um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

PI DE LA SERRA - Si els fills de de puta volessin no veuríem mai el sol



Se os filhos da puta voassem não veríamos mais o sol...

NASCEU UMA VEREADORA DA “OPOSIÇÃO”?

 Nasceu uma estrela da “oposição”. A vereadora Raquel Moreira da Silva (RMS) entregou os pelouros que possuía na Câmara Municipal de Paredes, como parte integrante da equipa dirigente do PSD.  Em entrevista a O Progresso de Paredes, alega ser impossível trabalhar com Celso Ferreira, o Presidente da Câmara. Apesar do aumento das responsabilidades decorrente da atribuição de mais pelouros, do mandato anterior para o presente, Raquel Moreira da Silva rompe agora com o Executivo por várias razões que explicita e que merecem ser analisadas.

Há claramente um choque de identidades, que se beliscam e se antagonizam. RMS sente que há uma centralização de decisões e projectos, e para ela fica uma menor consideração e autonomia por parte do Presidente. São os cortes genéricos nas verbas e é também aquilo que chama a falta de um “serviço publico pleno”. A própria equipa é catalogada como “imatura”, cada um com agenda política própria.

Mas são mais importantes as considerações sobre actividades de que é testemunha. Em primeiro lugar, a referência a “esbanjamento de dinheiros em actividades, eventos, estátuas, conferências e viagens e exposições”.  Nada que não se soubesse. Depois temos alusões directas e críticas: á Carta Educativa, “sem qualquer auscultação das necessidades e pertinência á comunidade escolar”, á requalificação da Avenida da República (com a sua ciclovia), á venda do Pavilhão e campo de futebol das Laranjeiras, ao mastro de Lordelo, ao campo de golfe de Vila Cova de Carros (que era centro de interpretação ambiental), á venda do edifício do Matadouro e da Junta de Freguesia de Castelões de Cepeda, ao realojamento da comunidade cigana, ao retorno económico, social e cultural de investimentos recentes, ao Planit Valley.  
Com a autoridade de quem integrou o núcleo duro do PSD, RMS alerta-nos para a dívida da autarquia ser superior a 100 milhões de euros, caminhando assim para o que chama de “abismo económico-financeiro”.

Ficamos assim a saber o que já sabíamos. Foi denunciado agora o que já tinha sido denunciado outrora. Diz o povo: mais vale tarde do que nunca. RMS não vai mais ao golfe com Pedro Mendes, nem embandeira o mastro de Lordelo com Celso Ferreira, nem se deslumbra com a arte pública de Couto. A ver os próximos capítulos da novela.
CR

terça-feira, 27 de novembro de 2012

apontamentos dispersos para a biografia de Cavaco Silva (XXXIV)


«Digam que eu estive aqui mas que não disse absolutamente nada» - disse o Presidente Cavaco Silva… e teve graça!

Cavaco falava numa entrega de prémios a jornalistas e decidiu ironizar com os seus já famosos e prolongados silêncios. Pena que não se tenha ficado apenas pela frase que acima destaquei, perdendo-se em longas explicações e desenvolvimentos da piada, o que, como se sabe, aniquila qualquer tentativa de humor. Está desculpado pela falta de prática.
Escusado teria sido também, quando quis fazer a conversão de uma “onça” para “gramas”, durante a sua avaliação do “silêncio de ouro”, ter decidido dizer que são «trinta e uma gramas», em vez de trinta e um gramas... já que é (quase) do domínio público o facto de só existirem gramas machos. Pessoalmente acho triste... mas é assim! Grama não tem feminino! Nunca veremos os gramas a reproduzirem-se, alegremente, povoando o mundo com quilogramas de filharada, quintais de sobrinhos e toneladas de netinhos e netinhas. É a vida!...
Seja como for, aquilo que conta para este texto é o facto inédito de ter achado graça a uma piada nascida no cérebro do cidadão Aníbal Cavaco Silva.
Resumindo... gramei!
 
(em samuel-cantigueiro.blogspot.pt)

SOLIDARIEDADE

No dia 27 de Abril de 2002 começou uma nova etapa da minha aventura da Solidariedade, com o compromisso ético e politico entre duas pessoas – eu e o meu amigo e camarada Álvaro Pinto. Desde então, os meus sábados de manhã estão ocupados com consultas médicas gratuitas na Junta de Freguesia de Parada de Todeia.

São dez anos de esforços e de disponibilidade, muitas horas de serviço á comunidade, milhares de consultas e receitas, forte ajuda ao rendimento disponível das famílias. Foram consideráveis as mudanças entretanto efectuadas, com a introdução do sistema informático de prescrição de receitas e de registo de actos médicos, com uma lista de utentes que se aproxima dos 400.

São inúmeras as manifestações de consideração e regozijo por parte da população de Parada de Todeia, que se sente assim positivamente descriminada. Sublinhe-se a participação importante neste projecto da D.ª Lurdes, a recepcionista / colaboradora sempre presente, faça sol, faça chuva.

Quando se houve falar em todo o lado de projectos camarários de ajuda a pessoas vulneráveis em crise, iniciativas certamente louváveis de entidades oficiais e IPSS´s, não deixo de sentir orgulho especial nas características únicas de um projecto de apoio social, sem o mediatismo de outros, mas idêntica validade. Desculpe-se a imodéstia.

CR

domingo, 25 de novembro de 2012

poema


NÃO PARES A TUA TEMPESTADE

Não traio.

Porque insistes?

Não traio.

Desde criança que meu Pai me ensinou

não haver tempestade
na terra ou nos céus
que não traga
a praga
de um falso herói
salvador da Cidade.

Ou a esperança de um semideus

com um raio

na Mão

que tudo destrói

para pintar depois o Sol e o Chão

de outra realidade.

Mas nunca encontrarás traidores

entre os que sempre como eu sonhamos combustões

de novas flores

com pétalas de asas de liberdade

que só nascem e crescem regadas pelos gritos e lágrimas

das multidões.

 
Povo, continua! Não pares a tua tempestade.

