um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

sábado, 31 de dezembro de 2011

Mercedes Sosa-Todo Cambia



Todo Cambia

Cambia lo superficial
cambia también lo profundo
cambia el modo de pensar
cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
cambia el pastor su rebaño
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo
cambia el nido el pajarillo
cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
aunque esto le cause daño
y así como todo cambia
que yo cambie no extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
cuando la noche subsiste
cambia la planta y se viste
de verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
tendrá que cambiar mañana
así como cambio yo
en esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

POR QUE NÃO TRANSFORMAR "TODO CAMBIA" NUM HINO POPULAR PARA AS LUTAS DE 2012?

fotografia



Esta é uma das fotos mais famosas da história de Nova York, entrando para os anais da arte fotográfica. A imagem retrata onze operários que sem demonstrar medo algum fazem uma pausa para o almoço, estando todos suspensos numa viga de aço (sem qualquer proteção), no 69º andar do edifício Rockefeller Center.O autor desta impressionante fotografia é Charles C. Ebbets, tirada no dia 29 de setembro de 1932, intitulada “Almoço no topo de um arranha-céu”. Ela foi publicada na época no New York Herald Tribune.É certo que o medo imperava mais no solo do que nas alturas, pois enquanto estes trabalhadores ganhavam o seu suado pão, lá em baixo milhões de desempregados passavam fome. Eram resquícios da crise financeira de 29.


Mensagem de Ano Novo de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral do PCP

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

doismileoito - Acordes c/ Arroz

QUEM NOS ACODE?

A recente notícia de uma tentativa de assalto a uma carrinha de transporte de valores em plena auto-estrada A2, que se dirigia para o Algarve, e explicada com pormenores significativos pela imprensa, confirma aquilo que é evidente: a completa ineficácia das políticas governamentais no que respeita á segurança e tranquilidade públicas.

Portugal está a saque (e não falo só da politica de privatizações!). Portugal transformou-se num espaço onde a impunidade e o crime mais violento imperam, ausentes os instrumentos preventivos e repressivos de um Estado moderno. São os furtos violentos nas caixas dos multibancos, das redes de cobre, nas ourivesarias, nos hotéis, nas casas particulares, são sequestros de personalidades públicas.

É evidente a degradação da vivência do espaço público, em todo o país, áreas urbanas e áreas rurais, de dia e de noite. Estão fortemente condicionados os cidadãos nos seus direitos, a economia ressente-se deste ambiente, o cidadão anónimo sente-se impotente, o turista estrangeiro procura alternativas mais seguras. Redes de nacionais e estrangeiros actuam com o “profissionalismo” que decorre da liberdade de circulação, ausência de estratégias policiais de registo e controlo de movimentos suspeitos, ausência de resposta pronta e adequada das estruturas judiciárias. Pergunta-se muitas vezes: onde param as policias? FALTA DE MEIOS, DESAGREGAÇÃO DE ESTRUTURAS OU DESMOTIVAÇÃO?

Neste contexto preocupante e indutor de injustiça complementar neste Portugal depauperado, percebe-se mal a indulgência de muitos para com a Ministra da Justiça, o Ministro da Administração Interna e o Ministro Paulo Portas. Sabemos todos que a direita politica representada no governo tem da segurança pública uma visão estritamente securitária e de defesa do património, nomeadamente o particular. Conhecemos todos os “números” de Portas enquanto dirigente do CDS, contra a “anarquia” pública, e os fenómenos de marginalidade das periferias urbanas, com as visitas a esquadras da polícia (quase tão populares como as visitas ás feiras) e o discurso xenófobo empregue tantas vezes. Era um CDS pistoleiro, justiceiro, agravador de penas e de idade de prisão, impiedoso, o que mobilizou muitos portugueses no voto.
Mas agora vale mais o silêncio global, a desvalorização do acto grave, a cortina. É um autêntico fiasco. A Ministra da Justiça, ausente do país real, não quer que se fale em população prisional. Pudera! Paulo Portas, mais grave, não está, não fala, só ilude expectativas. Acho que ficou na Líbia pós Khadafi ou enredado nos milhões chineses da EDP. Ou estará afectado pelos submarinos alemães.

Por certo foi por erro que o líder da bancada parlamentar do CDS disse recentemente no hemiciclo que entre as vítimas e os criminosos, estava com os criminosos. Mas desenganem-se muitos. Parece contudo estar a meio caminho. Embora não queira que se saiba.

(em O Progresso de Paredes)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

CONSULTÓRIO / GUICHET

AOS UTENTES DO SNS VERSÃO PSD/CDS/CAVACO

Abri um consultório informativo sobre a Implementação do novo modelo de taxas moderadoras na saúde, aberto a perguntas pertinentes. O serviço informativo é para já de graça.

Sabiam que:

Consulta médica sem a presença do utente - 3 euros
Interpretação:
Se pretende a prescrição de medicamentos de uso crónico, são 3 eurozinhos para o papel e para o tinteiro… se pretende falar com o seu médico de família por telefone ou por mail, desembucha os meus 3 eurozinhos, pra tornar o diálogo mais “produtivo”

Consulta de enfermagem nos Cuidados de Saúde Primários – 4 euros
Interpretação:
Avaliar as tensões arteriais fica por 0,8 euros, mas se deixar que a enfermeira se ponha a explicar factores de risco e outras coisas relativas às tensões, já estará na consulta e já sabe são 4 euritos. E as tensões vão subir…

Outros preços do mercado

Lavagem auricular -- 1,40 euros
Enema de limpeza -- 2,5 euros
Interpretação:
Convem ter em atenção a zona a enxaguar…

a continuar...

as organizações locais do PCP em luta pela Saúde (II)

Hospital de Lamego Fica Como Entreposto de Triagem à Beira da Auto-Estrada

Em coerência com a permanente preocupação de defender o serviço prestado às populações pelo Hospital de Lamego, e quando se aproxima a abertura das novas instalações do que devia ser o Hospital de Lamego, a Comissão Inter-Concelhia Lamego/Tarouca do PCP, pediu ao seu Grupo Parlamentar na Assembleia da República, que interpelasse o Ministério da Saúde sobre as valências e serviços que o novo Hospital irá acolher.
A resposta do Ministério chegou agora e o que respondeu é suficiente para nos deixar profundamente preocupados. Informa o Ministério, por exemplo, que o tão ansiado novo hospital deixa de ser um hospital de retaguarda, passando a ser um Hospital de Ambulatório, com graves prejuízos para o regime de internamento. Segundo o governo, como não podia deixar de ser, a medida justifica-se por questões económicas.
Confirmam-se assim os piores receios e as várias denúncias feitas pelo PCP desde o início deste processo: Lamego deixa de ter um Hospital Distrital ficando apenas com um entreposto de triagem à beira de uma Auto-estrada. Acabam-se as funcionalidades de um verdadeiro hospital, nomeadamente: os internamentos, a assistência a doenças crónicas, as urgências com apoio das especialidades ou a existência de camas destinadas a patologias do foro médico ou cirúrgico. Fica o chamado Hospital reduzido às funções de um Centro de Saúde: Consultas Externas, Tratamentos em regime de Ambulatório e Urgências asseguradas por Clínicos Gerais.

E o que é isto de regime de ambulatório?

- O Regime de Ambulatório não contempla a doença crónica, logo estes doentes terão que ser internados fora de Lamego (Vila Real). Tomamos como exemplo os idosos (que representam a maioria da população da região), se necessitarem de internamento por uma simples pneumonia, cirrose na fase aguda, AVC, ou outro problema, que hoje se trata em Lamego, terão de os procurar em outro lado.
- O Regime de Ambulatório não contempla a maioria dos problemas de pediatria da área médica e muitos dos problemas da área cirúrgica. Se o CHTMAD pode oferecer tantas especialidades de acompanhamento em consulta, porque é que não os pode articular de forma a darem apoio à Unidade Hospitalar de Lamego em regime de internamento? As crianças terão que ir para Vila Real, com todos os custos que isso implica (aumento do absentismo escolar, do absentismo dos pais ao trabalho e dificuldades de acompanhamento destes aos seus filhos durante o internamento, devido à distância e falta de transportes).
- Quando dizem que todas as especialidades se mantêm, é verdade, mas sem internamento para as situações que dele necessitarem. Nem tudo pode ser resolvido no ambulatório!!!
- Será que conseguem colocar em Lamego algumas especialidades que anunciam como estando presentes na consulta externa (ex: nefrologia e neurologia) se nem Vila Real as tem diariamente?
- Estão previstas 30 camas para cuidados continuados, mas nenhuma para patologias do foro médico ou cirúrgico, o que significa que o tratamento destes doentes terá que ser feito fora de Lamego (Vila Real).
- O Serviço de Urgência Básica (SUB) não contempla o apoio das especialidades (Medicina Interna, Cirurgia, Pediatria, Ortopedia, etc), logo não passa de um serviço com clínicos gerais para verem doentes que vêm de um Centro de Saúde onde já foram vistos por outros clínicos gerais, para depois serem transferidos para Vila Real e serem observados pelo especialista da área correspondente. Os doentes continuarão a andar a "passear" de ambulância!!!

Quanto à "muda" e "desaparecida" Comissão Local de Defesa do Novo Hospital, que reivindicava 150 camas, deixamos-lhe algumas perguntas: então as vossas preocupações com o Hospital só duraram até às eleições? Será que com a mudança de governo as 30 camas passaram a ser suficientes? Quais as acções reivindicativas que a alegada Comissão desenvolveu? Em que resultou o folclore montado por esta Comissão? Será que para o Sr. Presidente da Câmara Municipal o que era mau no Governo anterior, passou a ser bom com o Governo Social Democrata? Podemos concluir que o silêncio das autoridades locais significa concordância com esta situação.

