um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O filme A PRAÇA, uma farsa


O filme de Sergei Losintza, que está presente no Canal Cine por Cabo, pretende documentar os acontecimentos da Praça Maidan , em Kiev. Contudo o produto final é uma farsa, cujo objectivo principal é dar legitimidade e consistência a uma ficção politica: uma genuína revolta popular.

Não faltam os instrumentos necessários para a adesão: uma dinâmica popular, o nacionalismo bacoco, o sentimentalismo pró- religioso, o inimigo demonizado na Rússia. Há quem do estrangeiro veja o "belo e o aterrador" no filme, em movimentos estáticos da câmara, em que não se ouve uma opinião consistente, uma ideia. Mas hordas de militantes de capacete e instrumentos de violência vagueiam pela Praça.

O autor do filme esconde (mal) algo  essencial do Maidan: a origem externa do fenómeno, os seus apoios internacionais,  as expressões visiveis do fascismo latente, a contensão da policia e do exército, o radicalismo, o revisionismo da História, a encenação.

Visto agora, A PRAÇA esclarece muito das consequências do Maidan. A guerra civil da Ucrãnia, o desastre económico, o advento da III Guerra Mundial.

CR



sábado, 25 de abril de 2015

A DIALÉTICA DO MEU 25 DE ABRIL DE 2015


Passei grande parte deste feriado a defender o 25 de Abril. Explico: no dia 24, á noite, presença tradicional em jantar comemorativo “unitário” num restaurante de Penafiel. Com cravos, leitura da declaração da Associação 25 de Abril e o Grândola, Vila Morena, cantada em coro a plenos pulmões, com ajuda do texto da letra da canção.

Hoje “perdi-me” na Net, no Face com alguém que proclamava que Não existe 25 de Abril e que Até mesmo as Câmaras que se dizem de Abril são uma farsa. Os “40 anos de desgraça, perda de valores, de princípios, de cultura, das raízes e dos próprios cheiros”, e um “Tudo cai, nada se levanta” despertaram-me uma fúria que deu em responder: eles são todos iguais, não são? Sim meu filho, descontextualiza, meu filho, a direita e a esquerda é tudo igual, não é meu filho? tu, sim, és o melhor!, incompreendido, coitadinho, descontextualiza, meu filho!, solta a supremacia que há em ti, meu filho, afinal para ti o 25 de Abril é o dia seguinte ao 24 e a perda dos cheiros, de que te queixas aí estás enganado, cheira a ranço o teu discurso, ai cheira, cheira... Afinal há o 25 de Abril. Tem os dois lados da barricada. E eu sei qual é o meu…

Outro, a seguir, vinha com a treta de que a “democracia burguesa em vez de perseguir os revolucionários, compra-os" Respondi: em que mundo irreal tal acontece? História de embalar... Os revolucionários podem não cumprir os seus objectivos por razões subjectivas e objectivas, mas nunca são objecto de transacções contra-natura. O espírito critico das organizações e dos colectivos e a atenção da população, não permite que a acção institucional de um revolucionário possa ser contrária ás convicções apregoadas ou ao discurso. Se assim fosse já estaríamos trucidados pelos inimigos, pela comunicação social regional e pela demagogia dos aventureiros da política ou dos ressabiados. O fundamental é passarmos das teorias para o concreto das acções. Quem defende mais e melhor para a sua terra?

O mesmo afirmava que "o poder corrompe". Respondi-lhe: Sei que a frase é amplamente citada, mas um revolucionário não a pode subscrever. O poder corrompe quem se quer corromper, pronto. O mesmo se diga sobre a igualdade de conceitos entre maiorias (eleitorais?) e a impunidade. A impunidade só existe se o quadro legal o permite. Dentro do quadro legal não há irregularidades, mas sim alternativas. O que se discute é se se cumpre o quadro legal ou se há ou não legitimidade obtida no mandato popular. O resto são minudências 

Acabei o dia com a sensação de que o trabalho ideológico e de esclarecimento não pode deixar de estar presente. Sobretudo nestes dias.


CR

Mediterrâneo



Nascer no Mediterrâneo

Morrer no Mediterrâneo

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O fascismo ucraniano



O membro do Parlamento Iryna Farion do partido Svoboda e que tomou o poder na "revolução" de 2014, na Ucrânia, diz às crianças num jardim de infância que seus nomes estão errados.
Esta mulher também disse que os manifestantes contra o governo deveriam ser mortos, e depois do incêndio criminoso em Odessa, que matou mais de 35 manifestantes anti-Kiev, escreveu no Facebook: "Bravo Odessa .... Que os demônios se queimem no inferno ".
Este é o fascismo nojento que os ocidentais andam a promover...

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Flashmob Opera Majestic Cafe, no Porto

Carta

Exmo. Sr. Granja da Fonseca

Presidente da Assembleia Municipal de Paredes

 Os eleitos da CDU na Assembleia Municipal de Paredes vêm por este meio solicitar uma reflexão, a correcção ainda oportuna e útil de um erro, e expressar uma tomada de posição.

A convocatória de uma Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Paredes para o dia 25 de Abril, pelas 14h30, por insólita, constitui a nosso ver um atentado ao bom senso e às regras democráticas, instituídas pelo 25 de Abril de 1974.

Historicamente, como V. Ex.ª sabe, decorrem no nosso País, no nosso Distrito e no nosso Concelho, iniciativas comemorativas populares do 25 de Abril de 1974, Dia da Liberdade, Festa do Povo. Não desconhece V. Ex.ª que, por exemplo, em Parada de Todeia, há iniciativas promovidas pela Junta de Freguesia há 13 anos consecutivos. Nelas participa o povo, em comunhão com os seus eleitos. O 25 de Abril é do Povo.

Os eleitos e os trabalhadores municipais de apoio à Assembleia Municipal têm direito a gozar como lhes aprouver o Feriado Nacional. A única excepção admissível seria, como se compreende, uma Sessão Extraordinária Comemorativa do 25 de Abril, que a existir, deveria ser obviamente nesse dia.

 O senhor Presidente da Assembleia Municipal de Paredes extravasa assim as suas competências legítimas, ao marcar assim arbitrariamente dia e hora da Assembleia Municipal, sem consultar as restantes forças politicas.

A CDU, presente na Assembleia Municipal com três eleitos, lamenta a convocatória de uma Sessão Ordinária da Assembleia Municipal, e diz NÃO a este exercício de prepotência, assumindo todas as consequências futuras de uma ausência à referida Sessão.

