um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

poesia

ANGINA DE PEITO

Se metade do meu coração está aqui, doutor,
a outra metade está na China,
no exército que desce em direcção ao Rio Amarelo.

E depois, todas as manhãs, doutor,
o meu coração é fuzilado na Grécia.

E depois, quando os prisioneiros mergulham no sono,
quando a calma regressa à enfermaria,
o meu coração parte, doutor,
todas as noites
parte para uma casa
velha de madeira em Tchamlidja.

E depois, faz dez anos, doutor,
que nada tenho nas mãos para oferecer ao meu pobre povo,
só uma maçã,
uma maçã vermelha: o meu coração.

É por isso, doutor,
e não por causa da arteriosclerose, da nicotina, da prisão,
que tenho esta angina de peito.

Olho à noite por entre as grades
e apesar de todas as paredes que me pesam no peito,
o meu coração bate ao ritmo da estrela mais longínqua.


Nâzim Hikmet

A visão de Ana Gomes, e a necessidade de...mudar de óculos



...depois de nos informar que participou ontem na manifestação de Bruxelas, a indispensável e sempre incontornável Ana Gomes, solta este pungente grito de alma (sublinhados meus) : «Hoje, perante a monstruosidade do problema, sinto que não estamos em tempos para tergiversar: - É tempo de todos os socialistas se unirem, estoicamente, em apoio ao Primeiro Ministro, pela agrura de ter de decretar medidas durissimas e de arrostar com incompreensão e impopularidade. Com o travo amargo da injustiça de, apesar de fundamentais reformas feitas ainda antes de todos os outros países e da crise eclodir, nos acharmos hoje neste “estado de necessidade” pela selvajaria da lei dos mercados, que esta UE dominada pela direita neo-liberal não tem querido controlar.»
Lembrando que já desanquei ... a parte final desta milonga de Ana Gomes, pouco me falta para concluir que até José Sócrates teria ido à manifestação de Bruxelas não fosse estar ocupado em Portugal a ser criado do que Ana Gomes chama de «selvajaria dos mercados» e de «direita neoliberal».

(retirado do blog O tempo das Cerejas)

Comentário: o "alegrismo" na sua "pureza" original...

Os Eunucos - José Afonso



Os eunucos devoram-se a si mesmos
Não mudam de uniforme, são venais
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os pais

Em tudo são verdugos mais ou menos
No jardim dos harens os principais
E quando os mais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais

Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dona a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam da saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais

com uma dedicatória especial para o desgraçado Governo que aí temos e para o seu aliado Passos Coelho

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O início de uma batalha, que afinal já vem de longe


Aí estão eles. Com todas as suas armas. Cínicos, despudorados, inclementes. Roubam salários, pensões, espectativas. Interferem nas nossas vidas, nas nossas carreiras, no nosso futuro. Expropriam (eles bem tentam...) a nossa consciência critica. Associam-nos ás suas incompetências, ás suas preversidades, ás suas indesmentíveis vacuidades. Julgam-nos distraídos, abúlicos ou medrosos.
Mas enganam-se. Não os reconhecemos como nossos, não os toleramos, não nos identificamos com eles. Eles irão para o caixote do lixo, sozinhos. Eles irão para o sotão do esquecimento ou para o palco da comédia bufa, envergonhados.
Hoje com as manifestações da CGTP aquecemos as gargantas, mobilizamos a vontade, ganhamos coragem para os derrotar. Amanhã recomeça a luta, o assalto ás trincheiras podres de tão desacreditado poder.

o social...deles

«PROVAS»

Entretanto, o Governo, através da Segurança Social, vai obrigar 819 mil beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI) a provar todos os seus rendimentos até ao final deste mês, sob a ameaça curta e grossa de que quem não provar o que ganha...perde imediatamente o abono de família e o subsídio de desemprego.
É claro que o Governo, que está semeado de luminárias, já fez saber como “garantiu” a todos os beneficiários um meio expedito para apresentarem as suas declarações: podem fazê-lo ...pela Internet _ um recurso técnico só possuído e utilizado por uma minoria de portugueses, mas não uns portugueses quaisquer. Obviamente, a informática exige recursos técnicos e culturais específicos, que não estão ao alcance de qualquer um. Como estes subsídios são concedidos, esmagadoramente, a cidadãos altamente deprimidos a todos os níveis (sociais, económicos e culturais), não é preciso ser bruxo para prever as dificuldades de toda esta gente para apresentar as suas declarações.
É claro que o Governo também sabe disso e, talvez por sabê-lo muito bem, é que terá sido tão taxativo a determinar o corte imediato dos subsídios em caso de ausência de “declaração de rendimentos”. É que assim, para cortar os subsídios, nem é preciso apurar quanto ganha cada beneficiário – a ausência da declaração é instrumento suficiente para o fazer...

