um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

POR MOMENTOS, A ILUSÃO DO EMPREGO


Foram perto de cem, de Paredes e arredores. Desempregados, domésticas, estudantes, homens e mulheres, em direcção ao Norte da França. A apanhar uvas nas quintas na região de Champagne – Ardenne. São longos 3.000 kms de estrada, percorrida como se fosse o caminho duro da salvação. São 12 dias de trabalho sazonal, cada um deles certamente sem horário fixo. Por 750 euros, quantia que parece muito, para ajudar á sobrevivência. O sonho momentâneo de uma vida melhor nas terras da Revolução Francesa.

Há muitos escravos disponíveis, a chamada mão de obra barata. Les Portugais  gais ao serviço des bons patrons, uma revisitação da história passada, uma ironia.

E o Ministro em Lisboa fala da recuperação económica e o Presidente da Câmara fala da 7 .ª maior diminuição do desemprego no Concelho, em relação aos 86 concelhos da Região Norte. Contentes.

O vinho francês incorpora o desencanto de um povo sedento de justiça.


CR

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Carlos Mendes - O Crato



(Original " O Pato" cantado por João Gilberto)
Música - Jaime Silva / letra - Neuza Teixeira
Adaptação (Letra) - Nuno Gomes dos Santos
Voz Carlos Mendes

os russos vem aí!


Os bombardeiros pararam ... os russos foram ás compras á Feira de Espinho ... e não é que não pagaram o IVA!

Já os Simpsons tinham alertado...

Rise of the Soviet Union - The Simpsons saw it coming! from sure not on Vimeo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

jacques Brel _ La Chanson des Vieux Amants

A FRASE DO DIA

Uma central sindical que convida um gajo como Passos Coelho para encerrar as comemorações do seu aniversário diz tudo sobre a central. Essencialmente, que não é sindical.

Ricardo M. Santos

terça-feira, 28 de outubro de 2014

The Kinks - Lola

CNA- PENAFIEL NOVEMBRO 2014



SEM PATERNALISMOS, UMA OPINIÃO

Dilma venceu. Por pouco, mas venceu. Fiquei contente. Algumas lições da História os progressistas brasileiros, e nomeadamente os comunistas, deviam aprender.

A Direita não é alternativa mesmo que seja á pior e falsa Esquerda. Não há neutralidades possíveis quando as forças de direita, conservadoras, pró-capitalistas, se juntam num polo político e eleitoral único. A autonomia dos comunistas e a sua identidade defendem-se coerentemente quando em cada momento histórico haja a lucidez política de optar pelos caminhos do futuro de uma sociedade socialista. O esquerdismo inconsequente tem levado os povos por trilhos sem saída.

O povo está melhor AGORA com Dilma Presidente ou estaria com Aécio? A resposta parece-me clara.
A Direção do PCP convocou em 1986, e em poucos dias,  um Congresso Extraordinário para mudar a orientação de voto em eleições presidenciais em Portugal. Tratava-se de passar do voto numa candidatura própria numa primeira volta para o voto em Soares, contra Freitas do Amaral. Voto decisivo. Voto coerente. Voto corajoso.

Ficou na História o conselho de Álvaro Cunhal, sobre o “engolir de sapos vivos”: tapem com as mãos a fotografia do candidato no boletim de voto, mas votem!
CR

domingo, 26 de outubro de 2014

na terra dos vinhos verdes


QUINTA DA AVELEDA
QUINTA DA AVELEDA EM NÚMEROS

30 milhões de euros de facturação da empresa em 2013

16 milhões de garrafas de vinho vendidas em 2013

10 milhões de quilos de uva transformados em vinho

170 paises onde se vende vinho da Quinta da Aveleda

145 pessoas trabalham na Quinta da Aveleda

70% a percentagem do vinho Casal Garcia nas vendas da empresa

1.800 produtores de Paredes, Penafiel e Baião fornecem 8,5 milhões de quilos de uvas

(em Jornal O VERDADEIRO OLHAR)

terça-feira, 21 de outubro de 2014

POEMA

FESTA ALEGÓRICA

O bobo do imperador Maximiliano
organizou uma festa alegórica
que o povo e a corte de soberano à frente
saborearam em grandes gargalhadas:
juntou na praça todo o cego pobre,
prendeu a um poste um porco muito gordo,
e anunciou ganhar o dito porco aquele
que à paulada o matasse. Os cegos todos
a varapau se esmocaram uns aos outros,
sem acertar no porco por serem cegos,
mas uns nos outros por humanos serem.
A festa acabou numa sangueira total:
porém havia muito tempo que o imperador
e a corte e o povo não se riam tanto.
O bobo, esse tinha por dever bem pago
o fabricar as piadas para fazer rir.

JORGE DE SENA

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Ataque do partido fascista Svoboda*, da Ucrânia, à Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Complutense de Madrid (UCM)

Red Roja Madrid



Em 8 de outubro, realizou-se uma conferência na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Complutense de Madrid, no âmbito das jornadas "A tragédia humanitária no Sueste da Ucrânia", organizadas pela referida Universidade e apoiadas pelo Comité de Apoio à Ucrânia Antifascista de Madrid, Essência do Tempo e a Plataforma Global Contra as Guerras. Esta conferência contava com a participação de Serguei Markhel, testemunha do massacre que ocorreu na Casa dos Sindicatos de Odessa, em Maio passado.