Os eleitos da CDU, tendo em conta a defesa de valores democráticos essenciais, aguardam que V. Ex.ª rectifique a decisão tomada.
Com os melhores cumprimentos,

Os Eleitos da CDU na AM de PAREDES

terça-feira, 21 de abril de 2015

STORMY SIX- STALINGRADO

REFLEXÃO

a tragédia humanitária do Mediterrâneo só pode ser verdadeiramente interpretada e sentida se não nos esquecermos que na sua causa estão outras tragédias, outros momentos que nos violentaram a consciência e a emoção: falo dos violentos, sistemáticos e criminosos bombardeamentos da aviação americana, francesa, italiana e de outros países, ao serviço da NATO, na Líbia e na Yugoslávia. Falo do apoio politico e em armas letais aos criminosos jihadistas na Síria e no Iraque. Falo no suporte ao regime fascista ucraniano. As pombas da NATO já há muito que tingem de sangue terras que não lhe pertencem. 

CR

domingo, 19 de abril de 2015

reflexão

A discussão das eleições presidenciais a realizar em 2016, em detrimento do debate sobre as eleições legislativas de 2015, mais próximas do tempo e mais urgentes, é uma ajuda aos que nos infernizam o presente, depois de o terem feito no passado e terem a presunção de o fazer no futuro. A perspectiva feliz de enviar Cavaco Silva para Boliqueime ou para o sofá da Vivenda Mariani, para além de uma medida de salutar higiene, constitui um irreprensível designio nacional. 

Mas a história mostra-nos que há sempre um Cavaco para os desprevenidos...

CR

FLAGELO - O DESEMPREGO

Os dados do Instituto Nacional de Estatística confirmam que desde Setembro, o número oficial de desempregados tem vindo a aumentar e que a erosão de postos de trabalho não cessa. No referido período foram empurrados para o desemprego mais 36 nil portugueses e destruídos 56 700 empregos. Entre os jovens a taxa de desemprego é de 35 por cento. Para uma população empregada de 4 399,9 mil pessoas em Fevereiro de 2015, há oficialmente na mesma data 719 600 pessoas desempregadas, cerca de 14,1 por cento da população activa.

O desemprego é um problema social gravíssimo em Portugal. O desemprego registado, isto é, o número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego, não dá uma informação completa sobre o desemprego no País, já que muitos desempregados não se inscrevem nos Centros de Emprego, pois não têm qualquer benefício disso. Por outro lado há um abate maciço de desempregados nos ficheiros dos Centros de Emprego, utilizando uma multiplicidade de pretextos. E a taxa de desemprego real é “devidamente” adulterada por centenas de milhares de cursos de formação profissional, de estágios, de contratos de emprego e inserção, pela emigração em massa. A troika nacional (Passos Coelho, Paulo Portas, Cavaco Silva) disso faz uma utilização despudorada.

Mas situemo-nos nessa falsa e falaciosa criação de emprego, como são por exemplo os Contratos Emprego – Inserção. A insuspeita Manuela Ferreira Leite chamou-lhes “trabalho semiescravo”. Segundo a Portaria Regulamentar, são abrangidos “os desempregados a receber subsídio de desemprego ou subsídio social de desemprego e os desempregados beneficiários de rendimento social de inserção”. Os contratos têm a duração máxima de 12 meses podendo ser renovados. A sua aceitação é obrigatória e a chamada bolsa acresce 83,8 euros por mês ao subsídio de desemprego, para um valor médio final de 549, 62 euros /mês, e no caso dos beneficiários do rendimento social de inserção a bolsa é de 419,22 euros, para um valor médio final de 510, 62 euros /mês. E o valor dessa bolsa é pago entre 50 e 90 por cento pelo Ministério do Trabalho, Segurança Social e Solidariedade.

Temos assim para um trabalho idêntico a de qualquer outro trabalhador, pago com salários de subsistência e miséria. Quem deles beneficia? O Governo (Ministério da Educação- 8344 pessoas, Ministério da Saúde – 2.183 pessoas), Autarquias- 27720 pessoas, IPSS’s, Misericórdias- 8933 pessoas. Mão de obra barata e sujeita a trabalho forçado para substituir trabalhadores que se despedem, ou empurrados para a reforma, ou aposentação prematura ou que deixam de recrutar. Péssimo exemplo para privados e congéneres, sempre atentos a reduzir custos salariais.

O mesmo se passa com a política de estágios subsidiada por dinheiros públicos em empresas privadas e públicas, com valores miseráveis mesmo para Mestrados e Doutorados, o mesmo trabalho qualificado e permanente de outro trabalhador contratado, a rotação de estagiários ao serviço do enriquecimento de privados á custa de trabalho a baixo custo e dos fundos públicos, a ausência de uma política estruturada de recrutamento, renovação de quadros e estabilidade profissional, familiar e pessoal.

Mas estas inevitabilidades só perduram enquanto o Povo quiser. Até um dia.


CR

sábado, 18 de abril de 2015

natalidade e direitos das crianças

Foi hoje aprovado Projeto de Lei do PEV que estipula que nenhuma criança fique privada de médico de família


Sobre o pacote de Projetos de Lei relativos à natalidade, discutidos na 4ª feira e votados hoje no Parlamento, “Os Verdes” realçam a aprovação, na votação na generalidade, do Projeto de Lei do PEV que estipula que nenhuma criança fique privada de médico de família.

Este Projeto de Lei obteve os votos favoráveis do PSD, CDS, PCP, BE e PEV e a abstenção do PS. O trâmite comum do processo legislativo leva a que este Projeto, aprovado na generalidade, desça agora à Comissão de Saúde, sendo aí discutido e votado na especialidade (artigo a artigo), para depois voltar a subir a plenário de modo a proceder-se à votação final global.

A necessidade deste Projeto de Lei é muito evidente no que se refere ao acompanhamento médico das crianças, pelo que tudo faremos para que este processo seja célere e chegue a bom porto, beneficiando muitas crianças e jovens deste país.

ODESSA – O FASCISMO SEM LEI

Um comício autorizado junto á Opera de Odessa , Av. Tchaikovsky, contra o aumento dos preços dos bens de consumo e os baixos salários e pensões,  resultou na detenção de 53  manifestantes. Os  manifestantes exigiam o estatuto de zona franca e auto-governo para Odessa. Dos impostos aí arrecadados só cerca de 25% são reinvestidos na cidade e região, em resposta a necessidades vitais.


Mas a polícia, os fascistas do Sector Direito e activistas de Auto Maidan impuseram a sua violência, no quadro das politicas de repressão e intimidação.  

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A agência AFP ao serviço da geopolitica do crime

A organização Observatório Sírio dos Direitos Humanos é uma organização opositora ao Governo Sírio, com relações preferenciais aos meios de comunicação social ocidentais e uma aparente rede de contactos no interior do país. A sua actividade consiste em divulgar informações sobre a realidade de guerra desde 2011. Como as outras ONG`s financiadas pelos serviços secretos ocidentais, a estratégia da desinformação e manipulação é conhecida.

