um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

BALANÇO MUSICAL DO BLOG

Letras K e L

Kapella Vorwarts – El Pueblo Unido (em 2014)
Karen Souza – Creep
Kasabian – Fire
                   Man Of Simple Pleasures (em 2014)
                   Neon Noon
Kate Melua – 9 Million Bicycles
Kavinsky & Lovefoxx - Nightcall (em 2014)
Kepa Junkera - Hiri
Keith Jarrett – Concerto de Colónia
                       Innocence
                       My Song
                       One Day I´ll Fly away
King Crimsom – 21st Century Schizoid Man
                          Starless (em 2013)                                                                
Kings Of Convenience - Me In You (em 2013)
Kumpania Algazarra – Oh Cidade

La Charanga Habanera – Gozando En La Habana
La Chicana – Puro Cuento
La Chiva Gantiva (em 2014)
Ladytron – White Elephant
Lamb – Lullaby
Lambchop – The Daily Growl (em 2013)
Lana Del Rey – Blue Jeans (em 2016)
LCD Soundsystem – All  I Want
Lenine – Paciência (em 2013)
Léo Ferré - Avec Le Temps
Leonard Cohen –  Did I Ever Love You (em 2014)
                              Show Me The Place
                              Suzanne (em 2015)
                              Take This Waltz
                              The Partisan
Linda Martini – Amor Combate
                         Dá-me A Tua Melhor Faca
                         Efémero
                         Este Mar
                         Sempre Que O Amor Me Quiser
                         Volta (em 2013)
Linkin Park – From The Inside (de 2013)
                     Given Up
                     In the End (em 2015)
Lion King- He Lives in You
Lisa Gerrard – Sacrifice (em 2013)
Lhasa de Sena – La Celestina
Lloyd Cole and Commotions – Jenifer She Said
Lluis Llach, Silvia Cruz – Ara Mateix
Los Campesinos! - Death To Los Campesinos!
Lucinda Williams – Copenhagen
Luís Freitas Branco - Suite Alentejana N.º1
Luís Cília – Fecundou-te (em 2013)
                   O Guerrilheiro
                   Sou Barco
Luís Goes – É Preciso Acreditar
Luis Pastor – Flor de Jara
Luís Rego – Amor Novo (em 2013)
Luís Represas & João Gil – Canção da Fome
Luisa Amaro – Desideri (em 2014)

Luzia Sobral & Jamie Cullen  - She Walked Down The Aisle (em 2014)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

informação minimalista


Desde 2004 que o salário real em Portugal não acompanha a variação da produtividade. Esta diferença aprofundou-se brutalmente a partir de 2010, em resultado da política de austeridade.

sábado, 24 de dezembro de 2016

poema

"Quando Um Homem Quiser" - Ary Dos Santos 


Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

2017


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

reflexão

Pergunto-me. Pergunto-me repetidamente. E não encontro resposta.

Que valores e princípios transportam os salafistas islâmicos que os tornem “aliados” mesmo circunstanciais dos interesses estratégicos do Ocidente? A visão submissa ou escrava da mulher? O envio de filhos de 7 ou 9 anos, armadilhados, para o martírio em nome de um Deus vingativo? A execução em público, a justiça por hordas vociferantes, a crueldade como padrão de atuação? O proselitismo religioso, a dimensão messiânica da ocupação do território? A democracia e a igualdade? A cegueira ideológica conduz-nos para um abismo onde só existem bandeiras negras, com letras brancas, anunciando o fim. Sem ser em versículos.
CR

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

frase do dia

"Nós sempre dissemos que os Estados Unidos são o único país do continente americano onde nunca houve golpes de Estado porque Washington é a única capital onde não há embaixada dos Estados Unidos".
Em entrevista ao ex-ministro de Lula da Silva e teólogo, Frei Betto, que fala de Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer, da corrupção, dos golpes na América Latina e poder das multinacionais.