(Avante, de 16 -9-2010)

Nota adicional: a posterior ocorrência de inúmeras filas intermináveis de beneficiários do RSI, aguardando o atendimento necessário ás portas dos serviços públicos correspondentes, constitui um traço identificador de uma política, em que se humilha e se desvaloriza o mais fragilizado no sistema social, retirando-lhe direitos e concedendo-lhe uma mera benesse assistencialista.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

José Sócrates a falar inglês

a vergonha continua...



José Sócrates e o bad english - A mediocridade de Sócrates quando tem que defrontar o exterior sem guião, é visível com todo o seu esplendor na conferência universitária em Columbia. É verdade que Mário Soares também falava com desenvoltura várias versões de espanhol e francês, sem ter qualquer vergonha da sua pronúncia e criatividade com as palavras. Mas era quem era, era senhor de um à-vontade que lhe vinha da autoridade da sua biografia (verdade seja que muitas vezes também de uma certa irresponsabilidade consentida), e a sua enorme capacidade de comunicação e empatia apagava o mau castelhano. Mas, nesses exercícios de comunicação, Soares nunca actuava por esperteza, por exibição, e tinha alguma coisa para dizer. Sócrates, com o seu bad english, prova material dos seus estudos de "inglês técnico", pouco mais tem que dizer do que algumas banalidades sobre as energias renováveis, que, para um público de jovens universitários americanos, não acrescentam nada. É pela vacuidade do exercício que o bad english depois brilha em toda a sua mediocridade. (Pacheco Pereira, in Abrupto)

Sócrates diverte Lideres Europeus

a palhaçada inicial

PCP vai apresentar projecto de revisão constitucional



Bernardino Soares anunciando o Projecto de Revisão Constitucional do PCP

domingo, 26 de setembro de 2010

La Charanga Habanera - Gozando en La Habana HQ .mp4

De Cuba...

fotografias de ROBERT CAPA e GERDA TARO sobre a Guerra Civil de Espanha

A morte de um Miliciano Republicano na Frente de Córdova

A partida dos Brigadistas Internacionalistas para a Frente de Aragão. No comboio a inscrição:
"antes morrer que consentir a tirania"

A despedida para a Frente, Agosto de 1936


Miliciana Republicana em treino militar em praia de Barcelona, Agosto de 1936

Robert Capa (Budapeste, 22 de Outubro de 1913 — Thai-Binh, Vietname, 25 de Maio de 1954).
Talvez o mais célebre fotógrafo de guerra, cobriu os mais importantes conflitos da primeira metade do século XX: a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Sino-Japonesa, a Segunda Guerra Mundial na Europa.
A sua carreira de fotógrafo começa no fim do ano de 1931.
Participou do desembarque da Normandia em Junho de 1944, o Dia D.
Depois da guerra, com David Seymour, Henri Cartier-Bresson e George Rodger, funda a Agência Magnum (nome retirado de uma enorme garrafa de champagne).
Robert Capa fotografou a Guerra Civil Espanhola, onde tirou a sua mais famosa foto "A morte do soldado legalista" (foto abaixo), a Guerra Civil Chinesa e a II Guerra Mundial com lentes normais, o que fez com que ele se tornasse um dos mais importantes fotógrafos europeus do século XX.
Capa morreu na Guerra da Indochina, em 25 de Maio de 1954, ao pisar uma mina terrestre. Seu corpo foi encontrado com as pernas dilaceradas e a câmara permanecia entre suas mãos.

