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quarta-feira, 30 de março de 2016

O militar russo que “reconquistou” Palmira. E morreu — o nome e o rosto


O rosto do herói, segundo o site militar Военный Советник.

militar das forças especiais russas andava há uma semana no terreno, a enviar coordenadas para a Força Aérea. Ao longo de vários dias, o especialista foi-se aproximando de Palmira, a cidade histórica que há mais de um ano estava sob controlo do auto-proclamado Estado Islâmico. Cada conjunto de coordenadas que o militar enviava, pela sua precisão, era um dado precioso para a investida que o exército sírio e a Força Aérea russa estavam a preparar. Mas o militar aproximou-se demais e foi detectado pelas forças do Daesh. Vendo-se cercado, o militar decidiu chamar o fogo dos aviões russos para a sua localização. Com a sua morte começou a reconquista de Palmyra.

nome do militar russo, um especialista em reconhecimento de terreno que pertencia às forças especiais, não foi divulgado oficialmente. Mas nas últimas horas surgiu um nome em alguns fóruns militares. Um nome e um rosto: Aleksandr Prochorenko, de 25 anos.

A sua morte foi, na terça-feira, confirmada e descrita por um porta-voz das forças russas na base de Hmeymim, citado pela Sputnik News.

Enquanto obtinha coordenadas das instalações dos terroristas do Daesh e as transmitia à Força Aérea, com o objectivo de lançar um raide perto de Palmira, um oficial das forças especiais russas encontrou a morte. Ao longo de uma semana, levou a cabo a sua missão militar de enviar coordenadas exactas da localização dos terroristas, de modo a permitir aos aviões russos o lançamento de ataques cirúrgicos.

Segundo o Ministério da Defesa sírio, os aviões russos terão atingido quase centena e meia de locais, com grande precisão, o que foi decisivo para que as forças do exército sírio conseguissem, no terreno, combater os membros do Daesh – forçando a sua retirada.

“Após combates nocturnos violentos, o exército controla totalmente a cidade de Palmira, incluindo a parte antiga e a parte residencial. Eles [osjihadistas] retiraram-se”, disse uma fonte militar no domingo, citada pela Agence France Presse (AFP). O ataque tinha começado na quinta-feira, presumivelmente no momento em que o militar russo chamou os aviões russos para avançarem com os bombardeamentos – a começar pela sua própria localização.


O militar morreu heroicamente quando atraiu o fogo inimigo, quando foi localizado e se viu cercado”, afirmou o porta-voz da base de Hmeymim, com forte presença russa.

terça-feira, 29 de março de 2016

finalmente


O vice-chanceler alemão, presidente do SPD alemão e Ministro da Economia Sigmar Gabriel, instigou a Arábia Saudita a deixar de apoiar os radicais no meio de crescente preocupação com o financiamento de terroristas por parte do país árabe. O tempo de olhar para o outro lado passou. Os centros wahabíes e as madrassas são financiados em todo o mundo pela Arábia Saudita, disse Sigmar Gabriel e acrescentou que grande parte dos extremistas que a Alemanha considera como uma ameaça provem dessas comunidades. 

Não sendo esta a política oficial do governo da senhora Merckel não deixa de ser significativo. 

Cr

domingo, 27 de março de 2016

The National - Morning Dew

A LAMA CAI EM TODO O LADO NO BRASIL

O Brasil atravessa um período de grande instabilidade, fruto de circunstâncias diversas que em conjunto apontam para um alto risco de caos politico. Há no país da América Latina reais problemas e profundas contradições. Historicamente o País de Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso foi pasto de muita corrupção, um sistema que gera e realimenta a corrupção, qualquer que seja o partido no poder.

Um juiz vaidoso e sem juízo, da 13ª Vara Federal em Curitiba, pretendeu provocar a nível nacional um levantamento popular, a 16 de março, através da desestabilização e politização criminosa de uma multidão de despolitizados. Soltaram-se na rua todos os radicalismos, todos os impropérios, todos os piores instintos, incluindo os apelos a uma ditadura militar. O confronto de consequências imprevisíveis pareceu inevitável. Mas o pior não aconteceu.

Algo mais do que a base social de Lula e do PT foi para a rua. Gritou-se Não ao Golpe! E recordaram-se os 54.501.118 votos que conduziram á eleição presidencial de Dilma, o respeito pelo voto popular.

A oposição brasileira nunca se conformou, primeiro com a eleição de Lula da Silva, um operário metalúrgico, e depois com a eleição de Dilma Roussef, uma ex-resistente á ditadura militar e mulher. E num quadro de recessão económica, de aumento do custo de vida e de desemprego, a oposição brasileira, com base em sectores retrógrados e antidemocráticos, articulou uma campanha com a participação e instrumentalização de sectores do poder judicial, da grande mídia (Rede Globo e revista Veja) e de sectores populares críticos da corrupção e do enriquecimento ilícito. A Operação Lava Jacto trilhava caminhos esconsos, de José Dirceu e a Petrobrás, para um ajuste de contas com o PT e a História. O “martírio” de Dilma (e de Lula) seria o “sucesso “ da Lava Jacto.