Não sendo uma organização isenta e séria, antes um instrumento das forças mais ou menos radicais, contra Assad, e o povo sírio, interessa referir recentes declarações da chefia da organização. 

Assim desde o início do conflito, o chamado Observatório Sírio dos Direitos Humanos assinala 222.271 mortes, com 67.293 civis, incluindo 11.021 crianças. Do lado dos combatentes contra o regime, há 39.848 sírios e 34. 872 jihadistas estrangeiros. Do lado das forças leais a Assad, o dito Observatório assinala 46.843 soldados, 34.872 milícias das Forças de Defesa Nacional, 683 xiitas do Hezbollah e 2.884 de outros países. Assinala o Observatório cerca de 20.000 desaparecidos.

Importa registar a presença de tantos jihadistas estrangeiros, a crer na veracidade dos números. Somos levados a crer que a guerra na Síria é mais do que uma guerra interna, é uma guerra de agressão de potências regionais e mundiais.

Não admira que a agência noticiosa AFP, receptora desta informação tão “qualificada”, se atreva a comentar que a guerra é encorajada pela “inércia da Comunidade internacional, mais preocupada com os avanços do Estado Islâmico do que com a situação na Síria”. Não desconhece a AFP os esforços efectuados na cimeira de Moscovo, para a paz e reconciliação na Síria. Mas a leitura da realidade choca com os propósitos da geopolítica do crime.

Hoje há vozes insuspeitas que reconhecem o papel central da actual elite síria na estabilização no terreno. Não seguramente, a AFP


CR

domingo, 12 de abril de 2015

Mumford & Sons - Believe

a visita do senhor Manuel Valls

O senhor Manuel Valls, o Primeiro Ministro francês, esteve sexta feira, 10 de Abril, em Portugal. E aqui fez intervenções escandalosamente esclarecedoras. 

Sobre a Ucrânia, repetiu a tese NATO da violação da soberania e integridade territorial por parte da Rússia, iludindo assuntos importantes como o direito á autodeterminação da população russófona, o respeito pela legalidade democrática anterior ao golpe de Kiev, os compromissos estratégicos, militares e comerciais violados, em afronta á Rússia, e a participação hegemónica da ideologia fascista, revisionista e militarista no território. Valls concorda com as sanções á Rússia e acredita (ou finge acreditar) num “diálogo” de rendição e vassalagem. Valls não fala de Minsk 2. Muito significativo.

Ele pronunciou-se em Portugal sobre a situação de um terceiro país. Poder-se-ia desde já notar que ele mostrou muito pouco respeito pela soberania desse terceiro país, a Grécia. Mas o que retemos é o sentido, explícito e implícito, das declarações.

O Primeiro Ministro francês exortou o governo grego a fazer o contrário daquilo que foi o seu mandato. Ousou pedir á Grécia, na entrevista que deu ao Diário Económico, uma lista de reformas mais “profundas”. Sabe-se o que isto quer dizer. Trata-se de impor ao governo em funções desde as eleições de 25 de Janeiro as “reformas” do mercado de trabalho, as privatizações e novas reduções dos montantes das pensões, tudo o que o governo já claramente se opôs, tendo dito e redito, que as consequências humanitárias seriam insuportáveis. Pelo contrário, se o “mercado de trabalho” tem algumas necessidades de uma reforma profunda, o que o Syriza reconhece aliás, é, não a reforma imposta pelo Eurogrupo, mas de uma reforma que introduza regras na selva que prevalece hoje.

Como diz Bruno Amable, divulgando o programa do governo grego: “Para o mercado de trabalho, prevê-se criar negociações centralizadas, em sentido contrário á desregulamentação do passado, assim como o estabelecimento de um código de trabalho. O aumento do salário mínimo será mantido como princípio, submetido às exigências da competitividade. Uma parte das reformas relaciona-se com a extensão da protecção social, nomeadamente na assistência na doença, o que é indispensável num país onde a austeridade fez crescer a miséria e a precariedade”

De facto, as reformas impostas pelo Eurogrupo mostraram-se contraproducentes. Esperando trazer mais de 20 mil milhões de euros aos cofres do Estado, não trouxeram senão 2,6 mil milhões de euros, e provocaram uma contração da produção económica que tornou a Grácia mais insolvente do que anteriormente às reformas.

Compreende-se que o governo grego se oponha a estas reformas e apresente uma lista de medida muito diferente, centrada em medidas de luta contra a fraude fiscal, a ineficácia da máquina fiscal, o clientelismo e a corrupção. Essas medidas estão quantificadas e prometem recolher o dinheiro necessário para que o governo grego ponha em prática as políticas de desenvolvimento, tanto no investimento como no consumo, que se consideram hoje absolutamente necessárias. 

Estas medidas são rejeitadas pelo Primeiro Ministro francês. O alinhamento com o Presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, é total. As palavras “progressos insuficientes”, “quadro institucional e compromissos respeitados”, “assistência financeira”, “prazos de reembolsos” são eloquentes, não de um político de esquerda, mas de um burocrata ao serviço das corporações financeiras transnacionais. Hipócritamente, finge desconhecer que a França não cumpriu o “quadro institucional e o respeito dos compromissos assumidos” relativamente aos deficites excessivos, solicitando um adiamento de dois anos!

De facto, ele teme certamente que um sucesso da política de Syriza seja interpretado em França (e no estrangeiro) com um sucesso da política anti-austeridade. Pode-se compreender o seu problema: no momento em que pretende implementar as medidas de austeridade em França, isso mostraria que há um outro caminho possível. Quando finge falar da Grécia, na realidade Manuel Valls fala de França, ou mais exactamente da visão austeritária, orçamental e repressiva que ele tem da França. Manuel Valls finge falar de economia, mas no concreto ele fala de política interna. E aí se encontra a segunda mentira. Nunca procurou explorar outras alternativas e fica horrorizado com a possibilidade da Grécia mostrar que essas alternativas existem e são na realidade bem mais praticáveis que as que escolheu. Ele arroga-se ser um homem de “esquerda” e sabe que o sucesso de Syriza os despojaria, a ele e ao Presidente da República, das ultimas roupagens de uma "esquerda" agonizante. 
          
O senhor Manuel Valls é “alemão”, no sentido político do termo. E António Costa em “alemão” recebeu a sua “solidariedade” partidária.


CR

sábado, 11 de abril de 2015

INTERVENÇÃO


Senhor Presidente, Excelentíssimos Senhoras e Senhores Deputados, senhora Chanceler

Nos seus melhores momentos, a política externa alemã teve duas prioridades: a unidade da Europa e uma política de boa vizinhança com a Rússia. Isto devia constituir motivo para pensar, senhora Merkel, se quiser ouvir, (aparte de Volker Kauder: Isso é rude!) que o nacionalismo e a divisão na Europa, durante os seus 10 anos no cargo, estão aumentando como nunca antes, e no que respeita à Rússia, uma política de proximidade, deu lugar a uma nova Guerra Fria. (aplausos da bancada do Partido A Esquerda)

Não há muito tempo atrás, o chefe do influente Centro de Estudos Stratfor, com franqueza surpreendente, explica o interesse dos EUA na Europa: O principal interesse dos Estados Unidos é impedir a cooperação entre a Alemanha e a Rússia, uma vez que, literalmente, "unidos eles são o único poder que nos pode ameaçar ", ou seja, ameaçar os EUA.