Gerda Taro (Estugarda 1910- Madrid 1937) era filha de um casal polaco de educação liberal e origem judaica. A família mudou-se para Leipzig quando Gerda tinha dezanove anos. Devido à crescente influência dos nacionais-socialistas e a um novo círculo de amigos, envolveu-se em organizações de esquerda locais, tendo sido presa em 1933 por participar numa campanha de protesto anti-nazi. Percebendo que era muito perigoso permanecer na Alemanha, foi viver para Paris.
Foi fotógrafa, jornalista e anarquista. Registou a Guerra Civil Espanhola em fotos que hoje marcam a memória daqueles eventos. Morreu acidentalmente atropelada por um tanque republicano na frente de batalha durante um ataque das tropas franquistas.

sábado, 25 de setembro de 2010

MANIC STREET PREACHERS_ If you tolerate this your children will be next

Canção escrita em 1999 pelos Manic Street Preachers e dedicada às heroicas Brigadas Internacionalistas, que lutaram contra o Fascismo na Guerra Civil Espanhola

Quase, quase...




Terça-feira, 21 de Setembro de 2010
(em blog Cantigueiro)

Banco do Vaticano – Lava mais branco?

Desculpava-se um notório pecador: «A carne é fraca... mas em compensação o molho está óptimo!»

Deve ser essa a desculpa do senhor Ettore Gotti Tedeschi, Director do Banco do Vaticano, que está a ser investigado por lavagem de dinheiro.

Embora o visado se declare «perplexo», na verdade, o que parece é que o “exemplo" do célebre arcebispo Paul Marcinkus, responsável pelo criminoso descalabro do Banco Ambrosiano, há já alguns anos, afinal fez escola!

chega!

chega!
é uma nausea total!
tenho vergonha disto (ver Sem comentários em blog 5 dias)

E DEPOIS DIZEM QUE NÃO HÁ DINHEIRO PARA O ESTADO SOCIAL…

O Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Manuel Pizarro, deslocou-se
ao Entroncamento para inaugurar a entrada em funcionamento da Unidade de
Saúde Familiar “Locomotiva” instalada provisoriamente em contentores
alugados, enquanto decorrem as obras de ampliação do Centro de Saúde.
Apesar disto, o governante foi convidado a descerrar a placa inaugural
que mais tarde será retirada. Mas se tivermos em conta que o aluguer
dos contentores durante dois anos custou aos cofres do Estado 480 mil
euros, metade do valor da
obra de ampliação, pode-se afirmar
que o Secretário de Estado veio ao Entroncamento inaugurar uns ricos
contentores.

(in O Mirante, 23.9.2010)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

José Mário Branco - FMI (ao vivo/audio) parte 1

José Mário Branco - FMI (ao vivo/audio) parte 2

Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos...
É o internacionalismo monetário!


FMI

Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o mortimor do meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attachi-case' sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico 'hara-quiri'
FMI Panegírico, pro-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és 'Sepuldra' tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, 'amanda'-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ofeneologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, zórpila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

Yann Tiersen-Rue de Cascades

O francês Yann Tiersen

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

FERRAT CANTA A REVOLUÇÃO RUSSA



EM DIA DE GREVE GERAL EM FRANÇA, JEAN FERRAT CANTA POTEMKINE

resposta ao miúdo

6 DE SETEMBRO DE 2010
O dom do PCP - por Cláudio Carvalho

"Sempre que me esqueço das razões pelas quais somos um país moral e economicamente atrasado, corrupto e falido, a elite dirigente do “nada” elitista PCP tem o dom de mo relembrar. Nestas coisas do elitismo moral, a chatice é que a contradição anda de mão dada com a tal presunção da moral unificada num só partido e lugar ideológico. Contradição atrás de contradição é o que resta mas que arrasta um mar de ignorantes com uma visão social maniqueísta.
Os valores patrióticos assumidos na apresentação da candidatura de Francisco Lopes andam de mãos dadas com o internacionalismo palrado na Festa do Avante. A paz com a via revolucionária socialista. E por aí adiante.
O leixão estalinista em Portugal ainda não percebeu que não pode haver liberdade, sem liberdade económica e com planeamento centralizado; que não pode haver democracia sem multiculturalismo e multipartidarismo; que a ditadura do proletariado é, ainda, assim uma ditadura; que não pode haver desenvolvimento económico com planos quinquenais, ausência de propriedade privada e com as fronteiras fechadas ao livre comércio de pessoas, bens, mercadorias e capitais.