José Gomes Ferreira

 

 

The Cranberries - When You're Gone


REFLEXÃO SOBRE O 14 NOV

No meu local de trabalho, um serviço público, a greve geral decretada pela CGTP de 14 de novembro foi vivida de forma particular. De um universo de 20 elementos, 13 fizeram greve, 6 estiveram presentes e 1 não estava por férias. Mas como os profissionais administrativos fizeram greve, não houve suporte administrativo e informático, não se fizeram consultas médicas ou de enfermagem, não houve por isso trabalho /assistência/produção. Tivemos perversamente profissionais que lutaram pelos interesses dos próprios e dos outros e abdicaram da remuneração de um dia de trabalho e outros que abdicaram de lutar pelos interesses próprios e dos outros, não abdicaram da remuneração e trabalharam nesse dia o mesmo dos outros, isto é, zero.
O Primeiro Ministro deste País assinalou a “coragem” de não fazer greve. O Presidente da República deste País em dia de greve geral, fez questão em dizer que estava a trabalhar. O País dividir-se-ia entre os que acompanham “corajosamente” o Primeiro Ministro e o Presidente da República neste afã pelo trabalho e os que estão numa de deixar, por conveniente, o Primeiro Ministro e o Presidente da República… descansar. Não sendo o descanso eterno, que não se deseja a ninguém, que seja pelo menos uma licença prolongada.
Há 3 grandes razões ou grupo de razões que a meu ver justificam a “coragem” de que fala Passos Coelho, do País “trabalhador” de 14 de nov.
 A primeira razão seria a identificação com o PSD (e com o atrelado CDS), a cumplicidade do militante ou eleitor, a dependência funcional ou emotiva, que pode ser concordância com o rumo das políticas ou com os protagonistas, ou não, a visão apologética das setinhas viradas para o céu ou para a bolinha ao centro. Percebe-se que do silêncio não concordante de muitos, da conversa particular crítica, a actos activos de rebeldia, vai uma distância considerável, um percurso sinuoso.  O povo “trabalhador” de 14 de nov é uma caldeirada de motivações, vontades diversas, indecisões e incompreensões.
A segunda razão da “coragem” de não fazer greve, em momento tão marcante, reside no medo. Medo de quê? Medo do patrão, mesmo que seja o Estado, medo da precariedade, do despedimento, medo da discriminação, medo do rótulo, medo da apreciação dos outros, medo de si próprio. A realidade vivida transmite-nos exemplos inúmeros de incerteza, dúvida, pragmatismo sem princípios, oportunismo. Vivemos angustiados e sacrificados o dia-a-dia mas paradoxalmente o futuro, que depende de nós, é que nos atormenta. O 14 de nov é a outra (mesma) face do 1.º de maio do Pingo Doce. A felicidade contentinha de poupar uns euros por dois dias (já só faltam os outros 363 dias…)   
A terceira razão reside na falta de perspectiva, por preguiça mental em procurar saber o porquê das coisas, em colher informação, em raciocinar devidamente. Apesar de tudo parece-me a mais generalizada e felizmente aquela que nos pode conduzir á mudança. Respeitar em todos e cada um este diferente patamar de consciência social parece ser necessário. A liberdade passa por aqui: ser livre nas opções, tendo direito a uma informação /compreensão dos fenómenos.
Uma sugestão final: talvez fosse adequado discutir nos locais de trabalho a constituição de um Fundo de Greve, que permitisse a resposta autónoma e eficaz aos desafios do presente e do futuro.
CR   
 

sábado, 24 de novembro de 2012

mistérios de Paredes



 

as cabinas telefónicas do jardim da Casa da Cultura de Paredes. "Está lá?". A cultura sem valor acrescentado.

AGENDA

A Assembleia Municipal de Paredes reune em Sessão Ordinária no próximo dia 28 de novembro pelas 21h com a seguinte Ordem do dia

1- Relatório de actividades municipais e situação financeira do municipio - para conhecimento

2- Proposta de fixação referente ao Imposto Municipal sobre Imóveis e da participação do IRS para o ano de 2013 - para discussão e votação

3- Atribuição de despesas de representação aos titulares de cargo de direção intermédia nos termos da Lei n.º 49/2012, de 29 de Agosto - para discussão e votação

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Creed - With Arms Wide Open


Papa Bento XVI – Precisamente aquilo de que o mundo mais precisava por estes dias...

O senhor Ratzinger, "o Bento", tal como já outros quinze antes de si e actual Chefe de Estado do Vaticano, fez questão de reafirmar solenemente, assertivamente, Urbi et Orbi, a virgindade de Maria, a mãe do nazareno Jesus.
Esclarece também – e isto sim, é ainda mais importante! - que no célebre presépio de Belém... não havia vaca nem burro! (Dependendo de que Belém está a falar... tenho dúvidas quanto à questão do burro que, cá pra mim, existe sim senhor!)
Na falta de melhores explicações, presumo que, no primeiro caso, tenham conseguido exumar o corpo e proceder a uma autópsia. Já no que respeita ao segundo, terá sido apenas um golpe de sorte terem conseguido as imagens de uma câmara de vigilância que estava mesmo em frente ao estábulo.
Ainda bem que ainda há quem se preocupe com coisas realmente importantes!
Apesar de a virgindade, seja de quem for, nunca me ter interessado por aí além e embora imaginando o prejuízo que esta bombástica revelação sobre a vaca e o burro pode causar aos fabricantes de figurinhas de barro para decorar presépios por esse mundo fora, não posso deixar de aplaudir a iniciativa do senhor papa.
Esqueçamos o resvalar do déficit! Esqueçamos a escalada do desemprego! Esqueçamos a destruição do Estado Social! Esqueçamos o roubo continuado a quem trabalha! Esqueçamos a venda a retalho da soberania nacional! Concentremo-nos no essencial! Façamos como este homem, um verdadeiro estadista... que tem uma real noção das prioridades e daquilo que, em cada momento, faz mais falta à Humanidade!!!
Noutra ocasião, este alto funcionário do “Deus” dos católicos, afirmou que «Deus não é absurdo», querendo dizer com essas palavras que o problema da falta de fé não está na escuridão, mas sim no excesso de luz que emana da divindade e que encandeia os ignaros mortais.
Até pode ser (o que aconselharia uma urgente revisão no alinhamento dos divinos faróis)... mas olha que se Deus não pratica a arte do absurdo... delegou muito bem essa tarefa em alguns dos seus mais altos representantes!
 
(samuel-cantigueiro.blogspot.pt)

RECORDANDO JOSÉ AFONSO E A SUA OBRA

Mediapart (Mediapart): vídeos no Dailymotion

o mar de Cardona

http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=2896765

A militante do CDS e administradora da CGD é um vazio de ideias. É ridiculo o nível da argumentação. É confrangedora esta elite intelectual.

Ana Belén - Peces de ciudad


FASCISTAS, NÃO OBRIGADA!



Para os que andam a endeusar este tipo de raciocinio e linguagem, não percebendo a serpente que sai do ovo, FASCISMO NUNCA MAIS!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Gaza

Em Gaza-prisão, as crianças têm medo das aves de fogo e tinge-se de vernelho a consciência cercada.