Lamego, 30 de Dezembro de 2011

A Comissão Inter-Concelhia de Lamego/Tarouca do PCP

Bruce Springsteen -Youngstown



a extraordinária musica de Bruce Springsteeen presente no prefácio de um livro, referido em post anterior.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

as organizações locais do PCP em luta pela Saúde



Elementos da Direção Sub-regional do Vale do Sousa e Baixo Tâmega do PCP realizou uma ação de contacto com utentes, na entrada para as consultas do Hospital Padre Américo, em Penafiel, com o intuito de sensibilizar as pessoas para o aumento das taxas moderadoras, na terça-feira, dia 27 de dezembro.
Gonçalo Oliveira, membro da Direção Sub-regional do PCP, explicou a ação. “Estamos aqui no Hospital Padre Américo a entregar um documento que denuncia as graves consequências que as novas taxas moderadoras terão quer para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) quer para a própria saúde dos portugueses”, contou, acrescentando que se trata de “uma iniciativa integrada numa ação nacional do PCP de contacto e esclarecimento dos utentes dos hospitais e centros de saúde”.
O objetivo da ação foi “dizer às pessoas que o rumo que o governo está a querer levar ao SNS, a ser suportado por taxas que cada vez mais deixam de ser moderadoras para serem suporte e co-pagamento dos serviços de saúde prestados”, referiu Gonçalo Oliveira. Na sua opinião, trata-se de “um atentado ao direito à saúde dos trabalhadores e à própria Constituição da República, que consagra o princípio do tendencialmente gratuito”.
Para Gonçalo Oliveira, e falando em nome da estrutura regional do PCP, este aumento das taxas moderadoras faz parte de uma estratégia do governo “para que os privados tomem conta dos cuidados de saúde” e de “desmantelamento do Estado social”, apontando baterias a Paulo Macedo, ministro da Saúde: “É um homem da banca e que se preocupa com os números e não com as pessoas”.


Quanto se paga pelas novas taxas?


As taxas moderadoras das urgências hospitalares vão passar a custar a cada utente entre 15 e 20 euros e as dos centros de saúde aumentam de 3,80 euros para 10 euros, segundo uma portaria publicada a 21 de dezembro.
De acordo com a portaria, que entra em vigor a partir de 1 de Janeiro, acrescem a estes valores as taxas moderadoras por cada meio complementar de diagnóstico e terapêutica (MCDT) efetuado no âmbito da urgência, podendo o total chegar aos 50 euros, mas nunca ultrapassá-lo. Assim, o documento estipula para o serviço de urgência polivalente um aumento de 9,60 para 20 euros de taxa moderadora.
A portaria, que entra em vigor no dia 1 de Janeiro, estabelece que os desempregados com rendimento superior ao salário mínimo nacional vão começar a pagar taxas moderadoras. Também os reformados que recebam rendimentos acima dos 485 euros vão deixar de ter acesso gratuito aos cuidados do Serviço Nacional de Saúde.

A América de Bruce Springsteen


Quando The Boss leu o texto de Dale Maharidge, professor de Jornalismo na Universidade de Columbia, e viu as imagens de Michael S. Williamson, fotógrafo do Washington Post, compôs as canções Youngstown e The New Timer. Isso foi há 15 anos, o livro chama-se Journey to Nowhere e é a história da indústria norte-americana, dos homens e mulheres que construíram o país. Trinta anos depois, professor e fotógrafo publicam Someplace Like America: Tales From the New Great Depression. E Springsteen aceita escrever o prefácio. São suas estas palavras.

Eu tinha acabado a maioria do disco [The Ghost of] Tom Joad quando uma noite, aí há uns 15 anos, não estava a conseguir dormir, e tirei um livro da estante da minha sala de estar. Li-o todo de seguida, e fiquei toda a noite acordado, deitado na cama, perturbado pelo seu poder e assustado com as suas implicações. Na semana seguinte, escrevi Youngstown e The New Timer. Esse livro -Journey to Nowhere, de Dale Maharidge e Michael S. Williamson - coloca vidas, nomes e faces reais nas estatísticas que todos tínhamos ouvido ao longo dos anos 80. Pessoas que ao longo de toda a sua vida tinham obedecido às leis, tinham feito o que era certo e tinham acabado sem nada, homens e mulheres cujo trabalho e sacrifício tinham construído este país, que tinham dado os seus filhos para as suas guerras e cujas vidas afinal acabavam por ser marginalizadas ou descartadas.

Nessa noite fiquei acordado a pensar: "E se a profissão que aprendi de repente ficasse obsoleta, já não a considerassem necessária? Que faria para cuidar da minha família? E que é que eu recusaria fazer?" Sem se porem em bicos dos pés ou tentarem evangelizar, Maharidge e Williamson colocavam-nos estas questões, com as suas palavras e fotografias. Homens e mulheres lutando para conseguirem cuidar dos seus nas condições mais adversas, e mesmo assim sobrevivendo, seguindo em frente. Quando à noite aconchegamos os nossos filhos nas suas camas, esta é uma América que muitos de nós não conseguimos ver, mas que é uma parte do país em que vivemos, uma parte cada vez mais significativa. Eu acredito que um lugar e um povo não são definidos e julgados apenas pelos seus feitos e conquistas, mas também pela sua compaixão e pelo seu sentido de justiça.

No futuro, será nessa fronteira que todos nós seremos postos à prova. O que aí conseguirmos será a América que deixaremos para os nossos filhos e os nossos netos. Agora, o novo livro deles, Someplace Like America, mede e avalia a vaga que 30 anos depois nos está a atingir, uma vaga que Journey pela primeira vez viu a erguer-se, escura e violenta, na linha do horizonte. É a história da demolição do sonho americano, pedaço por pedaço, literalmente viga de aço por viga de aço, desmontada e enviada de barco para sul, para leste, para locais desconhecidos, contada através da voz daqueles que a viveram. Aqui está o preço, em sangue, riqueza e espírito, que a pós-industrialização dos Estados Unidos impôs aos seus cidadãos mais leais e esquecidos, os homens e as mulheres que edificaram os prédios em que vivemos, construíram as auto-estradas em que viajamos, fizeram coisas e em troca não pediram mais do que um bom dia de trabalho e uma vida condigna.

Fala do fracasso dos nossos políticos, que não conseguiram parar esta vaga (ou quando mesmo claramente não a apoiaram), do seu falhanço ao não conseguirem levar a nossa economia numa direcção que servisse a maioria dos cidadãos norte-americanos que tanto trabalham, e de terem permitido que todo um sistema social fosse desviado para servir uma elite. Estas histórias permitem-nos sentir a esmagadora destruição do sentido, identidade e objectivo da vida americana, sugada por uma plutocracia determinada a extrair as últimas gotas de ganhos, qualquer que seja o custo humano envolvido.

Mas, mesmo assim, não é uma história de derrota. Também detalha os laços familiares, a força interior, a fé e a resistência que se recusa a desaparecer que empurra o nosso povo para a frente quando tudo se conjuga contra ele. Actualmente, quando lemos acerca de trabalhadores, vemos que eles são tratados essencialmente sob a forma de estatísticas (os desempregados) e sindicatos (normalmente apenas descritos como um peso negativo para a economia). Na realidade, as vidas dos trabalhadores norte-americanos, bem como as dos desempregados e sem-abrigo, constituem uma parte definitiva e criticamente importante da história do nosso país, presente e passada, e nessa história existe imensa honra.
Maharidge e Williamson fizeram do contar dessa história o trabalho das suas vidas. Eles apresentam estes homens, estas mulheres e estas crianças em toda a sua humanidade. Dão voz ao seu humor, frustração, raiva, perseverança e amor. Convidam-nos a entrar nestas histórias para as percebermos e permitir-nos sentir os tempos difíceis e a experiência comunitária que ainda pode ser notada por baixo da superfície do meio ambiente noticioso actual. Ao dar-nos de volta esse sentimento de ligação universal, eles criam espaço para algum optimismo, no sentido de que ainda poderemos conseguir reencontrar o nosso caminho para um lugar melhor, enquanto país e enquanto povo. Como nos dizem as pessoas cujas vozes cantam nas páginas do livro, é o único caminho em frente.

(em papeisalexandria2.blogspot.com)

Smith & Burrows - When The Thames Froze



Dizem que é uma canção de Natal...acho bem!

a economia dia-a-dia

A QUEBRA NAS VENDAS DO COMÉRCIO NESTE NATAL PODE CHEGAR AOS 40%.

Os funcionários publicos perderão 17% em 2012 (174 euros por cada 1000 de salário) e os portugueses em geral vão perder 5,4% do rendimento real, a maior descida desde 1985 e o mais alto valor de toda a União Europeia

120.000 PORTUGUESES EMIGRARAM EM 2011, SOBRETUDO PARA A SUIÇA, ANGOLA E BRASIL, SENDO SOBRETUDO OS MAIS JOVENS E QUALIFICADOS.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

GENTE COM VOCAÇÃO



Chama-se Guilherme Aguiar. É uma figura pública, da advocacia, da política, do desporto, da comunicação social mediática. O vereador da Câmara de Matosinhos Guilherme Aguiar, eleito pelo PSD e cooptado pelo PS, estava com a cabeça em água enquanto procurava a carta que lhe faltava para completar o jogo de Solitário no seu moderno Ipad. Em plena sessão da Assembleia Municipal de Matosinhos.
Esta fotografia foi tirada dia 24 de Novembro (Dia de Greve Geral) e publicada no blog Um tal de blog.