as celebrações de Natal em Aleppo, cidade libertada



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

DESFAZER O SOFRIMENTO


por Sandra Monteiro

No final de Novembro foi apresentado no Fórum Gulbenkian de Saúde Mental um estudo coordenado pelo médico José Caldas de Almeida, presidente do Lisbon Institute of Global Mental Health, que divulgou dados aterradores, mas não propriamente surpreendentes, sobre a evolução da saúde mental dos portugueses entre 2008 e 2015. Os dados referem-se, em particular, à prevalência de duas patologias: as perturbações depressivas e as perturbações de ansiedade. O Fórum deste ano foi dedicado ao tema "Crises Socioeconómicas e Saúde Mental: da Investigação à Acção" e os resultados do estudo são, de facto, ilustrativos do peso que os chamados "determinantes sociais da saúde" têm na criação de populações saudáveis ou doentes. Em causa estão factores económicos e sociais que interferem na distribuição dos rendimentos, na criação de bem-estar ou de pobreza, na privação ou no acesso a bens essenciais (alimentação, habitação, educação, segurança ou cuidados médicos). 

O estudo, ao analisar as evoluções na saúde mental ocorridas neste período – que coincide com a eclosão da crise financeira internacional e com a aplicação a Portugal de destruidores programas de austeridade –, regista um significativo agravamento das depressões e das perturbações de ansiedade. Note-se que isto acontece num país que já em 2008 tinha uma prevalência de doença mental superior à média europeia (e em crise desde o início do século, curiosamente). Se em 2008 correspondia a 19,8% a parte da população afectada, em 2015 este valor disparou, atingindo os 31,2%. Tudo piorou, entre novos casos e agravamentos dos já diagnosticados: nos "problemas ligeiros" o aumento foi de 13,6% para 16,8%, nos "problemas moderados" foi de 4,4% para 7,6%, e nos "problemas graves" de 1,8% para 6,8%. As causas são as expectáveis no contexto das políticas com que os neoliberais responderam à crise: a doença surge relacionada com a diminuição dos rendimentos (salários e pensões), com a dificuldade em aceder a bens essenciais e em pagar as despesas.

Este é um dos retratos mais eloquentes das políticas de austeridade como construção do sofrimento na vida das pessoas comuns. De um sofrimento que se vai generalizando e intensificando – e que vai demorar muito tempo até ser revertido. Para o combater, os autores do estudo apontam, como lhes compete, medidas de reforço na área da saúde e de uma assistência médica (que não pode limitar-se à prescrição de fármacos, antidepressivos e ansiolíticos) dirigida para os grupos mais afectados, dos idosos aos jovens, e com especial atenção às situações familiares mais desestruturadas, o que implica apostar em serviços integrados e de proximidade.

Mas desfazer o sofrimento que os números da doença mental revelam (e ainda se aguardam os dados dos suicídios ou do consumo do álcool) não é tarefa apenas para os profissionais da saúde. Fazê-lo exige, justamente, mudanças de políticas em todos os determinantes sociais e económicos que estão a montante da doença. Parte desse esforço começou a ser feito com a actual solução governativa. A reversão dos cortes de salários e pensões, a actual tendência de aumento do emprego e as iniciativas, prometidas pelo executivo para 2017, de atacar o quadro de precariedade em que tantos profissionais trabalham há anos na função pública, são medidas que vão nesse sentido. 

Correm, porém, o risco de não serem suficientes para suscitar as melhorias necessárias. Grande parte do sofrimento diário que atira as pessoas para a depressão e para a ansiedade começa no trabalho e estende-se ao conjunto da vida. No trabalho e, por maioria de razão, no desemprego. Sobretudo quando este último não é protegido por prestações sociais como o subsídio de desemprego, como acontece com grande dos desempregados, numa substituição das lógicas do Estado-providência pelas da sociedade-providência (ou até da família-providência), fenómeno tanto mais inaceitável quanto impõe uma verdadeira lotaria da classe em que se nasceu, da família em que se nasceu. 

Do que acontece no mundo do trabalho, tão corroído nos últimos anos – do quase desaparecimento da contratação colectiva à tendência para substituição do salário médio pelo salário mínimo – decorre grande parte do que vai determinar o sofrimento quotidiano e o medo do futuro. Do salário depende o poder de compra no presente e a pensão que se receberá quando não se puder trabalhar (se bem que a indexação desta ao aumento da esperança de vida permita ter dúvidas sobre se esse dia algum dia chegará…). Do salário, mas também da estabilidade do contrato de trabalho, depende a possibilidade de accionar uma baixa na doença, de fazer férias, de concretizar o desejo da maternidade e da paternidade, de prestar assistência aos pais quando eles chegam à velhice ou estão doentes, de ajudar os filhos quando estão desempregados ou subempregados.