CR

poema


Tragédia
Foi para a escola e aprendeu a ler
e as quatro operações, de cor e salteado.
Era um menino triste:
nunca brincou no largo.
Depois, foi para a loja e pôs a uso
aquilo que aprendeu
— vagaroso e sério,
sem um engano,
sem um sorriso.
Depois, o pai morreu
como estava previsto.
E o Senhor António
(tão novinho e já era «o Senhor António»!...)
ficou dono da loja e chefe da família...
Envelheceu, casou, teve meninos,
tudo como quem soma ou faz multiplicação!...
E quando o mais velhinho
já sabia contar, ler, escrever,
o Senhor António deu balanço à vida:
tinha setenta anos, um nome respeitado...
— que mais podia querer?
Por isso,
num meio-dia de Verão,
sentiu-se mal.
Decentemente abriu os braços
e disse: — Vou morrer.
E morreu!, morreu de congestão...

Manuel da Fonseca, in "Planície"

Falatório - Álvaro Cunhal entrevistado por Clara Ferreira Alves 1997 02


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

This is Your Captain Speaking - Gathering Pieces



Titulo: Gathering Pieces
Album: Storyboard
Ano: 2005
This is Your Captain Speaking
Post rock
Melbourne, Australia

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A NAIFA - Homenagem a 4 poetas e um cineasta / Não há mais mundos



Gravado ao vivo na Festa do Fado 2012 no castelo de São Jorge, Lisboa.
Produção DROID ID. Realização Miguel Manso.
Poemas de Ana Paula Inácio e Adília Lopes.

pintura

 
Jerry Clovis, californiano

                                                            Adore, acrilio sobre tela


Dona Isabel

Jornal «Avante!» - Opinião - Dona Isabel

Vasco Cardoso (em Avante)

domingo, 18 de novembro de 2012

OS COGUMELOS

           A Arte Pública em Paredes surgiu agora qual cultura de cogumelos. De aparente espontânea vontade, irrompendo em terreno húmido e fértil, proliferando, multiplicando-se. E como os cogumelos, transmite em si a dúvida: será tal cultura verdadeiramente consumível? Não será mesmo perigosa?

Temos de tudo, dispersa a arte pública pela cidade. No Calvário, na Feira, junto ao Tribunal, no Palacete da Granja, junto á Câmara, junto ao adro da Igreja, no Parque José Guilherme. Cultura mais ou menos anónima (titulo e autor ausentes). Arte Pacóvia, assim já a descrevi (calúnia, mea culpa), certamente por não entender a “profundidade” da mensagem artística expressa em tais obras.  

No Parque José Guilherme, vêem-se cadeiras pelo ar, alusão certamente a gente-autarca em Paredes com tão pouco substância, peso específico ou responsabilidade para ocupar as cadeiras do poder.

Junto á Biblioteca, estaciona na parede uma “minhoca cultural”, bem perto de um “teclado de piano” – passadiço de madeira.

Na Feira o monumento ao Caju-Tremoço, entendido por muitos como estendal de fraldas do Jardim de Infância da vizinhança.

Há também o… “coiso” em frente a um conhecido Laboratório de Análises Clinicas.

         Junto ao Tribunal, há o balouço ou balancé vermelho, certamente simulando uma “forca” onde Gaspar vai dependurar a classe média e as classes populares. Há quem já aí tenha visto o espectro de autarcas de Paredes, a balouçar, a balouçar até cair. Mas há mais.

 As cabines telefónicas do jardim do Palacete da Casa de Cultura, mais os “granitos”, o “rochedo” do recanto do jardim e as “bolinhas escultóricas” junto á Igreja. E …

Mas é no Calvário que se encontra a obra-prima, não fosse o autor um renomado artista contemporâneo. Diremos que a Capela do Calvário, património histórico, foi “castigada” por ordem divina com uma criação humana. Consta até que um morador interpelou o Presidente da Junta, apelando á retirada daquele objecto-invólucro, certamente deixado ali por conveniência de uma empresa de transporte de mercadorias…é verdadeiramente um “espelho”.

Mas falando de arte pública, importava ver o real impacto de tal investimento, o que ganha a cidade com tais intervenções, que mais-valia justifica a despesa pública. E adivinha-se os “comissõezinhas”, ou talvez não, que os artistas envolvidos são sérios.

Anunciam-se turistas a rodos, excursões de literatos e intelectuais a sorver a arte pública de Celso, Mendes e Couto. A CP vai reforçar com novos horários a procura cultural de Paredes. Paredes transforma-se na nova Edimburgo, Veneza ou Amsterdam.

Alguns verão o parque nómada dos ciganos e por momentos, ilusórios e bem documentados momentos, pensarão que vivem lá pessoas. Alguns verão o campo das Laranjeiras e desconfiarão que aquele espaço não pertence a um museu histórico vivo. Ou o espaço onde existia a junta de freguesia. Por momentos o realismo exposto aos seus olhos relembrará os anos 70 do século passado. Acharão até alguma piada á reconstrução histórica com cheiro criativo das ETARS do passado.   

Arte Pindérica, não. Arte realista. É realista porque é realmente lamentável.

         Voltando aos cogumelos, só comamos os industriais. E cuidado com alguns apanhadores e revendedores.

CR

The Cure - A Forest


sábado, 17 de novembro de 2012

GRAFISMO



ÁLVARO CUNHAL

Texto


O Sabujo
por BAPTISTA-BASTOS

O discurso de Passos Coelho, pretendidamente de boas-vindas a Angela Merkel, ultrapassou a indispensável cortesia para se transformar numa inqualificável sabujice. A alemã esteve seis horas em Lisboa apenas para apoiar e aplaudir a política do primeiro-ministro português. Afinal, a sua política. E aquele perdeu completamente o mais escasso decoro e o mais esmaecido pudor. Qualquer compatriota bem formado sentiu um estremecimento de vergonha ante o comportamento de um homem, esquecido ou indiferente à circunstância de, mal ou bem, ali representar um país e um povo.
A submissão a Angela Merkel e ao sistema de poder que ela representa atingiram o máximo da abjecção quando Passos estabeleceu paralelismos comparativos entre trabalhadores alemães e portugueses, minimizando estes últimos, e classificando aqueles de exemplares. A verdade, porém, é que as coisas não se passam rigorosamente como ele disse. Os portugueses trabalham mais horas, recebem muito menos salário, descansam menos tempo, dispõem de menores regalias e de cada vez mais reduzida segurança.

O sistema de poder que Angela Merkel representa e simboliza, imitado por Pedro Passos Coelho, fornece a imagem e a prova de um clamoroso défice político. Além de ser uma dissolução ética. A associação entre a alemã e dirigentes portugueses não é de agora: José Sócrates (apesar de tudo recatado na subserviência) caracterizava-se por uma fórmula intermédia, que queria resistir à fragmentação da identidade. Quero dizer: demonstrava um outro carácter.
Nem mais tempo, nem mais dinheiro, disse a chanceler à jornalista Isabel Silva Costa, na RTP. O estilo peremptório não suscita dúvidas. Pode Passos Coelho proceder a todo o tipo de reverências e de abandonos da decência que ela não dissimula o facto de mandar, e de impor uma política, uma doutrina e uma ideologia. Aliás, dominantes na Europa. A passagem por Lisboa constituiu uma distanciação do povo: cancelas, baias, dispositivo policial invulgar, um corredor absurdo que, no fundo, implicam a ausência ou a fraqueza de mecanismos institucionais.