Quando se ia iniciar a sessão e os participantes ainda entravam na sala observaram que seis militantes do partido nazi ucraniano Svoboda estavam aí presentes para provocar distúrbios. Começaram por insultar os participantes e, posteriormente, agrediram vários deles, incluindo alguns professores e o Decano e Vice-Decano da Faculdade, que acorreram ao local quando se deu o alarme.
Finalmente, os participantes enfrentaram os fascistas e responderam às suas agressões, tendo estes fugido do campus numa carrinha com matrícula oficial da Embaixada da Ucrânia em Madrid.
No dia seguinte, 9 de outubro, realizava-se outra sessão com o mesmo tema e no mesmo lugar, e também se puderam ver carros oficiais da Embaixada da Ucrânia no campus, embora desta vez não tenha havido agressões.
Perante factos de tanta gravidade a Rede Roja:
. Afirma que este é um ataque contra a autonomia das Universidades Públicas e contra os direitos políticos, perpetrado pelo governo fascista ucraniano, que não pode ficar sem resposta.
. Exige que o Reitor da Complutense e o Decano da Faculdade de Políticas informem urgentemente o Ministério dos Negócios Estrangeiros deste ataque, que, graças à resposta corajosa de estudantes e professores não se repetiu no dia seguinte.
. Saúda todos os que lutam contra o fascismo, todos os que enfrentaram os agressores e os fizeram recuar. Perante o fascismo, resistência popular.
. Além disso, tanto as autoridades académicas como o resto da comunidade educativa devem exigir a ruptura das relações com o governo fascista da Ucrânia e o encerramento da sua embaixada em Madrid, tendo em conta que os atacantes nazis agiram sempre, como pode ver-se nas fotos, com a cobertura oficial da Representação diplomática de Kiev em Madrid.
Como já foi mostrado, o fascismo atua agressivamente, com toda a impunidade, tornando-se mais evidente nos tempos de profunda crise como a que vivemos, quando se agudizam radicalmente as contradições de classe e os surtos fascistas e autoritários se multiplicam. À classe operária, aos estudantes e aos trabalhadores compete organizar a resistência e, entendendo as razões comuns da luta antifascista das Milícias Populares do Donbass, concretizar toda a nossa Solidariedade Internacionalista.

NÃO PASSARÃO!
CONTRA O FASCISMO, PODER POPULAR!


* Nota: O partido nazi Svoboda participou no golpe orquestrado e armado pelo imperialismo ianque-europeu. Posteriormente, tornou-se parte do novo governo ucraniano, ocupando a vice-presidência e alguns ministérios-chave, como a defesa, a educação e a integração na União Europeia. Após o massacre de Odessa, onde 42 pessoas foram assassinadas no decurso do incêndio da Casa dos Sindicatos, provocado por vários partidos fascistas da Ucrânia, uma deputada do Svoboda no Parlamento, Irina Farion disse: “Bravo, Odessa. (...) Que os demónios assem no inferno”

domingo, 19 de outubro de 2014

Kavinsky & Lovefoxxx - Nightcall



Musica da Banda Sonora de DRIVE, filme de 2011

UM MOMENTO IMPORTANTE (I)


Decorreu no dia 17 de Outubro uma sessão Extraordinária da Assembleia Municipal de Paredes. A Ordem do Dia incluía a discussão e aprovação dos pontos: Documentos Previsionais para 2015, Contracção de Empréstimo de Saneamento Financeiro, Contrato Programa entre o Município e a AMI Paredes, Relatório do 1.ª Semestre do Auditor Externo, e por fim  Organização dos Serviços Municipais.

Não havendo, de acordo com o Regulamento da Assembleia, Período de Antes da Ordem do Dia, em Sessão Extraordinária, passou-se de imediato á Ordem do Dia.

Os Documentos Previsionais são, grosso modo, documentos que incluem as grandes opções do Plano e o Orçamento. Respeitam as regras de contabilidade previstas no POCAL. Têm portanto uma vertente contabilística estrutural mas baseiam-se sobretudo em opções políticas evidentes. Nas grandes opções do Plano estão incluídas as linhas de desenvolvimento estratégico da autarquia bem como o plano plurianual de investimentos, em espaço temporal de 4 anos, com previsão de despesas e de receitas.

Relembrado isto (muitas vezes ignorado, raramente explicado), percebe-se que:
1) O Executivo (a Maioria) tem todas as condições para elaborar os Documentos Previsionais (poder político, assessoria técnica, conhecimento dos dossiês, na globalidade e continuidade) o que não acontece com as Oposições, limitadas nos poderes executivos, operacionais e de intervenção;
2) O Executivo (a Maioria) assume uma responsabilidade política única na qualidade e seriedade desses Documentos Previsionais, bem como na concretização das políticas aí identificadas, objecto das suas opções), ao contrário das Oposições;
3) O Executivo (a Maioria) ao não abrir espaços de diálogo e participação a outros (Oposições, Juntas de Freguesia lideradas pelas Oposições, organizações da sociedade civil) na  elaboração dos Documentos Previsionais, ao arrepio do Estatuto do Direito de Oposição, coloca-se como seu único autor, diminuindo-lhe a sua abrangência  consensual e eficácia;
4) O Executivo (a Maioria) exerce assim uma legitimidade formal restrita, submetendo sem crítica consequente os Documentos Previsionais á aprovação da Assembleia em que é maioritária.

