representante da França no Conselho de Segurança? Rememorar o seu colonialismo argelino e a sua mortífera guerra colonial, ou o seu protectorado da Síria na época colonial? Os rebeldes entrincheirados em Alepo Leste não fazem de civis os seus escudos? Quantas vítimas inocentes na invasão do Iraque, na ocupação do Afeganistão, nos bombardeamentos da Líbia, nos ataques aéreos ao Iémen pela coligação saudita? Crimes de guerra? Pergunte aos “Médecins Sans Frontiéres” em Kandahar e no Iémen. As acusações ao exército sírio e às forças russas de “crimes de guerra” são pura propaganda no contexto que se sabe. Não foi a intervenção russa há pouco mais de um ano que tornou óbvia a prevalência do ISIS na luta contra Assad? Quem reconquistou Palmira e porque é que os órgãos ocidentais abafaram o significado dessa vitória contra o terrorismo? Num sentido humano geral a guerra é sempre crime. Do risco para a humanidade resultante do reacender da guerra fria, haja sangue frio para apurar quem atiça o fogo. Numa atitude imparcial, está à vista quem.

*Este texto foi publicado como Editorial do Novo Jornal, de Angola, em 21.10.2016

OS COSTUMES DO ESTADO NOVO

Em 1953 a Câmara Municipal de Lisboa publicou a portaria número 69035, destinada a aumentar o policiamento em zonas então consideradas “quentes”.


«Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins e, em especial, nas zonas florestais Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guarda Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes. Assim, e em aditamento àquela Postura nº 69035, estabelece-se e determina-se que o artº 48º tenha o cumprimento seguinte:

1º Mão na mão……………………2$50
2º Mão naquilo…………………15$00
3ºAquilo na mão………………30$00
4º Aquilo naquilo………………50$00
5º Aquilo atrás daquilo………100$00

Parágrafo único

Com a língua naquilo, 150$00 de multa, preso e fotografado.»




O MERCADO E OS SEUS BENEFICIÁRIOS

 A resposta das telefónicas á lei contra a fidelização abusiva foi elucidativa. Aumentaram o custo de adesão ao pacote de telecomunicações de 150 para 410 euros. Num exercício impar de hegemonia e cartelização, as telefónicas revelaram a sua verdadeira dimensão social e o seu desprezo pelo poder político democrático. As regras da economia de mercado aplicáveis pelas telefónicas são as que lhes permitem uma liberdade absoluta de impor preços, tornear leis e direitos, e impedir concorrência.
Esta é, queiram ou não queiram muitos, a face visível da luta de classes.  Lembro, talvez a despropósito, campanhas anteriores contra actividade sindical dos professores, quando se marcavam períodos de greve a uma sexta-feira. Choviam raios e coriscos contra esta estratégia, considerada uma chico-espertice. Os mesmos que sobre isto se indignavam não deviam perder a oportunidade de perante os sábios administradores das telefónicas expressarem uma forte condenação. Mas julgo INFELIZMENTE que muitos se acobardarão. Afinal a gatunice é sempre tolerada por eles.
CR

domingo, 23 de outubro de 2016

A PROSTITUIÇÃO, UMA "PROFISSÃO"? Curta metragem de Frédérique Pollet-Rouyer

JOAN MIRÓ - PORTO






INFORMAÇÃO MINIMALISTA

40%
PCP quer reduzir em 40% subvenção pública dos partidos, assim como reduzir dinheiros para campanhas e tecto das despesas eleitorais.

REFLEXÃO DE UM PORTUGUÊS SOBRE HORÁRIO DE TRABALHO

Os alemães trabalham em média cerca de 1393 horas anuais. Os espanhóis trabalham em média cerca de 1691 horas anuais, o que dá cerca de 1 hora e meia a mais por dia do que os alemães. Os portugueses trabalham em média cerca de 1840 horas anuais, o que dá cerca de 2 horas a mais por dia do que os alemães. Os gregos trabalham cerca de 2032 horas anuais … o que é uma enormidade.

Avaliemos a produtividade de trabalho por hora de trabalho, média do português em relação ao alemão. O alemão em média produz duas vezes mais por hora do que o português (produtividade de trabalho por hora de trabalho 68,8 para 126,9). Para os gregos é 68,2 e para os espanhóis é 99,8.

Conclui-se portanto que para obter a mesma produção dos alemães ou trabalharíamos o dobro dos alemães (2600 horas anuais), o que seria impossível ou temos de aumentar a produtividade de trabalho por hora de trabalho.

Mas dizem os especialistas de estudos de gestão que ao fim de um período de trabalho de seis horas, as capacidades de exercício profissional começam a reduzir-se drasticamente. Não por acaso certamente, as reuniões de trabalho de grandes empresas, onde se tomam as grandes decisões, se efectuam nas primeiras horas da jornada laboral. Assim a redução do horário de trabalho aparece como solução com o necessário aumento da produtividade do trabalho.

O actual excesso de trabalho induzido por períodos de trabalho longos leva á exaustão física e psicológica, á ausência de períodos de repouso, á ausência na família, á ausência de auto-aprendizagem e desenvolvimento pessoal. E conduz, com resultados contraditórios ao desejado, á diminuição da intensidade do trabalho. 

Penso nos profissionais de saúde. Períodos prolongados e exigentes de trabalho, por vezes em turnos sucessivos, sem intervalos de repouso, com penosas deslocações incluídas, conduzem a comportamentos inadequados, a erros e a insatisfações.

Mas isto é só uma reflexão de fim de semana de um não-economista ou gestor.


CR

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

INFORMAÇÃO MINIMALISTA

561
Governo vai meter mais 561 milhões de euros no BPN

BALANÇO MUSICAL DO BLOG

Letra H

Half Man Half Biscuit – Rock And Roll Is Full Of Bad Wools

Haydee Milanes - Libelula

Herbie Hancock - Blue Note

Hermitage - Glass

Heroes Del Silencio – Entre dos Tierras

Hilmar Örn Hilmarsson & Sigur Rós- Colours

HK & Les Saltimbanks – On Lâche Rien

Homens da Luta – A Luta É Alegria

Hookworms – Away/Towards (em 2013)

Hot Chip – Flutes (em 2013)


Letra I

I Break Horses – Winter Beats (em 2013)

Imagine Dragons – On Top Of The World

Inti-Illimani - Alturas

Ivan Lins- A Noite
                 Começar De Novo

                 Novo Tempo