Mas cedo se percebeu que o que estava desenhado era um golpe de Estado constitucional, baseado em práticas de investigação ilegais, em truques constitucionais. A criminalização de actos de gestão foi a novidade. Sempre em pano de fundo a ingerência escondida dos EUA para a criação de condições para a reversão de conquistas populares dos últimos 13 anos.

Sabe-se agora que largas dezenas de políticos e muitos partidos receberam dinheiros da Odebrecht, a maior empresa construtora do mundo. Alguns serão financiamentos legítimos de acordo com a lei e outros, a maioria, são verbas ilegítimas para a corrupção de decisores políticos. Na base da corrupção investigada pela justiça, está uma lista de senadores e deputados, o quartel – general do processo de impugnação contra a corrupção do governo PT. O juiz vaidoso e sem juízo decretou sigilo sobre essa informação, alegando a “presunção de inocência” e a “prematura conclusão contra a natureza desses pagamentos”. Significativamente ou não, Lula da Silva e Dilma Roussef não fazem parte da lista. A Rede Globo, esse esgoto informativo a céu aberto, não publica a lista, alegando falta de tempo para analisar um tão vasto número de suspeitos. Os lacraus nos corredores do Poder, sejam do PMDB ou do PSDB, queriam se inocentar com a demissão de Dilma.

Franjas da Justiça brasileira (alguns sectores mais politizados á direita) participam indecorosamente em manifestações pró-impugnação. Organizam em Lisboa com a conivência de sectores universitários portugueses um seminário para concertar estratégias e recolher apoios. Os “mininos” e as “mininas” da JSD de Coimbra pretendem retirar o título Honoris Causa a Lula da Silva, concedido pela Universidade de Coimbra, num gesto de cachorrice. Mas o tempo da lama para todos não vai vencer.

 Cristiano Ribeiro

sexta-feira, 25 de março de 2016

hipocrisia

O Presidente Francês François Hollande condecorou no dia 6 de março com a Legião de Honra o príncipe herdeiro da Arábia Saudita Mohammed ben Nayef Al Saoud, vice-presidente do Conselho de Ministros e Ministro do Interior. A mais alta distinção francesa para estrangeiros foi (cito) “pelos esforços desenvolvidos em nome da luta contra o extremismo e o terrorismo”.

A confirmação de um avantajado contrato de fornecimento de armamento avaliado em 3 milhões de dólares entre a França e a Arábia Saudita mereceu bem uma recompensa ao representante da mais sórdida ditadura feudal, baseada nos lucros do petróleo. 

a cuspidela da serpente

O cardeal de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, foi atacado nesta quinta (24), na Catedral da Sé, por uma mulher que acusou ele e a CNBB de serem comunistas infiltrados na Igreja Católica; aos gritos, ela dizia: "Você e a CNBB são comunistas infiltrados; não podem fazer isso com a minha Igreja". Ela avançou sobre o cardeal e arrancou sua mitra, derrubando-o ao chão e ferindo-o no rosto.


uma extraordinária noticia



O Exército Árabe Sírio, com seus aliados, reconquistou á barbárie a antiga cidade de Palmyra.

humor


Rolling Stones em Cuba, 25 de março de 2016

quarta-feira, 23 de março de 2016

IMBECILIDADE

Vasily Gritsak é o chefe dos Serviços de Segurança Ucranianos. No decorrer de uma palestra a estudantes da Universidade de Kiev, descobriu que por detrás dos acontecimentos terroristas de Bruxelas estaria a mão de ....Moscovo. O governo russo apressou-se a designá-lo e justamente de IMBECIL.

De facto, a histeria anti-russa dos governantes fascistas de Kiev  é tanta que não lhes coloca qualquer limite á vergonha e ao bom senso. 

Infelizmente são os governos ocidentais que os sustentam mais as suas parvoíces. Não há qualquer respeito pelas vítimas dos atentados, quando se procede a tão infeliz manobra de manipulação. Os autores das bombas  circulam ou circularam pelos corredores de Ancara e de Riade. E, alguns, na Ucrânia são equipados. 

CR

JANTAR DE ANIVERSÁRIO DO PCP EM PAREDES






Dia 19 de março, em Baltar (Paredes), casa cheia com 95 pessoas, presença da Deputada e membro da DORP do PCP, Ana  Virgínia. 