Há qualquer coisa de inanidade nesta encenação que aparta governantesoutra, estamos nós, os ameaçados. A contra-conduta, a dissidência não são, somente, actos políticos; sobretudo, representam urgentes condutas morais.
Tudo isto é sinal de grande infelicidade.

 

Polícia de choque quebra piquete de Greve da Carris na Musgueira :: GG 14N



Os diálogos entre povo (força repressiva) e povo (protagonista da História) ... ou como a corda está a romper...

frase

 
"Num mundo em que não há risos sem lágrimas, a felicidade nunca pode ser uma situação com caracteres próprios e momentâneos. A felicidade não pode existir, não existe, como situação particular: nem quando depende de factos estranhos à própria vontade; nem como ideia abstracta. A felicidade só pode existir como um atributo de toda uma vida. Só a satisfação pela vida que se vive poderá tornar feliz."

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

o corte necessário


Quando o jovem barbeiro de Penafiel me dizia, até algo a despropósito, que estava mal o seu negócio, e acrescentava que os seus clientes amigos tinham emigrado, eu senti que era preciso reflectir. Perguntei-lhe se tinham sido os mais novos os que tinham perdido o hábito de frequentar a sua barbearia. Respondeu-me que eram  “todos”.  Ele e o pai, igualmente barbeiro, agora esperavam pelos clientes, que rareavam.  Mas o cabelo certamente continuaria a crescer, e o asseio e a imagem escanhoada certamente continuariam a estimular as visitas ao estabelecimento. Mas outros, palavreando em outros idiomas,  cortariam o cabelo, aparariam a barba, retocariam as pilosidades. A modernidade dera lugar á necessidade de lutar por uma vida melhor  no lado de lá das fronteiras.
O negócio futuro adivinha-se difícil. Mas Gaspar e Coelho não se preocuparão com tão prosaica circunstância. O diálogo é impossível.  O barbeiro nada sabe de politicas de ajustamento,  de consolidação de contas ou de uma politica de reformas estruturais. Percebe mais de cortes, mas de cabelos, os verdadeiros.
E nós arriscamo-nos a não ter no futuro quem nos penteie a amizade, como o jovem barbeiro de Penafiel.

CR

Mafalda Veiga - Gente Perdida


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

poema


DA LIBERDADE INTERIOR
Curvei-me
para beijar
as negras e bem polidas botas
do nosso amo
e então ele disse:
mais!

Curvando-me mais
senti
com prazer
a resistência
da minha coluna
que não queria ser dobrada

Feliz, verguei-me ainda mais
reconhecido ao nosso amo
por esta descoberta
da minha dignidade
e força
Interiores

 Erich Fried

 (poema distribuído na manifestação da greve geral no Porto, comemorativo dos cento e trinta anos da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto)

 

 

mistérios de Paredes


Há cadeiras pelo ar em Paredes, gente com tão pouca substância que não tem peso especifico para o lugar.

humor

Governo fixa serviços mínimos para o CDS-PP

O Governo fixou hoje serviços mínimos para os portos de Lisboa e Setúbal, bem como para a sede do CDS-PP no Largo do Caldas, cujos deputados e ministros há muito entraram numa paralisação contra o Governo que, segundo Passos Coelho, já prejudicou o país em 500 milhões de euros e trouxe o Vale e Azevedo de volta a Lisboa.

Os grevistas do CDS-PP, conhecidos por usarem todos a mesma máscara - o cabelo à fosga-se -, reclamam por sua vez que os serviços mínimos da coligação estão a ser cumpridos por Telmo Correia quando de vez em quando é entrevistado pelo Mário Crespo.

(em Inimigo Público)

MEDINA CARREIRA: COM A VERDADE ME ENGANAS

 
Quem diz verdades mas só uma parte da verdade estará a ser honesto e verdadeiro? A pergunta pode ser colocada em relação às intervenções de Medina Carreira no programa "Olhos nos olhos" . Os seus anúncios da morte do chamado "estado social" devido ao constrangimento orçamental omitem que 67,9% das despesas do Estado vão para a rubrica "Operações da dívida pública" (ver Mapa III do OE-213). Portanto, falar extensamente dos 32,7% e não falar dos dois terços restantes do orçamento é uma opção altamente enviesada. Seria curial, também, que analisasse porque uma tão gigantesca fatia do orçamento vai para as ditas "Operações da dívida pública" (são 124,7 mil milhões de euros que, estranhamente, não são desagregados nos seus componentes). A razão para isso é que o serviço da dívida pública aumentou brutalmente com a entrada de Portugal na zona euro. Como os estatutos do BCE não lhe permitem financiar Estados, os governos recorreram e recorrem à banca privada portuguesa. Esta, tal como parasita, vai buscar empréstimos a banqueiros estrangeiros (a baixas taxas de juros) e reempresta-os em grande parte ao Estado português (a taxas elevadas). Donde se conclui, mais uma vez, ser imperativo que o Estado português seja financiado por um banco central próprio — o que só poderá acontecer quando Portugal recuperar a sua soberania monetária .
Mas tais conclusões são cuidadosamente omitidas por Medina Carreira e pela jornalista que o entrevista.

(em resistir.info)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

COMO VENDER UM LOGRO

O Gabinete de Comunicação do Município de Paredes emitiu um singular comunicado de imprensa, intitulado “Europeu de Hóquei em Patins em Paredes gera impacto mediático superior a 14,7 milhões de euros “.
Há uma empresa chamada Cision que avalia a eficácia das acções de comunicação e relações públicas. Ficamos a saber agora por essa empresa que o Europeu só na televisão teve uma audiência acumulada de 11 milhões de telespectadores, com um tempo de antena de 17h34m em 11 canais. Mas na imprensa o resultado foi também significativo, tendo atingindo a imprensa desportiva, bem como publicações regionais e meios on line.  

Assim sendo, julgou necessário o Gabinete de Comunicação do Município de Paredes demonstrar a validade do investimento. Quando muitos julgavam desnecessária tal preocupação, até tendo em conta as declarações do Presidente da Câmara de que o evento se pagava a si próprio, eis que o Gabinete, assessorado pela Cision, inventou um argumento redundante: os 14,7 milhões de euros.
Como se chega a esses números do impacto mediático, não sei. Que significado tem, igualmente não sei. Mas desconfio: desconfio que se tenha considerado o preço de publicidade paga nas televisões, na imprensa nacional e regional, desportiva ou não, e nos meios on line e se multiplicasse pelo tempo de antena e espaço informativo. Temos então os 14,7 milhões de euros. Pena não se poder dividir essa maquia pelos 80.000 habitantes de Paredes, o que daria uns 183 euros por paredense. Era brilhante!

