um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

quarta-feira, 30 de abril de 2014

o INE ao serviço da oposição

Segundo o INE , 2 milhões de Portugueses vivem em risco de pobreza, com menos de 409 euros por mês. Segundo o INE , 1 milhão de portugueses vivem sem dinheiro para comer peixe ou carne.
Segundo o INE, 28% da população portuguesa não teve em 2013 capacidade de aquecer a habitação devidamente
Segundo o INE , 10,9% da população portuguesa em 2013 teve privação material severa, sem dinheiro para despesas correntes

POEMA

EU SOU PORTUGUÊS AQUI

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do
 lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito. 

JOSÉ  FANHA

terça-feira, 29 de abril de 2014

a BOLSA e a vidinha deles

Bolsa engorda em 336 milhões de euros a fortuna dos mais ricos (desde o princípio do ano esta passou de 13,6 mil milhões de euros para os actuais 13,94 mil milhões de euros).

Américo Amorim , com a GALP e a Corticeira Amorim, ganhou 232,1 milhões de euros

Belmiro Azevedo, com a SGPS e a fusão da ZON com a OPTIMUS, ganhou 163,4 milhões de euros

Joe Berardo com a ZON, BCP e SONAE, ganhou 31,6 milhões de euros

António Mota com a MOTA ENGIL, ganhou 5,4 milhões de euros

Isabel Santos , com o BPI, a GALP e a Zon , ganhou .... muito

José Mello , com a EDP, ganhou...muito.

O único a perder terá sido o dono do Pingo Doce, o mais rico.

dos fracos não reza a história

António Santos

O autocarro cheira a bafo de sanduíches fermentadas toda a tarde em papel de prata. Tupperwares desabrocham para o jantar em arrotos de chouriço. José, que vai mesmo à nossa frente, está inquieto. Em vão, ajeita-se no assento, procurando um suporte mais confortável para a bola de carnes cozidas da sua formidável barriga. Rebusca um saco do Pingo Doce – Pois... - esqueceu-se mesmo da comida. – Merda para isto... – descarrega baixinho. Velozes, os olhos de Rita, aquela miúda do outro lado do corredor, despejam-lhe em cima um balde de condescendência e viram-se outra vez para a janela. Lá fora, repete-se com admirável precisão a paisagem desolada do Baixo Alentejo, uma crosta de pó improdutivo, tão ampla que parece adivinhar no horizonte a própria curvatura do planeta.

O saco restolha de novo, José desenrola-se e, pela fresta entre os assentos, lemos o título garrafal «MÃE COM UM DIFÍCIL DILEMA» José sacode o jornal e distinguimos o subtítulo da parangona: «Deixar o filho no carro em chamas ou enfrentar cães selvagens?». É o Correio da Manhã. Mas José está noutra notícia. – Bandidos! – dispara irritado – Nem os velhos escapam... – endireita na calva o boné marca de gelado e soletra solenemente – Filhos da puta! – Rita lança-lhe novo olhar, agora servido com um sorriso obviamente amarelo.


Atrapalhado, José explica-se: – Diziam que o corte era provisório, e agora, toma! É provisório é... provisório até ao crematório! – e ri com bonomia, sem compreender o desconforto explícito no acenozinho de Rita – Volta Salazar! Estás perdoado! – Rita, que deve estar na casa dos seus trinta e poucos, assente com um vago meneio e põe um fone no ouvido. Rita não gosta de política, o que é que tem?

– Tem razão... – murmura para o velho. Mas a passageira à sua frente, do lado do corredor, acaba de se voltar para trás:

– Não está perdoado não senhor! – é Sandra que fala, uma mulher da idade de José, trigueira e pequenina, com um brilho eléctrico nos olhos. – Olhe que antes do 25 de Abril passei muita fome a guardar os porcos dos ricos. De sol a sol!

– Olhe, ao menos havia trabalho! – Cospe José, procurando futilmente a confirmação de Rita, que achando-se dispensada das atenções do desconhecido, pôs o fone que faltava e carregou no play. No écran do i-phone lê-se: «Anselmo Ralph – Não me toca». Rita tem mais em que pensar, quer lá saber da política... Doem-lhe os pés, maleita terrível quando se é caixa numa loja de roupa. Como nos explicaria Rita, longe vão os anos em que os empregados subalternos se sentavam. «Suponho que seja uma questão de imagem». Dir-nos-ia. Num mundo tão competitivo, as grandes marcas têm uma imagem a preservar e isso passa por submeter os caixas a oito horas de tortura da estátua… apenas para satisfação do rigoroso cliente, é claro. Mas Rita não se queixa. Há muitos anos que deixou de se queixar. E não por ter deixado de sentir (que lá isso sente, como escamas de vidro nas plantas dos pés); não por não lhe atormentar a espinha, moída e mordiscada do peso da própria vida. Apenas por simples e incomplexo cansaço. “Poupa-se onde se pode” diz amiúde. Mas pouco se pode, ou quase nada. Vejamos pois, da cómoda bancada lateral que a ficção nos oferece, como agora poupa os pés (doridos, que é sexta-feira): Apenas assenta no chão do autocarro a ponta dos calcanhares, como os ilusionistas quando levitam em biquinhos dos pés. Rita ganha 750€ por mês, paga 68 de IRS, 83 de segurança social, 300 de renda de casa, 200 em comida e 50 no passe. Só paga a internet, a luz, a água, a eléctricidade e o gás com a ajuda dos pais. Todo o seu trabalho só lhe permite sobreviver. E Rita sabe bem que isso faz dela uma escrava. Por isso tem mais em que pensar do que em política.

– Ó senhor! Havia trabalho? – Indigna-se Sandra. – Havia era medo, miséria, analfabetismo, guerra, doenças, emigração...

– E agora? Não há? – rosna José – Só falta mesmo a guerra! Antigamente éramos pobres mas havia respeito! – proclama, levantando o dedinho indicador

– Olhe, eu nunca tive medo de andar na rua à noite! Isto agora é uma balbúrdia! Já não há decência, não há nada! Cada um faz o que quer e... – José preparava-se para se lançar numa longa peroração, que ensaia todos os dias no café de que é dono, sobre os méritos da autoridade, do respeito e da família, mas Sandra interrompeu-o a tempo:

– Oiça cá uma coisa – e da boca operária nasce esta pergunta clara – É verdade ou é mentira que antes do 25 de Abril contava-se pelos dedos quem tinha reforma ou pensão?

– Sim, sim... mas...

– Pois é verdade! Ainda me lembro, era eu gaiata, de andarem bandos de velhos a pedir esmola de aldeia em aldeia! E diga-me, já agora, outra coisa: é ou não verdade que não havia salário mínimo? Calma... diga-me lá se é verdade ou não? É verdade? Pois bem! E é ou não verdade que a educação era só para os ricos? E que não havia direito à saúde? E também não é verdade que se mandavam os jovens para a morte nas colónias? Ai combateu? Pois, foi uma guerra assassina, só portugueses morreram mais de dez mil. E consegue achar algum respeito, alguma dignidade nestas coisas, ó homem? Não se esqueça que foi a Revolução que lhe trouxe as férias pagas, o subsídio de natal e de férias, os hospitais, o direito à educação, a segurança social, o subsídio de desemprego...