NÃO HÁ PACHORRA PARA TANTA DISCRIMINAÇÃO

O CAMARADA ANGELO ALVES, RESPONSÁVEL PELA SECÇÃO INTERNACIONAL DO PCP NO FACEBOOK.
SOBRE O COLINHO DADO AO BE E Á UNICA DEPUTADA DO BE NO PARLAMENTO EUROPEU, MARISA MATIAS, NA COMUNICAÇÃO SOCIAL DOMINANTE

Gostaria de informar que:
1 - O João Ferreira está a vir para Portugal. Deslocou-se para Paris e virá de Avião para Portugal. Isto porque tem tarefas inadiáveis em Lisboa. Apesar de se encontrar em parte incerta entre Bruxelas e Paris... atende telefones e continua a trabalhar lá com o Ipad dele (dele não... do parlamento) como um louco, e como sempre. smile emoticon
2 - O Miguel Viegas está em Lisboa a participar numa iniciativa do PCP sobre a Banca com uma intervenção sobre União Bancária. Fontes próximas do Deputado wink emoticon informam que assim que houver voos para Bruxelas ele pira-se pra lá.
3 - O João Pimenta Lopes estará agora no trânsito de Bruxelas depois de ter passado o dia no Parlamento a trabalhar. Teve que sair mais cedo porque as creches fecharam um pouco mais cedo e teve que ir buscar os filhos. Fonte de Bruxelas informa que ele cometeu essa loucura de se deslocar de carro!
4 - A restante "equipa" (nós temos essa estranha mania de lhe chamar colectivo) em que todos se apoiam a todos, esteve, e ainda lá estão, no Parlamento a Trabalhar. Irão a pé ou então de autocarro, não consegui confirmar toda a informação. Têm "mantimentos" básicos lá nos gabinetes... Café, Chá e Bolachas.
5 - Que conste nao creio que nenhum tenha ido às compras hoje. Como é terça feira ainda devem ter "mantimentos" suficientes até amanhã, porque geralmente aproveitam o fim de semana para ir às compras.
6 - O pessoal do PCP quando se reune em casa um dos outros geralmente é para fazer uns bons jantares, com boa comida portuguesa. Embora haja um problema. É que as casas deles lá não são muito grandes, são até pequeninas, e como são três deputados e mais todo o restante colectivo, as vezes fica um bocado apertado.
Pronto... E Agora senhores da Lusa e afins façam favor de fazer também uma parangona com esta informação altamente relevante que acabo de divulgar em primeira mão....
Não há Pachorra!!!!!!

A eurodeputada Marisa Matias conseguiu comprar alguns mantimentos, antes de as lojas em Bruxelas encerrarem, após os atentados de hoje, que provocaram pelo menos 26 mortos, e reunir a equipa do Bloco de Esquerda em sua casa.

segunda-feira, 21 de março de 2016

a guerra ideológica

Raúl Castro desafia jornalista a dizer o nome de algum preso político em Cuba

A conferência conjunta dos Presidentes de Cuba e dos Estados Unidos ficou marcada pelo desafio de Raúl Castro a um jornalista. Em resposta a uma pergunta sobre presos políticos, o Presidente cubano desafiou o repórter a dizer o nome de algum destes presos que ele seria libertado ainda hoje.

a resposta ao fascismo

O cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda retirou, neste domingo, a autorização para que o ator Cláudio Botelho continuasse a apresentar um musical feito a partir de suas canções; na noite de ontem, em Belo Horizonte, Botelho atacou a presidente Dilma Rousseff no meio da peça e foi interrompido pela plateia, que passou a gritar "não vai ter golpe"; em seguida, Botelho disse que "um ator não pode ser peitado por um negro"; antes, nas redes sociais, Botelho já havia pregado a morte dos parlamentares Lindbergh Farias (PT-RJ) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ); como os direitos autorais são de Chico, o musical terminou ontem em Belo Horizonte

domingo, 20 de março de 2016

só mudaram as moscas...

O correspondente da RTP no Brasil foi durante anos João Pacheco de Miranda, tristemente conhecido pelo alinhamento ideológico com a direita brasileira. Agora foi substituido por Luis Baila, recem convertido á informação generalista, depois de muitos anos no desporto.

Os sinais de independência e profissionalismo jornalístico por parte do correspondente actual não são encorajadores. As manifestações da última sexta feira pró-governo legítimo de Dilma foram classificadas como tendo "alguns milhares de pessoas". A imagem era péssima, a reportagem não identificava os lideres das manifestação, faltando os tradicionais factores de "crispação e ódio" que adornam as reportagens das manifestações da direita.

O conteúdo do processo politico de impeachment nunca foi revelado, e muito menos os documentos que alicerçam a defesa das teses de Lula e Dilma.  A RTP toma a defesa de uma das partes, como se fosse parte interessada  num processo global de luta contra a corrupção. No Brasil e no resto do Mundo. Hipócritas...

CR

sexta-feira, 18 de março de 2016

humor


Rede Globo = SIC= TVI= RTP

O Brasil no rescaldo das manifestações de 13 de março

      
por Ana Saldanha

"Chamemos ou não à política posta em prática pelos governos PT de neodesenvolvimentismo, o facto é que se verificou um poder absoluto dos trusts e das corporações monopolistas, dos bancos e da oligarquia financeira. O modo de produção capitalista e suas consequentes relações sociais, a par do travão à contestação que os governos do PT conseguiram alcançar, prosseguiu a largos passos. Lula havia servido o grande capital transnacionalizado, e Dilma prosseguira o empenho lulista".