São portanto evidentes os raciocínios seguintes:
1)    Os Documentos Previsionais não admitem, neste contexto, qualquer alternativa, qualquer aditamento, qualquer alteração, por mínima que seja. A História passada tornou a metodologia “lei”.  São plesbicitados os Documentos em função da representação eleitoral obtida nas eleições autárquicas. A sua divulgação e discussão representam um mero formalismo dito “parlamentar” que anula a verdadeira democracia – a de intervir e participar
2)    Os Documentos Previsionais, independentemente do seu conteúdo, têm assim o seu destino traçado, tanto no Executivo como na Assembleia.  
3)    Deveria ser necessariamente sempre assim? Não. Democratas, verdadeiros democratas, sem medo da razão dos outros, deveriam ser muito mais exigentes. É mais trabalhoso? E daí?

Na próxima, falarei do conteúdo das Propostas Previsionais para 2015 da Câmara Municipal de Paredes

sábado, 18 de outubro de 2014

texto


Miguel Tiago 

em poesiaemcodigoaberto.blogspot.pt

sangue e silêncio 

anda, entra! dizia a mãe ao miúdo assustado que chorava à porta da escola convertida em abrigo. anda depressa! continuava em desespero e o miúdo, de cara suja, chorava e teimava em ficar de fora. lá para dentro estavam todos amontoados, como objectos que se guardam nos armários quando os já não queremos.


como as velharias que se colocam nos sótãos quando não tencionamos tornar a usá-las.

pela mão puxou-o para dentro, quase à força, quase em pranto. afinal de contas, os soldados tinham sugerido que se refugiassem ali. numa escola, cuidada pelas nações unidas, onde só os civis caberiam. uma antiga escola onde houvera um dia aulas, servia agora de casa de abrigo para os seus antigos e futuros alunos.

os soldados ocupantes, de arma em punho, capacete moderno, haviam-lhe entrado em casa no terceiro dia dos bombardeamentos. sugeriram que apenas procuravam terroristas e militares escondidos. que as bombas serviriam apenas para destruir esses alvos perigosos, diziam. recomendaram-lhe, e a mais umas boas centenas de mães e crianças, que se refugiassem na escola, que aí não cairiam as bombas.

ao quarto dia dos bombardeamentos, a mãe puxou o miúdo para o colo. lembrou que já perdera o filho mais novo e o marido. que queria proteger este puto com tudo o que tinha, com todas as suas forças. carregou numa mochila uns mantimentos ligeiros e no braço levou o rapaz. atravessou uma ex-cidade quase de ponta-a-ponta. ouviu silvos de balas mortais perto dos seus cabelos, saltou por cima de corpos moribundos e cadáveres cobertos de sangue. encostou-se a paredes devastadas, ouviu os gritos das velhas desesperadas, ainda deu água a um rapaz que corria perdido nos escombros.

chegou finalmente à escola, à segurança. os soldados, apesar de ocupantes, queriam apenas suprimir a ameaça que viam nas nossas estruturas militares ou para-militares, pensou. contrariada, refugiou-se, por não poder largar a criança, por não poder pegar o destino e a revolta nos seus braços, por não poder, não ter as forças, para expulsar da sua terra os soldados dos capacetes, metralhadoras, caças e bombardeiros, os tanques da opressão. conformou-se à sua condição de fraca, oprimida, mas mãe forte e fonte de coragem para proteger o que é seu porque lhe nasceu de dentro.

conseguiu finalmente trazer o miúdo para dentro, embora o seu choro fosse agora ainda mais agudo. dentro da escola-abrigo, juntou-se às centenas de mães que traziam ao colo ou pela mão os filhos e as filhas, aos outros pequenos que por ali choravam agarrados às mães. lá dentro uma massa de gente que abandonara tudo, que perdera já muito. gente que não sabia o que lhes reservaria o amanhã.

dois dias depois, depois de ali comer e dormir, ou não dormir, uns segundos de silêncio acompanharam um olhar colectivo, surpreendido, revoltado e choroso, para o bombardeiro que passou nos céus acima da escola. as lágrimas não tiveram tempo de escorrer, as mãos mal tiveram tempo de se cerrar. o silêncio tomou-os todos, mães e crianças. um assobio de morte ao cair da noite converteu a escola em ruínas de sangue e silêncio.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

humor


TINTIN NA LISBOA DO COSTA

poema

Elogio do Comunismo

Ele é razoável. Todos o compreendem. Ele é simples.
Você, por certo, não é nenhum explorador.
Você pode entendê-lo.
Ele é bom para você. Informe-se sobre ele.
Os idiotas dizem-no idiota e os porcos dizem-no porco.
Ele é contra a sujeira e contra a estupidez.
Os exploradores dizem-no um crime, 
mas nós sabemos
que ele é o fim dos crimes;
ele não é a loucura e sim
o fim da loucura.
Não é o caos e sim
uma nova ordem.
Ele é a simplicidade.
O difícil de fazer.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