Esta percepção de ameaça para os interesses dos EUA foi atingida com sucesso para o futuro previsível. Isso começou quando a UE tentou retirar países para fora da sua cooperação económica e política com a Rússia no quadro da Parceria Oriental. (Claudia Roth, dos Verdes: Isso é um absurdo!)

Senhora Merkel, naturalmente isto visava a Rússia, mas também era contrário aos interesses dos países envolvidos. Você, e não a Rússia, empurrou-os para o dilema “ou-ou”. (aplausos da A Esquerda)

Como resultado a Ucrânia perdeu grande parte de sua indústria. Hoje, o país é um Estado falido, onde as pessoas passam fome, têm frio, e têm salários mais baixos do que as pessoas têm no Gana.

Mas o confronto com a Rússia não só destruiu a Ucrânia, como que atingiu toda a Europa. Não é, de fato, um segredo que os Estados Unidos estão agitando o conflito com a Rússia por motivos económicos. Quando o governo dos EUA fala sobre Direitos Humanos, o que eles estão realmente dizendo são direitos de perfuração ou de direitos de mineração. Actualmente na Ucrânia existe um inferno de muito gás de xisto para extrair. (aplausos da A Esquerda)

Se agora, no âmbito de outras redes de oleodutos da União Energética, estamos falando cada vez mais da crescente independência do gás russo, então deve dizer ao povo com honestidade o que isso significa: aumento da dependência de muito mais caro e ecologicamente devastador gás extraído nos Estados Unidos. Eu não considero isso uma visão responsável. (aplausos da A Esquerda)

A lista é longa, senhora Merkel, de anteriores chefes políticos que criticam a sua política para com a Rússia. Nessa lista, encontramos os nomes de seus antecessores Gerhard Schroeder, Helmut Kohl, Helmut Schmidt, e até mesmo Hans-Dietrich Genscher. Talvez isso é o que levou á sua perda de apoio.  Em qualquer caso, é correto que diga, que você, com o presidente francês, Hollande, tomou a iniciativa: Minsk II conduziu a significativamente menos mortes nas últimas semanas do que nas semanas e meses anteriores; foi aberta a porta para uma solução pacífica.(aplausos da A Esquerda)

Esta é, naturalmente, uma nova situação importante, e você, senhora Chanceler Alemã, e o presidente francês, merecem reconhecimento. (Tino Sorge, CDU / CSU: Então diga isto de vez em quando!)

No entanto, as pessoas de quem a paz e a segurança na Europa dependem agora devem ir em frente, com decisão e espinha dorsal. Este é, naturalmente, um problema, uma vez que decisão e espinha dorsal não têm sido exatamente o seu forte. (Aplausos da esquerda;  pateada da CDU / CSU)

É claro que não é aceitável, quando o tiroteio persiste a partir das fileiras dos insurgentes, (Tino Sorge: Não é aceitável) mas quando as tropas ucranianas - ou os batalhões nazis a lutar por eles – continuam disparando, então é bem menos inaceitável, e nenhuma palavra crítica de si é ouvida. (aplausos da A Esquerda]


Por que você não toma a iniciativa com palavras de censura quando o regime ucraniano, não obstante a sua falência previsível orçamenta quatro vezes mais para armas como fez no ano passado? Isso, não nos garante que o caminho para a paz tem qualquer apoio real no regime ucraniano!

Além disso, os EUA e a Grã-Bretanha ao enviar conselheiros militares e fornecer armas,  não estão a apoiar o processo de paz, mas a torpedeá-lo. Mas como imaginar sanções contra os EUA e Grã-Bretanha? Eu acredito que todo esse negócio de sanções foi um enorme erro através do qual a Europa deu um tiro no próprio pé. As sanções não devem ser prorrogadas. (aplausos da A Esquerda)

Nós não precisamos de mais tanques. Nós não precisamos de uma
tropa de intervenção da OTAN com 3.000 homens na Europa Oriental, que não protege ninguém, mas põe toda a Europa ainda mais em risco. (aplausos da A Esquerda]

Helmut Schmidt acertou quando ele já avisou, em 2007, que, quando se trata de paz no mundo, há muito menos risco vindo da Rússia do que da América, e que a NATO é apenas uma ferramenta para a manutenção da hegemonia americana. E se isso é correto, então ficamos com a conclusão principal: que a Europa deve finalmente fazer política separada e independente dos Estados Unidos. (aplausos da A Esquerda)

Jean-Claude Juncker apresentou a tese, de que precisamos de um exército europeu para mostrar que estamos seriamente a defender valores europeus contra a Rússia. Isso mostra apenas uma coisa, como muito longe estamos  do que os pais fundadores da União Europeia queriam . (aplausos da A Esquerda)

Naquela época era tudo - como você mesmo já disse muitas vezes - paz, democracia e solidariedade. Nunca mais o nacionalismo e ódio deviam separar as regiões da Europa. Mas para defender esses valores, nenhuns batalhões armados são necessários!

Se quer defender a democracia, senhora Merkel, deveria então fazer com que as regiões da Europa sejam finalmente governado por governos eleitos, e não pelos mercados financeiros, não por a tempo inteiro um banqueiro de investimento Mario Draghi, e, ainda mais, não por você. (aplausos da A Esquerda; interjeição de Michael Grosse-Bromer: dissociar-se da violência no momento. Isso seria um grande passo!)

Se quer a democracia, pare em seguida, parar os chamados Acordos de Livre Comércio, pare o TTIP que faria de governos eleitos apenas uma farsa.(aplauso da A Esquerda)

Essa seria a defesa dos valores europeus! Isso seria uma defesa da democracia, expondo estas inexplicáveis negociações TTIP e transações comparáveis.

Se quer ver uma Europa unificada, então pare de humilhar outros países e de impor programas que roubam às jovens gerações o seu futuro. (Manuel Sarrazin, Verdes, "Você está certo com a Grécia!")