No domingo, dia 13 de março, não foi o Brasil que saiu à rua. Foram camadas da população e estratos sociais endinheirados, foi a burguesia, acompanhada também por sectores desfavorecidos da população, é certo, trabalhadores, é certo, os quais, no entanto, não eram representativos da maioria daqueles que trocaram o footing de domingo, na Paulista ou em Copacabana, por uma passeata que nos remete para tempos obscurantistas recentes, ainda frescos na memória deste continente. 

No domingo, dia 13 de março, os arredores da Av. Paulista regurgitavam camisas amarelas e verdes, chapéus verdes e amarelos, calças e calções de marca, cabelos tingidos de amarelo (são as patrícias, na cultura brasileira, ou as tias, na cultura portuguesa), ténis Nike, Adidas ou Puma. E botox, silicone, seios desmesurados, risos plastificados, e tanta, tanta ignorância concentrada nos mais de 2 km de extensão daquela avenida. 

Subir pela Avenida Angélica, em direcção à Avenida Paulista, atravessando Santa Cecília, é o mesmo que subir na hierarquia social paulista. Iniciando a caminhada no início da Avenida Angélica, quanto mais avançamos na íngreme escalada, quanto mais nos acercamos daquela Avenida maior, maior é também o preço do metro quadrado. 
Se o PIB do Brasil fosse medido em silicone, o indicador principal de medição da produção económica, no interior de um país, teria a sua concentração máxima, no caso brasileiro, nas avenidas de Copacabana, no Rio de Janeiro, e na Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo, dia 13 de março.

Corpos estereotipados, caras violentamente agredidas por plásticas, seios e bundas desmesurados, cada bochecha preenchida de botox corresponde ao salário mínimo mensal brasileiro - ganho por praticamente metade da população. Com efeito, 44.8% dos 60.8 milhões de agregados familiares com rendimento declarado vivem, apenas, com um salário mínimo (dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, 2014). Assim sendo, mais de 44% dos lares brasileiros vive com metade do custo de um par de bochechas ou de nádegas, que no domingo passeava pelas principais avenidas das grandes cidades brasileiras. Imagine-se, desta forma, a concentração de capital verificada nos pares de bochechas, de seios e de bundas que naquele dia se juntaram. Isto sem falar dos ténis, das calças e das camisas. 

Se o sistema monetário parteiro do FMI, o sistema de Bretton Woods (fruto do acordo homónimo assinado em 1944, extinto de facto em 1971 quando Nixon recusa a convertibilidade dos dólares em ouro) voltasse a entrar em vigor, não tendo, contudo, como referente o ouro, mas o silicone, o Banco Central do Brasil teria de construir muralhas na zona oeste de São Paulo e na zona sul do Rio de Janeiro para proteger as suas sempre crescentes reservas. 

PT: da ascensão à queda 

O Partido dos Trabalhadores (PT) e José Inácio Lula da Silva haviam sido o motor da esperança num Brasil depauperado, num Brasil com fome, num Brasil cuja taxa de desemprego, em 2002, ascendia a 12%, num Brasil cuja dívida pública duplicou no governo de Fernando Henriques Cardoso, num Brasil onde grassava a corrupção, a violência e a miséria. Neste quadro, Lula e o PT surgiram como a esperança anunciada de um Brasil novo. 

A esperança, no entanto, seria um logro. O Brasil novo esperançosamente esperado pela maioria explorada, nunca chegaria. 

Certo: o programa Bolsa Família chega a 45,8 milhões de brasileiros (ou seja, um em cada quatro brasileiros é beneficiário do programa instituído pelo governo de Lula, em 2003), enquanto o coeficiente de Gini, que em 2003 era de 0,59, passou, em 2012, para 0,519 [1] (apesar dos avanços, o índice de Gini do Brasil é um dos piores do mundo. Entre os 127 países analisados, em 2012, o Brasil encontrava-se na 120ª posição). Se em 2004, os 10% mais ricos concentravam 45,3% da renda, e os 10% mais pobres se contentavam com 0.9%, em 2012, os 10% mais ricos controlavam 41,9% da renda nacional e os 10% mais pobres possuíam 1,1% da renda nacional (dados do IBGE, 2013). A diferença é pequena, mas representa uma ligeira melhoria da distribuição da renda. Tudo isto é certo. E merece ser dito, louvado e não esquecido.

Mas também é certo que a esta política de redistribuição esteve subjacente uma perspectiva ideológica de conciliação de classes, que permitiu travar as manifestações de descontentamento das camadas mais empobrecidas da população, num momento muito particular da vida latino-americana.

Num contexto socio-histórico e económico da América latina marcado pela vitória de Hugo Chavez, nas eleições presidenciais de 2002, pela vitória de Evo Morales, nas eleições presidenciais de 2005, pela vitória de Rafael Correa, nas eleições presidenciais de 2007, quando forças progressistas avançavam no plano eleitoral e alcançavam, no quadro da democracia burguesa, vitórias eleitorais históricas, quando um ciclo de alta dos preços internacionais das commodities e do barril de petróleo se iniciava (em dezembro de 2002 o preço do barril de petróleo bruto era de 27,89 dólares e em junho de 2008 atingia os 132,55 dólares) – ou seja, num momento em que o capitalismo permitia o crescimento dos índices económicos dos países latino-americanos –, a burguesia brasileira decide fazer um pacto com o Partido dos Trabalhadores. 