No trabalho, os trabalhadores são forçados a contactar com os danos causados pelo discurso hegemónico dos últimos anos: por muito que se empenhem, são eles os acusados de tudo o que vai mal (metamorfose laboral da narrativa do "gastar acima das possibilidades"); são eles os "ingratos" que deviam aceitar tudo o que os explora ao limite, tudo o que os degrada profissional e humanamente, porque, apesar de tudo, "ainda" têm um emprego quando outros não têm, "ainda" têm uma remuneração que podia ser pior, "ainda" têm a compreensão paternalista de um patrão (ou um subchefe de qualquer categoria) que até "aceita" que ele vá a uma consulta médica, desde que fique até mais tarde a fazer o lhe compete, tenha de ir buscar o filho à escola ou não.

No trabalho, os trabalhadores são forçados a lidar também com os danos causados pelas práticas que o sistema impôs: crescentemente, o trabalhador é pressionado para encontrar as formas de financiar o seu posto de trabalho, se não no presente, pelo menos para ter a perspectiva de o manter no momento da renovação (para já não falar do momento de progressão na carreira, verdadeiro capítulo de metafísica na actual filosofia do emprego). Se não o fizer, a ameaça do desemprego lá estará, como poderoso agente de formatação da sua actuação diária… e como poderoso agente depressor e ansiogénico. Ironia das ironias, esta experiência, que é vivida por cada um de forma muito individual – agruras da extrema degradação da actuação colectiva (sindical, associativa) –, surge aos trabalhadores como o mundo novo do empreendedorismo para toda a vida quando, na realidade, o que está a operar-se é um movimento global de transferência e concentração de riqueza a que o seu comportamento individual é tão alheio quanto o empenhamento dos Estados em cumprir défices e outras metas. 

É da construção de solidariedades no mundo do trabalho, do emprego ao desemprego, que vai depender grande parte do que a seguir pode ser construído para desfazer o sofrimento de uma parte tão imensa da população portuguesa. Diminuir a violência a que os trabalhadores estão diariamente sujeitos, e a que acrescem os problemas de rendimentos, prestações sociais e pensões, implica responder à atomização dos indivíduos pela sociedade neoliberal com estratégias de acção colectiva e com políticas que garantam emprego de qualidade, com direitos, e um Estado social robusto. Menos do que isto e vamos ter, nos próximos anos, um país perigosamente deprimido, ansioso e assustado com o futuro. Um país doente. 


informação minimalista

O Estado gastou em apoios públicos ao setor financeiro 14.348 milhões de euros entre 2008 e 2015, segundo o parecer do Tribunal de Contas à Conta Geral do Estado (CGE) do ano passado divulgado hoje.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SAÚDE DEZ 2016 EM PORTUGAL


O utente tem 75 anos e uma insuficiência cardíaca grave no contexto de outras patologias crónicas relevantes. Foi pedido consulta de Especialidade do Hospital da área. Foi recusada: “Devolvido á origem. Não cumpre critérios de referenciação “.  O habitual. O mesmo texto, o mesmo conteúdo, o pedido para o Hospital S. João. Foi recusado:  “Devolvido á origem. Atendendo a que diariamente nos surgem pedidos de situações críticas e para uma melhor e atempada articulação com os vossos centros, penso que nesta altura, pelas alterações que nos descreve, talvez não se justifique uma consulta diferenciada de cardiologia. Fico contudo ao dispor para outros esclarecimentos”. A subtileza do “talvez” utilizada pelo senhor Professor.  “Devolvo” os esclarecimentos e os “cumprimentos”. Com  raiva. Os consultórios privados estão cheios de utentes  sem “critérios de referenciação”. As clinicas ou hospitais privados estão cheios de utentes resultantes da “articulação” com os centros de saúde. As urgências estão cheios desses utentes, e consta que até os cemitérios…