POEMA

Soneto do Trabalho


"Das prensas dos martelos das bigornas

das foices dos arados das charruas

das alfaias dos cascos das dornas

é que nasce a canção que anda nas ruas.



Um povo não é livre em águas mornas

não se abre a liberdade com gazuas

á força do teu braço é que transformas

as fábricas e as terras que são tuas



Abre os olhos e vê. Sê vigilante

a reacção não passará diante

do teu punho fechado contra o medo.



Levanta-te meu povo. Não é tarde.

Agora é que o mar canta é que o sol arde

pois quando o povo acorda é sempre cedo"


ARY DOS SANTOS

a tecnologia de um novo iPad, ao serviço do memorando da troika

um comunicado oportuno

Privatização da EDP: um golpe na soberania nacional
Quinta 22 de Dezembro de 2011


1. O anúncio da entrega dos 21,35% que o Estado detinha no capital social da EDP à empresa chinesa Three Gorges constitui um acto de gestão danosa, por parte do Governo, contrário aos interesses nacionais, que dá um passo significativo no criminoso processo de privatização da EDP iniciado na década de 90 pelo Governo PSD de Cavaco Silva, e que terá de ser revertido tão cedo quanto possível.

2. Trata-se de uma privatização que, há semelhança de outras, se insere na transferência de empresas estratégicas para a economia e para a soberania nacional, para mãos estrangeiras. Uma lógica que – inserindo-se no Pacto de Agressão que PS, PSD e CDS assumiram com o FMI e a UE - acentua o carácter dependente e subalterno do país. Com esta privatização, a EDP, que já hoje é, em larga medida, detida e gerida a partir do estrangeiro, deixará de ser na prática, uma empresa nacional.

3. A EDP – Energias de Portugal, SA, é uma empresa estratégica de valor incalculável. Embora não sendo já a única empresa a actuar no sector eléctrico, tem um papel central na produção – mais de 10 mil MW de potência instalada – e na distribuição e venda – quase 6,5 milhões de clientes – de energia eléctrica em Portugal, actuando enquanto Comercializador de Último Recurso (CUR), ou seja, enquanto entidade que unifica a venda de electricidade aos consumidores finais, mesmo quando produzida por outros produtores.
Para além disto, a EDP detém no estrangeiro significativos activos no domínio da produção de electricidade, designadamente em Espanha, EUA, Brasil, França, Roménia, Polónia, Bélgica, Itália e China (Macau). Ao longo dos últimos dez anos o grupo EDP gerou lucros líquidos no valor de 9,3 mil milhões de euros, ou seja, cerca de 140 % daquilo que o Estado encaixou até ao momento em todas as sete fases de privatização da empresa. Acresce que, dos 4551 milhões de euros de dividendos distribuídos aos accionistas nesse período, mais de mil milhões entraram entretanto nos cofres do Estado.

4. O povo português e os trabalhadores da empresa conhecem bem as consequências da privatização. Se com o sector nacionalizado, após o 25 de Abril, se alcançou, designadamente, a completa electrificação do país e o desenvolvimento de um plano de importantes aproveitamentos hidroeléctricos, após a privatização e a segmentação da EDP, que levou à criação da REN e outras empresas e da liberalização do sector energético, assistiu-se a um desinvestimento e desaproveitamento de recursos nacionais em contraste com investimentos de carácter duvidoso no estrangeiro, a despedimentos e o ataque aos direitos a milhares de trabalhadores, a uma persistente subida das tarifas energéticas que sufocam a vida das famílias e estrangulam a economia nacional. Com a perda do controlo nacional, o país perderá soberania, o Estado perderá receitas (impostos e dividendos), os trabalhadores perderão emprego e direitos, os riscos de segurança e fiabilidade do abastecimento aumentarão, a fuga de capitais acentuar-se-à, a competitividade da economia será reduzida, o povo português e as PME's pagarão uma energia mais cara.

Não há por isso razões de interesse nacional que justifiquem esta privatização.
5. O PCP reafirma que o programa de privatizações que está em curso constitui um verdadeiro saque ao país. A somar à destruição do nosso aparelho produtivo, à dimensão colossal dos juros cobrados em função da dívida pública, à permanente fuga de capitais, está a entrega de empresas e sectores estratégicos como a energia, mas também os transportes, a água, o serviço postal, os seguros, ou importantes infraestruturas nacionais. Aquilo que chamam de “ajuda externa” é na verdade um roubo organizado que conta com a colaboração activa – tal como no passado - de PS, PSD e CDS, que tem de ser derrotado.

6. O PCP assume, no quadro de uma política patriótica e de esquerda que propõe para o país, a necessidade de recuperar o controlo público dos sectores básicos e estratégicos da economia, incluindo na energia, colocando-os ao serviço dos trabalhadores, do povo e do país, e não dos interesses dos grupos económicos e financeiros. Nesse sentido, ao mesmo tempo que não deixará de requerer a apreciação parlamentar desta privatização, apela à intensificação da luta pela pela rejeição do Pacto de Agressão, por um Portugal com futuro.

NOTA DA COMISSÃO POLITICA DO CC DO PCP

domingo, 25 de dezembro de 2011

Natal 2011 FC Porto

BEBEDEIRAS PELO NATAL



Agora que a EDP está totalmente privatizada os nossos governantes consideram-na "peça fundamental" para o país, destacando-se no meio deles Miguel Relvas, que bem se poderia chamar de Miguel de Vasconcelos, ao afirmar que “não pode haver reacções negativas quando ganhou a melhor proposta", será que ele nos poderá elucidar para quem foi bom o negócio?

É uma delícia, o país ficou sem mais uns anéis com a venda da parte restante da EDP e é vê-los a rejubilar e salivar por termos ficado mais pobres e à mercê de interesses que não são os nossos, rejubila Miguel Relvas, rejubila António Lobo Xavier, rejubila António Mexia, de repente ficámos cada vez mais um país de antónios, cada vez mais à imagem e semelhança do outro antónio de má memória.

Nesta coisa da exportação estamos a ficar mestres, exportamos empresas rentáveis, jovens licenciados e professores ao mesmo tempo em Janeiro vamos importar mais jogadores de futebol, curiosamente do Brasil, de Angola e quem sabe um ou dois chineses por causa dos "sponsors" e dos "charters"...

Acreditem, o governo está "concentradíssimo".

(em salvoconduto.blogs.sapo,pt)

a frase do ano

sábado, 24 de dezembro de 2011

John Butler Trio - Ocean

a Grécia como lebre

Troika pressiona salários na Grécia

O Fundo Internacional Monetário, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu exigiram, dia 13, em Atenas, que o governo grego reduza o salário mínimo nacional de 751 para 450 euros.

A troika reclamou também a revogação do acordo alcançado no Verão entre o patronato e sindicatos, que prevê a manutenção do salário mínimo e actualizações salariais de 1,5 por cento desde Junho e de 1,7 por cento em 2012, abaixo da inflação que ronda os três por cento.


Pretendendo rebaixar os custos salariais por todos os meios, a troika pressiona ainda o governo helénico para que reduza drasticamente as contribuições patronais para a Segurança Social.


Em conferência de imprensa, o ministro grego do Trabalho, Iorgos Kutrumanis, afastou a hipótese de reduzir o salário mínimo nacional, afirmando que essa medida «está fora de qualquer discussão».

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

notícias da guerra social (III)

Limitação às horas extraordinárias nos cuidados primários de saúde compromete o funcionamento de consultas para Interrupção Voluntária da Gravidez

Sexta, 16 Dezembro 2011 10:02

Os cortes que o Governo impôs aos custos com trabalho extraordinário (fixados por despacho numa redução mensal, em média, de 10% comparativamente à despesa feita em período homólogo) levarão, como o PCP havia denunciado, a sérios constrangimentos no SNS, colocando mesmo em causa a universalidade do acesso.

Exemplo disso é o facto de neste momento, no Agrupamento de Centros de Saúde do Tâmega e Sousa, estarem em discussão várias medidas que visam adaptar os serviços de saúde à redução das horas extraordinárias em cerca de 40%, medidas que poderão colocar em causa o funcionamento das consultas de IVG.

Na ACES Tâmega II – Vale do Sousa Sul, o único Centro de Saúde que no Vale do Sousa realiza consultas para IVG contempla deixar de o fazer devido à esta limitação ao trabalho extraordinário.Esta situação, a concretizar-se, colocará em causa o direito da população daquela região aceder a este serviço, uma vez que o Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa não tem capacidade de resposta a universo tão significativo.

A DORP do PCP denuncia o risco que existe de, por via dos cortes orçamentais impostos pela política de direita e a submissão ao Pacto de Agressão assinado com a troika, não assegurar o acesso de todos ao Serviço Nacional de Saúde e reclama uma inversão de políticas que garanta a universalidade do acesso à Saúde, exigindo para tal que se reforce o quadro de pessoal (médicos, enfermeiros, terapeutas e auxiliares).

Esta é uma situação que a DORP do PCP irá continuar a acompanhar, uma vez não ser admissível que por força de limitações orçamentais, se retirem as condições necessárias à implementação da Lei que levou à despenalização da IVG.~

O Grupo Parlamentar do PCP irá, ainda hoje, solicitar esclarecimentos ao Ministro da Saúde sobre a matéria.

Porto, 15 de Dezembro de 2011

O Gabinete de Imprensa da DORP do PCP

Gentle Giant - Mister Class And Quality

notícias da guerra social (II)

O pagamento das horas extraordinárias aos médicos do serviço público baixa a partir de Janeiro de forma significativa.