Não há quem explique a esta seita religiosa, como se fossem muito burros, que não há liberdade quando o Estado me diz para produzir 10 pães e eu quero produzir 11?"

in: Stato Quo e transcrito no blog da JS de Lousada

A RESPOSTA AO MIÚDO

Alertado por um amigo para a prosa de Claudio Carvalho, que presumo ser da JS de Lousada, não consegui deixar de esboçar um sorriso com a tese sobrejacente: a causa de sermos um "país moral e economicamente atrasado, corrupto e falido" é do "elitismo moral" do PCP e do seu "maniqueismo".
Aprende-se cedo na JS a usar palavras grandiloquentes, que contornem a realidade, as consequências das politicas sociais e económicas no Poder, as "misérias morais" que por aí vai.
Aprende-se mal na JS que o conceito de patriotismo é igual a nacionalismo e invalida, ou antagoniza o verdadeiro internacionalismo.
Apreende-se erradamente na JS uma leitura dos programas e objectivos estratégicos do PCP, que não constam nem nos documentos nem nas declarações oficiais dos seus dirigentes. Quanto á linguagem dos burros, considero de difícil compreensão por parte de gente politicamente madura e experimentada.

Cristiano Ribeiro

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

PRECIOSIDADES

O JN de hoje (22 de Setembro de 2010) traz umas preciosidades relativas á Escola Secundária de Marco de Canaveses. Será uma nova escola, após remodelação, com obras a iniciar no 1º semestre de 2011 e custo inicial de 15 milhões de euros. Dito isto, anuncia o Jornal que o projecto foi ontem apresentado pela empresa Parque Escola, tendo estado presentes também o arquitecto autor do projecto e o actual Director Executivo da Secundária.
Ficamos a saber que os futuros bares e casas de banho pretendem “esbater a barreira aluno professor (?)” e assim passam a ser comuns. “No nosso projecto não estamos a fazer distinção entre alunos e professores”, reforçou o director da Parque Escola. Julgava ele que estava a dizer uma frase dotada de sentido progressista e até revolucionário. Mas claramente a frase é um disparate total e a solução arquitectónica disparatada é. Não perceber o estatuto diferenciado entre alunos e professores, os seus diferentes papéis, a autoridade exercida profissionalmente pelo professor e o dever de estudar dos alunos, é lamentável. Procurar “democratizar” a bicha da sandwich e do xixi, encontrando espaços comuns onde estão vivências, idades, gestão de tempos e responsabilidades diferentes, é imprudente. Explique-se a verdade: foram as lógicas economicistas, contra a pedagogia e o bom senso.
Mas o melhor estava para vir, no fim . Os estacionamentos serão eliminados. Os 170 professores e funcionários terão que estacionar nas ruas da cidade. A “ideia” foi aproveitar o espaço existente para o aluno, disse o arquitecto. Para o actual Director da Escola, é uma “forma de educar os professores a partilhar boleias, incentivando-os a usarem menos o automóvel” . Este Director merecia uma estátua da mais abjecta saloiíce. Ele “quer educar”, ele incentiva á boleia, ele promove o uso da circulação a pé. Porém ele só tenta partilhar a sua superior iresponsabilidade.
O Marco de Canaveses merecia uma escola melhor, e dirigentes escolares com tino, bom senso e competência.

PCP apresenta Projecto de Lei que revoga portagens nas SCUT

A introdução de portagens nas SCUT Norte Litoral, Grande Porto e Costa da Prata, além de violar o programa do Governo, é uma injustiça que terá consequências sociais e económicas gravosas para estes distritos.
Por estes motivos, o PCP apresenta este projecto de lei para que esta errada medida, a introdução de portagens nestas SCUT, Costa da Prata, Grande Porto e Norte Litoral, não se concretize, e irá lutar para que a introdução de portagens nas restantes SCUT não seja uma realidade.

ver Projecto de Lei

MUSE - RESISTANCE (VIDEO CLIP)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

poema

BREVE INVOCAÇÃO DO LOCAL DE TRABALHO E DOS SEUS DEDICADOS TRABALHADORES, TRIPULANTES EXPERIMENTADOS NA ARTE DE MAREAR PELAS ROTAS DA SAÚDE