A política de uma melhor redistribuição da riqueza e de alguns avanços no plano social seria, contudo, concomitante com uma política de aprofundamento do capitalismo. 

PT, Lula e capitalismo 

A essa política redistribuidora, na qual o Estado se assume como o promotor da economia, alguns economistas e cientistas sociais – tendo como ponto de partida as teorias cepalinas (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, CEPAL) dos anos 60 e uma perspetiva neokeynesiana – designam de neodesenvolvimentista.

À política posta em prática pelos governos de Lula e de Dilma não correspondeu, no entanto, o anunciado fim do neoliberalismo (conceito que, na realidade, corresponde ao aprofundamento do capitalismo monopolista de Estado) no Brasil. Chamemos ou não à política posta em prática pelos governos PT de neodesenvolvimentismo, o facto é que se verificou um poder absoluto dos trusts e das corporações monopolistas, dos bancos e da oligarquia financeira. O modo de produção capitalista e suas consequentes relações sociais, a par do travão à contestação que os governos do PT conseguiram alcançar, prosseguiu a largos passos. Lula havia servido o grande capital transnacionalizado, e Dilma prosseguira o empenho lulista. Como nos diz Maria Orlanda Pinassi ((Neo)desenvolvimentismo ou luta de classes?, 2013):

Segundo consta, o Estado procuraria, então [no neodesenvolvimentismo], recompor sua função (de "alívio") social – através da criação de empregos (quase sempre precários e temporários), políticas de recuperação do salário mínimo e redistribuição de renda (Bolsas Família, Escola, Desemprego etc.) –, enquanto a economia se renacionalizaria por meio de financiamentos do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social] à reindustrialização pautada na substituição de importações. Argumentos fortemente questionáveis visto que as empresas públicas privatizadas hoje são fortemente controladas por capitais externos (vide Vale), numa lógica em que a economia transnacionalizada do sistema reconduz o Brasil ao papel produtor de bens primários para exportação. 

(…) O capital, em processo de crise generalizada, tem pouco a lamentar e muito a comemorar por aqui: veja-se a estratosférica lucratividade bancária e o enorme crescimento da indústria da construção civil. Mais impressionante ainda é o desempenho da mineração, do agronegócio, do sector energético e dos números que apontam para o grande aumento de áreas agricultáveis, de florestas, de rios e outras tantas de protecção ambiental, invadidas e destruídas por pasto, monocultivo de cana, de soja, de celulose, de laranja, por extracção mineral, por barragens. 

No entanto, hoje, à grande burguesia detentora dos meios de produção, ao grande capital nacional em associação com o grande capital estrangeiro, o governo do PT já não é necessário. A grande burguesia, depois de 14 anos de governo PT, logrou alcançar uma vitória ideológica, apenas possível após a passagem do PT pelas altas esferas das instituições burguesas: a ideia de que a política posta em prática pelo PT é uma política progressista, até mesmo socialista. O que é falso. Redondamente falso. 

O PT pôs em prática uma política ao serviço dos grandes grupos económicos brasileiros (os quais se encontram associados ao capital estrangeiro), entregou sectores da economia brasileira ao capital externo (concessão de mais de 2,5 mil km de rodovias ao grupo espanhol OHL, privatização do Banco do Estado do Pará, privatização do Banco do Estado do Maranhão, privatização da hidroelétrica de Santo Antônio, privatização da hidroelétrica Jirau – consórcio Suez Energy South América (50,1%), Camargo Corrêa (9,9%), Eletrosul (20%) e Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (20%) –, entrega de alguns campos da bacia de petróleo do pré-sal, continuação das concessões para exploração da transmissão de energia, venda de participações minoritárias em empresas que tinham sido privatizadas), enquanto impulsionou a expansão do agronegócio e fez do Brasil um dos maiores produtores e exportadores do planeta (em 2013, este setor foi responsável por 41,28% das exportações brasileiras) [2] . Segundo dados do IBGE para 2012, o contingente de 1% dos brasileiros mais ricos ganhava quase cem vezes mais do que o contingente dos 10% mais pobres. 