O único valor que se mantém refere-se á primeira hora de trabalho extraordinário das 8h ás 20 h em dia de semana e que é 25 por cento a mais.
Nesses mesmos dias, das 20 h ás 8 horas, o valor por hora extraordinária desce dos actuais 75 por cento para os 25 por cento. De segunda a sexta feira, a segunda hora e restantes de trabalho extraordinário entre as 8 horas e as 20 horas, desce de 50 por cento para 37,5 por cento e das 20h ás 8 horas de 100 por cento para 37,5 por cento.
Aos fins de semana e feriados, a primeira hora entre as 8 horas e as 20 horas é paga a 50 por cento (anteriormente 75 por cento), as restantes a 50 por cento (anteriormente 100 por cento). Das 20 horas ás 8 horas, em fim de semana e feriados, respectivamente 50 (anteriormente 125) e 50 (anteriormente 150)

A greve ao trabalho extraordinário está justificada. E a incorporação destes profissionais na luta mais geral.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

notícias da guerra social

A recente ofensiva das politicas de descaracterização do SNS (Serviço Nacional de Saúde) e de agravamento das condições de vida dos portugueses traduziram-se localmente em factos concretos.

Não por falta de profissionais mas numa estrita e condenável estratégia de redução dos custos sociais, o Governo PSD/CDS/ Cavaco /Carlyle, através das suas extensões e chefias intermediárias, decidiu alterar as condições de funcionamento dos SASU´s de Paredes e Penafiel, que funcionam aos Sábados, Domingos e Feriados.

ASSIM ONDE HAVIA UM FUNCIONAMENTO EM DOIS TURNOS DAS 9 HORAS ÁS 21 HORAS, TANTO EM PAREDES COMO EM PENAFIEL, passa a haver a partir de 1 de Janeiro:

Penafiel - 9 horas ás 16 horas (1 só turno)
Paredes - 13 horas ás 20 horas (1 só turno)

São assim evidentes as profundas insensibilidades sociais de quem nos governa. A população deixará de ter 10 horas de assistência médica de urgência nas duas unidades de saúde. Não serão fáceis nem plausíveis deslocações de utentes Paredes-Penafiel e Penafiel-Paredes.

Tem de crescer de Gandra a Rio Mau, de Aguiar de Sousa a Recesinhos, um movimento de opinião que trave estas medidas

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

os passos trocados do coelho (IX)

Setembro de 2009 (em Jornal de Negócios)

O Grupo Carlyle irá analizar uma parte do seu fundo imobiliário CEREP III para investimentos em Portugal através de uma parceria com a empresa portuguesa Crimson Investment Management. Criado em 2007, com 2,2 mil milhões de euros, o fundo já investiu em França, Espanha, Alemanha e no Norte da Europa.

A sociedade portuguesa, liderada por Carlos Félix Moedas, ex-presidente da Aguirre Portugal, procura investimentos nas áreas dos escritórios, retalho, hotelaria e turismo residencial para um novo fundo do grupo Carlyle. Em Portugal está previsto um investimento da ordem dos 50 milhões de euros anuais ao longo dos próximos três anos, avançou Carlos Moedas.

Em Portugal, uma das últimas aquisições do grupo Carlyle foi o outlet Freeport, situado nas imediações dos terrenos do Campo de Tiro de Alcochete, onde será construído o futuro aeroporto de Lisboa. O investimento foi concretizado nove meses antes de o actual governo socialista ter abandonado a opção Ota para a localização do novo e polémico complexo aeroportuário.

Entre 1992 e 2005, o grupo Carlyle, foi liderado por Frank Carlucci, ex-embaixador dos Estados Unidos em Portugal, director-adjunto da CIA (1978-1981), Secretário-adjunto da Defesa (1981-1983), Conselheiro Nacional de Segurança (1986-1987) e Secretário da Defesa (1987-1989).Durante o consulado de Carlucci, ocuparam posições de relevo na companhia, na qualidade de “consultores séniores”, personalidades da alta roda da política e da finança global, como o ex-presidente dos EUA George H. W. Bush, o antigo primeiro-ministro britânico John Major, o antigo Secretário de Estado norte-americano James Baker, o antigo presidente das Filipinas Fidel Ramos, bem como Karl Otto Pöhl, antigo presidente do banco central da Alemanha (Bundesbank) e George Soros, bilionário gestor de “hedge funds”. Olivier Sarkozy, meio-irmão do presidente francês Nicolas Sarkozy, desde Março de 2008, co-preside e administra a divisão de serviços financeiros globais, criada após a eclosão da crise subprime. Todos são membros de poderosas organizações globalistas – como o Grupo Bilderberg, Council on Foreign Relations e Comissão Trilateral - que se caracterizam pelo secretismo e acesso restrito às elites que pretendem liderar a geopolítica e a economia mundial.

A Crimson Investment Management, fundada em Novembro de 2008, é dirigida pelo engenheiro civil Carlos Félix Moedas, que na última década enveredou pela gestão financeira, após um mestrado concluído em Harvard. No final do primeiro ano do Master and Business Administration, estagiou no banco de investimento Goldman Sachs, em Wall Street. No final passou a quadro da instituição, em Londres. Foi igualmente quadro do Eurohypo, banco alemão especializado em crédito hipotecário, nos escritórios da capital britânica. Em 2006, após 11 anos no estrangeiro, voltou para Portugal como director-geral da corretora imobiliária espanhola Aguirre Newman.

A Crimson é participada por investidores como Miguel Paes do Amaral, João Brion Sanches, Alexandre Relvas e Filipe de Botton, este último membro do grupo português da Comissão Trilateral, também conhecido pela designação Fórum Portugal Global.

Agora em 2o11...

O secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro Carlos Moedas declarou ao Tribunal Constitucional quando tomou posse, 119 mil euros de rendimentos, dispondo de perto de 300 mil euros em carteiras de títulos, ações e fundos de investimento, e cerca de 76 mil euros em contas à ordem.
Carlos Moedas era administrador da Shilling Capital Partners e da Winworld e presidente do conselho de administração da Crimson Investment Managment, cargos que abandonou para ir para o Governo, encontrando-se ainda em (sic) "processo de alienação de todas as participações que tem naquelas empresas", num valor total de cerca de 75 mil euros.
Em 10 de Dezembro, na 4º Conservatória do Registo Comercial de Lisboa, a Crimson, que era uma sociedade anónima detida pelo Moedas, Miguel Pais do Amaral, João Brion Sanches, Filipe de Button e Alexandre Relvas, passa a ser detida, em exclusividade pela esposa de Carlos Moedas. Moedas prova assim que é alentejano, sim senhor, mas não é burro. É simplesmente o ministro Carlyle.

HUMOR



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CARTA ABERTA AO SR. PRIMEIRO MINISTRO

Por Myriam Zaluar

Exmo Senhor Primeiro Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome “de guerra”. Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui.

Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. “És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro.” – disseram-me – “Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção”.

Fiquei. Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. “Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante”. Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira ‘congelada’. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como “nativa”. Tinha como ordenado ‘fixo’ 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas…Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci – felizmente! – também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.

Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar…Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores – e cada vez mais raros – valores: um ser humano em formação.Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro
e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus
Myriam Zaluar, 19/12/2011

A MORTE SAIU Á RUA

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA FATIA DE BOLO-REI

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.

Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.

-Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)

- Comes outra fatia, camarada?

- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...

Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.

Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.

Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.

Mário Castrim

«A reunião fora marcada para aquele dia, 19 de Dezembro de 1961. Dois dias antes de eu fazer 26 anos. A “célula dos economistas” reunira com o novo “funcionário” do Partido. Um homem maduro, calmo, discreto, mostrando uma grande solidez e sensibilidade.
Na reunião anterior tinha ficado marcado trabalho. Continuar e melhorar, com as estatísticas possíveis, o “balanço” do ano, para avaliar o impacto da guerra colonial na economia portuguesa, perspectivas. Depois das questões de organização – situação conspirativa, “avantes”, quotas, aliciamentos – e do “ponto político”
A tarefa de ir buscar o camarada era do Herberto. Mas a saúde sempre frágil do filho obrigou-os a uma consulta médica de emergência, e ele procurou-me para que o substituísse, embora não fosse faltar à reunião. Talvez chegasse um pouco mais tarde.
Deu-me todas as necessárias indicações.
Apanharia o camarada numa transversal à Rua dos Lusíadas, Travessa da Tapada, em frente da Escola Ave Maria, às 20 horas.
Apesar de três anos de militância que já levava, e de já ter feito a tarefa mais de uma vez, senti a habitual ansiedade, algum nervosismo.
Com tempo folgado, dirigi-me ao local marcado. Conhecia bem os sítios dos meus tempos no Liceu D. João de Castro. Dei uma volta larga de reconhecimento, que fui apertando, e não gostei do “ambiente”. A minha sensibilidade alertou-me. Havia “vultos suspeitos” pelas esquinas…
Sosseguei-me com um «lá estás tu a ver fantasmas… é a “cagufa” habitual e normal». Mas…
Uns minutos antes das 8 entrei na rua, vindo de cima, estacionei o carro voltado para baixo perto do cruzamento com a Rua dos Lusíadas, e esperei.
Logo passaram as 8 horas. E comecei, minuto a minuto, a olhar para o relógio. Alguma inquietação me ia tomando à medida que os minutos se somavam.
Que fazer? Cumprir as regras.
Passado um tempo considerado razoável (não mais que um quarto de hora), arranquei com o carro, dei a volta pelo Alto de Santo Amaro (o final da carreira 22 que tão bem conhecia), desci até à estação dos carros eléctricos, arrumei o carro no Largo do Calvário, fui a uma cervejaria comer qualquer coisa e fazer, com toda a naturalidade, tempo para esgotar a “hora de recurso”.
Às 9 horas estava de novo no local do encontro, depois de uma outra volta de reconhecimento em que tudo me pareceu mais “limpo”, calmo, desanuviado, ou tinha sido eu que desanuviara, em contradição com alguma preocupação ou inquietação.
As ruas estavam quase desertas, com as pessoas recolhidas a casa, ou antes de saírem depois de jantar.
Foi mais um quarto de hora de espera. Em vão. Desisti. Que outra coisa poderia fazer?
Fui ao quarto do camarada, ali a Campolide, onde me esperavam os outros jovens economistas (o B., o G. e o Herberto, que se despachara da consulta e já chegara).
Dei-lhes conta do que acontecera – ou do que não acontecera, trocámos algumas impressões preocupadas, o Herberto ficou de tentar saber razões e medidas a tomar, e cada um foi para sua casa.