Que a Unidade de Saúde seja
barco em Milhundos fundeado
íntegro, preciso e inteiro,
em viagem de dificuldades
rompendo inóspito nevoeiro,
barco no presente situado
sempre com o futuro ali ao lado

Que seja
berço,
ninho, estufa,
lar
casa-mãe, escola
fonte, seguro,
doca de bem chegar

Manhã nascente
iniciação
criança doente
preocupação
actividade fremente
impresso
papel de impressão
equipa presente
cooperação
desafio difícil
oportuna decisão
iniciativa
programação
riso
excessos
imprecação
ansiedade
sublimação
perseverança
continuação

Tarde poente
final tardio
vontade indolente
cansaço sentido
excesso de gente
público sadio
doença inclemente
má sorte
final de vida
sinal de morte
orgulho
dor
satisfação

Quando o tempo urge
a necessidade assola,
soam os apitos
soltam-se as amarras,
partimos calçados
partimos descalços
partimos
e ao leme vogamos
em direcção
ao compromisso,
ao sacrifício
ao Sim
que raramente
é Não

No seu bojo seguro
sem mau presságio
ou anúncio de naufrágio,
sabe bem navegar,
sabe bem aí estar.
E já falta pouco
um pouquinho de nada
para o destino final
a terra o bom porto
se poder alcançar

Que os trabalhadores sejam
experimentados marinheiros
de causas, dedicados tripulantes
corsários de vidas errantes
das (boas) práticas timoneiros.
Que sejam corajosos
que sejam prudentes,
talvez mais,
sejam mesmo exigentes
solidários
eternos
e companheiros

Cristiano Ribeiro Fev 2009

COMUNICADO

Efeitos da municipalização do ensino à vista no Vale do Sousa

A Câmara Municipal de Lousada aderiu voluntariamente ao processo de descentralização de competências ligadas à educação. Uma das consequências do protocolo assinado com o Governo foi a transferência do pessoal não docente das escolas básicas e da educação pré-escolar, anteriormente sob a alçada do Ministério da Educação, para a tutela do município de Lousada.
Na altura o PCP chamou a atenção o alijar de responsabilidades do Governo, uma vez que o processo estava a ser iniciado sem que fosse certo que a transferência de competências fosse acompanhada da devida transferência de verbas.
As consequências desta “descentralização dos problemas” estão agora à vista.
No passado dia 31 de Agosto terminou o contrato a prazo de milhares de auxiliares de acção educativa de todo o país. Dado estes trabalhadores serem indispensáveis para o funcionamento das escolas, a orientação dada pelo Ministério da Educação foi que se realizassem novos concursos de admissão para estes trabalhadores, e que enquanto esse processo não estivesse concluído, se prorrogasse o prazo dos contratos de trabalho agora findos.
A Câmara Municipal de Lousada, que há pouco mais de um mês fez saber pela voz do seu Presidente que estava a braços com sérias dificuldades financeiras devido ao atraso na transferência das verbas prometidas pelo Ministério, optou por resolver o problema de forma diferente, ainda mais ardilosa.
Optou por não prolongar o contrato de 51 trabalhadores e mandá-los para o desemprego, ao mesmo tempo que abria novo concurso para a sua admissão.
Como o processo não está concluído e as escolas não podem funcionar sem auxiliares de educação, a solução encontrada pela Câmara Municipal foi pedir aos trabalhadores desempregados que se mantivessem no seu posto de trabalho “voluntariamente”, sem receber.
Também na Câmara Municipal de Felgueiras (que aderiu igualmente à descentralização de competências educativas), esta oportunidade foi aproveitada para não renovar o contrato de 6 auxiliares de acção educativa, apesar dos seus serviços continuarem a ser necessários.
O ano escolar que se inicia fica assim marcado por estes lamentáveis exemplos da cegueira política do Governo e destas Câmaras Municipais, sendo da sua inteira responsabilidade as consequências resultantes: para os alunos, a braços com a falta de condições nas escolas; e para dezenas de trabalhadores, submetidos à vexação de realizar trabalho “voluntário” à força em Lousada, ou no caso de Felgueiras, despedidos após anos de trabalho que legitimamente criou expectativas de prossecução de carreira.
Não é difícil prever a repetição de problemas deste tipo, num número cada vez maior de concelhos.
Este é mais um exemplo dos resultados das políticas economicistas de direita do Governo PS (com o apoio do PSD e CDS), que tudo sacrificam em defesa do sacrossanto défice e da contenção orçamental.
A Direcção Sub-regional do Vale do Sousa e Baixo Tâmega do PCP reafirma a necessidade de uma política alternativa para o país e para a região, que passe pela concretização de uma ruptura democrática de esquerda, guiada pelo objectivo de melhorar a qualidade de vida dos portugueses (trabalhadores e estudantes), e não pela lógica meramente economicista do capitalismo.