a cuspidela da serpente

A INSINUAÇÃO


Foi por mero acaso que apanhei o final do programa "Este sábado" transmitido pela Antena1 no passado fim-de-semana. Quando liguei o rádio iniciava-se a intervenção de Raul Vaz, personagem do comentário político que a Antena1 insiste em apresentar como especialista em questões de política nacional.
Raul Vaz iniciou a sua intervenção comentando o tema da colocação dos professores e insinuando que o "erro administrativo" do Ministério da Educação (MEC), que resultou neste início de ano lectivo calamitoso para alunos, professores, directores de escola e encarregados de educação, tem a mão do PCP e dos Sindicatos. Dizia Raul - e passo a citar - que "ao longo dos anos, pós 25 de Abril, houve partidos, nomeadamente o PCP e os sindicatos, que têm uma influência muito grande no interior da máquina administrativa do Ministério da Educação. E este chefe de governo sempre foi avesso a substituir algumas chefias. (...) os resultados muitas vezes não são os melhores. Neste caso são péssimos". A insinuação fica no ar e a única coisa que Vaz não explica é se acredita que "comunistas e sindicalistas" sabotaram o processo, ou se apenas considera que nele influíram por mera incompetência. Seja qual for a conclusão de Vaz, a tese é em si mesmo um insulto ao PCP e aos sindicatos. Ou então uma peça de mau humor, que deveria envergonhar a rádio pública.

A cereja no topo do bolo seria Vaz sugerir que Jerónimo de Sousa e Mário Nogueira deveriam demitir-se devido a responsabilidades no "erro" da colocação dos professores. Não foi tão longe, é certo, mas pouco faltou.

Os comentadores do regime tudo têm feito para transformar este assunto, que é sério, numa mera questiúncula administrativa e de responsabilidade alheia. Um erro de fórmula, como aquele do Excel da austeridade (eventualmente resultado da acção de um comunista escondido dentro de um aparelho de ar condicionado FNAC). Pobre Crato, que paga pelos erros dos outros (ainda por cima comunistas e sindicalistas...). Azar do caraças haver gente a sofrer por via dele... A estratégia é esta e o salto qualitativo que a insinuação de Vaz comporta não surpreende, apenas diverte. Se convence alguém é outra história. E se a rádio pública está na disposição de continuar a dar cobertura à estratégia de comunicação da direita é outra, bem mais relevante

domingo, 12 de outubro de 2014

O Porto antigo e o desporto

http://www.redbull.com/en/motorsports/offroad/stories/1331684137701/extreme-xl-de-lagares-2014-saturday-night-prologue

A CUSPIDELA DA SERPENTE


ÓI! CADÊ VOCÈ!


Patti Smith - People Have The Power

crónica contra os FdP


Ponto final
por BAPTISTA BASTOS
08 outubro 2014
Durante sete anos, às quartas-feiras, publiquei no Diário de Notícias, a convite expresso de João Marcelino, uma crítica de costumes e hábitos. Foram sete anos excelentes, de trabalho entendido como tal, e de uma estima comum que se converteu em amizade. Marcelino é um jornalista com os princípios marcantes de outro tempo, de integridade a toda a prova e de uma cortesia e camaradagem que se perdeu quando as palavras foram substituídas por números, e quem dirigia foi trocado por porta-vozes estipendiados. Como a personagem de Sartre, "je suis irrécuperable" na certeza das minhas convicções sem certezas absolutas. Vivo, ainda hoje, sob o fascínio das palavras e do seu poder subversivo. João Marcelino pertencia, e pertence, a essa estirpe de jornalistas conhecedora de que só as palavras aproximam os homens e nos ensinam da sua imperfeita grandeza. Ele e a sua equipa fizeram de um jornal cinzento, pusilânime e obediente um empreendimento cultural honrado e limpo. Honro-me de ter participado no projecto a que já não pertenço por motivos a que sou alheio.

Fui posto fora, mas não das palavras. Vou com elas, velhas amantes, para aonde haja um jornal que as queira e admita a indignação e a cólera como elementos de afecto, e sinais de esperança, de coragem e de tenacidade. Nunca João Marcelino admitiu recados nem aceitou encomendas enviesadas tendentes a amenizar o texto, portanto as ideias, do seu colaborador. Nos tempos que correm, o que em outros anteriores seria normal é, agora, virtude e coragem. Estou-lhe grato pela rectidão de carácter, tantas vezes demonstrada.

Claro que também tive o suporte de milhares de leitores. O número foi crescendo na medida em que eles percebiam que o autor não envilecera com a idade nem amolecera as indignações com o peso e as ameaças da época sombria. Na edição digital do DN, as minhas crónicas chegaram a obter 15 mil visualizações, dezenas de impressões e de envios. Admiti, tola soberba!, que havia quem encontrasse nas palavras semanais uma ração de esperança, um apelo à não desistência e um aceno de confiança na força interior de cada um. Apenas relato, não lamurio. Mas não posso calar o que me parece um acto absurdo, somente justificado pelas ascensões de novos poderes. Porém, esses novos poderes são, eles próprios, transitórios pela natureza das suas mediocridades e pelo oportunismo das suas evidências.

As palavras, meus dilectos, nunca são uma memória a fundo perdido. A pátria está um pouco exausta de tanta vilania, mas não soçobra porque há quem não queira. Se me aceitarem, estou entre esses. Não quero nem posso pôr um derradeiro ponto final no texto sem o dedicar a todos os que fizeram do Diário de Notícias o jornal que tem sido. E aos leitores que o ajudaram a ser.