CR

PONTOS DE REFLEXÃO


É prática já abandonada em muitos países, mas permanece em Portugal: a publicitação de um ranking de escolas, no caso das Secundárias. Sabemos que os rankings das escolas, e consequente “ordenação” das escolas, construídos a partir dos resultados dos alunos, não são absolutamente credíveis nem justos. A realidade da qualidade da educação ministrada não se reduz aos exames e suas notas. Os vieses resultam do facto de os exames nacionais serem apenas um elemento de avaliação e não a medida, o retrato, de tudo o que se faz na escola.
Pelo 16.º ano consecutivo é divulgado o referido ranking num espectáculo mediático eivado de alguma demagogia. As escolas privadas ocupam sistematicamente os primeiros lugares. A escola (privada), que ocupa o primeiro lugar do ranking pelo terceiro ano consecutivo, cobrava mensalidades de cerca de 500 euros no ano lectivo passado. As privadas seleccionam os seus alunos, trabalhando assim com grupos mais homogéneos do que os das escolas públicas. Algumas das escolas (públicas) do final da lista estão inseridas em contextos sociais mais desfavoráveis, de exclusão social. Na lista de escolas que mais inflacionam as notas relativamente aos resultados dos exames nacionais, dois terços são escolas privadas. Pelo contrário, na lista das 16 escolas que dão notas mais baixas que os resultados dos alunos obtidos nos exames, 11 escolas são públicas.
Será possível e, mesmo necessária, uma leitura “despretensiosa” dos dados obtidos, por parte da comunidade escolar e da sociedade? Julgo que sim. Vejamos o caso da subregião do Vale do Sousa. Em 632 escolas secundárias avaliadas, com a excepção da Casa Mãe em Baltar (lugar 13), aparentemente há um deficite nos resultados apresentados: Secundária de Penafiel (lugar 222), Secundária de Paredes (lugar 242), Rebordosa (lugar 294), Lordelo (lugar 398), Baltar (lugar 525), Joaquim Araújo (lugar 600), Pinheiro (lugar 617). Julgo necessário um sobressalto que atinja as famílias, os profissionais da educação, os autarcas, um novo impulso que questione, mobilize, rectifique e por fim avalie. Passada a fase das instalações e equipamentos, que se apresentam renovados na sua grande maioria, importa reforçar a dinâmica educativa.
Porque será que por exemplo, em Porto Mós, Satão, Caldas da Rainha, Bombarral, Carregal do Sal, Vila Nova de Paiva, Castelo Branco, os resultados são aparentemente melhores? O meio é diferente, os alunos são mais capazes, os professores são mais motivados? Preconizo algumas linhas de reflexão (e de atuação). Reforço do papel da Escola como elemento identificador e agente de progresso de uma comunidade. Valorização do estatuto do Professor como educador e profissional com deveres e direitos. Aumento da autonomia das Escolas, no âmbito curricular, pedagógico e disciplinar. Reforço de auditorias e acompanhamento externas. Diminuição da componente lectiva e reforço de iniciativas de envolvimento na comunidade na aquisição de saberes e comportamentos. Apoio social efectivo aos alunos, aumento de práticas de apoio pedagógico individualizado. Formação profissional continua. Dinamização (renovação efectiva) dos órgãos da Escola e sua responsabilização. Renovação dos profissionais com a justa aposentação de toda uma geração e entrada no sistema de novas energias.   
Estas são as responsabilidades da Nova Escola que desejo. Mas compete á sociedade mudar também: deixar de ser uma sociedade fútil, alienada com superficialidades, não desperta para a competitividade, conservadora, pouco atenta, preguiçosa em atingir objectivos mais exigentes.


CR  

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

TEXTO

Google, Trump e o futuro da propaganda


Quando, há cerca de um mês, Donald Trump venceu as presidenciais estado-unidenses, a maioria dos órgãos de comunicação social do planeta constataram que não tinham uma única boa explicação para o sucedido. Então, num espectáculo de leitura constrangedora, milhares de comentadores, colunistas e «especialistas» fizeram o que sabiam: perguntaram à Internet uma qualquer variante de «por que venceu Trump?» e deixaram que o Google desse a resposta. O resultado foi uma avalanche de notícias falsas e explicações desprovidas de base científica: não, não foram os operários do Cinturão da Ferrugem quem deu a Casa Branca a Trump; é mentira que os trabalhadores mais pobres se tenham virado para o Partido Republicano e todas estatísticas que atribuem o ónus à cor da pele, ao sexo ou à habilitação literária esquecem-se de que Mitt Romney perdeu as eleições de 2012 com mais votos do que Trump e um eleitorado idêntico. Mas, com este péssimo exemplo de informação desinformada, a comunicação social da classe dominante conseguiu, acidentalmente, revelar um dos segredos da vitória de Trump: a Internet como arma de desinformação individualizada.