21 de Setembro de 2010

A Direcção Sub-Regional do Vale do Sousa e Baixo Tâmega do PCP

PARÁBOLA DO PROFESSOR

Naquele tempo, Jesus subiu ao monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem.
Depois, tomando a palavra, ensinou-os dizendo:

Em verdade vos digo, bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serãosaciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles...

Pedro interrompeu: Temos que aprender isso de cor?
André disse: Temos que copiá-lo para o caderno?
Tiago perguntou: Vamos ter teste sobre isso?
Filipe lamentou-se: Não trouxe o papiro-diário.
Bartolomeu quis saber: Temos de tirar apontamentos?
João levantou a mão: Posso ir à casa de banho?
Judas exclamou: Para que é que serve isto tudo?
Tomé inquietou-se: Há fórmulas, vamos resolver problemas?
Tadeu reclamou: Mas porque é que não nos dás a sebenta e pronto!?
Mateus queixou-se: eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus presentes, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada, tomou a palavra e dirigiu-se a Ele, dizendo:
Onde está a tua planificação?
Qual é a nomenclatura do teu plano de aula nesta intervenção didáctica mediatizada?
E a avaliação diagnóstica? E a avaliação institucional?
Quais são as tuas expectativas de sucesso?
Tendes para a abordagem da área em forma globalizada, de modo a permitir o acesso à significação dos contextos, tendo em conta a bipolaridade da transmissão?
Quais são as tuas estratégias conducentes à recuperação dos conhecimentos prévios?
Respondem estes aos interesses e necessidades do grupo de modo a assegurar a significatividade do processo de ensino-aprendizagem?
Incluíste actividades integradoras com fundamento epistemológico produtivo?
E os espaços alternativos das problemáticas curriculares gerais?
Propiciaste espaços de encontro para a coordenação de acções transversais e longitudinais que fomentem os vínculos operativos e cooperativos das áreas concomitantes?
Quais são os conteúdos conceptuais, processuais e atitudinais que respondem aos fundamentos lógico, praxeológico e metodológico constituídos pelos núcleos generativos disciplinares, transdisciplinares, interdisciplinares e metadisciplinares?

Caifás, o pior de todos, disse a Jesus:
Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro períodos e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos teus discípulos, para que ao Rei não lhe falhem as previsões de um ensino de qualidade e não se lhe estraguem as estatísticas do sucesso. Serás notificado em devido tempo pela via mais adequada. E vê lá se reprovas alguém! Lembra-te que ainda não és titular e não há quadros de nomeação definitiva.

... E Jesus pediu a reforma antecipada aos trinta e três anos...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

CHAVELA VARGAS - NOCHE DE BODA

"Noche de boda" é uma grande canção de Joaquin Sabina, espanhol. Esta versão é de Chavela Vargas, mexicana (embora nascida na Costa Rica), 90 anos, também famosa por ter sido amiga da grande pintora Frida Khalo.