A Direcção actual do DN é constituida por André Macedo (Director), Mónica Belllo (Directora Adjunta), Ana Sousa Dias, Joana Petiz e Nuno Saraiva (SubDirectores) . O Presidente do Conselho de Administração é Daniel Proença de Carvalho.

 O jornalista e escritor Baptista Bastos foi retirado da lista de cronistas do DN. 

DENUNCIEM... PARA SUA VERGONHA!


sábado, 11 de outubro de 2014

UM BERÇO DE JOTINHAS

Os cabeças de lista concorrentes á Direcção da Associação de Estudantes da Escola Secundária de Paços de Ferreira debateram as suas ideias em iniciativa promovida pela JSD de Paços de Ferreira na sede do PSD local. Falou-se de uns vagos “problemas na educação” e o anfitrião, o líder da JSD local, demarcou-se das políticas governativas actuais da direita.

Mas verdadeiramente notável foi a intervenção do líder da JSD local quando fez votos que (cito da Gazeta de Paços de Ferreira) “estes debates marquem, e que ao se candidatarem á associação de estudantes, os jovens saibam que vão ter de passar por aqui, e por isso, possa ser capaz de lhes incutir algo de responsabilidade”.

Descontada alguma dificuldade de expressão verbal, ficou latente o paternalismo e a apropriação política pela direita das virtualidades desta forma de associativismo juvenil. Mas se dúvidas houvesse, as declarações dos  três candidatos  o esclareceriam. Um candidato disse algo enigmaticamente que pensava que ”se adaptaria facilmente a esta aventura, que é a política”. Outro concluía que “ser político não é fácil”. E o terceiro afirmava peremptoriamente que “ingressava na política”. Tudo muito naturalmente naif.

Não sei se a comunidade educativa de Paços de Ferreira tem algo a dizer ou reflectir sobre esta iniciativa e os seus protagonistas. Eu achei curioso o berço dos jotinhas.


CR

UM OUTRO CASO DE PORNOGRAFIA POUCO INFANTIL


Mário Soares esteve na terça-feira na biblioteca de Oeiras para falar sobre o livro "Os Capitães da Areia", de Jorge Amado, no âmbito de um ciclo organizado pela autarquia. Mas antes pediu para se encontrar com Isaltino Morais.

 "Foi um grande presidente de câmara e considero que foi injustiçado", disse Soares, interrogando-se: "Quando há pessoas que roubam milhões e estão soltas, como é que ele foi preso sem razão nenhuma?"

Soares não foi a casa de Isaltino, mas Isaltino foi assistir à palestra de Soares. E no final houve mais do que um abraço. E todos calorosos.





sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Leonard Cohen - Did I Ever Love You

COMUNICADO DA COMISSÃO CONCELHIA DE BAIÃO DO PCP

AO POVO DE BAIÃO

AOS RESPONSÁVEIS POLÍTICOS EXIGE-SE VERDADE E COERÊNCIA

 Fica muito bem ao Sr. Presidente da Câmara Municipal de Baião, pois é inerente às suas funções autárquicas, manifestar descontentamento e até lutar contra o esvaziamento de competências verificado no Tribunal Concelhio, mas convém lembrar-lhe que foi o Partido Socialista, do qual é militante, membro da comissão política concelhia, dirigente federativo distrital e nacional, que deu o pontapé de saída para que esta intitulada reforma do mapa judiciário acontecesse e senão vejamos:

Em 8 de Setembro de 2006, na Assembleia da República, o Partido Socialista com pompa e circunstância, mas com a oposição do PCP, assinou um acordo político parlamentar com o PSD para a chamada reforma da justiça, acordo esse onde constava a revisão do mapa judiciário, leia-se, encerramento.

No Memorando de Entendimento, melhor designado por Pacto de Agressão, assinado pelo governo Sócrates/PS com a troika estrangeira (Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e União Europeia) é assumido o compromisso de reduzir o número de agências locais de vários ministérios, por exemplo, Finanças, Justiça e Segurança Social.

Estes são dois de vários exemplos que poderíamos apresentar para dizer com toda a clareza que foi o Partido Socialista o iniciador do processo de completo caos em que a Justiça se encontra hoje e para a destruição de outros serviços públicos de proximidade, fundamentais à qualidade de vida do nosso povo.

Por muito que o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Baião se esforce por tentar ilibar o seu Partido das gravíssimas responsabilidades em relação à situação preocupante em que se encontra o País, não o consegue, porque as verdades e os factos falam mais alto.

Convém lembrar ao povo baionense e ao Sr. Presidente da Câmara Municipal de Baião que o encerramento da Estação dos CTT na Vila de Santa Marinha do Zêzere aconteceu precisamente com um governo de Sócrates/PS e, por incrível que pareça, a entrega dos referidos serviços a um comerciante local até teve o acordo favorável da Junta de Freguesia socialista, assim como a delegação da Segurança Social da referida Vila também encerrou portas por obra e graça dos governos Sócrates/PS.


A situação de pobreza em muitos milhares de lares portugueses, em que o nosso concelho não é excepção, e o descalabro económico do País são da responsabilidade da governação e das políticas de direita postas em prática por PS e PSD com a bengala do CDS e, por essa razão, era tempo de vermos o PS arrepiar caminho, empenhando-se numa oposição a sério.