Num excelente trabalho de investigação do The Guardian, publicado na semana passada, a jornalista Carole Cadwalladr constata que o Google parece querer conduzir-nos para sites de neofascistas, portais de notícias falsas e organizações de direita. O Google é, hoje em dia, sinónimo de Internet. Um gigante que, em menos de vinte anos, conquistou o monopólio da gestão do conhecimento digital do mundo, controlando, a 63 mil pesquisas por segundo, a hierarquia das nossas fontes e, consequentemente, a nossa percepção sobre o que é verdadeiro e o que é falso. Quando, por exemplo, escrevemos no Google (em inglês) «por que é que os comunistas…», o motor de busca sugere que completemos a pergunta com: «por que é que os comunistas são maus?», «por que é que os comunistas são odiados», etc. apresentando de imediato dezenas de sites ligados à extrema-direita dedicados à produção de notícias falsas. No contexto português, se perguntarmos «em que partido votar», o Google conduz-nos para as peças mais proselitistas do Observador e a «testes» que, mesmo respondendo com as posições do PCP, insistem que devemos votar no Bloco de Esquerda.

Micro-propaganda

O Google, à semelhança do Facebook, do Twitter e de outros gigantes da Internet, não revela a mecânica do seu algoritmo, pelo que é impossível saber ao certo por que razão nos conduz para uma página e não para outra, mas a campanha de Trump demonstrou que o futuro da propaganda passa por compreender o nebuloso funcionamento da Internet.

Foi na Internet, e não na televisão, que Trump fez propaganda. Com o estratega neofascista Steve Bannon e a sua equipa de físicos e engenheiros da Analytica, a campanha de Trump desenvolveu 50 mil perfis individuais de eleitor, permitindo aquilo a que se pode chamar micro-propaganda: anúncios personalizados em função do que o Google, o Facebook e o Twitter sabem sobre nós. E estas empresas garantem saber quem nós somos. Da mesma forma que a Internet às vezes parece saber de que produtos ou marcas gostamos, a campanha de Trump sabia, com um grau de certeza sem precedente histórico, quem estava desempregado, quem era operário, quem era negro, quem estava grávida, quem tinha um seguro de saúde dispendioso, etc.

Outra inovação da micro-propaganda digital é a sua natureza dinâmica. Ao bombardear os eleitores com propaganda personalizada, é possível gerar níveis de interacção que alteram o nosso perfil na Internet, convencendo o Google de que «gostamos» dessa opção política. Um dos feitos mais impressionantes da campanha de Trump foi gerar uma nuvem de centenas de sites de propaganda, notícias falsas e depósitos de «conteúdos» sem qualquer credibilidade capazes, no entanto, de competir de igual para igual com gigantes como a CNN. O segredo destes sites consiste precisamente em surgir primeiro nos motores de busca explorando o que a Internet pensa que somos.

De uma prisão fascista, António Gramsci parecia ver a lonjura dos nossos tempos: «o velho mundo está a morrer e o novo luta por nascer: este é o tempo dos monstros», escreveu. Os efeitos cognitivos e ideológicos da apropriação capitalista da Internet, ainda na infância histórica, têm o potencial de multiplicar os monstros e reduzir o que nós somos ao que a Internet pensa que somos.