Pare de prescrever as chamadas reformas estruturais na Europa, que só levam a crescente desigualdade e um sector de baixos salários cada vez maior.
Aqui na Alemanha por sua vez, em consequência destas políticas, três milhões de pessoas, apesar de terem um emprego, são tão pobres que não podem manter-se aquecidos, não têm o suficiente para comer - e muito menos têm recursos para ir de férias.  Em vez de tentar explicar esta política de exportação de calúnia, é chegada a hora - e muito no interesse da Europa – de corrigi-la. E não é menos importante o que está a asfixiar os outros países da união monetária, o dumping salarial alemão. (aplausos da A Esquerda)

O Ministro das Finanças Schaeuble instruiu recentemente o governo grego: "Sim, governar é sempre apenas um encontro com a realidade." ([Michael Grosse-Broemer (CDU / CSU): Certo! Max Straubinger (CDU / CSU): E assim é!)

Assim, só se pode dizer "Isso seria bom", bem, isso seria uma coisa boa quando o governo alemão pudesse experimentar o seu próprio encontro com a realidade. Porque não seria o Syriza, mas em vez disso, os partidos irmãos da CDU / CSU e SPD que ao longo das décadas empolaram os enormes déficites, para que eles e as camadas superiores pudessem encher os seus bolsos. (aplausos da A Esquerda]
A realidade é que também  sob o protetorado da troika que a senhora ainda valoriza ​​muito, cujas atividades criminosas você pode ver no documentário por Harald Schuman, a dívida grega ficou maior e os bilionários gregos ficaram mais ricos.
E você quer mantê-la? Então eu só posso dizer "Boa noite!"

E se você quer nosso dinheiro de volta, obtenha-o daqueles que o tomaram, e que não eram as enfermeiras, nem os gregos com pensões; eram os bancos internacionais e o grego Upper Crust.  É desses que poderia ajudar o governo grego a recuperar o seu dinheiro.

Quem avança com crédito para alguém já sobrecarregado com dívida nunca vai ver seu dinheiro de novo, mas a responsabilidade está em você, senhora Merkel, e você, Sr. Schaeuble, e não sobre o novo governo grego, que está agora há quase dois meses no cargo.

Quanto ao debate sobre eventuais indemnizações, eu só posso dizer que, não importa a forma como a questão fica juridicamente avaliada, o mínimo que se deve esperar do Estado alemão é algum mínimo de sensibilidade em lidar com a questão. (aplausos, da A Esquerda; riso, da CDU / CSU]

Devo dizer, você ainda se ri. Isso é triste. Da forma como os ocupantes alemães devastaram a Grécia, e como um milhão de homens e mulheres gregos perderam as suas vidas neste capítulo obscuro da história alemã, acho que as observações de alerta de você, Sr. Schaeuble, e de você, Sr. Kauder, simplesmente desrespeitosas, e eu disso me envergonho.(aplausos da A Esquerda, bem como de Juergen Tritten, gritos de CDU / CSU: Oh!]

Para lembrar que o decurso da história também vai por outro caminho, possa, no final, citar o discurso de Richard von Weizsaecker por ocasião do 40º aniversário da libertação - vou terminar, Sr. Presidente - o discurso em causa, relativamente á Rússia e Europa Oriental, mas, naturalmente, também é válido para a Grécia:

"Quando pensamos sobre o que os nossos vizinhos orientais tiveram que sofrer durante a guerra, compreendemos melhor o equilíbrio, e o respeito por uma vizinhança pacífica com estas regiões como pontos centrais da política externa alemã. O que importa, é que ambos os lados se lembrem, e que ambos os lados tenham respeito pelo outro ".

Sim, somente quando relembramos, e somente quando nos respeitamos uns aos outros - só então vamos voltar a uma política de boa vizinhança, tanto no interior da UE e com a Rússia.

SARA WAGENKNECHT, COMUNISTA, DEPUTADA NO PARLAMENTO ALEMÃO E EX- EURODEPUTADA PELO DER LINKE (A Esquerda)


Tradução CR

Will Butler - Something's Coming

o pantomineiro

Como tantos outros

E o pantomineiro sempre
jurará que não defende para 

Portugal um modelo económico 
baseado nos baixos salários !




(em otempodascerejas2.blogsopt.pt)

terça-feira, 7 de abril de 2015

noticia que interessa


Os primeiros passos de um desenvolvimento pacífico, uma nova vida para o Donbass, o seu renascimento.

Ao fim de 8 meses, o caminho de ferro entre Donetsk e Lugansk (re)abriu. Três vezes por semana da estação de Yasinovataya - Passazhirskaya em Donetsk parte um comboio que passando por Yenakiyevo, Debaltsevo, Rudakova e 14 outros lugares chega a Lugansk. 

Queira ou não queira o exército ucraniano e os seus dirigentes fantoches, ávidos de sangue, a vida retomará sempre o seu curso

segunda-feira, 6 de abril de 2015

PORTUGAL

O BETINHO CHEGOU A PRESIDENTE DA CÂMARA...

JÁ PUBLIQUEI A BIOGRAFIA AQUI EM 24 DE JULHO DE 2011...


VER   a biografia de um betinho

domingo, 5 de abril de 2015

POEMA

PRETO NO BRANCO




O preto na teoria é bom
O preto na cercania não é bom
O preto no xerox é bom
O preto ao vivo não é bom
O preto idealizado é muito bom
O preto com um fato não é bom
O preto na Casa Branca é bom
O preto nos corredores não é bom
O preto na tese é bom
O preto em tese não é bom
O preto da guitarra é bom
O preto de boné virado não é bom
Preto, preto, preto
O preto que enuncia
A cor que mancha
A mente branca

Daniel Oliveira
(em coletivorosadopovo.blogspot.pt)


O PCP esfrega na cara de Fernando Ulrich





A sova do deputado Honório Novo (PCP) no banqueiro sr. Fernando Ulrich, do BPI


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a verdade histórica, relembrar é preciso!

sexta-feira, 3 de abril de 2015

John Newman - Cheating

FRAGMENTO DA HISTÓRIA



Escrito há 45 anos e lido em pleno tribunal plenário, este discurso do meu pai ilustra a coragem de muitos, dizendo na cara dos carrascos aquilo que pensava deles, sem medo.
Já atrasada nas comemorações dos 94 anos anos do PCP, não podia deixar de partilhar este texto, que fala do que foi o Partido e que critica o regime ditatorial - em tantas coisas tão parecido com o de hoje.

Rita Veloso


Intervenção de Ângelo Veloso no Tribunal Plenário - 1970

1 – No início deste julgamento pus-me à disposição deste tribunal para responder a quaisquer perguntas. Afirmei então que não negava nem reconhecia fosse o que fosse, que era à acusação que competia apresentar provas. A acusação nada provou e nada alegou.

2 – Chegou a altura de analisar o conjunto deste processo. Em resumo o caso é este:
         Em 25 de Maio de 1969 são presos dentro de uma casa, 4 homens e uma mulher. A mulher é expulsa do país e acusada de ser um agente da subversão internacional; o dono da casa é acusado de ser militante de muita confiança d P.C. Três outros são acusados de serem funcionários. Duas mulheres destes são também acusadas de serem funcionárias. No meu caso concreto, acusam-me NEM MENOS de ser membro da direcção do P. de pertencer à D.O.R.L. de controlar o comité local de Lisboa, de controlar o sector dos intelectuais, de controlar o sector dos estudantes, de controlar o aparelho de imprensa, de controlar os Fundos.
E ainda de ser reincidente.