(Sérgio Ribeiro, em “50 anos de economia e militância”)

domingo, 18 de dezembro de 2011

O CRASH DA VERDADEIRA BOLSA

A voz radiofónica da TSF afirma diariamente uma mesma lengalenga, algo como isto: “a Bolsa encerrou em alta, animada pelo resultados da EDP, …em Nova Iorque com o Dawn Jones a ganhar… e encerrou no vermelho…os títulos voltaram a ser bastante penalizados…a recuperar das fortes perdas com os investidores a acreditar…as acções tocaram um máximo histórico…com o principal índice, o PSI 20 a perder…a suspensão da negociação dos títulos…a tendência na Bolsa de Lisboa segue em linha com as Bolsas Europeias…”.

Várias vezes ao dia se repete a homilia das transacções bolsistas. Imagino que há quem dela tome boa nota. Como aqueles que apontam os números premiados da lotaria e pensam que assim têm mais hipóteses. É um carrocel onde gente sem rosto ganha e perde, numa improvável relação com a vida real e a economia. Dizem-me que se trata de gestão e valorização de activos e expectativas, mas sinto que é uma mera máquina de acumulação de capital e de triturar os pequenos aforradores. Mas poderei estar enganado.

Inventemos uma Bolsa de Satisfação Individual. Constituiria um registo / barómetro de expectativas e rendimentos. Substituamos por exemplo os valores das acções de instituições financeiras cotadas em Bolsa por rendimentos de funcionários públicos, associados a critérios de qualidade de vida. Um exemplo: o indicador da satisfação Individual dos médicos, a trabalhar com vínculo em funções públicas.

Ele estaria no presente por exemplo no indicador 3 em escala de 1 a 10, em que 1 é muito mau e 10 é muito bom. Acumularam-se as razões de perda ou penalização: foi o roubo de parte significativa do subsídio de Natal, foram as reduções administrativas de horas extraordinárias, foram as maiores deduções para a Caixa Geral de Aposentações e ADSE, foi o aumento do custo de vida não compensado por aumentos salariais ou progressão de carreiras. E não custa perceber a insatisfação nesta época natalícia.

Mas os ”investidores” (os médicos) já não acreditam no futuro próximo e esperam-se “mínimos históricos” no próximo ano com a supressão de dois salários mensais, redução do valor da retribuição mensal, menos incentivos relativos a produtividade, menos horas extraordinárias, horas extraordinárias não ou pior pagas, redução de incentivos á formação interpares. E se na escala estávamos no indicador 3 agora passaremos certamente para o indicador 1, que é um indicador de insatisfação total e de lamentável insuficiência de condições de sobrevivência com dignidade.

E assim se criássemos a dita Bolsa de Satisfação Individual teríamos em breve uma lengalenga radiofónica que diria: “a Bolsa de Satisfação Individual dos médicos com vínculos em funções públicas encerrou em baixa, atingindo níveis históricos, em linha com outras bolsas de outros sectores profissionais, com a suspensão da negociação colectiva a ditar essa evolução. As perdas foram tão grandes, que obrigou a suspensão da sessão. Admite-se o crash. Os serviços estão paralisados, o desemprego é enorme, assiste-se a uma grande desmotivação e indisciplina, com crescentes casos de corrupção e de não garantia de condições mínimas e legais de acessibilidade. Os quadros mais jovens abandonaram o País, e os com idade próxima da idade de aposentação abandonaram os serviços. As chefias intermediárias têm-se tornado inoperantes e tornaram-se mais sensíveis a apelos á demissão. A situação sanitária do País regrediu cerca de 30 anos.

Deixo aqui o aviso. Bom Natal.

cristianoribeir@gmail.com

Jerónimo de Sousa ao ataque

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Armas nucleares, robôs militares e guerra



por Frederico Gama Carvalho [*]

Resumo: Faz-se uma breve referência, com alguns dados numéricos, ao esforço financeiro que representa hoje a manutenção das despesas militares a níveis iguais ou superiores ao verificado no período da chamada "guerra fria". Assinala-se a importância crescente da investigação científica e tecnológica com fins militares. Refere-se o surgimento da ciberguerra e as suas motivações. Descreve-se a situação actual no que toca ao desenvolvimento e utilização da arma nuclear. Apresenta-se a evolução no campo da robótica militar, as consequências perversas da sua utilização em teatros de guerra ou para localizar e abater alvos humanos seleccionados. Apontam-se as armas ditas "não-letais" como instrumento de repressão de "acções de perturbação da ordem pública". O texto é acompanhado de numerosas referências que permitem aprofundar as questões apresentadas.

As despesas militares dos Estados Unidos da América são as mais altas do mundo [1] . Em 2011 terão ultrapassado os 700 mil milhões de dólares [2] . Entre 2001 e 2011 mais do que duplicaram, a preços constantes. Em percentagem do PIB subiram de cerca de 3% para mais de 5%. A China com uma população cerca de quatro vezes maior, apresenta a segunda maior despesa militar mas a grande distância dos EUA (cerca de um sexto) [3] . Os EUA despendem cerca de 12 mil milhões de dólares anuais em ajuda militar a vários países estrangeiros na sua maior parte destinada ao Afeganistão, Iraque, Israel, Paquistão e pelo menos num passado próximo ao Egipto [4] . A despesa militar dos EUA tem mantido uma tendência crescente desde pelo menos 1998 [5] . Mesmo numa economia com a dimensão da norte-americana, pode não ser sustentável no longo prazo a manutenção de um nível tão elevado de gastos militares [6]

No decurso das duas últimas décadas, assistiu-se a uma evolução e desenvolvimentos muito significativos no campo da investigação científica e tecnológica para fins militares. Quatro domínios merecem particular atenção: as armas nucleares; os robôs militares; as armas de energia dirigida, ditas "não letais"; e a utilização da cibernética [7] para fins de espionagem ou com vista a disrupção ou desactivação de sistemas ou equipamentos informatizados. Neste último domínio, fala-se de "ciberguerra" e entende-se como tal, a intromissão (hacking) dolosa, politicamente motivada, em redes informáticas ou computadores do (suposto) inimigo com o fim de provocar danos ou disfuncionalidades. William Lynn, subsecretário da Defesa dos Estados Unidos, afirma que "como questão de doutrina, o Pentágono reconheceu formalmente o ciberespaço como um novo domínio da arte da guerra" que "se tornou tão crítico do ponto de vista militar como o solo, o mar, o ar ou o espaço (exterior)." [8]

Neste contexto recorda-se a notícia vinda a público do ataque ocorrido em Setembro de 2010 ao parque de ultracentrifugadoras de Natanz, no Irão, de enriquecimento de urânio com vista à sua utilização como combustível nuclear. Neste caso foi usado o vírus Stuxnet até aí desconhecido [9] . O alvo do Stuxnet são sistemas de controlo usados em centrais eléctricas e outras instalações industriais. A origem do vírus não foi publicamente identificada mas há razões que apontam para um projecto comum americano-israelense [10] .

De acordo com um artigo recente do New York Times [11] , imediatamente antes de terem sido iniciados os raids americanos sobre a Líbia, foi seriamente debatido no seio da administração Obama, a possibilidade de lançar uma ofensiva cibernética com vista a pôr fora de serviço os radares do sistema líbio de alerta precoce ("early warning") contra ataques aéreos. A possibilidade foi afastada por razões político-militares que não cabe analisar aqui. [12]

Nos EUA foi criada em 2009 uma subunidade do Comando Estratégico das Forças Armadas com a designação de Ciber-Comando (USCYBERCOM) a qual atingiu completa capacidade operacional em fins de 2010 [13] .

No que respeita a engenhos nucleares para fins militares pode dizer-se que a ameaça nuclear continua presente e no essencial inalterada quando comparada a situação actual com a que existia há algumas décadas atrás. Quarenta e um anos depois da sua entrada em vigor, em 1990 [14] e após oito Conferências de Revisão, mantém-se o carácter discriminatório do Tratado de não-proliferação relativamente aos estados que não dispõem de armamentos nucleares e o desinteresse por parte das potências nucleares signatárias do Tratado em dar os passos previstos no seu Artigo VI, no sentido do desarmamento nuclear e do desarmamento geral e completo.