 ANTÓNIO SANTOS

humor


PCP defende aumento extraordinário do salário mínimo


 

600 euros já em Janeiro

Numa conferência de imprensa em que participou Paulo Raimundo, do Secretariado, o Partido voltou a insistir na sua proposta de aumento extraordinário do salário mínimo para 600 euros já em Janeiro.
Nessa declaração, proferida no dia 9, o PCP considera que esta é a medida que «se impõe e exige», face à situação do País. Para Paulo Raimundo, é de uma «tremenda hipocrisia» que se volte a falar da necessidade de conceder «contrapartidas» ao patronato pelo aumento do salário mínimo, como se não bastasse já a «inaceitável redução da Taxa Social Única das contribuições das empresas para a Segurança Social». A intenção do patronato, lembrou o dirigente comunista, é conseguir que esse aumento venha a ser, na prática, subsidiado pelo Estado ou compensado por novas medidas que aumentem a exploração dos trabalhadores.
Ora, para o PCP, o que se impõe não é a concessão contrapartidas ao grande capital, mas garantir que o aumento do salário mínimo nacional seja «acompanhado da valorização geral dos salários, do combate à precariedade e desregulação dos horários de trabalho, do fim da caducidade da contratação coletiva», entre outras medidas. Lembrando que a Constituição da República confere ao Governo a competência de fixar o valor do salário mínimo, o PCP questiona as verdadeiras razões de «tanto alarido em torno desta matéria», uma vez que o próprio Governo tem no seu programa «decisões claras e calendarizadas» em torno desta questão.

A haver algo a reconsiderar neste programa e calendário, realçou Paulo Raimundo, é precisamente a sua «antecipação e a fixação para Janeiro de 2017 do valor de 600 euros para o salário mínimo nacional, tal como propõe o PCP».

Medida urgente

Para o PCP, o aumento extraordinário que defende para o salário mínimo impõe-se por uma questão de justiça social mas também por evidentes razões económicas. Como lembrou Paulo Raimundo, Portugal «mantém um dos mais baixos salários mínimos nacionais da Europa, ao que acresce a sua profunda desvalorização ao longo dos anos».

Estes motivos têm constituído, de forma crescente, razão para «empurrar para a pobreza mais de dois milhões de portugueses», dos quais 700 mil são trabalhadores no ativo. Em Abril de 2016, prosseguiu o dirigente comunista, cerca de 631 mil trabalhadores auferiam o salário mínimo nacional, «que é o mesmo que dizer que levavam para as suas casas ao fim de um mês de trabalho pouco mais de 470 euros líquidos».

O «drama» e a «brutal injustiça» que esta situação representa exigem que, mais do que a sua mera constatação», se assuma a necessidade urgente de a resolver «de forma clara, inequívoca e decidida». Ou seja, não se trata de «contribuir para a ideia dos “mínimos possíveis”», mas, por outro lado, exige que «todos se comprometam com o aumento significativo do salário mínimo nacional, que reponha o poder de compra perdido pelos trabalhadores». Ora, isto não é garantido nem com os 530 euros em vigor nem com os 557 euros previstos no programa do Governo para Janeiro do próximo ano.

A proposta do PCP, de aumentar o salário mínimo para 600 euros já em Janeiro, é «possível» e «necessária», garantiu Paulo Raimundo, lembrando que ela procura «dar corpo à vontade dos trabalhadores e às necessidades do País». Esta proposta será levada amanhã, 16, à Assembleia da República e será divulgada hoje numa jornada de contactos com os trabalhadores e a população.
Inverter o rumo

Na conferência de imprensa de dia 9, o membro do Secretariado recordou a evolução da distribuição da riqueza nacional e, em consequência, a sua «escandalosa concentração». Só assim se perceberá que o «problema de fundo que é preciso atacar de frente se encontra exatamente na injusta distribuição da riqueza criada». Ora, lembrou Paulo Raimundo, em 1975, fruto da Revolução de Abril, os salários representavam cerca de 60 por cento da riqueza nacional, cingindo-se hoje a apenas 35 por cento.

Hoje, denunciou ainda o PCP, um por cento da população detém cerca de 25 por cento da riqueza nacional e cinco por cento da população acumula quase metade dessa mesma riqueza. Esta «dramática situação», acusou o dirigente comunista, «é resultado de políticas ao serviço do capital monopolista» e teve «desastrosas consequências sociais e económicas para o País e para a grande maioria dos trabalhadores e do povo». É com elas que o PCP se propõe romper.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

SESSÃO EXTRAORDINÁRIA DA ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE PAREDES


SESSÃO EXTRAORDINÁRIA DA ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE PAREDES

15-12-2016 , PELAS 20H30

Ordem do Dia

1-      Revisão Orçamental

2-      Relatório de acompanhamento e monotorização no âmbito do Programa de Apoio á Economia Local