6 de Outubro de 2014

O escandalo BES

PCP quer ver documentação entregue por Queiroz Pereira no Banco de Portugal sobre BES


Os comunistas elencam 56 personalidades a ouvir no inquérito ao BES. A família Espírito Santo, o construtor civil que ofereceu um presente de 14 milhões a Salgado e o contabilista da ESI são algumas delas.

O Partido Comunista Português quer que o Banco de Portugal divulgue à comissão parlamentar de inquérito os documentos sobre o caso Banco Espírito Santo que terão sido remetidos àquela instituição por Pedro Queiroz Pereira.

Esta "documentação entregue em 2013 pelo Dr. Pedro Queiroz Pereira sobre a situação do BES", e que se especula que terá tido influência na descoberta de irregularidades naquele banco, é um dos documentos que o PCP considera "imprescindíveis" que dêem entrada na comissão parlamentar de inquérito, que tomou posse esta quinta-feira, 9 de Outubro.

As auditorias realizadas ao BES pela KPGM entre 2011 e 2013 são outros documentos pedidos pelo grupo parlamentar comunista que, na comissão, será coordenado pelo deputado Miguel Tiago. Também a documentação que levou à autorização da Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia ao processo de resolução do banco é requerida.

Salgado e família Espírito Santo convocados

Pedro Queiroz Pereira, no passado aliado e depois inimigo de Ricardo Salgado, é uma das 56 personalidades que os comunistas querem ouvir, que tanto são do Governo como da gestão do banco.

Ricardo Salgado e outros membros do Conselho Superior do Grupo Espírito Santo são chamados, como António Ricciardi e o seu filho José Maria Ricciardi ou ainda Maria do Carmo Moniz Galvão, muito poucas vezes vista publicamente.

José Guilherme também é um dos nomes que o grupo parlamentar comunista pretende ouvir. Foi o construtor civil que deu um presente de 14 milhões de euros a Salgado. Francisco Machado da Cruz, conhecido  como o "comissair aux compte" da Espírito Santo International, empresa onde se descubriu o buraco financeiro que afectou todas as empresas do universo Espírito Santo, também é convocado pelo PCP.

Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, que estiveram à frente da Portugal Telecom que ficou prejudicada pelos investimentos feitos no Grupo Espírito Santo, são chamados a sentar-se na cadeira de depoentes da comissão de inquérito ao BES, como também a nova e a antiga administração do Novo Banco, que herdou os activos considerados bons do BES.

Apesar de já ter falado no Parlamento duas vezes sobre o tema, o governador do Banco de Portugal Carlos Costa é outro dos convocados pelo PCP. Os banqueiros Nuno Amado e Fernando Ulrich também.

Maria Luís Albuquerque, também depois de duas audições na comissão de Orçamento em que o BES foi o tema, é chamada ao inquérito. O seu antecessor Vítor Gaspar é outro dos nomes. Paulo Portas igualmente: "porque presidiu ao conselho de ministros à alteração legislativa" que levou à resolução do BES, explica Miguel Tiago. Por agora, o primeiro-ministro Passos não está na lista mas "nada está excluído à partida".

Estas documentações e propostas de audições terão de ser acordadas por todos os grupos parlamentares, pelo que não é certo que todas se venham a concretizar. Os grupos têm 10 dias para entregar estes requerimentos. 

Fernando Negrão, presidente da comissão, já disse que o inquérito ao BES não vai fazer acusações nem produzir sentenças, apenas pretende o "apuramento dos factos" (em Jornal de Negócios) 


A deputada Mariana Mortágua anunciou que é intenção do BE convocar os membros da troika ao inquérito parlamentar. Como alguém já disse: 

"O BE quer ouvir a troika sobre o BES. Acham que a troika não fiscalizou como devia.
Mas o BE reconhece autoridade à troika para fiscalizar o país?". 


Erro politico grave...

terça-feira, 7 de outubro de 2014

histórico

Com 63% dos votos na primeira volta, Flávio Dino, candidato do Partido Comunista do Brasil, sem o apoio do PT, conquista a governação do Estado do Maranhão.

Pela primeira vez em 92 anos da história do Brasil um comunista governa um Estado do Brasil.

Apesar das reticências de muitos sobre a politica seguida pelo PC do B, um traço a registar

humor


Numa grande notícia para Portugal, Nuno Crato acaba de ser distinguido com o Nobel da Física por ter descoberto o teletransporte de professores.


(em www.imprensafalsa.com)

domingo, 5 de outubro de 2014

Alpha Blondy - Sankara

A FUNÇÃO SOCIAL DA CULTURA


O Festival Literário Escritaria é indiscutivelmente uma iniciativa louvável. O seu programa articula a actividade de poderes públicos, nomeadamente a autarquia de Penafiel, e de entidades privadas, como editoras, agências de comunicação e outros criadores culturais, interessados em comum em divulgar a Cultura e essencialmente no caso a literatura nacional. Esta iniciativa pluridisciplinar assume uma periodicidade anual, diversificando o (s) homenageado (s) e a sua criação, revitalizando espaços e qualificando-os com arte pública. José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, Mia Couto, Mário de Carvalho, Lobo Antunes e Agustina Bessa Luís já por “lá” passaram. Agora foi a vez de Lídia Jorge.