NOCHE DE BODA

Que el maquillaje no apague tu risa,
que el equipaje no lastre tus alas,
que el calendario no venga con prisas,
que el diccionario detenga las balas,
Que las persianas corrijan la aurora,
que gane el quiero la guerra del puedo,
que los que esperan no cuenten las horas,
que los que matan se mueran de miedo.
Que el fin del mundo te pille bailando,
que el escenario me tiña las canas,
que nunca sepas ni cómo, ni cuándo,
ni ciento volando, ni ayer ni mañana
Que el corazón no se pase de moda,
que los otoños te doren la piel,
que cada noche sea noche de bodas,
que no se ponga la luna de miel.
Que todas las noches sean noches de boda,
que todas las lunas sean lunas de miel.
Que las verdades no tengan complejos,
que las mentiras parezcan mentira,
que no te den la razón los espejos,
que te aproveche mirar lo que miras.
Que no se ocupe de tí el desamparo,
que cada cena sea tu última cena,
que ser valiente no salga tan caro,
que ser cobarde no valga la pena.
Que no te compren por menos de nada,
que no te vendan amor sin espinas,
que no te duerman con cuentos de hadas,
que no te cierren el bar de la esquina.
Que el corazón no se pase de moda,
que los otoños te doren la piel,
que cada noche sea noche de bodas,
que no se ponga la luna de miel.
Que todas las noches sean noches de boda,
que todas las lunas sean lunas de miel.

Joaquin Sabina

domingo, 19 de setembro de 2010

poema

SALA DE CONCERTO

(Primeiro intervalo no Teatro de S. Carlos. Sorrimos uns para os outros. «Então como está?» «Há muito que não o via!»... Musgo. Teias de aranha nos ouvidos. Fascismo de «smoking». Passo pelos corredores escondido atrás de mim mesmo.)

Disseram-lhes
que estavam vivos
por disciplina de cemitério.

E todos acreditaram
já com os pés em ângulos rectos.

Mas vivos que são?
Mortos incompletos.


José Gomes Ferreira

Comemorando os 31 anos do SNS - fotografias e intervenção de JERÓNIMO DE SOUSA





Fez no passado dia 15, 31 anos que foi promulgada a Lei do Serviço Nacional de Saúde. Após um intenso debate nacional que envolveu as populações, as autarquias, o movimento sindical e os trabalhadores da Saúde, foi consagrada em Lei uma das mais importantes conquistas de Abril. O SNS foi o resultado da iniciativa revolucionária do povo e de muitos profissionais de saúde no contexto da Revolução.

A Revolução de Abril acabou com décadas de sofrimento do povo português e abriu as portas do desenvolvimento a um país onde pontificava um sistema de saúde muito fragmentado, sem uma estrutura de cuidados primários, uma rede hospitalar assente sobretudo nos hospitais das misericórdias e apenas com cerca de 8 000 médicos. O acesso aos cuidados de saúde para a maioria dos portugueses era uma tarefa quase impossível, um bem escasso, só ao alcance dos ricos. No início da década de 70 a despesa em saúde era apenas de 2,8% do PIB.

Num contexto de uma intensa luta ideológica, de interesses antagónicos e de grupos de pressão, o PCP apresentou no seu VIII Congresso, realizado em Junho de 1976, um conjunto de propostas políticas, muitas das quais vieram a integrar a Lei que, pela primeira vez, procurou dar forma ao SNS. Propostas como: a cobertura do país em serviços de saúde; a integração dos serviços no plano local; a descentralização de competências; o aproveitamento dos recursos existentes nos hospitais e a regulamentação e controlo da actividade clínica privada, que ainda hoje mantêm pertinente actualidade.

Este era o princípio da responsabilidade prioritária do Estado em assegurar o direito à saúde dos portugueses, que a Constituição da República assumiu em 1976 e a que procurou dar forma, afirmando o Serviço Nacional de Saúde (SNS) como instrumento para a concretização da responsabilidade prioritária do Estado em garantir o direito à saúde a todos os portugueses, independentemente da sua situação económica e social.

Foi com este SNS, apesar de atacado e fragilizado ao longo dos seus 31 anos de vida, que Portugal obteve significativos ganhos em saúde, fruto de um desempenho que levou a Organização Mundial de Saúde a classificá-lo como o 12º melhor a nível mundial, à frente de países como a Alemanha, a Grã-Bretanha, o Canadá ou os Estados Unidos.

Hoje, passados que estão 31 anos sobre a criação do SNS, recordamos aqui alguns dos argumentos utilizados na altura pelos seus detractores. Diziam então ser inviável quer do ponto de vista dos meios humanos, materiais e financeiros, quer do ponto de vista da qualidade da assistência prestada. Não são muito diferentes dos argumentos agora utilizados. São outras palavras mas no essencial mantêm as mesmas teses.