O PT, aplicando uma política ao serviço dos grandes grupos económicos, não apenas traiu a sua base social e eleitoral, mas demonstrou ser um partido com o qual a classe dominante brasileira poderá sempre contar, contra os interesses da classe operária, contra os interesses dos trabalhadores. Um partido corrupto e corruptível, que demonstrou que o exercício do poder numa democracia burguesa não apenas confirma que "o partido dominante de uma democracia burguesa só garante a protecção da minoria" (V.I. Lénine, A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky), como que a própria democracia burguesa, apesar de representar um progresso histórico relativamente aos modos de produção precedentes, "continua a ser sempre (…) estreita, amputada, falsa, hipócrita, paraíso para os ricos, uma armadilha e um engano para os explorados, para os pobres" (V. I. Lénine, A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky). 
O PT não foi, nem será nunca, o partido dos trabalhadores. A sua acção sempre se pautará pela defesa da minoria exploradora, pelo aprofundamento do capitalismo, pela defesa das instituições que garantem o exercício de poder por essa mesma minoria, afastando "as massas da administração, da liberdade de reunião e de imprensa, etc" (V. I. Lénine, A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky), tentando escamotear o facto de que, na realidade, "mil barreiras fecham às massas trabalhadoras a participação no parlamento burguês (que nunca resolve as questões mais importantes na democracia burguesa: estas são resolvidas pela Bolsa e pelos bancos)" (V. I. Lénine, A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky). Sem nunca se posicionar ideologicamente do ponto de vista das classes oprimidas, o PT, através da corrupção, da mentira, do engano, tentou sempre fazer crer às massas exploradas que a ordem capitalista, e as desigualdades que lhe são inerentes, são uma inevitabilidade histórica. 
Lutar pelo Trabalho, contra o Capital 

A classe operária, as diferentes camadas de trabalhadores, os estratos mais empobrecidos da população têm razões para sair à rua.
No quadro actual da luta entre Trabalho e Capital, a maioria explorada deve abrir caminho para lutas maiores e obrigar o capital a retroceder: combater o plano de privatizações impulsionado por Fernando Henrique Cardoso e prosseguido por Lula e por Dilma, exigir a prometida e traída Reforma Agrária, lutar contra a precariedade laboral, contra o trabalho escravo que subsiste em muitos sectores, pela dignidade no trabalho, por condições de habitação dignas, pela reposição dos cortes nos programas sociais, contra a promiscuidade entre o Estado e os interesses económicos de uma minoria, por uma educação e por um serviço de saúde públicos, universais e de qualidade, contra a exclusão e marginalização social de camadas da população pertencentes à maioria explorada, contra os megaprojectos do agronegócio e da agro-indústria, contra a entrega da Natureza à iniciativa privada, pela salvaguarda do direito à terra dos povos ameríndios, contra o assassinato e a perseguição a líderes e militantes de movimentos sociais e políticos.

Estas não são, no entanto, as bandeiras de luta da burguesia e seus acólitos endinheirados que no domingo saíram à rua. 
No atual contexto de retrocesso civilizacional e ideológico na América Latina, em que a correlação de forças parece ser mais favorável ao Capital, num quadro da luta de classes em que as forças mais reaccionárias, guiadas pelas grandes burguesias nacionais associadas ao capital estrangeiro, buscam impor-se sem travões nem amarras, destruindo as conquistas alcançadas pelo Trabalho nos últimos 15 anos no continente, a classe dominante brasileira, apoiada pelas suas congéneres exteriores, não precisa do PT.

A burguesia brasileira já não precisa da política de conciliação classista impulsionada pelo governo Lula. Já não precisa de travar o movimento popular emancipatório e de reivindicação do início do milénio. Já conseguiu expandir a falsa ideia de que a política do PT é uma política progressista. Sabe que a correlação de forças lhe é, neste momento, favorável, manipulando a seu favor as instituições do Estado por ela criadas, e para ela criadas.

Lula, o ex-presidente que se havia tornado o palestrante mais caro do Brasil, cobrando cachets que variavam entre os 200 mil reais e os 790 mil reais, que deu palestras para multinacionais como a LG, a Telefônica, a Microsoft, a Acapulco, a Associação dos Bancos do México, o Bank of América Merril Lynch, este Lula e o seu governo criaram, como afirma o Partido Comunista Brasileiro (PCB), na sua nota política de 6 de março de 2016 , "o terreno pantanoso em que agora se afunda[m]". 

Abandonado pela classe dominante que havia servido, Lula volta-se, hoje, de novo, para a base social e eleitoral que o levara ao poder em outubro de 2002. Essa mesma base social e eleitoral que, no terreno da luta de classes, se viu traída e defraudada por aquele Presidente que, antes de ser o palestrante mais caro do Brasil, havia sido o sindicalista torneiro mecânico que afirmava, caso um dia fosse eleito Presidente da República, que iria "provar que você pode tranquilamente botar corrupto na cadeia. (…) O grande rouba sem-vergonha e, esse, nós precisamos de colocar na cadeia"

Ao assumir, hoje, dia 16 de março, a Casa Civil (ministério mais importante no Brasil, correspondendo ao de Primeiro-Ministro, em outros regimes parlamentares burgueses), as investigações de corrupção que, atualmente, sobre ele pesam, deixam de estar sob a alçada do juiz de Primeira Instância e passam a estar sob a jurisdição do Supremo Tribunal Federal (STF). Esta nomeação ministerial vem confirmar a corruptibilidade e perversão ideológica de Lula, descredibilizando-o, descredibilizando o PT, demonstrando o quanto a corrupção constitui um comportamento intrinsecamente ligado ao exercício do poder, num Estado ao serviço de uma minoria exploradora. Esta nomeação demonstra, ainda, quer o facto de nem Lula, nem o PT serem passíveis de defender os interesses da maioria explorada (que, hipocritamente, e por razões de sobrevivência, dizem proteger), quer o facto de o PT (assim como Lula e Dilma) terem sido um mero instrumento do capital, num período preciso da história brasileira. 