3 – Para o simples senso comum, esta acusação não é só exagerada, é disforme, inconcebível. Mas não é só isso. Comparemo-la com a nota oficiosa, também ela emanada da PIDE. Na nota oficiosa diz-se que em 1959 emigrei, na pronúncia, diz-se que passei a viver à custa do Partido na clandestinidade, a nota oficiosa afirma que era agora membro do CC, a pronuncia afirma que o era desde 1964. A pronúncia diz que estive no 6º Congresso em Kiev, a nota oficiosa diz que fiz diversas permanências na União Soviética. Etc., etc.

4 – Para explicar estas contradições é preciso regressarmos a Maio-Junho de 1969. Por um lado, estava-se em plena crise na Universidade de Coimbra, e, em Lisboa, sobretudo no Técnico e em Direito, crescia a efervescência: a acção e a luta estudantil ascendiam em toda a universidade portuguesa.
      Por outro lado, desenvolviam-se entre os democratas as acções preparatórias de participação nas chamadas eleições para a Assembleia Nacional. Mas sobretudo o amplo movimento grevista dos trabalhadores de Lisboa, Baixo Ribatejo e Margem Sul trazia para primeiro plano a pujança política da classe operária e do seu Partido.

5 – A nota oficiosa responde a esta situação, reflecte necessidades políticas de procurar travar o movimento popular, fazendo crer que se assestava um golpe irreparável no Partido Comunista.
      Daí que era do CC e controlava este mundo e o outro. Daí que uma inofensiva americana era um agente responsável da subversão. Daí que Picado Horta era membro de confiança do P., daí que eramos todos funcionários, etc., etc.

6 – Quando fez publicar a nota oficiosa a PIDE provavelmente esperava arrancar de alguns de nós as tais confirmações. Mas não o conseguiu. Mais: o escândalo começa a surgir. C. Picado Horta é pessoalmente conhecido de pessoas altamente afectas ao regime, todos sabem que ele não é comunista, ninguém ousa duvidar que está a sofrer violentas torturas, que se lhe procuram arrancar a todo o custo declarações falsas.

7 – A PIDE vê-se num beco sem saída. Por um lado o escândalo. Por outro lado não pode voltar atrás, desdizer-se. Atira para o saco e à pressa um conjunto informe e acusações, convencida talvez que de tanta coisa, o Tribunal alguma há-de reter. O inspector Tinoco diz-me: não temos qualquer base para o acusar de ser da Direcção do P. mas vamos fazê-lo porque talvez pegue e porque você nada nos respondeu.

8 – Ao mesmo tempo toca a criar aos réus todas as dificuldades para a defesa. 
Já foram referidas aqui. Só quero relatar a este tribunal este episódio concludente, devidamente comprovado por uma carta minha junto aos autos com a censura de Peniche. Quando se protesta junto do director de Peniche contra a apreensão das minhas cartas em vésperas de julgamento, ele justifica-se com instruções expressas da PIDE. E como se lhe faz notar que a cadeia é do Ministério da Justiça, impávido o director responde que quem manda naquilo é a PIDE, que nada ali se faz sem o conhecimento e autorização da PIDE.

9 – Pelo mesmo conjunto de razões, a Censura recebe ordens terminantes, contra o que é habitual, para nada deixar publicar referente a este julgamento.

10 – Mas apesar de tudo, não é possível condenar os réus sem audiências públicas e então assiste-se a isto:

                                   A ACUSAÇÃO DEIXA CAIR O PROCESSO:

       Vêm aqui 3 ou 4 declarantes dizer que eu morava no Bordalo Pinheiro, mas nem se lembram do meu nome. Testemunhas de acusação não aparecem.
       O acusador não alega.

11 – Porquê? Porque então todos estes aspectos disformes do processo, todas as irregularidades e ilegalidades cometidas teriam surgido ainda mais evidentes e espantosas.

12 – Em suma: este processo não é só político pelos aspectos processuais e jurídicos. É-o do topo a baixo. E só se pode compreender considerando os condicionalismos e as vicissitudes políticas.

13 – O que quero declarar é o seguinte: é que tenho orgulho de ser militante do Partido Comunista, que não tenho a honra de pertencer à Direcção do Partido, que a minha mulher não era funcionária nem membro do Partido.

II
1 – Falou-se aqui muito do P. Comunista.
     A acusação afirma que é uma associação secreta, ilícita e subversiva. As minhas testemunhas, de todos os quadrantes do pensamento democrático, demonstraram aqui três coisas:
     1º que em Portugal todas as organizações ou partidos políticos são automaticamente considerados associações ilícitas, secretas subversivas;
      2º que os comunistas portugueses constituem uma corrente de amplo significado e importância no conjunto das tendências políticas nacionais;
         3º que o PCP é apenas… um partido político. É apenas o único partido que pode resistir às perseguições, à violência, à histeria anticomunista da propaganda governamental

2 – De facto o P.C.P. é o resultado inevitável do amadurecimento político da classe operária portuguesa, no impacto da grande revolução socialista de Outubro. Surge em 1921, fundado por militantes operários e intelectuais, anarquistas e sindicalistas, experimentados nas lutas da CGT, mas conquistados pelas ideias marxistas.

3 – Desde então, apesar de todas as vicissitudes, apesar de todos os fluxos e refluxos acidentais, o PCP não cessou de se desenvolver, tornando-se não só um grande partido nacional como o mais forte agrupamento antifascista português. Apesar de na clandestinidade, é público e até oficialmente reconhecido que o PC tem estado na vanguarda de todas as grandes acções de massas desenvolvidas nestes últimos 40 anos, nas lutas económicas ou políticas, , nas acções sindicais ou culturais ou associativas.

4 – Esta vitalidade e esta expansão explicam-se porque o PC é o partido da classe operária portuguesa, sua criação e sua obra. O PCP reflecte a maturidade, a experiência e o conteúdo revolucionário da própria classe operária. Tal como a classe operária se tornou desde a década de 30-40, a principal classe antifascista, assim o PC se transformou no mais forte partido político antifascista.

III
1 – Acusam o PCP de intentar mudar o regime e a forma de governo por meios não consentidos ou violentos.
      Os depoimentos das testemunhas provaram que esta acusação inverte os termos da realidade. Provaram que não existem em Portugal, meios consentidos para a expressão da vontade popular, provaram que o próprio regime empurra para uma solução violenta dos problemas políticos nacionais.
      Vejamos os factos.