3-      Relatório do Auditor Externo de informação sobre a situação económica e financeira do município relativo ao 1.º semestre de 2016

4-      Proposta – Autorização para a contratação de um empréstimo de curto prazo até ao montante de 2.500.000 euros

5-      Protocolo celebrado entre o município de Paredes e a EDP Distribuição Energia, SA- Alteração do anexo I ao contrato de concessão da distribuição de energia elétrica em baixa tensão

6-      Aprovação da proposta e nomeação, por adjudicação, de Auditor Externo – ajuste direto para aquisição de serviços de certificação legal, revisão e auditoria externa ás contas do município de Paredes

7-      Regulamento do estatuto do provedor do munícipe de Paredes

8-      Código de conduta ética

9-      Parecer sobre a concessão de incentivos á empresa SAI –Segurança Alimentar Integrada , LDA

10-   INBORVAL – INDUSTRIA DE BORRACHA , LDA  - Proposta de concessão de incentivos , no âmbito do regulamento de concessão de incentivos ao investimento em Paredes

11-   WOODONE MOBILIÁRIO , SA - Proposta de concessão de incentivos , no âmbito do regulamento de concessão de incentivos ao investimento em Paredes

12-   Sinalização vertical e horizontal em diversas vias na freguesia de Lordelo

13-   Sinalização vertical e horizontal em diversas vias na freguesia da Sobreira

14-   Sinalização vertical em diversas vias na freguesia de Rebordosa

15-   Sinalização vertical na Rua Monte da Estação, freguesia de Paredes

16-   Sinalização vertical em Mouriz, freguesia de Paredes

17-   Sinalização vertical em diversas vias na freguesia de Vilela

18-    Sinalização vertical na Travessa D. Afonso Henriques, na freguesia de Gandra

19-   Processo expropriativo destinado á “Ampliação do Parque da Cidade de Paredes 2016 – processo 3/2016 – Declaração de utilidade pública

NOTA: Como é Assembleia Extraordinária não tem Período de Antes da Ordem do Dia e não tem intervenção de público

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ALEPPO


The Beatles - And I Love Her

Rompendo frases protocolares

António Guterres será o novo Secretário-Geral das Nações Unidas. Há quem anteveja êxitos retumbantes no exercício do cargo. Não estou tão certo disso. A lógica da continuidade da liderança do sul-coreano , agora apregoada, não é promissora. Nas palavras Guterres será imbatível , quero crer. Mas na prática as Nações Unidas, a sua liderança, limita-se a observar as dinâmicas de superpotências e a dar legitimidade formal á realidade vivida.

Que papel activo teve Ban  Kim –Moon ( mesmo de consciência moral) na solução da criação do Estado Palestiniano? Que papel teve Ban Kim-Moon no conflito da peninsula coreana? Que papel  teve  Ban kim-Moon nos conflitos regionais na Síria, na Libia, no Dombass ucraniano? Que papel teve Ban  Kim –Moon no levantamento do bloqueio a Cuba, ou na divisão de Chipre , ou na construção de muros contra refugiados? Que papel teve  Ban  Kim –Moon na contensão e não proliferação de conflitos, na explosiva venda de armas, na criação de novas instalações militares da NATO, em sanções, intervenções, golpes de Estado?

A Ban  Kim –Moon segue-se Guterres. Afirma este que as guerras modernas não se ganham. Discordo. As guerras justas devem ganhar-se: pela dignidade, pela soberania, pela igualdade, pelo direito de viver em paz, pela civilização. Os exemplos anteriores são desafios para ganhar. Mas Guterres só quererá falar de “consenso” em várias línguas?