Não tendo sido frequentador habitual no passado das iniciativas da Escritaria, com presença tantas vezes quanto as merecidas, não tenho portanto legitimidade para sobre o acontecimento poder reflectir e analisar com profundidade, para além do óbvio que assinalo. Gostaria no entanto de, a pretexto da Escritaria, de poder dar a minha opinião sobre a criação cultural que acontece na actualidade.

Perdoem-me os eventuais lesados a crueza, mas há uma óbvia sonegação da capacidade crítica por partes de criadores culturais. Não falo aqui dos subprodutos “culturais” da música “pimba”, da arte kitsch, da literatura light ou da telenovela televisiva. Falo da verdadeira Cultura.

A arte com compromisso social, explícito ou não, deixou de ser valorizada em favor de uma arte com discursos ambíguos ou politicamente neutros, objecto de divulgação em supermercados culturais de massas. A arte militante é substituída por uma arte rastejante. Os reais conteúdos ou simbolismos (o que verdadeiramente interessa ao fruidor!) evaporaram-se num cenário muito aplaudido de uma mera transgressão formal, de uns post-it ou frases soltas em placardes de rua.

Infelizmente a realidade já deixou há muito de ser “muito abusadora”, como disse Mário de Carvalho, para se tornar, sim, muito insuportável. A realidade deixou de ser facilmente controlável, mas por isso mesmo, deve ser devidamente compreendida ou sentida. Os criadores culturais perderam há muito as condições de exercício da liberdade, sujeitos a barreiras, limitações, constrangimentos. Mas muitos autores iludem isso, fingindo não ver o seu papel decorativo, o seu papel marginal ou supérfluo no grande circo onde se formam consciências ou vontades. A aparente “modernidade” da mensagem abafa tantas vezes a sua real importância.

Não há hoje verdadeiramente valores universais transportados para as telas, para as páginas dos livros ou para as películas de cinema. Onde está a solidariedade, a defesa da paz, do compromisso, da liberdade? Onde estão os heróis positivos ou as crónicas exemplares?

Significativamente é na reabilitação do passado, na evocação das obras de outrora que se faz grande parte do tempo cultural presente. Relemos Eça de Queiroz, Agostinho da Silva ou Álvaro Cunhal. Encontramos na sua obra a identidade com o pensamento do leitor, ou a sua discordância. Percebemos a voz única sobre este ou aquele aspecto. Projectamos a sua racionalidade em projectos de vida.

Mas do vazio de muito do que acontece no presente não retiramos sabedoria.


CR

sábado, 4 de outubro de 2014

INCOMPETÊNCIA

Uma professora do ensino especial de Bragança colocada a 12 de Setembro em Constância, para onde se mudou com a filha, foi informada na sexta-feira da revogação do seu contrato e de nova colocação no Algarve.

Céu Bastos em 12 de Setembro foi informada, através de um email da Direcção-Geral da Administração Escolar (DGAE), da possibilidade de ser colocada em Constância, no distrito de Santarém, ou em Vila Real de Santo António, tendo assumido, na plataforma, a primeira opção, apesar de tudo a menos distante da sua residência.

Com o essencial para a mudança no carro, Céu Bastos andou dois dias à procura de escola para a filha (o Agrupamento de Constância não tem 11.º ano) e de casa para arrendar, acabando por encontrar ambas em Abrantes (a 15 quilómetros).

No dia 15 de Setembro apresentou-se no Agrupamento de Escolas de Constância, onde começou a trabalhar com os alunos e as professoras titulares.

Na sexta-feira, às 17:17, recebeu um email informando-a da desvinculação da colocação em Constância e do lugar disponível em Vila Real de Santo António, a que se seguiu outro, perto das 19:00, com a opção de Portimão, tendo de decidir, até segunda-feira, qual dos dois aceita.

"Sinto-me revoltada. Arrastar a minha filha nisto é angustiante. A mudança já foi complicada. Ela está no 11.º ano, essencial para a média de entrada na Universidade, tem testes marcados. Agora é obrigada a ir para Vila Real de Santo António, no outro extremo do país", disse Céu Bastos, sublinhando não ter palavras para descrever a situação em que se encontra.

Ao "terramoto" em que foram transformadas as suas vidas junta-se a questão financeira, já que, por ter sido colocada a 12, só terá o seu primeiro salário a 23 de Outubro, tendo que acrescentar novas despesas às que entretanto foi forçada a assumir.

"Mais que a despesa económica, que nos obriga a viver momentos muito maus que nos levam a chegar ao fim do mês não com a conta a zeros mas a negativo, é a parte emocional. É desumano", desabafou, lamentando que quem está nos gabinetes "não faça ideia do que se passa no terreno".

"Ter andado dois dias com o carro cheio, a dormir em residenciais, a procurar escola para a minha filha e casa para alugar, primeiro em Vila Nova da Barquinha, depois no Entroncamento e finalmente em Abrantes. Quando finalmente estávamos estáveis, a morar perto da escola dela, este mail foi surreal. É desumano".