2 – O Estado Novo implanta-se em Portugal por um golpe de Estado anticonstitucional e logo se define a si mesmo como antidemocrático, antipopular e ditatorial. Copia, nos termos e nos modelos, os regimes de Mussolini e de Hitler a quem incensa e apoia.

3 – Ao longo destes 44 anos, o regime depura, aperfeiçoa e avoluma todo o aparelho de Estado. Os quadros das forças armadas sofrem intensa e constante selecção política, designadamente os altos comandos. A GNR, a PSP, a PVT e mesmo a G.F. tornam-se corpos policiais, altamente treinados na repressão aos trabalhadores e aos antifascistas, odiados e temidos pelo povo.
     Cria-se uma polícia política de tipo hitleriano – a PVDE, depois PIDE, depois DGS que se estende a todo o território nacional e mesmo às colónias. Esta polícia assume um papel cada vez mais preponderante em todo o aparelho de estado, que coordena, dirige e controla a todos os níveis. Instituem-se tribunais políticos, altamente depurados. Etc..

4 – É evidente que a criação e o reforço de um tal aparelho de estado é o resultado e também é o agente de uma repressão totalitária, generalizada e incruenta. Uma constante fundamental da política do regime tem sido a violência e o terror do Estado contra os trabalhadores e contra os antifascistas, sejam comunistas ou liberais, católicos ou socialistas. Perseguições a todos os níveis, prisões, torturas, longas penas, assassinatos são factos    correntes neste país.

5 – Simultaneamente, anula-se toda a dependência entre os órgãos do poder e a vontade nacional. Os poderes legislativo, judicial e executivo dependem exclusivamente do próprio governo. Mantem-se é certo alguns sufrágios, apenas porque os portugueses o exigem e é necessário à fachada do regime. Mas é público e vai sendo oficialmente reconhecido que tais “eleições” são sistematicamente burladas.
     Não há liberdade de imprensa, nem de expressão de pensamento, nem de associação, em sindical, nem de greve.
6 – Conhecem-se, aliás, declarações públicas de governantes que exprimem esta situação. Salazar falava nos golpes de Estado anticonstitucionais e nos safanões a tempo. 
     O actual Presidente do Conselho afirma que não permitirá a entrada na Assembleia nacional de um grupo de contestação ao regime.
     O actual M. do Interior afirma que o governo nunca aceitará subordinar-se à ditadura de qualquer maioria (23.1.69).
     Ao referir-se ao Pacto Ibérico, o Presidente do Conselho afirma que ele visa a luta contra a subversão, isto é, contra os antifascistas.
     Em vésperas de eleições, o M. do Interior previne que não será possível encarar a confrontação global das estruturas constitucionais e da política do governo e ameaça com “a reacção indispensável” do governo.

7 – Em suma, pela natureza do aparelho de Estado, pela repressão sistemática da vontade popular, pela supressão das liberdades fundamentais é o regime que impede sistematicamente qualquer solução do problema político nacional, que a si mesmo se institui como o único regime constitucional.

8 – Os comunistas portugueses não defendem a violência e, em múltiplas oportunidades, têm apontado a possibilidade e a importância de imprimir um novo curso à vida política nacional que poupasse o país à guerra civil. São os fascistas que há 40 anos recorrem à violência e ao terror para impor o seu regime. Perante isto, os comunistas não se dobram nem se demitem e dizem abertamente à Nação que está nas suas mãos conquistar a liberdade política e que é necessário e urgente instaurar um Governo Provisório que assegure as liberdades fundamentais e realize eleições para uma Assembleia Constituinte.

IV
1 – Pode-se levantar, e levanta-se de facto, a seguinte questão: Mas é necessário e urgente a mudança de regime? Corresponde ou não a regime aos interesses e à vontade nacional?
     É evidente que este ponto é essencial na minha defesa.

2 – É hoje comumente aceite, em Portugal e no estrangeiro, que o golpe militar de 28 de Maio instaurou um regime fascista, isto é, a ditadura dos monopolistas e dos latifundiários, aliados dos imperialistas.
      Por um lado, o regime ditatorial a que me referi.
      Por outro lado, os mais baixos níveis de desenvolvimento económico, de nível de vida, de saúde, de instrução e de cultura, associados a anormalmente altos ritmos e níveis de concentração e centralização monopolista, a um sistema bancário tentacular, ao latifúndio, à exploração colonial, à penetração do capital estrangeiro e a correspondente subordinação ao imperialismo.

3 – Hoje começam já a ouvir-se algumas instâncias oficiais falar na crise industrial, na crise da agricultura, nos vergonhosos índices de assistência à saúde, no desequilíbrio na distribuição da riqueza, na rotura do sistema de ensino, na emigração como resultante de um conjunto de desequilíbrios e crises nacionais. Reconhece-se a invasão do capital estrangeiro e o seu papel na espoliação do povo português e na rapina das riquezas e do trabalho nacionais. Reconhece-se nas guerras coloniais um cancro para a paz. Admite-se o isolamento e o descrédito internacionais.

4 – Crises na economia, no ensino, na assistência, na cultura. Crise demográfica. Baixo nível de vida. Guerras. Subordinação ao imperialismo. Tais são alguns dos resultados da política do regime em 40 anos de governação, seu fruto inevitável, lógico, necessário.

5 – A esta situação respondem os oito pontos do Programa do PCP, cuja realização conjunta é a garantia de arrancar de vez as raízes do fascismo e abrir ao país o caminho de um desenvolvimento democrático, pacífico e independente.

6 – Hoje – e há quase dois anos – a questão mais controversa é esta:
     Mantém-se em Portugal um regime fascista? Isto é, o governo do novo presidente do Conselho é o governo de uma ditadura ao serviço dos monopolistas e dos latifundiários aliados aos imperialistas?
     Os comunistas portugueses respondem e demonstram: o regime fascista mantém-se.

V
1 – De facto as características do regime e da política governamental não se alteraram com o novo Presidente do Conselho.
      A demagogia “liberalizante” não instituiu um novo regime, é apenas uma nova táctica.
     Esta táctica visa atrair novos apoios, fomentar ilusões, paralisar sectores oposicionistas, isolar o P. C., criar expectativa nas mesmas. O que se intenta é salvar o regime mascarando o prosseguimento da política tradicional de Salazar.

2 – O actual governo é manifestamente um governo de união de vários grupos e correntes fascistas. Surgem, é certo, rivalidades, choques de ambições pessoais, conflitos de opinião dos processos a seguir para consolidar um regime num momento de grave crise. Mas o que caracteriza tal união é o acordo nos aspectos essenciais duma mesma política de tirania, de miséria, de explorações e guerras coloniais, de entrega ao imperialismo.