– Pois foi – admite José – Mas para quê? Para isto agora estar nesta desgraça? Oiça, eu concordo consigo! Eu não sou salazarista mas...

– Fascista! Diga fascista...

– Só acho que isto só lá vai ou com outra ditadura ou à bomba! - e atira violentamente o braço como uma funda, num gesto torpe.

Sandra já ouviu esta história mil e uma vezes: «Isto era pôr uma bomba... eu cá matava-os a todos... isto só lá vai com outra revolução...». E mil e uma vezes já se dedicou a ouvir e a explicar, desmontando os mesmos argumentos com a mesma incansável paciência, porque, Sandra sabe-o, a culpa de tanta confusão política, da «crosta bruta que o soterra», não é de José. Haverá trabalho mais heroico que a política de rua? Que todos os dias desenleia as mais desarranjadas trapalhadas ideológicas, dando método e clareza a sentimentos justos e emoções legítimas? «Deixem a troika em paz! Mandaram para cá a troika para correr com os corruptos...», «eu vi num documentário que isto é tudo um planos dos "Illuminati", os gajos do 11 de Setembro, tás a ver?» ou «O que é preciso é uma revolução interior, é disso que eles têm mais medo: que comecemos todos a cultivar a nossa própria horta».

– Qual bomba, homem? Mata o primeiro-ministro, e depois? Metem lá outro ainda pior! A gente precisa é de lutar! De fazer greve e vir para a rua! De pôr lá um governo que sirva o povo! O problema é que nós, que sofremos isto na pele, continuamos a votar nos mesmos!

José, já escarlate, com a fronte a brilhar de suor, esclarece – Eu não! Eu cá voto sempre no Coelho, o da Madeira! Esse é que é! Tem-nos no sítio! No outro dia foi fardado lá para o parlamento! – Sandra escuta paciente. É dirigente sindical. Vota comunista. – Olhe, a senhora sabe?! O que nos falta é um líder forte! Como os de antigamente! Porque os portugueses sozinhos não vão lá! Já viu os espanhóis e os gregos? Esses não estão para brincadeiras! Vai tudo pelos ares! Mas esta gente aqui é uma pasmaceira! É só fumaça! – e, abrindo os braços como um urso pré-histórico, conclui: - Era uma bomba naquele parlamento!

Nesse momento, uma senhora ao lado de Sandra, mas do outro lado do corredor, também se vira para trás e, incomodada com a discussão, arremete:
– Desculpe mas está enganado. O que faz falta é as pessoas compreenderem que não podem viver à custa do Estado. – Anabela, tão recatada, não queria mesmo dizer nada, mas esta conversa de bombas e lutas enerva-a profusamente. É dentista de profissão. Quando um comunista lhe oferece propaganda recusa com um «deixe estar...» e (nunca nos diria) vota PSD, embora não goste muito «deste novo». Gostava do Sá Carneiro, a tia Cucha foi sua secretária. Do que não gosta mesmo nada é de extremismos. Nem de «ismos» em geral.

– Quem vive à custa do Estado são os banqueiros! – Corrige Sandra – que levam os bancos à falência para depois nós pagarmos a factura. Quem vive à custa do Estado são os especuladores que não pagam impostos! Quem vive à custa dos Estado são os grande grupos económicos a quem estamos a pagar a dívida. – Anabela, um pouco surpreendida, discorda:

– Quem vive à custa do Estado é quem acha que pode viver de subsídios e passar os dias no café ou na internet a queixar-se da vida. – Anabela não gosta de queixinhas. Queixar-se não adianta nada: devíamos ser todos como Rita, que agora quase dorme e a quem os pés doem, que não pode ir ao cinema nem ao teatro nem a lado nenhum porque nunca tem dinheiro e não se devia queixar. Anabela no fundo só quer que sejamos todos mais «positivos», que «acreditemos». Porque se acreditarmos, tudo é possível (força!) e as energias positivas dos nossos sorrisos branqueados são o motor da história universal. Afinal, quem é que precisa de direitos quando podemos ser positivos? Conta-se que antes a última invasão do Iraque, alguns dos principais generais estado-unidenses avisaram Bush de que a guerra não poderia ser ganha. Bush mandou substitui-los a todos por estrategas mais «positivos» que «acreditassem» que era possível.

– Olhe, o que faz falta – continua Anabela – É queixarmo-nos menos e trabalharmos mais, – Anabela acha que o povo português é preguiçoso e precisa de um capataz.

– O que faz falta – queixa-se José – É um político com tomates que meta no xadrez quem anda a roubar – José acha que o povo português é fraco e precisa de um líder forte.

– O que faz falta – acrescenta Sandra – é que quem trabalha também lute, para que um dia governe e se vá embora quem explora. – Sandra acha que o povo português é forte e se basta a si próprio.

– Ai, eu gosto é da «luta»! – Confessa Anabela, com um esgar de sarcasmo – Queixam-se de que não há trabalho, mas depois querem é greves para não trabalhar! «CGTP! Parasita nacional» – e levanta o punho esquerdo para completar o calembur.

– Sabe porque é que eu faço greve? – Pergunta Sandra, agora irritada – Porque cada vez trabalho mais e cada vez ganho menos! Está-me a chamar preguiçosa?

– Não se enerve... Tenha calma... – Diz Anabela, num plácida cadência doutoral. Mas a sugestão tem o efeito contrário e Sandra responde muito alto:

– Não, não tenho calma! Que na minha rua há gente que já não ganha para a luz!

Num ronco assustado e sorvido, algum passageiro desperta. Rita, ouvindo o escalar da discussão, reemerge da modorra do i-phone. Com um baque, uma esférula de água rompe o silêncio do autocarro e trepa a vidraça. É a chuva que recomeça, a conta gotas de tinta preta.

A partilha de ideias desaguou neste silêncio desconfortável, que talvez também seja do sono que todos também partilham e levam estampado na cara. Não apenas o sono de uma longa viagem, mas aquele sono perene, mal disfarçado e mal dormido da gente trabalhadora que trabalha demais. Sandra virou-se para a frente. Está cansada. Às vezes, tem vontade de imitar quem não luta para lhes mostrar como seria o mundo se ninguém fizesse greve nem houvesse manifestações. São muitos anos disto, a lutar contra a corrente, a levantar mais cedo para distribuir papéis, a dizer a quem não quer saber que não é verdade, que os políticos não são todos iguais. Mas se os políticos são todos iguais, se não há mesmo nada a fazer, então desistamos todos de uma vez: que não haja nenhum deputado a votar contra o fim do Sistema Nacional de Saúde, que ninguém proteste quando o governo decidir aumentar o IRS e o IVA. Deixemos os ricos fazer a política, desistamos de tudo, sentemo-nos todos! É isto que às vezes pensa Sandra quando a desesperança morde. A desesperança é uma lenta debulhadora locomotiva que traga factos e opiniões e, devagar, também te traga a ti e a mim. Esta máquina infernal liga-se um dia e só pára quando, ao cabo de oitenta anos, já devorou tudo o que justificava a vida. E mesmo assim Sandra insiste e insistirá (porque é gente) em plantar a sua espiga no fim da seara em chamas.