Em 1996 foi aprovado o Tratado Geral de Proibição de Ensaios Nucleares (CTBT) [15] . A entrada em vigor do tratado depende, entre outros, da ratificação pelo Congresso dos Estados Unidos, o que, 15 anos depois, ainda não aconteceu [16] . No entender de diversos observadores, o conhecimento que se tem das orientações e decisões das administrações norte-americanas no domínio nuclear ao longo dos últimos 20 anos, permite dizer que os EUA não têm qualquer intenção de prescindir da arma nuclear num futuro previsível [17] . No complexo nuclear militar científico e industrial norte-americano prosseguem sem limitação de fundos os trabalhos de manutenção, modernização e desenvolvimento de armas nucleares. A orientação desses trabalhos pode resumir-se assim: desenvolver armas capazes de penetrar no solo e destruir alvos subterrâneos especialmente protegidos ("hardened"); e desenvolver armas cuja utilização seja politicamente exequível, entendendo-se por isto, cabeças nucleares susceptíveis de minimizar os chamados "efeitos colaterais" [18] .

Robôs, designadamente na forma de veículos aéreos sem piloto (VASP) estão a ser usados extensivamente e são alvo de constantes aperfeiçoamentos para utilizações militares quer em teatros de guerra quer na localização e abate de alvos humanos seleccionados, no que é o equivalente de uma execução extrajudicial [19] . Esta utilização, inaceitável e efectivamente perversa, abre a porta a novas formas de fazer a guerra. Robôs militares e VASPs podem ser comandados ou "pilotados" a partir de uma consola de comando situada a milhares de quilómetros de distância, graças às possibilidades criadas pela existência de linhas de comunicação eficientes de alta qualidade [20] .

Em anos recentes a utilização de robôs militares tem crescido extraordinariamente: aquando da invasão do Iraque em 2003, as forças dos EUA praticamente não possuíam robôs militares; já em 2010 as forças armadas americanas dispunham de um número global de cerca de 12 mil robôs militares dos quais perto de 7000 eram VASPs — os chamados "drones". Esta evolução levanta questões sérias nos planos ético e legal. No que concerne à classificação do pessoal envolvido na utilização de robôs militares, pode argumentar-se que se esfuma a distinção entre o "soldado" e o não-combatente, em particular no caso daqueles "pilotos" a distância e técnicos civis que tomam decisões à mesa ou consola de comando, se levantam no fim de um "dia de trabalho" e vão para casa jantar com a família [21] .

Os "drones" foram utilizados pelos americanos nos Balcãs, no Iémen (com apoio da CIA), na Somália, no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão (neste caso sob controlo da CIA, por razões que não podem ser examinadas aqui). Israel usou "drones" na faixa de Gaza [22] . No caso da acção da CIA no Paquistão a taxa dos chamados "danos colaterais" é estimada em 1 militante para 10 civis abatidos [23] [24] .

No que toca ao arsenal de armas de energia dirigida e outras, ditas "não-letais", que visam sobretudo o controlo de movimentos ou manifestações de massas em países ou regiões política ou socialmente instáveis, mesmo no plano doméstico, muito haveria a dizer mas o tempo disponível não o permite. Ficará assim para outra oportunidade [25] .

Obrigado pela vossa atenção.

19/Novembro/2011

1. http://www.globalissues.org/article/75/world-military-spending. See also Financial Times.com, "Global military spending slows" John O'Doherty, April 11 2011. Na edição do Financial Times do passado dia 6 do corrente podia ler-se a afirmação de que, nos Estados Unidos, a degradação de infra-estruturas físicas essenciais — como estradas, pontes, barragens, redes eléctricas, sistemas de abastecimento de água — era tal que o país se aproximava rapidamente de um estatuto (estou a citar) de "segundo mundo". Acrescentava que os gastos com manutenção e modernização de infra-estruturas básicas se ficava por 2% do PIB, quatro vezes menos do que China.

2 .Este número inclui o orçamento base da defesa e também a despesa respeitante às operações no Iraque e no Afeganistão mas não inclui as despesas do Departamento de Energia (DoE) com os programas respeitantes a armas nucleares. O valor indicado equivale a cerca de três vezes o valor estimado nesse ano para o PIB português

3. Entre 2000 e 2010 a despesa militar da R.P. da China terá passado de cerca de US$34kM para cerca de US$120kM, isto é, terá crescido cerca de 250%. Em 2010, os gastos militares dos EUA representavam cerca de 43% da despesa militar global do planeta. Os EUA e a R. P. da China em conjunto atingiam 50% da despesa mundial.

4. http://www.theworld.org/2011/08/defense-budget-tea-party/

5. Cf. Christopher Hellman, "The Runaway Military Budget: An Analysis", (Friends Committee on National Legislation, March 2006, no. 705, p. 3)

6. Cf. "World Military Spending", Global Issues (http://www.globalissues.org/article/75/world-military-spending ) (2011)

7. "Ciência que investiga os mecanismos de comunicação e de controlo nos organismos vivos e nas máquinas." (cf. Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa)

8. Lynn, William J. III. "Defending a New Domain: The Pentagon's Cyberstrategy", Foreign Affairs, Sept/Oct. 2010, pp. 97–108

9. Cf "Stuxnet worm brings cyber warfare out of virtual world", Pascal Mallet (AFP) – Oct 1, 2010

10. Cf. "U.S. Debated Cyberwarfare in Attack Plan on Libya", Eric Schmitt and Thom Shanker, The New York Times, Published: October 17, 2011. A mesma fonte refere que tanto o Pentágono como empresas com contratos militares são objecto e repelem regularmente, ataques às suas redes de computadores, muitos deles alegadamente provenientes de fontes russas ou chinesas.

11. Id., ib.; tratava-se de penetrar as barreiras informáticas de protecção contra intromissões ("fire wall") das redes de computadores do governo líbio para cortar as linhas de comunicação com as baterias de mísseis do sistema de defesa antiaérea.

12. Recentemente (Outubro de 2011) foi descoberto um novo vírus ("malwware") que recebeu o nome de "Duku". O Duku partilha grande parte do código informático do Stuxnet mas actua de forma diferente e com objectivos diferentes (cf. Discover Magazine, October 19th, 2011, artigo de Veronique Greenwood). O novo vírus, provavelmente com a mesma origem do Stuxnet, é um "vírus espião", destinado à recolha de informação sobre características e organização interna de sistemas de redes e computadores, incluindo chaves de segurança, de modo a permitir futuros ataques destrutivos ou de incapacitação. O vírus não se reproduz e auto-extingue-se em 36 dias, provavelmente para dificultar a detecção.

13. Além dos EUA, o Reino Unido, a R.P. da China e as duas Coreias, pelo menos, terão posto de pé estruturas de defesa contra riscos associados a ataques cibernéticos. Barak Obama afirmou, em 2009, que tinham ocorrido situações de intrusão cibernética nas redes eléctricas dos EUA com fim de avaliar as condições de segurança das redes (Cf." China's Cyberassault on America", Richard Clarke in The Wall Street Journal, Junho 15, 2011)

14. O TNPN obriga nesta data 189 estados, incluindo os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança

15. Aprovado na Assembleia Geral das Nações Unidas por uma maioria superior a dois terços dos estados membros.

16. Os outros estados de cuja ratificação está dependente a entrada em vigor do CNTBT são: China, Egipto, Índia, Indonésia, Irão, Israel, Coreia do Norte e Paquistão

17. O chefe do Comando Estratégico dos EUA, general Kevin Chilton, declarou recentemente o seguinte à comunicação social: "Quando olhamos para o futuro — e é minha convicção que precisaremos de um dissuasor nuclear neste país para o que resta do século, o século XXI — penso que aquilo de que necessitamos é de uma arma nuclear modernizada compatível com os nossas também modernizadas plataformas de lançamento". Cf. A elucidativa Informação de Andrew Lichterman ,para a Western States Legal Foundation: "Nuclear Weapons Forever: The U.S. Plan to Modernize its Nuclear Weapons Complex" (2008) (http://www.wslfweb.org/docs/ctbrief.pdf )

18. Ver nota anterior

19. Ver "Resolução sobre a utilização de robôs militares", Comissão Internacional para o Desarmamento, a Segurança e a Paz (ICD), da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos, Paris, Maio de 2011 (http://www.otc.pt/index.php/noticias/fmtc/43-robosmilit)

20. Há razões para dizer que a utilização de robôs no campo de batalha ou em missões ofensivas de sobrevoo fora dele, representa a mais profunda transformação da arte militar desde o advento da bomba atómica.

21. No quadro do programa de expansão da automatização de teatro de operações, a força Aérea dos EUA tem neste momento em formação um número de operadores de "drones" superior ao de pilotos de aviões de caça e de bombardeiros tomados em conjunto. A meta para a robotização das forças armadas dos EUA é de 15% para 2015. Cf. "US Air Force prepares drones to end era of fighter pilots", The Guardian, Edward Helmore in New York, 23 August 2009 www.guardian.co.uk/world/2009/aug/22/us-air-force-drones-pilots-afghanistan )

22. A Turquia que pretende adquirir drones aos EUA pôs à disposição dos americanos uma base aérea que é utilizada por uma esquadra de drones das FFAA dos EUA. Os drones armados disparam em regra mísseis Hellfire ou Scorpion, estes de menor poder destrutivo numa tentativa para reduzir os danos colaterais.