3 – No decurso de quase dois anos, a demagogia governamental cifrou-se em vagas de promessas, com muitas conversas de família, e em medidas insignificantes que reformando aparentemente certas estruturas e métodos do regime, ao fim e ao cabo intentam reforçá-lo.
   Continua a ser negado o direito de organização às forças políticas antifascistas. O regime do partido único prolonga-se numa União Nacional, com este ou com outro nome. 
   Proclama-se a abolição da homologação pelo governo das direcções sindicais, mas passa a exigir-se a homologação prévia.
    Realizam-se eleições nas A. Estudantes encerradas ou com Comissões Administrativas, mas logo se encerram outras A.E. e até as Faculdades e Academias.
      Anuncia-se o respeito pelas opiniões, mas continua a censura, continuam as prisões de antifascistas, de trabalhadores em greve, de estudantes em luta.
      Extingue-se o nome da PIDE, mas conserva-se e reforça-se (em número, em ordenados e estrutura) a polícia política. Realizam-se eleições para a Assembleia Nacional mas continuam as burlas eleitorais. Etc, etc.

4 – Este julgamento é um exemplo vivo da continuidade da política repressiva do regime.
      O Presidente do Conselho afirma que “não há em Portugal, presos políticos”, mas os presos continuam na cadeia e novas prisões atingem democratas de todas as tendências. Prosseguem as buscas, os stops, as rusgas, as intimidações. Continuam os espancamentos de manifestantes, de participantes em romagens ou reuniões. Por detrás da demagogia, rompe a realidade duma política de violência ou de terror.

5 – O regime continua a ser o fiel servidor dos monopólios e dos latifúndios. Chama-se ao Conselho Económico Interministerial os representantes directos dos Conselhos de Administração, funde-se ainda mais intimamente a gestão do Estado com a gestão do capital financeiro.
   A pretexto da concorrência estrangeira, acelera-se a concentração monopolista e a liquidação das pequenas empresas.
      A pretexto de medidas de emergência, intensifica-se a centralização nos têxteis, nas pescas, nas conservas, na siderurgia, nas metalomecânicas, etc. A coberto da necessidade de investimentos – que as guerras coloniais consomem – abre-se o país e as colónias à entrada de capital estrangeiro.
      De facto, colocam-se os recursos do Estado ainda mais amplamente ao serviço dos monopólios, facilita-se a especulação, facilita-se a apropriação das pequenas economias. A pretendida modernização não é mais do que a consolidação do capitalismo monopolista de Estado.
6 – A política de baixo nível de vida das classes trabalhadoras, de doença e de miséria, mascara-se com novas palavras, mas na realidade prolonga-se. Pretende-se levar os trabalhadores a produzir cada vez mais, mas esconde-se que a produtividade tem aumentado muito mais depressa que os salários reais, esconde-se que é cada vez maior a parcela do rendimento nacional que cabe aos capitalistas. Ainda recentemente economistas do F.D.M.O. concluíram que 5% da população portuguesa recebia tanto de rendimento nacional quanto os restantes 95%.
      A inflação atira para cima dos trabalhadores com o peso de gigantescas despesas de guerra e de repressão, provocando ao mesmo tempo os chamados “lucros de inflação”.
    Centenas de milhares de braços abandonam o país, continuando o decréscimo absoluto da população portuguesa.

7 – As guerras coloniais continuam a exigir à nação pesados sacrifícios em vidas e haveres. O governo fala em paz, acenando mesmo com a autonomia administrativa, mas na prática reforça o aparelho militar, prosseguem os actos de terrorismo e de diversão contra os movimentos de libertação dos povos de Angola, Guiné e Moçambique. 
      Estreita-se a colaboração militar e política com os regimes da África do Sul e da Rodésia.
      O país é assim arrastado para aventuras desastrosas, de consequências imprevisíveis, que conduzem a um maior isolamento e descrédito do país.

8 - Na política internacional, o novo governo empreende um conjunto de iniciativas que nada mais fazem do que agravar o carácter belicista e reacionário da política tradicional do regime. Renovam-se as alianças com a nazi República Federal Alemã e o enfeudamento aos Estados Unidos, dentro e fora da NATO, a troco da indispensável ajuda às guerras coloniais.
     Estreita-se a aliança com o regime franquista, contra a luta pela libertação dos povos espanhol e português. Compra-se ao auxílio directo da África do Sul à guerra colonial com vultuosas concessões no Cunene e em Cabora Bassa.
    Intenta-se criar o Pacto do Atlântico Sul com o regime reacionário do Brasil a troco de facilidades em África.
   Tal política não pode deixar de conduzir a novos fracassos, a maior enfeudamento e ruína da Nação.

9 – O governo não conseguiu os seus objectivos. Criou ilusões, gerou expectativas, obteve mesmo certa complacência da imprensa burguesa internacional. Mas não conseguiu novos apoios, não dividiu os democratas, não isolou o Partido Comunista, foi impotente para impedir o agravamento da luta de classes.
      As lutas reivindicativas da classe operária, designadamente a vaga de greves de Janeiro-Março de 69, deitaram por terra as manobras do governo, dinamizaram todo o movimento antifascista, patentearam a força política da classe operária e do seu partido.
      O irreprimível movimento da juventude estudantil, sobretudo a crise coimbrã, puseram a nu a velha face do regime.
      A expansão do movimento democrático, antes e durante as eleições, demonstrou que o regime está isolado da Nação, que a demagogia é impotente para castrar a luta dos democratas, que a liberdade política é a reivindicação primeira do povo português.
      Mas mostraram também que o regime persiste em fechar todas as saídas legais e pacíficas para a solução dos problemas políticos nacionais que os fascistas continuam dispostos a recorrer às forças armadas e à intervenção estrangeira se sentirem o regime em perigo, se esse for o único caminho para vencer a vontade nacional.

VI
      Sei que vou ser condenado. Sei que irei longos anos para a Cadeia de Peniche, onde se condensam alguns dos aspectos mais negros do regime, onde impera a coacção moral e física, a arbitrariedade e a prepotência, os castigos e a má alimentação, onde um director psicopata e invertebrado passeia o seu sadismo.
       É a 3ª vez que estou preso.
       É a 2ª vez que sou julgado.
       Revejo estes 20 anos.
   Revejo alguns dos melhores homens que conheci, uns mortos prematuramente, outros assassinados, outros destruídos pela violência da própria luta.
     Revejo as centenas e centenas de militantes comunistas que pessoalmente conheci e que de mim sabiam apenas o que é em mim fundamental: que sou comunista.
      Revejo os meus companheiros de clandestinidade, meus camaradas e meus amigos, esses homens e essas mulheres que, no sobressalto e no perigo, erguem a resistência no meu país.
      Repito: sei que vou ser condenado.
     Mas digo e redigo: neste tribunal, o meu lugar é aqui. Os serventuários da exploração e da tirania, esses é que são os criminosos.

                                                                                      5 de Março de 1970
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