Enquanto a tempestade não chega, nuvens pegajosas empastam o céu de placas chumbo. A paisagem é a mesma até onde os olhos alcançam, despida de árvores e alisada de tudo, sem nada que se levante da terra nem lhe atire sequer uma sombrinha.

Rita não regressou ao seu telemóvel. Embalada pelo largo rumor da chuva, segue as gotas na janela com uma expressão mole. Continuará a delegar o rumo da sua vida naqueles que a exploram, sem se achar capaz de compreender o mundo, quanto mais de o mudar. Continuará a culpar-se a si e só a si pela sua própria pobreza. E continuará calada e debulhada pela desesperança, como (já dizia o poeta) um cão velho e pronto para a morte que já não responde ao dono. Até um dia.

Também José irá calado o resto da viagem. No fundo sabe que Sandra tem razão. Apesar de não saber muito de política, o instinto indica-lhe às vezes o lado certo da barricada. E por uma questão de orgulho não o admitirá, mas pela primeira vez, já nestas europeias, votará na CDU.
E a Anabela o que mais surpreende é a desenvoltura daquela operária, a força das suas palavras e a imensa cultura que elas transpiram. Estava à espera que a mulherzinha, que parece tão fraca, não lesse mais que a revista Maria e de política só soubesse fragmentos desconexos. Dificilmente poderá Anabela compreender que lutar é a maior demonstração de cultura. Quantos tratados filosóficos, quantas aulas de história serão necessárias para transformar em vida a certeza de que só as massas podem virar este tabuleiro e impor novas regras ao jogo? Anabela não compreende essa força. A força do proletariado, que está fraca sendo forte, que tem a inteligência sem ter as armas, que tem a vontade sem ter o dinheiro, que tem a capacidade sem ter o Poder. Anabela não compreende que os que hoje estamos mais fracos havemos de vencer. Valha-nos a dialéctica das línguas romance e a diferença entre o estar e o ser. Porque é grande a nossa força e dos fracos não reza a história.

domingo, 27 de abril de 2014

REGISTO

Na Sessão Extraordinária da Assembleia Municipal de Paredes, comemorativa dos 40 Anos do 25 de Abril, o social democrata Celso Ferreira, Presidente da Câmara de Paredes, afirmou ser muito sensível á defesa de causas fracturantes, como  a legalização do direito ao aborto e o casamento civil de duas pessoas do mesmo sexo.

Afinal a terra move-se…mesmo que em circunstâncias e contextos muito originais.


CR

grafismo

25 de Abril de 2014, Parada de Todeia

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Kapelle Vorwärts - El Pueblo Unido





Interprete: Kapelle Vorwärts
Album: Solidaarisuus

TEXTO

A TROIKA DE 1975

João Varela Gomes (em Alentejo Popular, de 11 de Setembro de 2011)

 Surpreendidos? Então vamos a factos. Em Dezembro de 1975 esteve em Portugal, por iniciativa e com o apoio da OCDE (Europa) uma missão do Departamento de Economia do MIT (USA) constituída por três eminentes professores desse Instituto – Rudiger Dornbuch, Richard S. Eckaus, Lance Taylor. Vinham avaliar o estado da economia e das finanças do país português, por suposto caóticas, após a «terrível ditadura comunista» dos 19 meses anteriores, com nacionalizações, fuga da capitais e capitalistas de calças na mão, etc…
Essa missão produziu um relatório (que estou compulsando) – «Analysis and Projections of Macroeconomic Conditions in Portugal»2, datado de Lisboa 1976. Inclui um prefácio (em inglês) do economista português J. Silva Lopes. Abre com uma Introdução (na verdade, mais é uma Conclusão).
Citando: «Parece ser opinião virtualmente unânime em Portugal, ter havido um catastrófico declínio da actividade económica na última metade de 1974 e durante 1975. Avaliações incluíam frases como “à beira do caos”, “a um passo do desastre”.
Perante um cenário tão negro (gloom), pode ser considerado injustificado optimismo sustentar que no começo de 1976 a economia portuguesa está surpreendentemente saudável (sound)».
Mais adiante, adiantam: «(...) Os resultados (the record) do último ano e meio em Portugal não se revelam muito diferentes dos do resto da Europa (...) o consumo pessoal aumentou, bem como a participação do (factor) trabalho no rendimento nacional». Rematando a Introdução: «Para um país que recentemente experimentou uma completa reforma social, uma alteração total no seu comércio externo e seis governos revolucionários nos últimos 19 meses, Portugal inesperadamente (unexpectdly) goza de boa saúde económica». Seguem-se cerca de 50 páginas de quadros, diagramas, análises sectoriais, etc., etc.
Por motivações contrafactuais, cuja origem reaccionária/contra-revolucionária não oferece dúvidas, o Relatório da Troika de 1975 foi, e permanece, enterrado e esquecido. Apesar do prefaciador, antigo ministro das Finanças de governos revolucionários (V. Gonçalves) ter feito posterior e frutuosa carreira como gestor público, ser figura mediática com frequente presença, ainda activo neste corrente ano.
Mas não creio que alguma vez tenha recordado a sua experiência «nacionalizadora» para repor um mínimo de verdade e decência no mar de falsidades e trafulhices onde navega a burguesia renegada e arrivista.
Acresce que a actual tutela internacional do País por uma troika neo-liberal torna particularmente oportuno recordar a experiência bem-sucedida (cf. Relatório) de um modelo económico alternativo, diametralmente oposto àquele que está arruinando o presente, hipotecando o futuro, destruindo o pouco que resta da herança de Abril.

O morto/desaparecido Relatório da Troika de 1975 merecia ser ressuscitado, servir de argumento e alento na luta contra o modelo que nos está sendo imposto pelo império capitalista. Deveria, além disso, ser objecto de estudo e reflexão em escolas e cenáculos mediáticos onde a tese fatalista da «inevitabilidade da submissão» assentou arrais. Mas isto é só um desabafo; uma aspiração etérea. Com os pés na terra, penso que a honestidade intelectual está condenada a nova clandestinidade.