Outros serventuários do capital sucederão aos eleitos petistas, sob os aplausos do imperialismo norte-americano, provavelmente ainda mais retrógrados e dóceis ao capital; este facto, contudo, não anula nem as responsabilidades do PT, nem as responsabilidades de Lula e de Dilma no processo de aprofundamento do capitalismo e de suas consequentes desigualdades gritantes.

A luta de classes agudiza-se. Mas no terreno concreto desta Luta, a maioria daqueles que, no domingo, dia 13 de março, saíram à rua, defende acerrimamente a classe dominante do actual modo de produção. Lula, antes por aquela acarinhado, hoje é por ela espezinhado. 

Uma coisa é certa: Lula não está na luta pelo pão, pelo trabalho, pela dignidade da classe operária e de todos os trabalhadores, aquela mesma que, desde 2002, Lula tem continuamente atraiçoado. 
18/Março/2016

[1] O coeficiente de Gini é um parâmetro internacional usado para medir a desigualdade de distribuição de renda entre os países. Varia entre 0 e 1, sendo que mais próximo estiver do zero, menor é a desigualdade de renda num país. 

[2] Como exemplo do aprofundamento do capitalismo e da deferência perante o capital estrangeiro, observem-se os números do Banco Central do Brasil, referentes ao primeiro mandato do presidente Lula (2003-2006). Com efeito, por cada dez reais investidos por empresas multinacionais no Brasil, seis reais foram enviados para as suas matrizes no exterior. Os bancos foram, aliás, em 2006, as entidades que mais enviaram recursos brasileiros para fora do Brasil. 




A CUSPIDELA DA SERPENTE



Pedro Sousa Carvalho é director-adjunto do Jornal Público. Publicou um artigo de opinião com  o insólito título "Um orçamento amigo dos cães e dos gatos". Mas no seu interior o enigmático criador -director atribui á Esquerda essa designação. Mais do que cobardia e desonestidade intelectual, esta criancice mediática ilustra o pensamento do sr. Pedro.


a serpente anda com cio (ou com CIA...)

CR

a actual situação politica no Brasil


Face a solicitações de diversos órgãos de comunicação social relativamente aos recentes acontecimentos no Brasil, o PCP sublinha que:
Os recentes desenvolvimentos no Brasil não podem ser desligados do aprofundamento da crise do capitalismo que marca a situação internacional e que tem actualmente profundas consequências nos chamados países emergentes.
Tentando tirar partido de reais problemas e de profundas contradições na sociedade brasileira, os seus sectores mais retrógrados e anti-democráticos promovem uma intensa operação de desestabilização e de cariz golpista procurando alcançar o que não conseguiram nas últimas eleições presidenciais – a acção montada contra Lula da Silva insere-se neste processo mais geral de desestabilização.
O que sobressai nos recentes acontecimentos no Brasil não é a tentativa de combater a corrupção e um sistema político e eleitoral que a favorece, mas antes uma acção protagonizada pelos sectores mais retrógrados – eles próprios mergulhados em décadas de corrupção –, visando, por via da instrumentalização do poder judicial e da acção de órgãos de comunicação social, a criação das condições para a reversão dos avanços nas condições de vida do povo brasileiro alcançados nos últimos 13 anos.
Uma acção de desestabilização indissociável do conjunto de manobras de ingerência promovidas pelos Estados Unidos visando os processos progressistas e de afirmação soberana na América Latina.
O PCP é solidário com as forças progressistas brasileiras, com os trabalhadores e o povo brasileiro e a sua luta em defesa dos seus direitos, da democracia, da justiça e progresso social.

quinta-feira, 17 de março de 2016

ENXERTO DE LIVRO


A relação entre o homem e a mulher
é a relação imediata, natural e necessária
do homem com o homem.
 KARL MARX
 RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO
 Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.
REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO 

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-los para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrelaçam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.
PRODUÇÃO
Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descamar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transístor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fileira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.
SERVIÇOS
Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas da lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.
TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA
Coisas que elas dizem:
– Se mexes aí, corto-ta.
– Isso não são coisas de menina.
– O meu homem não quer.
– Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
– A mulher quer-se é em casa.
– Isto já vai do destino de cada um.
– Deus não quiz.
– Mas o senhor padre disse-me que assim não.
– Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
– Você sabe que eu não sou dessas.
– Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
– Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
– Comprei uns jeans bestiais, pá.
– Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
– Cada um no seu lugar.
– Julgas que ele depois casa contigo?
– Sempre há-de haver pobres e ricos.
– Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
– Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
– Sempre é homem.
PRODUÇÃO DE DESEJO
Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elas limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
REVOLUÇÃO
Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.
Dezembro de 1975

in CRAVO, MARIA VELHO DA COSTA, MORAES EDITORES, 1976

Emerson, Lake and Palmer- From the beginning



Keith Emerson, OBRIGADA!