E a próxima iniciativa da Câmara estava prometida. Nem que fosse o europeu da “sameirinha”.
CR

Fausto - Final



do disco "Um beco com saída" (LP 1975)

para o final feliz de um dia de Greve Geral especial...

um país da esquizofrenia

Passos Coelho, o malfadado Primeiro Ministro de Portugal, elogia a coragem dos que não fizeram greve. Cavaco Silva, o lamentável Presidente da República de Portugal, afirma que em dia de Greve Geral, ele não faz greve, ele  trabalha na solução dos problemas do País. A recessão económica confirmada pelo Instituto Nacional de Estatística afinal, segundo Coelho, já estava prevista. O Presidente da Colômbia dá lições e palpites sobre o FMI, e reformas "democráticas",  ao Cavaco. Portugal joga um particular de futebol no Gabão. Vale de Azevedo queixa-se do WC na sua cela da prisão. É um país doente, esquizofrénico, a precisar de internamento.

CR

greve geral

Piquete de greve estação autocarros Gijon, Espanha

                                                                          Lisboa, piquete de greve estação CTT
  


                                           Zona industrial da Corunha, Espanha

CGTP recomenda às forças de segurança que "não se metam onde não são chamadas" - Economia - Notícias - RTP

CGTP recomenda às forças de segurança que "não se metam onde não são chamadas" - Economia - Notícias - RTP

terça-feira, 13 de novembro de 2012

greve geral


sugestão de leitura


A Escrava de Córdoba, de Alberto Santos (Ed. Porto Editora) é um romance histórico ocorrido no Séc. X na Iberia, do Condado Portucalense e do al-Andaluz muçulmano.  

Conseguirá o amor vencer as barreiras da religião?

A Escrava de Córdova segue a vida de Ouroana, uma jovem cristã em demanda pela liberdade e pelo seu lugar especial no mundo. Confrontada com as adversidades do tempo em que lhe foi concedido viver, e em nome do coração, a jovem terá de questionar a educação, as convicções e a fé que sempre orientaram a sua existência. Será, por entre a efervescência das mesquitas e o recato das igrejas granÌticas da sua terra, que a revelação por que tanto almeja a iluminará.

Uma história inolvidável de busca de felicidade que tem lugar nos séculos X-XI, numa época pouco tratada pela Historiografia oficial e mesmo pela ficção romanceada. Um pretexto para uma brilhante explicação sobre o caldo cultural e civilizacional celto-muçulmano dos atuais povos peninsulares e uma profunda explanação sobre as origens, fundamentos e consequências da conflituosidade étnico-religiosa que hoje, tal como no distante ano 1000, ainda grassa no mundo.

Alberto S. Santos revela-nos a mentalidade, a geografia, o quotidiano urbano, as conceções religiosas, a fremente História do dobrar do primeiro milénio, e, sobretudo, a intensidade com que se vivia na terra onde, mais tarde, nasceram Espanha e Portugal. Dá-nos ainda a conhecer o ângulo mais brilhante, mas também o mais duro e cruel, da civilização muçulmana do al-Andalus.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PRESENÇA INDESEJADA

 
A Chanceler alemã desloca-se amanhã a território nacional. A sua deslocação não é uma visita a Portugal e muito menos ao povo português. É antes uma passagem apressada, fortemente protegida e resguardada da dura realidade nacional. Uma passagem concebida para promover encontros com alguns daqueles que, subscritores, executores e beneficiários do Pacto de Agressão das troikas, infernizam a vida dos trabalhadores e do povo, arrastam o país para o desastre e atacam a soberania e independência nacionais.

Caspian - Procellous



 Caspian
 Waking Season
 2012
 Origem de Caspian - Beverly, Massachusetts
Do melhor post-rock

domingo, 11 de novembro de 2012

Ó VICTOR, EXPLICA LÁ DO BCE

O QUE É O BCE?
- O BCE é o banco central dos Estados da UE que pertencem à zona euro, como é o caso de Portugal.

E DONDE VEIO O DINHEIRO DO BCE?

- O dinheiro do BCE, ou seja o capital social, é dinheiro de nós todos, cidadãos da UE, na proporção da riqueza de cada país. Assim, à Alemanha correspondeu 20% do total. Os 17 países da UE que aderiram ao euro entraram no conjunto com 70% do capital social e os restantes 10 dos 27 Estados da UE contribuíram com 30%.

E É MUITO, ESSE DINHEIRO?

- O capital social era 5,8 mil milhões de euros, mas no fim do ano passado foi decidido fazer o 1º aumento de capital desde que há cerca de 12 anos o BCE foi criado, em três fases. No fim de 2010, no fim de 2011 e no fim de 2012 até elevar a 10,6 mil milhões o capital do banco.

ENTÃO, SE O BCE É O BANCO DESTES ESTADOS PODE EMPRESTAR DINHEIRO A PORTUGAL, OU NÃO? COMO QUALQUER BANCO PODE EMPRESTAR DINHEIRO A UM OU OUTRO DOS SEUS ACCIONISTAS ?

- Não, não pode.

PORQUÊ?!

- Porquê? Porque... porque, bem... são as regras.

ENTÃO, A QUEM PODE O BCE EMPRESTAR DINHEIRO?

- A outros bancos, a bancos alemães, bancos franceses ou portugueses.

AH PERCEBO, ENTÃO PORTUGAL, OU A ALEMANHA, QUANDO PRECISA DE DINHEIRO EMPRESTADO NÃO VAI AO BCE, VAI AOS OUTROS BANCOS QUE POR SUA VEZ VÃO AO BCE.

- Pois.

MAS PARA QUÊ COMPLICAR? NÃO ERA MELHOR PORTUGAL OU A GRÉCIA OU A ALEMANHA IREM DIRECTAMENTE AO BCE?

- Bom... sim... quer dizer... em certo sentido... mas assim os banqueiros não ganhavam nada nesse negócio!

AGORA NÃO PERCEBI!!...

- Sim, os bancos precisam de ganhar alguma coisinha. O BCE de Maio a Dezembro de 2010 emprestou cerca de 72 mil milhões de euros a países do euro, a chamada dívida soberana, através de um conjunto de bancos, a 1%, e esse conjunto de bancos emprestaram ao Estado português e a outros Estados a 6 ou 7%.

MAS ISSO ASSIM É UM "NEGÓCIO DA CHINA"! SÓ PARA IREM A BRUXELAS BUSCAR O DINHEIRO!

- Não têm sequer de se deslocar a Bruxelas. A sede do BCE é na Alemanha, em Frankfurt. Neste exemplo, ganharam com o empréstimo a Portugal uns 3 ou 4 mil milhões de euros.