INTERVENÇÃO AM PAREDES, 25 DE ABRIL 2014

...
Cumprimento em nome da bancada da CDU nesta Assembleia todos os presentes nesta cerimônia evocativa e através dos eleitos, representantes do povo, toda a população do Concelho de Paredes
Comemoramos agora os 40 anos da conquista da Democracia e da Liberdade. Congratulamo-nos por o fazer em Paredes nesta Casa da Democracia.
O 25 de Abril, que queremos aqui sublinhar, não é somente uma data histórica a recordar, um momento irrepetível e transcendente, protagonizado e vivido por gente com rosto e entusiasmo num passado mais ou menos longínquo, em 1974.
Não é somente o final de uma página negra da história de Portugal, de repressão, de analfabetismo, de isolamento internacional, de emigração, da guerra colonial, de censura, de ditadura. Página onde emergiram igualmente resistentes heróicos, actos de abnegação e coragem, lutas persistentes, vidas consequentes, a unidade antifascista e o Partido de classe, o PCP.
O 25 de Abril, que queremos evocar, não é somente um registo de recordações e emoções, vertidas em imagens de multidões e de soldados – povo em armas, vertidas em rimas e poemas, em músicas que cantam a liberdade e cheiros a flor e cravo.
O 25 de Abril, que nos atrevemos a redescobrir, não é somente o curso de uma institucionalização democrática, de uma estabilização política, ou um texto constitucional onde se plantou um consenso teórico posteriormente desvirtuado e as regras da vivência em liberdade, nem é somente o exercício do Poder legítimo.
O 25 de Abril, que hoje nos inquieta e portanto nos mobiliza, não é um limitado guião de um percurso discutível e insatisfatório, que “contabilistas” avaliam em méritos e deméritos, mas que merece cuidada e séria reflexão.   
Para nós, e para além disso, que já é muito, o 25 de Abril é um sonho, um ideal, uma esperança agora tantas vezes agrilhoada, uma inquietação perante a injustiça, a desigualdade, a miséria e a corrupção, um conjunto de valores, uma mão cheia de conquistas (direito á saúde, direito á educação, direito á habitação, direito a trabalho digno e remunerado, direito à cultura, lazer e desporto, direito a viver em paz).
Não queremos ser acusados de ser proprietários exclusivos desse sonho. Não o somos, nunca o seremos. Mas não nos retiramos, ao contrário de outros, da trincheira do exercício da resistência e da mobilização na defesa dos interesses nacionais e populares.
E tempos próximos impõem uma concretização de uma atitude propositiva e fundamentada. Falamos da mobilização para o esclarecimento e votação no próximo dia 25 de Maio. Que não sejam ilibados quem tem ou teve responsabilidades pela situação actual. Por isso, quem tem memória não esquece e deve traduzir a sua revolta em voto consciente.
Portugal, o nosso País, graças às políticas dos partidos do chamado arco da governação (PS, PSD e CDS), e ao rotativismo político de décadas, em que se sucede a mesma orientação, alternando-se os protagonistas, caminha para um abismo, de onde dificilmente sairá. Destrói-se o Estado Social, construído ao longo de gerações, compromisso inter-geracional, e factor de coesão social e inter-territorial, expressão de progresso na Saúde, na Educação, no Trabalho e na Segurança Social. Privatizam-se serviços públicos, alguns deles entregues ao capital estrangeiro, sem qualquer benefício quanto á qualidade e preço desses serviços nem asseguradas riqueza e contribuições significativas para o Orçamento de Estado. Falo da ANA, da EDP, dos CTT, etc.  
Alega-se um pretenso despesismo do Estado, quando é a dívida privada um factor fundamental de desequilíbrio orçamental e da Balança Comercial. Alega-se uma pretensa insustentabilidade de políticas sociais e de rendimento, expresso no ridículo slogan “vivemos acima das nossas possibilidades” quando são catastróficas as consequências de políticas de austeridade cega, de “baias” orçamentais de um Tratado absurdo da União Europeia e de redução do investimento público.
A economia estiola, ausente o consumo interno, fragilizadas as condições objectivas da sua competitividade (preço da energia, telecomunicações, crédito, formação profissional, experiência e estabilidade profissional). Acena-se com o problema demográfico, o envelhecimento da população e entretanto desvaloriza-se o trabalho, aumenta-se a precariedade, cortando salários e pensões, incentivando o desemprego, colocando nos mais velhos, muitas vezes já reformados, a responsabilidade de suportar a sobrevivência de filhos e netos. O tecido produtivo, nomeadamente de pequenas e médias indústrias, foi paulatinamente destruído, nomeadamente após a adesão á EU e á institucionalização do Euro, operação não preparada e de impacto trágico para uma pequena economia periférica como a portuguesa.   
É o capital financeiro que verdadeiramente preside em Lisboa, Bruxelas e em Berlim, enredados os povos em lógicas de eliminação da consciência colectiva e de supressão da participação popular, com um capitalismo desenfreado, sem respeito pela condição humana e pelo destino da própria humanidade.
Pátria – Lugar de Exílio. Pátria Madrasta para novos e velhos, obrigados a emigrar, tantas vezes para lugares distantes, para conseguir obter o PÃO QUE O DIABO AMASSOU. São inúmeros os exemplos. Inúmeras as recriminações para os chamados partidos do arco da responsabilidade … responsáveis, sim, pelo estado a que isto chegou!
Somos o País mais desigual da União Europeia, onde cresce mais o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. Aumentam os lucros dos grandes grupos econômicos e diminui o rendimento das famílias e dos trabalhadores. Há que em nome de Abril dizer NÃO!
Somos um País dependente da agiotagem de credores, da voragem dos “mercados”, do livre arbítrio de grandes potências estrangeiras, que ditam as condições do presente e limitam as esperanças do futuro. Vivemos sob o jugo de um Pacto de Agressão, estabelecido por imposição de instâncias supranacionais e aceites por instituições internas.
Falamos em nome de camadas e sectores atingidos por esta rapinagem voraz que tem no Governo PSD/ CDS de Cavaco /Passos Coelho e Paulo Portas o seu instrumento governativo. Falamos dos Trabalhadores da Administração Pública, da Juventude, dos Reformados e Pensionistas. E tantos outros afectados nos seus direitos fundamentais.    
Hoje como antes de 25 de Abril de 2014, há quem considere o Povo Português despolitizado, apático e conformado. Mas a verdade é que, apesar de tantas dificuldades, não deixou cair os braços. Tem os olhos na Revolução de Abril cujas marcas e valores são sementes de futuro.
Sentir Abril é dizer que o futuro pode ser diferente, um futuro de paz, liberdade, saúde, educação, com direitos. Sentir Abril é romper com o passado, com os seus limites, e avançar num Portugal independente e de progresso.
Nesta Assembleia permanecerão no futuro diferentes sensibilidades e opiniões. Mas acredito, nós acreditamos, ser possível uma identificação comum com o diagnóstico feito e com muitas das propostas apresentados. Todos nós, membros desta Assembleia, somos ABRIL. QUE NINGUÉM SE DEMITA NAS SUAS RESPONSABILIDADES FUTURAS.
Porque todo o tempo é de Abril, quando de luta é feito o tempo que vivemos. Abril vive, Abril viverá!
Disse.

Cristiano Ribeiro

(pela bancada da CDU) 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

José Afonso - O pão que sobra à riqueza



Letra de José Afonso com a música do "Vira de Coimbra".
LP Republica (1975)

Gravado em Roma, disco de solidariedade para com o jornal República e a reforma agrária, editado em 1975, com interpretações de José Afonso e de Francisco Fanhais, numa iniciativa conjunta do Manifesto e das organizações Lotta Continua e Vanguardia Operaria, nunca foi distribuído em Portugal.

25 de Abril e 1º Maio - 40 anos em liberdade

Candidato comunista á Presidencia da República árabe da Síria

O deputado do parlamento sírio Maher Abdel Hafiz Hajjar apresentou a sua candidatura às eleições presidenciais na Síria, marcadas para 3 de junho, informam os média locais.

Hajjar milita no Partido Comunista desde 1984, tendo participado, na etapa inicial da crise, de manifestações pacíficas antigovernamentais.

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ARMANDO ALVES

     

segunda-feira, 21 de abril de 2014

UM IDIOTA FAMOSO


O presidente da Rússia, Vladimir Putin, espera que o novo secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, que antigamente ocupava o cargo de primeiro-ministro da Noruega, tenha uma postura muito mais digna do que o seu antecessor, Anders Rasmussen. Stoltenberg irá suceder o seu congénere escandinavo a partir do dia 1 de Outubro.