segunda-feira, 14 de março de 2016

Sobre a Cimeira UE-Turquia

PARLAMENTO EUROPEU

DECLARAÇÃO DE JOÃO PIMENTA LOPES, DEPUTADO DO PCP AO PARLAMENTO EUROPEU


A cimeira entre os chefes de estado da UE e da Turquia, retoma o plano de acção conjunto UE-Turquia, aprovado em Outubro último e reforça e aprofunda as decisões do Conselho Europeu de Fevereiro relativas à chamada crise migratória.
As conclusões desta cimeira reforçam os alertas e denúncias do PCP relativas aos eixos essenciais da chamada política migratória da UE. Face a uma gravíssima crise humanitária a União Europeia responde com o aprofundamento da Europa Fortaleza, com a criminalização e expulsão dos refugiados e migrantes, promovendo uma agenda xenófoba, racista a par de outras práticas discriminatórias, de intolerância, autoritárias e anti-democráticas.
A União Europeia aprofunda a linha de militarização de questões humanitárias e com uma estratégia que para lá da questão da militarização aponta claramente no sentido de uma deliberada fusão e confusão entre questões de defesa nacional, de segurança interna dos estados, de permeio com aspectos ligados com a segurança marítima, e com a criação da Guarda Costeira Europeia.
O apoio e júbilo à presença da NATO no mar Egeu no controlo das travessias marítimas, com a qual a agência FRONTEX se deve coordenar numa linha de submissão à lógica e modus operandi da NATO, constitui um grave desenvolvimento, uma resposta militar de intimidação e afrontamento dos que fogem da guerra, da fome e da pobreza extrema.
O acordo com a Turquia agora desenvolvido, demonstra até que ponto vai a hipocrisia da UE e a ausência de elementares valores de respeito pelos direitos humanos e democráticos, acenando com a adesão da Turquia à União Europeia e com acordos em matéria de políticas de vistos, energética e económica como contrapartidas para o seu papel de testa de ferro e de Estado tampão na negação do direito de asilo a milhões de seres humanos.
Os acordos ontem reafirmados procuram garantir que a Turquia assuma o papel principal de tampão dos fluxos migratórios, quer na fronteira marítima com a Grécia, quer no mar Egeu, mas também nas suas fronteiras terrestres a sul. Procuram ainda que a Turquia tenha um papel central na expulsão de refugiados e migrantes e na persecutória política de registo de dados no seu território, integrando-os nas bases de dados europeias.
A chamada cimeira EU/Turquia é mais uma prova cabal da inexistência de qualquer politica que vá de encontro à urgência de medidas de assistência aos refugiados e de criação de condições dignas que contrariem as precárias condições em que estão centenas de milhar de pessoas na Grécia e ao longo da rota dos Balcãs. Pelo contrário, esses direitos básicos, consagrados no direito internacional, são contrariados pela política de encerramento das fronteiras externas, utilizando e reforçando Schengen para o controlo de fronteiras e pelo reforço do contingente do FRONTEX e EUROPOL nos chamados "hotspots" com um única missão: agilizar a recolha de dados, registo e verificações de segurança de todos quantos cheguem a solo europeu, submetendo a vitimas deste êxodo a humilhações que fazem lembrar as páginas mais negras da história do continente europeu, tratando-os como criminosos.
As politicas da União Europeia que são agora reafirmadas nesta cimeira, bem como as previsíveis medidas da Comissão e que serão fechadas no Conselho Europeu de Março demonstram à saciedade, e mais uma vez, qual a verdadeira natureza do processo de integração capitalista e quais os verdadeiros objectivos do Tratado de Schengen e das suas falsas “liberdades”. O reforço do controlo de fronteiras a todos que as atravessem, independentemente do sentido e da origem, cidadãos da UE ou de países terceiros, é disso demonstrativo.
A cimeira da UE-Turquia confirma ainda o outro vector da chamada política de migrações da União Europeia. A politica de impedimento e contenção de migrantes nas ditas fronteiras externas da União Europeia tem no mecanismo de recolocação uma outra face, um mecanismo ao serviço dos monopólios europeus, que visa funcionar como um filtro xenófobo e de classe seleccionando os migrantes de acordo com as necessidades do grande capital os critérios discriminatórios dos países de acolhimento.
O PCP alerta que na sequência das decisões agora reafirmadas na cimeira EU-Turquia, e perante o desenvolvimento de políticas que caucionam autênticos crimes cometidos por vários Estados membro, são de esperar gravíssimos desenvolvimentos da crise humanitária. Fechadas as vias de migração pela Turquia, e as rotas dos Balcãs, centenas de milhar de pessoas irão ser empurradas para o Norte de África, e daí tentarão a travessia do Mediterrâneo para Itália, um cenário, que compaginado com a visão militarista agora adoptada, faz antever novas tragédias humanitárias.