CR

OBITUÁRIO DE UM GRANDE


Começou por ser pequena personagem romântica e sedutora da História, antes de se tornar símbolo indiscutível e perene de uma revolução. E mais tarde, consciência da Humanidade.
Foi na segunda metade do seculo xx, o dirigente do chamado Terceiro Mundo com maior influência pela palavra e pela acção nos acontecimentos mundiais, como a descolonização e as lutas contra o racismo e o imperialismo.
Alcunhado por alguns de autoritário, mesmo de ditador, essa avaliação rude e desajustada choca com o conhecimento profundo que dele vamos tendo, do carisma e prestígio mundial que transporta, do exemplo reconhecido de dignidade em vida, da qualidade de liderança pessoal. Não há calúnia mediática ou ódio que resistam à prova da vida.
 Disse muito lucidamente em 2 de janeiro de 1961: Uma revolução não é um leito de rosas. Uma revolução é uma luta até a morte entre o futuro e o passado”. Certamente ele gostaria que fosse diferente. Mas não é. O criminoso bloqueio económico e político que enfrentou bem como as inúmeras tentativas de assassinatos vindas dos EUA provam que o “leito de rosas” só existe no cérebro dos utópicos.
 No turbilhão dos acontecimentos, condicionado pelas razões da geopolítica, ousou desafiar a lógica da História, os manuais de ciência politica, a lógica da submissão dos pequenos perante os grandes, com inteligência, coragem e coerência.
Que importa que as embaixadas da França e dos Estados Unidos em Cuba não tenham posto a bandeira a meia haste pela morte de El Comandante? Que importa os quilómetros de prosa pútrida publicados em todo o mundo sobre Fidel e a revolução cubana? Que importa a cegueira ideológica, cultivada no vizinho do norte e nas corruptas capitais de Paris, Londres ou Madrid? A imagem das exéquias fúnebres diz tudo: um líder não só respeitado, como amado, interna e externamente.
Disseram que era rico, a Forbes inventou uma fortuna colossal com capitais na Suiça e contudo vivia de forma espartana numa vivenda de um só piso na periferia de Havana. A sua percepção das limitações da condição humana tornou-o avesso á glorificação da sua pessoa. O nome e a figura de Fidel Castro não vão ser utilizados em lugares públicos, ruas ou praças, nem serão erigidos em sua memória monumentos, bustos ou estátuas, por desejo expresso do falecido líder revolucionário, disse o Presidente cubano. "O líder da revolução rejeita qualquer tipo de manifestação de culto à personalidade e manteve essa atitude até às suas últimas horas de vida", disse Raul Castro num discurso de homenagem ao seu irmão Fidel, realizado na cidade de Santiago de Cuba.
Cultivava a palavra como poucos, a palavra mobilizadora, criativa, escrita ou oral. Tinha uma concepção ética da vida, avesso á excessiva autoridade pessoal. Deixou de fumar para ter a autoridade moral para combater o tabagismo. Manteve-se em excelentes condições físicas com várias horas de ginástica diária e natação frequente. Disciplina férrea, autodomínio completo.
Tinha um verdadeiro espirito universalista, solidário, quer fosse na criação de brigadas médicas cubanas em todo o mundo, quer na política de educação de adultos, quer nas batalhas militares do sul de Angola.
Retomo: a sua grandeza despertou muito ódio. Mas a sua existência iluminou muita consciência adormecida. Viva Fidel!


CR

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2600%
Autoridade da Concorrência britânica acusou a Pfizer de ter inflacionado em 2600% o preço de um medicamento.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

poema

POEMA DA PERGUNTAÇÃO

Não somos todos, os envergonhados, os verdadeiros culpados?
Não somos nós, os indignados, os verdadeiros carrascos?
O que antes e agora julgamos, não foi apenas uma pequena evidência? O que nós prendemos não foi a mão obscura de uma consciência? E mesmo o que matamos, não foi tão-somente uma ínfima parte da verdade?
E procuramos grades? E procuramos muros altos e seguros? E procuramos homens obtusos para que os possamos vigiar? E procuramos armas para os tornarmos intransponíveis? De nada nos valerá, de nada nos adiantará. Não há ferro, nem betão, nem servilismo nenhum que nos possam salvar da luz da verdade.
Uma mentira não tem sempre sede de liberdade? Uma mentira não é a cela da verdade? E quantas vezes a pretendemos prender? E com quantas grades a desejamos ocultar? E com quantas mãos a ameaçamos estrangular?
Não vale a pena. Desistamos. Em nenhum maciço de betão podemos esconder o que a nossa consciência sabe. Em nenhuma anedota, em nenhum boato, em nenhuma suposição, em nenhuma imparcialidade e em nenhum juiz e em nenhum desmentido nos jornais e em nenhum país. Nem de nós, nem dos outros.


Eduardo White