Um episódio sobre a gravação e a divulgação pelo ex-chefe do Executivo dinamarquês de uma conversa com o líder russo cativou atenção dos participantes da Linha Direta (entrevista televisiva) de Vladimir Putin mantida em 17 Abril. Após a entrevista, Putin apontou a necessidade de “normalizar as relações com a Aliança Atlântica”. Mas isto dependerá da OTAN e do seu novo secretário-geral. Com o secretário-geral anterior nem valia a pena tentar fazê-lo: como se pode lidar com uma pessoa que menospreza as normas elementares da ética e da moral? Tanto mais durante conversações a mais alto nível?

A julgar por observações de Vladimir Putin, o novo secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, parece ter uma “atitude muito mais séria na questão de estabilização das relações com a Rússia”. Ele é “uma pessoa séria”, disse Putin.

“Temos relações pessoais muito boas. Ele é uma pessoa séria e responsável. Vamos ver como se comportará no novo cargo”, realçou Putin. Irão melhorar as relações entre a Rússia e o ocidente até ao fim do ano? “Sabem, isto não depende apenas de nós. Depende de nossos parceiros. Não vejo obstáculos que impeçam a normalização das relações bilaterais”, salientou Vladimir Putin.

Claro que as relações entre Moscou e a OTAN não dependerão apenas de Stoltenberg, como não dependeram de Rasmussen. O maior papel na aliança tem sido desempenhado pelos EUA, principal financiador da OTAN. Mas o novo secretário-geral poderá influir sobre o ambiente que se vive nesse bloco político-militar. Por exemplo, não deturpar fatos e abdicar de suspeitas em relação à Rússia que já tornaram comuns e típicas no governo de Rasmussen.

Até o dia 21 de Abril, o departamento de imprensa da OTAN tinha desmentido o fato de gravação daquela palestra, qualificando-a de “absurda”. A porta-voz da OTAN, Oana Lungescu, declarou que os russos procuram, dessa forma, “desviar a atenção da crise ucraniana”.
Um escandaloso caso ocorreu em 2002, no decurso de uma visita de Putin a Bruxelas no âmbito da cúpula Rússia- EU. Rasmussen insistiu num encontro que, aliás, não tinha sido agendado. Segundo o presidente russo, a conduta de Rasmussen em 2002 era chocante. “Ele trouxe um gravador portátil e, às escondidas, fez a agravação para publicar na imprensa. Não pude acreditar nisso. Ele disse ter feito isso “para a história”. Isso poderia me agradar, mas, de qualquer maneira, ele devia-me avisar ou pedir licença para a publicação. Tais incidentes não podem aumentar a confiança”.

Ora, foram necessárias múltiplas provas da imprensa dinamarquesa e de outros participantes do “comportamento anormal” do primeiro-ministro dinamarquês para que a OTAN e os adjuntos de Rasmussen pudessem reconhecer o facto da gravação. Mas o facto era negado por “motivos de ignorância”.

O jornalista Christopher Guldbransen que filmava então o documentário “Fogh bag facaden” disse ter fixado um microfone na camisa do primeiro-ministro. Depois disso, Rasmussen foi para conversações com Putin. Essa palestra foi gravada e usada no filme, reconheceu Guldbrasen. Foi, de fato, um spot publicitário do primeiro-ministro dinamarquês.

Da mesma maneira foram gravadas para o filme as conversas com o presidente da França, Jacques Chirac, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair e o chanceler alemão, Gerhard Schroder, e outra personalidades oficiais que nada sabiam de gravações como essas.
Os encontros ao mais alto nível têm suas normas e regulamentos. Mas gravar em segredo um discurso de seu interlocutor e depois divulgar a gravação considera-se de uma baixeza incrível. Tais exercícios são praticados por delatores e intrigantes.

No entanto, existe na Rússia a esperança de que com Stoltenberg à frente na OTAN as relações se estabilizem. Rasmussen tinha-as estragado por completo. Aliás Rasmussen, um cínico perigoso, que devia ser julgado por Tribunais Internacionais, está ligado às piores aventuras do imperialismo.

Quanto a Stoltenberg, ficou famoso por encenar uma campanha publicitária eleitoral, conduzindo um táxi nas ruas de Oslo.


CR

Da Times Magazine para a Propaganda do Império..

Richard Stengel prestou juramento a 15 de abril de 2014 como Sub-secretário americano da Propaganda (Public Diplomacy) e Relações Públicas (Publics Affairs).
Como jornalista, Richard Stengel foi correspondente na África do Sul. Posteriormente dirigiu o National Constitution Center de Filadélfia e foi, a partir de 2006, redactor-chefe da Time Magazine. Sob a direção de Stengel, a conhecida publicação semanal norte-americana tornou-se mais politizada e dedicou-se a respaldar as «nobres» causas do governo dos Estados Unidos.
Juntamente com a jornalista Judy Woodruff, da PBS (Estação Pública de Tv-ndT), Richard Stengel participou como moderador num dos debates organizados, durante a campanha presidencial de 2008, entre os candidatos John McCain e Barack Obama, a cuja equipe de trabalho se une agora.
Ao tomar posse do seu novo cargo, Stengel, mencionou o artigo de opinião onde o presidente russo, Vladimir Putin, lançava uma advertência sobre o «excepcionalismo americano», advertência a que o novo diretor da propaganda oficial dos Estados Unidos respondeu agora, afirmando que uma nação cuja fundação se baseia no próprio princípio da liberdade tem que ser excepcional.
Segundo Richard Stengel, o objetivo primeiro da propaganda norte-americana deverá ser o de convencer que os Estados Unidos são «o país da liberdade».
(em www.voltairenet.org)

Charlotte Gainsbourg - Hey Joe (SebastiAn Remix)

domingo, 20 de abril de 2014

AS ARMAS DA MORTE AO SERVIÇO DA HIPOCRISIA OCIDENTAL

Segundo o jornal estadunidense  The Wall Street Journal, os serviços secretos dos EUA disponibilizaram 20 mísseis portáteis antitanque BGM-71 Tow ao grupo rebelde sírio Harakat Hazm, um grupo Islamista criado pela OTAN em Janeiro de 2014.

As armas foram expedidas para a Síria no início de Março através da Turquia e da Jordânia. Ao citar um representante da oposição síria, o referido jornal precisou que o primeiro fornecimento serviu como balão de ensaio destinado a “apalpar o terreno”. A ele deverão se seguir entregas em grandes quantidades de sofisticadas armas modernas.
Enquanto os peritos, a principio, pensavam que estes equipamentos haviam sido entregues pelo Qatar, parece, actualmente, que eles terão sido fornecidos pela Arábia Saudita em nome dos Estados Unidos.

 Em Fevereiro de 2012, os takfiristas do Emirado islâmico de Baba Amr dispunham de mísseis Milan, de fabrico franco-alemão, e enquadramento de oficiais franceses.

 


O PS foi buscar lã e saiu tosquiado ...





Acerca da promiscuidade e incompatibilidades entre o poder politico e interesses económicos, a memória parlamentar de José Magalhães e o discurso certeiro do líder parlamentar do PCP João Oliveira

sábado, 19 de abril de 2014

Drone da Marinha Portuguesa cai à água no primeiro lançamento!