23. Cf, "Do Targeted Killings Work?", Daniel L. Byman, Senior Fellow, Foreign Policy, Saban Center for Middle East Policy (http://www.brookings.edu/opinions/2009/0714_targeted_killings_byman.aspx?p=1)

24. O arsenal de robôs militares de reconhecimento e ataque é vasto. Diversas fontes referem-se aos trabalhos de desenvolvimento tecnológico de robots-espiões com aparência e dimensões semelhantes às de um insecto, capazes de voar como insectos e passar despercebidos. Entretanto decorrem também trabalhos que visam a utilização de insectos reais em que são implantados cirurgicamente dispositivos ("chips") electrónicos que permitem comandar à distância o seu voo e comportamento. Esses dispositivos enviam também sinais que contêm diversas informações que interessam aos operadores. Os "chips" são implantados nos insectos de preferência durante a fase de desenvolvimento da crisálida antes da metamorfose final do insecto. Trabalhos deste tipo estão em desenvolvimento no departamento das Forças Armadas dos EUA designado por DARPA (Defense Advanced Research Project Agency). Os insectos modificados são usualmente chamados "Cyborgs" ou "Cybugs". Os robots já utilizados ou que se encontram em fase de protótipo, têm as mais variadas formas e dimensões, e finalidades múltiplas. Tipicamente desempenham funções de espionagem, vigilância, identificação de alvos e reconhecimento. Os sensores utilizados permitem a recolha de imagens ópticas, que chegam a cobrir um ângulo de 360º, sinais de radar, radiação infravermelha, microondas e radiação ultravioleta. São também usados sensores químicos e biológicos. Sensores biológicos são sensores que podem detectar a presença no ar de microrganismos e outros agentes biológicos. Os sensores químicos podem detectar a presença e concentração no ar de elementos químicos diversos por meio de espectrometria de laser.

25. Existe uma considerável diversidade das ditas "armas não-letais": feixes de energia dirigidos (infravermelhos); geradores de impulsos sonoros de alta intensidade; projécteis que actuam por efeito de impacto, descargas eléctricas, dispersão de agentes químicos ou biológicos; barreiras electromagnéticas ("active denial systems"); indução externa de sons e imagens, por acção de campos electromagnéticos que actuam sobre os circuitos neurológicos do sistema nervoso central, e outros. Um olhar rápido sobre esta parafernália de instrumentos e sistemas ditos "não-letais" pode não deixar entender todos os seus possíveis destinos, as motivações para o seu domínio e suas implicações. Neste contexto é útil citar aqui um documento já referenciado em trabalho anterio. Cf. "Crowd Behavior, Crowd Control, and the Use of Non-Lethal Weapons", Institute for Non-Lethal Defense Technologies, Human Effects Advisory Panel, Report of Findings, Pennsylvania State University, 1 January 2001. O relatório é o resultado de um estudo efectuado sob contrato com o Corpo de Marines dos EUA.

[*] Membro da Presidência do Conselho Português para a Paz e Cooperação, Doutor em Física e Engenharia Nucleares pelas Universidades de Karlsruhe e Lisboa, Vice-Presidente do Conselho Executivo da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos ( http://www.fmts-wfsw.org/ ), Presidente da Direcção da Organização dos Trabalhadores Científicos ( http://www.otc.pt/ ), Investigador-coordenador aposentado do Instituto Tecnológico e Nuclear. Intervenção realizada no Conselho Português para a Paz e Cooperação, 7/Dezembro/2011

Três Cantos: Canto Dos Torna-Viagem

a economia dia-a-dia

O PIB per capita português, ajustado à paridade do poder de compra, representa cerca de 80 por cento da média da União Europeia (UE) em 2010. No conjunto da Zona Euro apenas a Eslováquia e a Estónia têm um poder de compra mais reduzido.
Na comparação com os 27 Estados da UE, surgem nove países comm um poder de compra mais fraco que Portugal, entre os quais se incluem a Polónia, Letónia, Roménia, Lituânia ou Bulgária.

A taxa de poupança em Portugal ronda os 10%, mas deveria ser o dobro, para "garantir alguma solidez á economia de um país", segundo um estudo da Universidde do Minho

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

POEMA

EFICÁCIA

Um comunista nunca fala de ódio.
Palavras que não leva para casa:
vingança, violência, lucro, promoção,
destruição, solidão, desprezo, ira.

Por simples eficácia:
nada de peso inútil sobre os ombros.

Mário Castrim

MONDEGO - Daniel Pinheiro

a economia dia-a-dia

O tecnocrata primeiro-ministro de Itália Monti cria imposto sobre contas bancárias. Cada conta bancária à ordem de particulares vai pagar em 2012 um imposto de 34 euros e no caso das contas de empresas sobe para 100 euros.

Comentário: agora quando a receita for para Portugal, decidida por Passos, Gaspar e Moedas, será para as grandes empresas pagarem mais 3 euros e 40 cents, as PME 34 euros e os particulares 100 euros, ou até pode ser mesmo o salário mínimo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Cultura - Évora já tem um Museu do Marceneiro

Cultura - Évora já tem um Museu do Marceneiro - RTP Noticias, Vídeo

E Paredes?

IMAGENS DA QUINTA DA AVELEDA EM PENAFIEL (E O NÉCTAR)





Elis Regina - Tatuagem

Síria e Irão no centro da campanha de mentiras



Imperialismo prepara novas agressões

Imersas nas contradições de um sistema em crise profunda, as potências imperialistas procuram nas guerras de agressão garantir a sua hegemonia planetária. Síria e Irão são os alvos que mais sobressaem numa campanha de mentiras cujo guião recorda o seguido nos casos da ex-Jugoslávia, Iraque e Líbia.
Na Síria, as botas cardadas que na última década o imperialismo fez soar nos Balcãs, Médio Oriente e Norte de África já ecoam. Episódio mais próximo foi a conferência de imprensa que a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, promoveu antes da sessão especial do Conselho dos Direitos Humanos, realizada sexta-feira, dia 2, em Genebra.
Sem pudor, Pillay falou da «necessidade urgente» da Síria «prestar contas» por alegados crimes contra a humanidade, agitando o relatório, divulgado dia 28 de Novembro, no qual se fala em pelo menos 4 mil vítimas civis em resultado da repressão por parte das autoridades dos alegados protestos populares massivos.
Pillay acrescentou ainda ao léxico da campanha uma suposta situação de «guerra civil» e um alegado fracasso evidente do regime em proteger os seus concidadãos para chegar à conclusão de que cabe à comunidade internacional «tomar medidas urgentes e eficazes para proteger o povo sírio», e ao «Conselho de Segurança relatar a situação na Síria ao Tribunal Penal Internacional».
As semelhanças com a intoxicação da opinião pública na antecâmara das agressões imperialistas contra a ex-Jugoslávia e a Líbia não carecem de legenda. Mas se dúvidas persistirem, atentem-se as denúncias feitas no site Rede Voltaire pelo jornalista Thierry Meyssan.

Propaganda da NATO

Em artigos enviados a partir da Síria, onde se encontra a investigar a situação, Meyssan sustenta que o que tem sido dito não passa de propaganda da NATO. As supostas manifestações populares em curso desde 8 de Março não só são circunscritas a escassas cidades como têm mobilizado muito poucos sírios, sobretudo quando comparadas com as multidões que se têm concentrado na capital, Damasco, e noutras grandes cidades em defesa da unidade, soberania e integridade territorial do país.
Meyssan denuncia igualmente que, para mais, nos protestos ocorridos com o carimbo da oposição (os que merecem cobertura noticiosa, portanto), as exigências não são nem democracia nem liberdade, mas a instauração de um regime islâmico.
Como dizia o poeta António Aleixo, «p’ra mentira ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade», e o facto é que os participantes destes protestos exigem ao presidente Bashar Al-Assad que se demita. Mas contrariamente ao que tem sido dito e escrito pela generalidade da comunicação social, a reivindicação resulta do desconforto para com o regime laico que este dirige. Os instigadores dos protestos consideram Assad um herege, frisa Meyssan, e pretendem instaurar um regime confessional extremo.
No campo da propaganda, acresce que, de acordo com a Aliança Atlântica e os seus sequazes no Golfo, na Síria cerca de 15 milhões de pessoas estão a passar fome. O argumento é estafado, mas no passado provou-se eficaz na neutralização da resistência dos povos à abertura dos chamados «corredores humanitários» protegidos por zonas de exclusão aérea asseguradas pelo bloco político-militar.
Ora segundo relata Thierry Meyssan, o estatuto de país auto-suficiente ao nível agrícola e com uma produção contínua não se alterou significativamente na Síria, apesar dos acontecimentos recentes. As diminuições na produção e as carências na rede de distribuição de bens essenciais, onde existem, não são fruto do isolamento de regiões sublevadas, mas dos ataques de grupos de bandoleiros e do sedimento criado pelas sanções económicas impostas pelo imperialismo, particularmente contundentes nas exportações de combustíveis fósseis e no turismo.
Mais exacto seria dizer que «sem a ajuda do governo de Bashar Al-Assad, 1,5 milhões de sírios encontrar-se-iam hoje em situação de desnutrição», conclui Meyssan que revela que combustíveis e alimentos têm sido distribuídos pelo Estado.