ISSO É UM VERDADEIRO ROUBO... COM ESSE DINHEIRO ESCUSAVA-SE ATÉ DE CORTAR NAS PENSÕES, NO SUBSÍDIO DE DESEMPREGO OU DE NOS TIRAREM PARTE DO 13º MÊS.

- As pessoas têm de perceber que os bancos têm de ganhar bem, senão como é que podiam pagar os dividendos aos accionistas e aqueles ordenados aos administradores que são gente muito especializada.

MAS QUEM É QUE MANDA NO BCE E PERMITE UM ESCÂNDALO DESTES?

- Mandam os governos dos países da zona euro. A Alemanha em primeiro lugar que é o país mais rico, a França, Portugal e os outros países.

ENTÃO, OS GOVERNOS DÃO O NOSSO DINHEIRO AO BCE PARA ELES EMPRESTAREM AOS BANCOS A 1%, PARA DEPOIS ESTES EMPRESTAREM A 5 E A 7% AOS GOVERNOS QUE SÃO DONOS DO BCE?

- Bom, não é bem assim. Como a Alemanha é rica e pode pagar bem as dívidas, os bancos levam só uns 3%. A nós ou à Grécia ou à Irlanda que estamos de corda na garganta e a quem é mais arriscado emprestar, é que levam juros a 6, a 7% ou mais.

ENTÃO NÓS SOMOS OS DONOS DO DINHEIRO E NÃO PODEMOS PEDIR AO NOSSO PRÓPRIO BANCO!...
- Nós, qual nós?! O país, Portugal ou a Alemanha, não é só composto por gente vulgar como nós. Não se queira comparar um borra-botas qualquer que ganha 400 ou 600 euros por mês ou um calaceiro que anda para aí desempregado, com um grande accionista que recebe 5 ou 10 milhões de dividendos por ano, ou com um administrador duma grande empresa ou de um banco que ganha, com os prémios a que tem direito, uns 50, 100, ou 200 mil euros por mês. Não se pode comparar.

MAS, E OS NOSSOS GOVERNOS ACEITAM UMA COISA DESSAS?

- Os nossos Governos... Por um lado, são, na maior parte, amigos dos banqueiros ou estão à espera dos seus favores, de um empregozito razoável quando lhes faltarem os votos.

MAS ENTÃO ELES NÃO ESTÃO LÁ ELEITOS POR NÓS?
- Em certo sentido, sim, é claro, mas depois... quem tem a massa é quem manda. É o que se vê nesta actual crise mundial, a maior de há um século, para cá. Essa coisa a que chamam sistema financeiro transformou o mundo da finança num casino mundial, como os casinos nunca tinham visto nem suspeitavam, e levou os EUA e a Europa à beira da ruína. É claro, essas pessoas importantes levaram o dinheiro para casa e deixaram a gente como nós, que tinha metido o dinheiro nos bancos e nos fundos, a ver navios. Os governos, então, nos EUA e na Europa, para evitar a ruína dos bancos tiveram de repor o dinheiro.

E ONDE O FORAM BUSCAR?
- Onde havia de ser!? Aos impostos, aos ordenados, às pensões. De onde havia de vir o dinheiro do Estado?...

MAS METERAM OS RESPONSÁVEIS NA CADEIA?
- Na cadeia? Que disparate! Então, se eles é que fizeram a coisa, engenharias financeiras sofisticadíssimas, só eles é que sabem aplicar o remédio, só eles é que podem arrumar a casa. É claro que alguns mais comprometidos, como Raymond McDaniel, que era o presidente da Moody's, uma dessas agências de rating que classificaram a credibilidade de Portugal para pagar a dívida como lixo e atiraram com o país ao tapete, foram... passados à reforma. Como McDaniel é uma pessoa importante, levou uma indemnização de 10 milhões de dólares a que tinha direito.

E ENTÃO COMO É? COMEMOS E CALAMOS?
Isso já não é comigo, eu só estou a explicar...
(em antreus.blogspot.pt)

grafismo




TEXTO

O CAMBULHÃO

O ano fora forte em milhos. Chuvas gratificantes em Agosto e um Setembro soalheiro haviam transformado o cerrado do Picanço, no Areal, numa safra de bonança. A apanha do milho, iniciada alta madrugada, prolongou-se por toda a manhã, terminando, apenas, ao meio dia. Carros e caros de bois, estacados à porta do Picanço, a abarrotar-lhe a cozinha de maçarocas graúdas, recheadas de grãos suculentos. Uma riqueza! Um pecúlio como há muito não havia memória!

De tarde era a hora de encambulhar. Sentados em pequenos bancos ou sobre cestos virados com o fundo para cima, formaram círculo ao redor daquela espécie de pirâmide de maçarocas, o Picanço, a mulher, os filhos, uns parentes mais próximos, alguns amigos e um ou outro vizinho. A Engrácia, a filha do Mendonça, é que também não quis faltar, aparecendo de surpresa. Vinha oferecer os seus fracos e míseros préstimos. Mas, até era muito bem-vinda. Por parte do velho Picanço que via nela mais uma ajuda benfazeja e primorosa e por parte do filho mais novo, o Chico, que desde há muito, à sorrelfa, lhe andava a catrapiscar o olho.

Mal entrou Engrácia, levantou-se o Chico, muito solícito e mais apaixonado do que interessado na ajuda que a moça consubstanciava. Trouxe-lhe um banquinho e sentou-a a seu lado, partilhando não apenas os baraços de espadana com que se haviam de amarrar os cambulhões, mas também atirando-lhe olhares comprometedores, sussurrando-lhe disfarçados galanteios e até, provocando, propositadamente, um ou outro roçar de joelhos, camuflado pelo permanente arrepanhar das cascas das maçarocas. Não era bonita a Engrácia, mas era bela e encantadora. Não era linda, mas era fascinante e atraente. O rosto salpicado, junto aos olhos, por aglomerados de sardas que se iam dispersando e diluindo ao longo das faces, não era angélico mas revelava-se encantador e, delirantemente, sublime, por quanto, estampado numa espécie de esquelética agressividade, consubstanciava um encanto impar e uma fascinação invulgar. E ele, com o cabelo levemente acastanhado a sombrear-lhe a profundeza do olhar, impunha-se com uma rigidez cativante, atlética e com uma magnanimidade, inebriantemente, sedutora. Amavam-se sem, no entanto, o confessarem.