A marinha portuguesa convidou os jornalistas e membros do Governo para a apresentação oficial do seu primeiro Drone!

A juntar ao submarinos de Paulo Portas, agora a marinha portuguesa pode contar com estes fantásticos veículos aéreos não tripulados para operações de reconhecimento.
Note-se como a aeronave é silenciosa e discreta, tendo ao mesmo tempo um fantástico alcance de voo e uma manobrabilidade invejável. Aprendam camones, isto é que é cólidade.
Na visita à base naval do Alfeite, o Ministro da Defesa José Pedro Aguiar-Branco – acompanhado pelo chefe do Estado-Maior da Marinha, almirante Macieira Fragoso -, Aguiar-Branco assistiu à apresentação do drone e previu que o aparelho “vai ser altamente eficaz nas missões que a Marinha tem de cumprir”.
Segundo a Lusa, o drone poderá efetuar “missões de busca e salvamento, fiscalização das pescas, apoio ao combate à poluição e à segurança marítima” – que são todas realizadas sob autoridade civil e não da Marinha.


sexta-feira, 18 de abril de 2014

ZECA BALEIRO - A SERPENTE (OUTRA LENDA)

Luíses - Solrealismo Maranhense



Filme /documentário brasileiro de 2013, de Lucian Rosa

Filme coletivo sobre a situação política anti-social da capital maranhense (e por extensão do Estado do Maranhão). Mesclando depoimentos sobre o caos da saúde e da situação agrária, um manifesto contra os podres poderes do clã dos Sarneys (que governam o Estado há mais de 40 anos),o director coloca em xeque de forma inventiva o caos e a absurda situação histórica da região

quarta-feira, 16 de abril de 2014

OBRIGATÓRIO!


Quem já viu na NET vídeos da Guerra da Síria certamente não ficará nada insensível perante aquela violência desenfreada. Parecendo imagens de jogo de computador, são imagens de um realismo incrível. São inúmeras as sensações obtidas de imagens de um conflito altamente mortífero, onde não há qualquer lógica humana, perdão ou iniciativa racional. Neutralidade, não!
A Síria existia com as suas realizações e também as suas contradições. Existia e devia continuar a existir. Competia ao seu povo encontrar em paz o seu destino. Mas houve quem assim não pensasse. Sabemos todos que para além de forças nacionais, há forças estrangeiras envolvidas, muitos milhares de mercenários, um potencial bélico muito significativo. Mas para além disso…
O mundo mostra que com tais intervenientes facilmente caminha para a destruição. O ser humano evoluiu historicamente, pensava-se, ganhou consistência e organizou-se em comunidade, com responsabilidade, cultura, progresso social. Mas não. Voltamos á Idade Média, á fragilidade humana, a vulnerabilidade perante exércitos e senhores. Já só faltam as calamidades, as pestes.
A Síria era ou não um país da Comunidade Internacional, da Liga Árabe, da ONU? Possuíam ou não os seus dirigentes estatuto de dirigentes de um Estado Laico, com leis, política, identidade, escolas, tribunais? Que pecados cometeu o povo sírio, para além do apoio á causa palestiniana?
Que futuro, melhor do que o passado, se percepciona para a Síria, para o Iraque, para o Afeganistão, para o Iémen, para a Somália, para o Mali, para a Líbia? Que direitos humanos se propagandearam, que Convenções Internacionais se disseram respeitar, que futuro se anunciou?   E agora? Por onde andam as mulheres e as crianças da Síria que não aparecem nos vídeos?
A comunidade internacional mostrou-se amplamente cúmplice de uma ignomínia, de uma criminosa aventura. Alimentou a barbárie, financiou o terrorismo, protegeu criminosos. Países como a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar envolveram-se em defesa de interesses geoestratégicos e econômicos. O Ocidente, de Hollande e do falso pacifista Obama,  manchou a sua diplomacia e a sua imagem com sangue e destruição de um País, repetindo a experiência iraquiana e afegã, fortalecendo os radicais.
Não é por o final da tragédia poder se anunciar brevemente, com a vitória provável de Assad e a derrota (provisória?) do fundamentalismo islâmico, que a marca de um indiscutível período negro da história da humanidade se apagará. Existisse uma poderosa, política e militarmente, União Soviética ou a Rússia não tivesse vivido um período de debilidade interna, e os últimos 20 anos teriam sido diferentes. Não sou muito partidário de teorias da conspiração mas fortalece-se a ideia em mim de uma estratégia planetária do imperialismo e do sionismo, em aliança com as monarquias feudais do Golfo e correntes conservadoras islâmicas.
O fascismo negro pode vestir os tons da Charia ou as botas cardadas de Kiev ou cheirar a petróleo. Não deixa de ser fascismo. Ver os vídeos da NET da Guerra da Síria deveria ser OBRIGATÓRIO.  Os povos levantar-se-iam contra os seus fantoches em Paris, Londres, Lisboa ou Washington.

CR


Cida Moreyra - Alabama Song



“Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”). Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). No Brasil, versão SENSACIONAL, na voz de Cida Moreira, gravada em “Cida Moreira canta Brecht”. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

economia

As importações voltaram a crescer mais que as exportações em Fevereiro. O déficit comercial em Janeiro e Fevereiro de 2014 foi de 1750 milhões de euros enquanto que em 2013 foi de 1345 milhões de euros.

Assim temos como certo que a economia "melhora" ...em sentido negativo.

HUMOR - A Voz Laboral



Humor com muita realidade

INTERNACIONAL

O Exército Sírio libertou a cidade de Maalula, um dos centros cristãos mais antigos, onde ainda se fala o aramaico, a língua de Jesus Cristo

Em Kiev, a Junta Fascista recebeu o Presidente Suíço ... com a bandeira da Dinamarca. Foi o dignatário suíço que alertou para o erro diplomático. O fascismo não se caracteriza propriamente pelo nivel cultural

"O embaixador da Jordânia na Líbia, Fawaz Al-Itan, foi seqüestrado nesta terça-feira de manhã em Trípoli. O anúncio foi feito pelo porta-voz do Ministério líbio das Relações Exteriores, Saïd Lassoued, que diz não saber a identidade dos seqëstradores. Os atacantes dispararam contra o veículo do diplomata jordaniano, ferindo seu motorista. O embaixador foi então retirado de seu carro e levado para destino desconhecido.
Na sequência, a Royal Jordanian Airways cancelou seus voos para Trípoli. Deve-se mencionar que a British
Airways e a Alitalia suspenderam seus voos para a Líbia desde março. A alemã Lufthansa e a Austrian Airlines
encerraram suas operações na Líbia."

Dexys Midnight Runners - Come On Eileen

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Convite

O AUTOR
O "nosso"Miguel não para de nos surpreender. O professor "emigrado", o autarca "depreciado", o editor da Farpa "silenciado", o "comunista-intelectual", o lordelense "não resignado". O AMIGO.

uma iniciativa importante


internacional


O Partido Comunista da Federação Russa expressou a sua profunda preocupação pelo dramático desenvolvimento da situação na irmã Ucrânia. Segundo informaram os meios de comunicação, na tarde de 9 de Abril, desconhecidos incendiaram a sede do Partido Comunista de Ucrânia em Kiev, que estava ocupada pelos fascistas desde finais de Fevereiro, onde posteriormente haviam estabelecido o “Comité Da Delação” e a “Centuria de Maidán”. Isso sucedeu depois das Forças da Ordem terem anunciado aos extremistas que por decisão judicial deviam abandonar o edifício. Como resultado de incêndio na sede central do PCU, arderam 220 m². Este incidente mostra a atmosfera generalizada de caos, violência e impunidade que reinam na Ucrânia.