A situação de Céu Bastos e da filha é para a presidente da Câmara Municipal de Constância, Júlia Amorim, "indescritível" e "revoltante" e para a directora do Agrupamento de Escolas de Constância, Anabela Grácio, "inacreditável", com a agravante de o Ministério não querer assumir o ónus da anulação, colocando-o nos directores.

As escolas com contrato de autonomia e em território educativo de intervenção prioritária receberam na sexta-feira orientações da DGAE para revogarem as listas de ordenação anteriores e anularem as colocações de professores do concurso da bolsa de contratação cujos resultados foram conhecidos a 12 de Setembro.

As novas listas substituem as anteriores, nas quais foram detectados erros, que levaram à demissão do antigo director-geral da Administração Escolar.

Os directores de escolas questionam a legitimidade do ato pedido pela DGAE, por entenderem que deve ser o Ministério a anular as colocações, que partiram de erros assumidos pela tutela.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Caribou - Odessa

DOIS E DOIS SÃO QUATRO


SUBMARINOS - Houve outra pessoa a receber parte dos 30 milhões pagos à Escom

Não foram apenas os cinco clãs da família Espírito Santo, que tinham representação no Conselho Superior do Grupo Espírito Santo (GES), que receberam cinco dos cerca de 30 milhões que foram pagos à Escom por serviços de consultoria no negócio dos submarinos. Houve uma sexta pessoa que também ganhou uma fatia dessa comissão, escreve esta quinta-feira o jornal i.

Durante a reunião do Conselho Superior realizada a 7 de novembro de 2013, Ricardo Salgado, então presidente da comissão executiva do Banco Espírito Santo, fez uma confissão relacionada com o negócio da compra dos submarinos. “Deram-nos cinco a nós e eles [os administradores da Escom] guardaram 15″, respondeu, quando questionado por um dos membros sobre como tinha sido “esse assunto do recebimento da comissão da Escom”. Mas esta não foi a única revelação da reunião.

De acordo com o i, antes que os restantes membros do Conselho Superior — António Ricciardi, Manuel Fernando Espírito Santo (filho de Maria do Carmo Moniz Galvão), José Manuel Espírito Santo Silva e Mário Mosqueira do Amaral — tivessem oportunidade de questionar Salgado sobre o porquê de três administradores da Escom receberem 15 milhões de euros, Salgado antecipou-se:

“E vocês têm todo o direito de perguntar: mas como é que aqueles três tipos [Helder Bataglia, presidente da Escom, Pedro Ferreira Neto e Luís Horta e Costa] receberam 15 milhões? A informação que temos é que há uma parte que não é para eles. Não sei se é ou não é. Como hoje em dia só vejo aldrabões à nossa volta… Os tipos garantem que há uma parte que teve de ser entregue a alguém em determinado dia“.

As palavras de Ricardo Salgado reforçam a tese do Ministério Público: o montante pago à Escom, empresa do GES, é “desproporcional” ao trabalho prestado e a empresa terá servido de intermediária de eventuais pagamentos ilícitos. De acordo com a investigação do i, o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) desconfia que os destinatários dos cerca de 30 milhões de euros terão sido “titulares de cargos políticos” que moveram influências para que o consórcio alemão German Submarine Consortium ganhasse o concurso dos submarinos.

Ao que o i apurou, durante a reunião — onde estavam presentes os nove membros com assento no Conselho, bem como José Castella, controlador financeiro do GES — Ricardo Salgado contou que Luís Horta e Costa, um dos três administradores da Escom, lhe terá explicado que os cerca de 30 milhões de euros pagos pelos alemães ficaram logo reduzidos “a 20 milhões”, com “encargos com advogados” e “pagamentos por fora”. Não obstante, Luís Horta e Costa ter-lhe-á “dado a garantia” de que a empresa do GES não teria “pago nada a ministros”.

A revelação dos montantes do negócio, feita na mesma reunião, não agradou a Ricardo Abecassis Espírito Santo, o membro luso-brasileiro da família, que terá perguntado a Salgado se achava legítimo serem os administradores da empresa “a decidir quanto é que eles vão ganhar, e não os acionistas”. Ricardo Salgado aconselhou-o a não remexer mais no assunto — “Vamos acabar por saber quem recebeu parte disto e quem é que deixou de receber”. O então presidente da comissão executiva do BES terá acrescentado que logo a seguir à operação dos submarinos terão ficado “todos com um ataque de arrependimento, ao ponto de em 2004″ decidirem “parar qualquer operação” relacionada com o equipamento militar.

Ricardo Salgado, de acordo com as informações do i, acabaria por não desvendar a identidade do sexto destinatário do dinheiro. Nem os administradores da Escom nem o próprio Salgado responderam aos pedidos de esclarecimento enviados pelo jornal. A Procuradoria-Geral da República limitou-se a dizer que o inquérito está em segredo de justiça.

O negócio da compra dos dois submarinos pelo Estado português à Man Ferrostaal, em 2004, está a ser investigado há mais de oito anos. Até à data, foram constituídos arguidos no processo os três gestores da Escom, por suspeitas de corrupção ativa, tráfico de influências e branqueamento de capitais. Ainda não se conseguiu descobrir o rasto do dinheiro, apesar de existirem suspeitas de que um total de 1.1 milhões de euros, provenientes da comissão paga à Escom, tenha sido depositado nas contas do CDS-PP, entre 27 e 30 de Dezembro de 2004