Mentiras descaradas

O correspondente da Rede Voltaire considera ainda falso o número de mortos apresentado, inclusivamente pela Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Mesmo admitindo que o total de vítimas se cifra em metade do que é propagandeado, as suas investigações junto de hospitais e morgues civis e militares permitem-lhe afirmar que a maioria são soldados e polícias atingidos por franco-atiradores em emboscadas, os quais, para instalar o caos, não poupam também civis.
Os desertores de que tanto se tem falado, estimados em 1500 soldados sírios que se terão recusado a reprimir o próprio povo, não excedem as dezenas, salienta Meyssan. Estes, prossegue, não ficaram na Síria mas fugiram para a Turquia, onde operam às ordens de Rifaat el-Assad y Abdel Hakim Khaddam, publicamente vinculados à CIA, e sob a bandeira do auto-intitulado Exército Sírio Livre.
O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), com sede em Londres, é a fonte predilecta citada desde o início da campanha mediática contra a Síria. E aqui reside a mentira mais descarada em toda esta história.
Também em artigos publicados na Rede Voltaire, é possível obter o contraditório das mentiras imperialistas. As alegadas 4 mil vítimas de que fala a Alta Comissária Navi Pillay não foram objecto de comprovação sequer pelas Nações Unidas. Assumiram-se como verdadeiros e incontestáveis os dados do OSDH.
Ora, a verdade é que segundo o Russia Today, a maioria das supostas 3500 vítimas do regime sírio estarão vivas. A lista, acusa-se, terá sido elaborada pela organização de «opositores» retirando o nome dos mortos… da lista telefónica.
A RT relata que a OSDH raramente revela o nome das vítimas. Quando o fez, após muita insistência dos jornalistas, o apuramento feito pelos profissionais da comunicação social indicou que os indivíduos dados se encontravam vivos e de boa saúde.
Parece valer tudo para os imperialistas, que confrontados com a crise profunda do sistema capitalista, procuram nas guerras de agressão e saque perpetuar a sua hegemonia mundial.
Mas a Síria não é o Iraque arrasado por uma guerra e definhado por mais de uma década de sanções. O país onde como nenhum outro do Médio Oriente convivem harmoniosamente comunidades de fé e crenças diversas, tem ainda o apoio da China e Rússia.
Esta última, forneceu mesmo sistemas de defesa litoral e reforçou a capacidade naval da sua base em Tartus, sinal de que não está disposta a aceitar mais este avanço imperialista para próximo das suas fronteiras.

Filme já visto

No Irão, a investida militar encontra-se em fase menos acelerada, embora, como sublinhou, quinta-feira, à rádio pública do país o ministro da Defesa israelita, Ehud Barak, todas as opções se encontrem em cima da mesa.
A cautela por parte dos EUA estará relacionada com a necessidade de não afectar de forma prolongada as exportações de petróleo iraniano (Lusa), cuja interrupção do fluxo poderia fazer disparar o preço do crude reflectindo-se nas economias capitalistas em crise.
Por outro lado, o regime de Teerão não se encontra isolado como se pretende fazer crer. Para além da Rússia e da China se manifestarem abertamente contra uma aventura militar dirigida ao território, o conjunto dos países não-alinhados veio criticar recentemente o relatório da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) sobre o programa nuclear iraniano, e defendeu o direito da nação persa a desenvolver aquela tecnologia com fins pacíficos.
O Irão é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e nenhuma prova é apresentada no documento da AIEA que indique que tal está a ser violado, o que torna tão defensáveis as acusações sobre a capacidade do Irão em produzir armamento nuclear quanto as que diziam que o Iraque possuía armas de destruição em massa.
Não obstante, a pressão da comunidade internacional e as campanhas mediáticas continuam a cumprir o seu papel de sufocar e diabolizar o regime, respectivamente.
No primeiro plano, sinalize-se a aprovação, a semana passada, no Senado norte-americano, de um novo projecto que sanciona qualquer instituição que se relacione com o Banco Central do Irão, isto depois de a 21 de Novembro o Tesouro dos EUA ter declarado o território «jurisdição de preocupação prioritária por causa da lavagem de dinheiro».
Quinta-feira, 1, também a União Europeia decidiu acrescentar outras 180 entidades e responsáveis iranianos à sua lista negra.
Entretanto, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, foi à Turquia acertar agulhas com o governo local sobre a situação na Síria e aproveitou a ocasião para tratar da instalação na Turquia do chamado escudo antimíssil norte-americano, projecto que o Irão (mas também a Rússia) consideram uma ameaça directa à sua segurança e à paz na região.
Já no plano mediático, o relevo dado por estes dias à invasão da embaixada britânica em Teerão contrasta com o silêncio face às misteriosas explosões que têm atingido as instalações nucleares iranianas e o assassinato de cientistas daquele país nos meses precedentes.
É chocante a tímida difusão informativa quando o ministro da Defesa de Israel se congratula com aqueles incidentes dizendo, segundo nota da Lusa, que «tudo aquilo que atrase o programa nuclear iraniano, seja proveniente do céu ou produzido por outros meios, é bem-vindo», ou quando o máximo responsável da AIEA, Yukiya Amano, difunde publicamente a lista dos cientistas nucleares iranianos, tornando-os vulneráveis a novas investidas homicidas
(em Avante)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

texto

Comemorações da República

Fantasmas do Centenário (4.ª Parte)
por César Príncipe



PERÍODO SPINOLISTA

Filho de António Sebastião Spínola, chefe de gabinete de Salazar e de Maria Gabriela Alves, doméstica, genro de um comandante-geral da GNR, António Spínola seguiu a carreira castrense. Germanófilo, integrou, como observador, a Divisão Azul, corpo de tropas nazis que participou na invasão da URSS/cerco de Leninegrado, 1941. Como oficial da GNR, intercambiou modelos e experiências de actuação com a Guardia Civil franquista. Foi comandante na Guerra Colonial em Angola (1961-1963), governador e comandante-chefe na Guiné-Bissau (1968-1973). Apercebeu-se de que o problema africano não tinha solução militar. Procurou substituir Américo Tomás, presidente da República, movendo os cordelinhos de uma operação sem dor. Tentou a mudança mínima, sempre no quadro do regime. Montou, para o efeito, uma máquina de pressão-persuasão, utilizando canais político-militares e de comunicação social. Escreveu um livro de advertência, Portugal e o Futuro, 1974. Mas o núcleo mais impermeável do regime não acolheu as recomendações da via spinolista da evolução na continuidade. Foi destituído de vice-chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

Com a Revolução dos Capitães, Spínola reentra, como actor principal, no palco do novo poder, a fim de o regular e controlar. O presidente do Conselho, Marcelo Caetano, refugiado no Quartel do Carmo, solicita a sua presença para o ritual de rendição. É-lhe confiada a presidência da Junta de Salvação Nacional. É nomeado presidente da República pela JSN. O general com guarda-roupa de generalíssimo procura liderar o processo, contendo a mudança nos limites de um golpe palaciano. Impõe igualmente reservas ao programa do MFA, censurando, entre outras expressões, os termos democracia e fascismo. E postula que, em vez de democracia política, se escreva acção do governo. Faz força para poupar a PIDE/DGS, contraria a independência das colónias, defendendo a totalidade intercontinental, empresta a sua capa a grupos económicos beneficiários e servidores da ditadura. Logo no dia 29 de Abril, recebe, na Cova da Moura, José Manuel de Mello, Ricardo Espírito Santo e Miguel Quina, um triunvirato de capitães da indústria e da finança. Com a sociedade civil em dinâmica emancipadora, o cabo-de-guerra sente o tapete a fugir debaixo das botas e conspira. Sob a sua égide, é desencadeada a intentona da maioria silenciosa de 28 de Setembro de 1974. Frustrado o levantamento, abandona o cargo de presidente da República, dois dias depois. Prossegue o reviralho na acção armada de 11 de Março de 1975. Falhado o putsch de Março, escapuliu-se para Espanha. Estende o mapa da conspiração, buscando suportes no Brasil, na Suíça, na Alemanha. É banido das Forças Armadas. Patrocina a criação do ELP/Exército de Libertação de Portugal, organização de cariz terrorista, chefiada por Barbieri Cardoso, subdirector da ex-PIDE/DGS. Tutela, de seguida, o MDLP/Movimento Democrático de Libertação de Portugal, com o mesmo programa. Ambas as organizações se treinam e acoitam na Espanha de Franco. Contam com cumplicidades militares, partidárias, empresariais, clericais. Mário Soares legendou a maquinação incendiária e sangrenta da extrema-direita como indignação genuína. Segundo revelação de Guenter Wallraff (Imprensa, Março de 2010), jornalista que o entrevistou, fazendo-se passar por traficante de armas, AS tencionava eliminar fisicamente os adversários. O saldo de terror aponta para mais de uma centena de atentados a instalações da Esquerda partidária, sindical, social, cultural, a residências e viaturas, bem como à embaixada de Cuba. Registaram-se quatro vítimas mortais (sindicalistas e funcionários diplomáticos).

Após o golpe de 25 de Novembro de 1975, AS é reintegrado nas Forças Armadas; dignificado como chanceler das Antigas Ordens Militares, condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, elevado à dignidade de Marechal. Mais recentemente, a pretexto do centenário do nascimento, que coincide com o da República, a Câmara de Lisboa, presidida pelo socialista António Costa engalanou uma avenida com o seu nome. À cerimónia presidiu Cavaco Silva, que considerou a homenagem um acto de grande justiça , ele que, enquanto primeiro-ministro, não considerou um acto de simples justiça atribuir uma pensão à viúva de Salgueiro Maia. Política de reabilitação de inimigos e infiltrados da Revolução e de ostracização de capitães e companheiros de Abril, na senda de Mário Soares, que também dá pela alcunha de socialista, ele, compagnon do general de pingalim, a quem forneceu retórica e cobertura nas conspirações e nas reparações. Assim se reintegra mais um Grande Português na normalidade democrática. Ele que só falou em abertura política na fase terminal da ditadura. Ele que só levantou a voz para que ouvissem a sua voz. Ele que nunca se incomodou com a maior silenciosa subjugada pelo fascismo. Ele que só descobriu o Bom Povo Português depois da revolução de Abril haver despertado o Mau Povo Português. Bom seria se porventura despertasse para defender as forças acobertadas atrás do general que olhava o povo de monóculo, que mirava o povo de binóculo, que observava o povo de telescópio.

SETEMBRO NEGRO

A maioria silenciosa do povo português terá de despertar e de se defender.
Reconhecimento da Independência da Guiné, Lisboa, 10/09/2011