O Partido Comunista da Federação Russa decidiu estabelecer delegações regionais nas cidades ucranianas do leste.

biografia de Soeiro Pereira Gomes

Joaquim Soeiro Pereira Gomes nasceu, em 14 de Abril de 1909, em Gestaçô, concelho de Baião, no distrito do Porto. Morreu há 64, em 5 de Dezembro de 1949, em Lisboa. Morreu relativamente jovem, alguns meses depois de ter feito 40 anos. Filho de uma família de pequenos agricultores, fez a instrução primária em Espinho. Com 21 anos concluiu o curso de regente agrícola na Escola Nacional de Agricultura de Coimbra. Em 1930, parte para Angola, onde trabalha como guarda-livros na Companhia de Catumbela. Devido ao clima e às condições de trabalho apenas aí permaneceu um ano.

Regressado a Portugal, casa em Coimbra com Manuela Câncio Reis e vem fixar-se em Alhandra, onde trabalha como empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo. Data desses duros anos 30 o seu contacto com a brutal exploração e as desumanas condições do trabalho operário. O contacto transforma-se em consciência e a consciência exprime-se em acção de animação cultural e actividade política. Na viragem dos anos 30 para a década de 40, o PCP iria reorganizar-se na clandestinidade, organizar a luta de massas, reforçar a sua organização e alargar a sua influência.

Entretanto, Soeiro Pereira Gomes ajudava a criar bibliotecas populares nas colectividades de cultura e recreio, a promover cursos de alfabetização e de ginástica, sessões de poesia e palestras, e até promove a construção de uma piscina – a Charca – para o povo de Alhandra. Nessa sua intensa actividade tinha de encontrar e encontrou de facto o Partido Comunista Português, ao qual adere.

Como militante, integra a célula da empresa Cimentos Tejo e a seguir passa a fazer parte do Comité Local de Alhandra. A sua actividade de animação cultural intensifica-se, e instigado por Alves Redol, em 1939 e 1940, publica crónicas e contos no jornal O Diabo. Em sua casa, encontram-se outros intelectuais comunistas – escritores como Alves Redol, Sidónio Muralha e Alexandre Cabral.

Em 1941 publica o seu primeiro romance, «Esteiros», nas Edições Sirius, com capa e desenhos de Álvaro Cunhal, a quem o ligava uma grande amizade. «Esteiros» é um dos primeiros romances neorealistas e um dos mais belos romances de adolescência da literatura portuguesa.

«Esteiros» abre com uma dedicatória: «Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro». Essa dedicatória, justamente célebre, homenageia solidariamente as suas personagens.

Entretanto, Soeiro passa a integrar o Comité Regional do Ribatejo e participa da reorganização de 40-41, que, consolidada nos III e IV Congressos do PCP (os dois primeiros congressos na clandestinidade), vai preparar o Partido para se transformar, simultaneamente, de partido de vanguarda da classe operária em grande partido nacional, que, sem perder a sua natureza de classe, se torna a força aglutinadora e unificadora das forças sociais, cuja aliança e convergência exprimia a «unidade da nação portuguesa na luta pelo pão, pela liberdade e pela independência» (do relatório do camarada Álvaro Cunhal ao III Congresso), e era necessária para abrir «o caminho para o derrubamento do fascismo» (IV Congresso).

É por essa altura que Soeiro, com Redol e Dias Lourenço, organiza os célebres passeios de fragata no Tejo – que eram formas de proporcionar encontros entre intelectuais e quadros do Partido, fora da vista e dos ouvidos do inimigo fascista.

A integração do intelectual revolucionário no partido da classe operária entra numa nova fase de aprofundamento. Soeiro desempenha um papel importante na organização das históricas greves de 8 e 9 de Maio de 1944, integrando o «Comité Regional da Greve do Baixo-Ribatejo» e participando na organização de uma marcha da fome em Alhandra. A PVDE aperta o cerco e, na tarde de 14 de Maio de 1944, Soeiro Pereira Gomes passa à clandestinidade. Na situação de funcionário clandestino, de revolucionário profissional a tempo inteiro, é-lhe confiada a responsabilidade da Direcção Regional do Alto Ribatejo – onde virá a desenvolver um notável trabalho de alargamento da organização, da actividade e da influência do Partido. Em Julho de 1946, no IV Congresso, é eleito para o Comité Central do Partido. Nesse mesmo ano, é destacado para a comissão executiva do MUNAF e acompanha a actividade dos militantes comunistas no MUD. Passa pouco depois a ser o elemento de ligação da Direcção do Partido com o MUNAF.

Entretanto, o escritor continuava; continuava escrevendo. Em Agosto do ano de 1946 escreve «Praça de Jorna», que é publicado em O Militante. «Praça de Jorna» é um notável texto sobre um problema concreto de organização económica, social e política de massas camponesas (ou, mais rigorosamente, de assalariados rurais). O texto, que se desenvolve ao longo de oito secções numeradas, abre com a descrição do que os próprios assalariados rurais chamam «praça de jorna» ou «praça de trabalho» e com um esboço do seu significado histórico e fecha, ligando a tarefa de utilizar as «praças de jorna» e a formação de comissões de praça e outras estruturas de unidade camponesa, com a construção de «um Movimento de Unidade Camponesa para o derrubamento do fascismo». 

Entre esses dois momentos, o texto argumenta a necessidade de defender e criar praças de jorna, entendidas como fruto da sociedade capitalista, espaço da luta de classes e terreno em que os camponeses se podem e devem unir contra os senhores das terras. O texto recomenda a sua organização para a luta, através da formação de «comissões de praça», de carácter permanente e operando na legalidade, embora seja conveniente que a maioria dos seus elementos não seja individualmente conhecido como dirigente da «praça». Meticulosamente, sintetizando e generalizando frequentemente a experiência concreta dos trabalhadores na organização, funcionamento e acção destas comissões, o texto fornece indicações sobre a sua composição, sobre a maneira de garantir a sua ligação aos trabalhadores, homens, mulheres e jovens, e sobre a forma de combinar e até de fundir tácticas defensivas e ofensivas. Finalmente, o texto de Soeiro chama a atenção para a importância da «Comissão de praça conhecer as condições de trabalho nas outras praças da região» e aponta a possibilidade das comissões alargarem o seu âmbito de actividade, «interferindo em todos os sectores da vida social que digam respeito à classe camponesa da sua localidade, tais como: racionamentos, melhoramentos locais, direcção da Casa do Povo, eleições gerais».