A safra do encambulho não parava e o monte, inicialmente desenhado pirâmide transformara-se, a meio da tarde, numa espécie de mastaba e esta, algum tempo depois, em eira. Se os fios de espadana rareavam, o Chico, na mira de aumentar o pecúlio dos atilhos, levantava-se e a moça não tirava os olhos dele. Voltava a sentar-se e, ao puxar do monte uma maçaroca, descambava sobre os ombros da moçoila, já inclinada, como que a adivinhar-lhe o enlevo. Apenas a Josefina – uma alcoviteira assumida, que não tirava o olho deles – impedia que olhares, toques e gracejos desandassem e se transformassem em requebros mais íntimos e comprometedores.
A tarde chegava ao fim e o monte das maçarocas era agora um eirado, derramado sobre o velho e carcomido soalho da cozinha. O velho Picanço, apercebendo-se que se aproximava o princípio do fim de tão farta azáfama, deu ordens. Era o Chico que havia de ir pendurar os cambulhões no estaleiro. Mas que o fizesse com cuidado; maçarocas bem apinhadas e com a casca mais grossa bem veadinha para fora. Era necessário proteger os grãos indefesos da chuva e do gorgulho. Aos mais novos e afoitos competia ajudar no carrego e transporte dos cambulhões para junto do estaleiro. Alguém havia de os “alcançar” ao Chico, quando encavalitado nas ripas do estaleiro ou pendurado numa escada anexa.

Engrácia, vermelha que nem um pero, ofereceu-se, de imediato. Se era o Chico a pendurar os cambulhões havia de ser ela a ajudá-lo. E ao aproximar-se do estaleiro, já ao lusco-fusco, ao alcançar-lhe o primeiro cambulhão, despendeu-o das mãos, simuladamente desajeitadas, deixando que o dito cujo se estatelasse no chão. Sempre solícito e adivinhando-lhe o intento, o Chico baixou-se para ajudá-la. Ao erguerem-se, fizeram-no tão ajeitadamente, que os seus rostos emparelhados se colaram num sufoco terno e emocionante, selando uma indelével paixão.

Entre choros e soluços, meses depois, era o Chico a partir para a América e a Engrácia, aflita e conturbada, com o coração despedaçado. No primeiro ano não havia vapor que não trouxesse carta do Chico e não havia carta que não viesse carregada de promessas e juras amor. No segundo as cartas rareavam e as promessas e juras esquecidas e, ao fim de três anos, o Chico já nem lhe escrevia. A Engrácia, no entanto, só e amortalhada, retinha dele um enorme e indelével amor, consubstanciado na memória permanente daquele cambulhão, caído propositadamente do estaleiro do velho Picanço, no escuro da noite daquele dia em que fora ajudar a encambulhar o milho do Picanço.

 (Carlos Fagundes, em picodavigia.blogs.iol.pt)

 

sábado, 10 de novembro de 2012

Dave Matthews Band - If Only


texto


Não sei se rio se seco

 Pensamento:
Todos nós temos o nosso rio de criança,
um rio grande, uma ribeira, uma levada,
um rio seco, um rio de cheia, um rio com peixes
ou mesmo um rio que atravessa a cidade emparedado.
Até pode ser o rio de uma imagem, dum filme, duma história
mas todos nós temos um rio de criança.

No meu caso, o meu rio deixou-me sempre insatisfeito,
era ali, na minha aldeia que ele se formava de dois ou três riachos.
No inverno levava água se Deus a dava
mas no verão toda a água era para o milho,
ele esquecia-se que era rio e eu também.

Na aldeia a jusante já a ribeira corria todo o ano,
as mães lavavam a roupa aos filhos
e os filhos apanhavam peixes com uma cesta.
Eu molhava-me lá com os outros meninos e acontecia-me pensar
no destino daquela água, por que terras passaria
e quanto tempo demoraria até chegar ao mar.
Penso que os outros meninos também pensavam nisso
e que todos eles, como eu, sonhavam um dia ver o mar.

Agora que somos grandes já não sentimos os rios.
O que importa é que o governo cuide dos rios,
sejam eles de água ou de povo.
Que os deixe correr e desaguar,
que os contenha, que os regule, que os aproveite.
Ah! E que nunca se esqueça de tratar o saneamento!

Intervalo de pensamento:
O povo no tempo é como um rio no espaço.
Alguém já deve ter dito isto!...
Mas isto não:
Rio de rir
Rio das águas
Rio das ruas
e levo-as com o rio ao mar.

Continuação de pensamento:
Mas o importante é que o rio nos continue a correr na memória
e o povo fluvie e vença as margens que o comprimem.
Um poeta já deve ter falado disto!...
Mas ninguém, senão eu ou os meus primos,
retém a imagem da minha mãe e das minhas tias
a lavar no rio da minha aldeia
as tripas do porco que matámos em dezembro.

Fim de pensamento:
Não tarda aí dezembro,
o porco está vivo,
o povo está no rio,
o rio vai cheio,
a greve é em novembro,
o povo está vivo,
o porco está cheio,
há que matar o porco,
se não ele bebe o rio.

Rio! Não sei se de rir se de ser também rio!

E de quem é o nosso mar???
Isto sou eu a pensar!

 (em reidosleittoes.blogspot.pt)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Chico Buarque - O Meu Amor



sem vergonha!

Dos jornais (em Notícias de Penafiel)

O vereador do CDS na coligação Penafiel Quer (PSD/CDS), que lidera a Câmara de Penafiel, tornou público que deixou “a militância partidária” (!). Ficamos a saber com tal insólito anúncio que há cerca de dois anos deixou de exercer qualquer cargo partidário e centrou a actividade pública em funções autárquicas (vereador e presidente substituto).
Tanta inocência desperta primariamente uma certa compaixão por Antonino de Sousa. Mas rapidamente se descobre a hipocrisia profunda que preside ao exercício do poder de uma certa direita. Antonino não deixa o CDS por razões de tempo ou de centralidade de actividade. Antonino quer fazer-se passar por “independente” para ser cabeça de lista pela Coligação, o PSD de Marco António obriga, o CDS amocha e o próprio Antonino remete-se ao estatuto de pária, sem passado e sem coluna vertebral. Lamentável. O circo politico e ético da direita não tem qualquer vergonha!

humor


Por isso as mulheres têm faltado ás Consultas de Planeamento Familiar. Estão nas Finanças...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

mistérios de Paredes



 
A Arte Pública de Paredes, o Caju-Tremoço ou ... o Estendal das Fraldas. Não acreditam que existe? Ver Largo da Feira.

texto

             

THE REVOLUTION WILL NOT BE FACEBOOKED


         A estética e o folclorismo violento de certos grupos políticos denota a arrogância e a sobranceria de quem se acha na posse de uma receita mais rápida e eficaz de se chegar ao destino. Na canção dos Calle 13, Pa'l Norte, alguém grita que o caminho não é fundamental: "o importante é chegar". Na obra-prima de Mathieu Kassovitz, La Haine, uma voz-off abre a película destacando que é a aterragem que importa e não a queda. Mas sendo certo que o objectivo é aquilo que a todos nos move e nos faz empreender o caminho também não é menos verdade que qualquer pasteleiro diria que sem um cuidado escrupuloso sobre a receita acabaremos com um desastre entre mãos.
         Mas não, não se trata de música, de cinema ou de culinária. Trata-se da luta de classes. E os que com o seu ruído tentam abafar as muitas variáveis em jogo não fazem mais do que ajudar o inimigo. É que as polémicas que alguns tentam relançar sobre a postura dos comunistas em relação à violência não é nova. Foi, é e será discutida enquanto houver capitalismo. É que os detentores do poder económico e político acusam-nos de violentos e os que se dizem à esquerda dos comunistas acusam-nos de pacíficos e, em consequência, colaboracionistas.