«Praça de Jorna» não é ficção, não é um texto literário, mas é um escrito político em que o seu autor usa a sua capacidade de escrita, a sua informação e poder de argumentação e de convencimento, para, trabalhando com a própria experiência das massas, encontrar a orientação mais adequada para um problema ou uma cadeia de problemas da vida social.
Entretanto, Soeiro Pereira Gomes não abandona a ficção. Já na clandestinidade vai encontrar os seus motivos na própria situação de clandestinidade. Na primavera de 1945, escreve «O Pio dos Mochos», conto que virá a integrar um pequeno conjunto de narrativas que, intitulado «Contos Vermelhos», conhecerá publicação também clandestina. Sucedem-lhe, em Novembro de 1948, «Refúgio Perdido», e em 20 de Janeiro de 1949, o ano da sua morte, «Mais um Herói». Cada conto tem uma dedicatória: «O Pio dos Mochos» é dedicado «ao camarada Duarte» (pseudônimo usado na clandestinidade por Álvaro Cunhal); «Refúgio Perdido», ao camarada João (pseudônimo de Dias Lourenço); «Mais um Herói» cuja dedicatória – «À memória de Ferreira Marquês e de quantos, nas masmorras fascistas, foram mártires e heróis» – diz o nome legal e não o pseudônimo, porque o camarada homenageado fora (em 1944) assassinado. A colectânea, por seu turno, expande as dedicatórias singulares, até abraçar o colectivo dos revolucionários: «Aos meus companheiros – que, na noite fascista, ateiam clarões duma alvorada».

Com «Contos Vermelhos», pequenas histórias, contos exemplares numa tradição que vem da Idade Média, a vida clandestina dos militantes do Partido Comunista Português torna-se pela primeira vez matéria ficcional e inspiração ética e ideológica da narração, e entra na literatura portuguesa.

Estes contos narram acções de personagens em situações ao mesmo tempo típicas e excepcionais. Excepcionais porque a clandestinidade política é um estado de excepção, por um lado, porque é violentamente imposta, por outro, porque aqueles que se decidem a ela o fazem para acabar com a situação que a impõe. São histórias que representam homens comuns, mas portadores de uma força; histórias sobre a experiência física e moral do medo e sobre a força anímica, moral e política que pode vencer o medo. Medo de ser preso, medo de falhar, medo de ter medo, medo supersticioso dos fantasmas que em parte vêm da infância, medo da tortura e do sofrimento físico, medo de morrer, de perder a vida e os afectos que a tecem. Esses medos irão sendo vencidos; estas são também histórias da esperança. A daqueles que são animados por uma paixão histórica: a de uma luta pela liberdade que lhes aparece indissociavelmente ligada à luta por uma revolução social. E talvez se perceba que essa esperança é nestes contos factor de dignidade individual e, ao mesmo tempo, algo que vem de se fazer parte de um colectivo tão livremente escolhido que por ele se arrisca a dureza da vida clandestina e, no limite, o risco de morte. E este fazer parte significa a partilha de ideais, valores e projectos de uma mudança do mundo e da vida.
Em «O Pio dos Mochos», alguém que, tendo estado preso, «falou», recebe dos seus camaradas uma oportunidade para se reintegrar no combate. Deve deixar no cemitério de uma povoação em luta e cercada pelas forças policiais, panfletos de apoio aos camponeses e alguns mantimentos; é assaltado pelos medos, mas, ajudado por aquele que lhe propôs a tarefa, acaba por cumpri-la e reencontrar uma maneira de alegria. No fundo, venceu uma prova.
Em «Refúgio Perdido», um revolucionário, perseguido e quase cercado, perde o seu refúgio e, por duas vezes, no mesmo dia, falha a sua instalação num novo quarto. Falha também um encontro para passar os jornais clandestinos que deve distribuir. Acaba por dormir ao relento, sem ter comido e pensando que não vai faltar ao encontro de recurso (um segundo encontro já pré-marcado para o caso de falhar o primeiro).
No último conto, «Mais um Herói», alguém que é preso parece preparar uma auto-justificação para a eventualidade de, sob a tortura, acabar por denunciar os seus. Entretanto, confrontado com um camarada que já cedeu e começou a «falar», opera-se nele uma convulsão ao mesmo tempo estranha e clara: um gesto de indignação e rebeldia que faz com que o seu companheiro recuse o que já disse, e faz com que ele próprio vá resistir à tortura.
Em cada conto, os protagonistas estão em grande medida sós. É certo que há sempre, embora com funções diversas, um outro camarada que aparece, mas a força que vence o medo, que os faz reagir e actuar, têm que a encontrar em si. Entretanto, a essa relativa solidão chegam os gestos e os ecos de uma presença solidária: a de um partido que, golpeado pelas prisões e o assassinato, sobrevive e resiste, pelas suas raízes sociais de classe, pela sua teoria e pelos laços que o ligam àqueles por quem é feito.Tais ecos chegam pelo encontro ou acção de um camarada, pela «voz» que fala na imprensa clandestina e pela cumplicidade muito próxima do narrador, ou seja, pela participação de quem conta naquilo que conta.

Quando passara à clandestinidade teria acabado uma primeira versão de um segundo romance, «Engrenagem». Sabe-se que essa versão foi posteriormente emendada, e que o seu autor não dera por terminado o texto que veio a ser editado, pela primeira vez em 1951. Mais tarde, já alcançada a liberdade, tornar-se-á possível a publicação de uma outra versão corrigida pelo seu autor. Este romance conta a dura experiência da passagem de camponeses a operários, a violência das condições do trabalho fabril e o progressivo ganhar de consciência de um operário que, em situação de encerramento da fábrica, incita à luta organizada os seus companheiros de trabalho.

Também «Engrenagem», abre com uma dedicatória: «Para os trabalhadores sem trabalho – rodas paradas duma engrenagem caduca». Se insisto neste facto – todas as principais ficções de Soeiro Pereira Gomes abrem com dedicatórias, que além do mais se dedicam aos heróis das suas narrativas – é porque quero avançar a ideia de que todo o trabalho ficcional do autor é, por ele, sentido, entendido e praticado como uma intensa dedicatória, não apenas literária, mas uma dedicatória da sua vida. Quando o lemos, percebemos que quem dedica aqueles contos e romances é alguém que assim estava a dedicar a sua vida. E essa dedicação foi extrema, ou seja, foi até ao fim. Até à morte. Atingido pela doença, as condições de clandestinidade não permitiam o necessário acompanhamento médico. Ainda regressa discretamente à legalidade, mas era tarde demais e morre quase a terminar o ano de 1949, esse ano que começara escrevendo, mas referindo-se a outros, «Mais um herói».

O seu funeral foi uma expressiva manifestação de pesar e de admiração pelo revolucionário caído na luta. O povo de Alhandra exigiu a passagem pela localidade do carro funerário que o transportava para o cemitério em Espinho, de modo a prestar a sua última homenagem ao «querido, inesquecível amigo Joaquim Soeiro Pereira Gomes.»


Em 1949, o regime fascista recompunha-se temporariamente. Era criada a NATO e Portugal era admitido: a guerra fria dava a mão a Salazar, Portugal adere ao plano Marshall. A polícia política prende mais de uma dezena de dirigentes e funcionários do Partido, entre os quais Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro.

A noite parecia adensar-se, mas os companheiros de Soeiro Pereira Gomes persistiam, preparavam uma nova ofensiva que, desde 1958 e durante toda a década de 60, abalaria o regime, ateavam os «clarões duma alvorada», que havia de chegar em Abril de 1974.