         À direita, durante o debate sobre o Orçamento do Estado para 2013, um deputado do PSD citava o Manifesto do Partido Comunista para destapar os propósitos violentos da "extrema-esquerda radical". Há cerca de um mês, José Pacheco Pereira brindou-nos com uma excelente prosa que enunciava os perigos da actividade do PCP e da CGTP face à inconsequência dos grupos que se dizem à esquerda dos comunistas e que tentam romper com o modelo de luta da central sindical. A coincidência da análise de Pacheco Pereira não traduz sintonia entre o antigo maoísta e actual membro do PSD com o PCP e a CGTP. Traduz um alerta que significa medo.

         Muitas destas discussões repetiram-se ao longo do século XX. Em Portugal, foram particularmente intensas durante os anos 70 com o advento do maoísmo e do trotskismo. Mas foram varridas durante a longa travessia contra-revolucionária em que boa parte dos que se diziam à esquerda do PCP se entregaram à causa dos que nos afundam o país. Pacheco Pereira é um deles, o presidente da União Europeia é outro. Não se sabendo onde estarão, dentro de décadas, alguns dos que agora criticam os comunistas, é aqui e neste momento que devemos desmontar as acusações que são feitas.
         Em primeiro lugar, é curioso assinalar que durante todos estes anos de ventos contrários, à direita e à esquerda, apontou-se o dedo ao PCP. Quando Álvaro Cunhal faleceu, em 2005, a imprensa europeia anunciava a morte do último grande stalinista. O líder histórico de um partido que era fiel à ortodoxia soviética. Todo o conjunto de epítetos anti-comunistas foi partilhado da direita à esquerda, sem qualquer pudor, por aqueles que desde o poder ou do contra-poder alimentaram, durante décadas, o eurocomunismo, a social-democratização dos partidos comunistas e a sua desfiguração.

Toda esta linha de desvalorização das organizações representativas dos trabalhadores, acusando-as de ser manobradas pelo PCP, o que considero ser um insulto para os próprios trabalhadores, todo este fascínio pelo espontaneísmo, toda esta promoção de acções e atitudes sem qualquer preocupação pela elevação da consciência social e política da maioria da população, pela radicalização das massas, é um gigantesco pontapé na memória histórica e não deixa de ser resultado de um longo processo de revisionismo histórico.

         Velhas discussões que já haviam sido ultrapassadas pela experiência regressam pela mão da mesma classe de gente que noutros tempos as protagonizava. Alguns deles são os mesmos que gostam de se dizer leninistas, apesar de trotskistas, não sabendo, por exemplo, que Lénine, em 1917, criticou violentamente uma manifestação desencadeada contra as declarações de Miliukov, ministro de Relações Exteriores do governo provisório, que anunciara a fidelidade aos compromissos contraídos pelo Czar com os aliados sobre a guerra. Este protesto que acabou com vários mortos e feridos em choques violentos com os apoiantes do governo provisório seguia a consigna de derrubar o poder.

         Se fossem alguns dos que cá e hoje se dizem de esquerda carregariam violentamente contra a resposta de Lénine: Esta saída estava fora do tempo por ser prematura. Qualquer movimento insurreccional, qualquer que seja, deve ser levado até ao fim. Se se detém a meio do caminho, isso pode ter consequências graves para toda a revolução. E acrescenta: "Dediquem todas as vossas forças a orientar os recuados, a unir as vossas filas, a organizar-vos de cima abaixo, de baixo acima. Não vos deixeis desconcertar nem pelos conciliadores pequeno-burgueses nem pelos partidários da defesa nacional nem pelos energúmenos que querem precipitar as coisas e gritar «Abaixo o governo provisório!» antes que se forme uma maioria popular coerente e estável. A crise não pode ser resolvida nem pela violência exercida por alguns indivíduos sobre outros, nem pelas intervenções esporádicas de pequenos grupos de gentes armadas, nem pelas tentativas blanquistas de «tomar o poder», de prisão do governo provisório".

         Em Portugal, a crise económica e política agudiza-se. Também dizia Lénine que o proletariado, na sua educação revolucionária, pode aprender "mais num só ano de recrudescência política do que em vários anos de calma". Se a direita avançar com o processo de destruição das funções sociais do Estado e decidir rasgar a Constituição da República Portuguesa estaremos perante um golpe. A resposta à altura dessa agressão também tem de ter a maioria dos trabalhadores ganhos para as tarefas que serão necessárias para desenvolver uma luta sem tréguas contra o poder político e económico.

         O próximo passo é a greve geral. Ela não só afecta muito mais o poder económico como exige um maior comprometimento e uma maior confrontação onde a luta de classes é mais aguda: no local de trabalho. Mais do que uma manifestação ou lançar petardos de cara tapada, uma greve é a etapa superior de quem tem a coragem de enfrentar o patrão. É, por isso, que é grave a desvalorização que alguns fazem da necessidade de todos fazerem greve propondo a abertura de outros espaços para que quem fura a greve possa participar sem se bater com quem o explora. E se no dia seguinte há a possibilidade de tudo continuar igual, nada continuará igual para o trabalhador que de queixo erguido soube estar do lado certo. Para os outros, nada mudou.

         Para o êxito das lutas que se avizinham, só com a unidade, a consciência e a disciplina revolucionária se poderá bater-se com eficácia. No momento em que surgirem as condições objectivas e subjectivas para a ruptura com este sistema não será a escadaria da Assembleia da República que teremos de tomar. Os edifícios só têm importância económica, política e militar pelas pessoas que albergam. Sem elas são apenas um monte de pedras e cimento. A tomada do Palácio de Inverno foi importante mas o verdadeiro poder estava nas mãos dos industriais, dos banqueiros e dos latifundiários. Sem a tomada de consciência de que é o sistema que urge derrubar, que não é pela troca de este ou aquele político, não saberemos caminhar. Se não soubermos o ritmo a que devemos caminhar, ficaremos a metade. E já é tempo de abrir passo para chegarmos definitivamente ao fim da estrada.

 Bruno Carvalho, em Blog kontra-korrente.blogspot.com