Ao longo destas três décadas a questão da universalidade e do financiamento têm estado sempre no centro do debate. Mais uma vez assim é com a entrega do PSD do seu projecto de revisão constitucional. Porque não temos memória curta, importa recordar aqui que, apenas três meses e meio após a aprovação da Constituição da República que consagrava a gratuitidade, o governo do PS, formado a 23 de Julho de 1976, já utilizava a expressão “tendencialmente gratuito” que a maioria de direita havia de inscrever no texto constitucional na revisão efectuada em 1989.

Com esta alteração, não foi apenas a introdução das taxas moderadoras que ficaram legitimadas, foi a teoria de “quem quer saúde, paga-a” pondo em causa a universalidade de acesso ao SNS, atingindo largas camadas da população.

Com a introdução de mecanismos de mercado o consumo das famílias em saúde tem crescido exponencialmente, confirmando-se assim a denúncia do PCP, de que o que se pretendia era passar para as famílias uma fatia cada mais significativa da despesa em saúde e não moderar o acesso aos cuidados de saúde. De acordo com os últimos dados disponibilizados pelas Contas Nacionais, considerando apenas o período entre 2000 e 2007, o consumo das famílias em saúde passou de 3765 milhões de euros para 5897 milhões de euros, ou seja cresceu 57% e simultâneamente cresceu o acesso dos utentes aos serviços de saúde.

Tendo em conta a população residente no país e a dimensão média das famílias, este valor significa que a despesa média por família, passou de 1054 euros em 2000, para 1527 euros em 2007, valor que, de acordo com a variação do índice de preços ao consumidor, atingirá em 2010 qualquer coisa como 1 600 euros (dois salários médios líquidos).

Ainda ontem se anunciava uma nova descomparticipação nos medicamentos que atinge os idosos mais pobres e particularmente os que têm doenças crónicas. Afinal, como denunciámos na altura, a inscrição no texto constitucional da expressão tendencialmente gratuito apenas serviria para abrir espaço a uma maior desresponsabilização do Estado e a um aumento dos custos para as famílias. A vida confirmou que tínhamos razão.

O PSD, que sempre quis ir mais longe, aí está com um projecto de revisão constitucional que, no essencial e no que à saúde diz respeito, aponta para um conjunto de ideias velhas que visam retirar ao Estado importantes responsabilidades na garantia de acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde, deixando-lhe a responsabilidade de promover a saúde e financiar o acesso dos cidadãos às unidades privadas, ao mesmo tempo que transfere para os grupos privados a prestação de cuidados.

Um golpe que, a ser concretizado, acabará com o SNS tal como o conhecemos. A luta pela defesa do SNS tornou-se assim um imperativo nacional.

Não estamos apenas perante um modelo diferente de organizar o sistema de saúde em Portugal. Retirar o “tendencialmente gratuito” da Constituição, dar liberdade de escolha aos cidadãos e encontrar novas formas de co-financiamento das despesas com a saúde, aplicando aos cidadãos o critério da situação fiscal, significa repetir a injustiça já existente no pagamento de impostos e penalizar duplamente quem trabalha. Por outro lado, atribuir aos utentes um maior pagamento directo das despesas com a saúde, prejudicando mais os que têm maiores dificuldades, é especialmente grave se tivermos em conta que em Portugal os cidadãos contribuem já directamente do seu bolso com mais de 40% dos gastos com a saúde.

Para os arautos do primado do privado a questão central é o acesso dos grupos privados ao chamado mercado da saúde que hoje já representa mais de 9% do PIB, qualquer coisa como 15 mil milhões de euros. Privados que hoje já têm nas mãos cerca de 50% das unidades de saúde com actividade em Portugal, número que tem tendência para crescer caso não seja travado o processo de privatização em curso e não sejam contidos os licenciamentos para novas unidades, nomeadamente grandes hospitais. Privatização que tem levado ao aumento desmesurado de custos.

O que hoje acontece com a hemodiálise, concentrada num reduzido número de prestadores que impõem os preços porque o Estado não tem capacidade de resposta, é um bom exemplo do resultado das privatizações. O negocio da ADSE com os Hospitais da Luz e dos Lusíadas, imposto pelo Ministério das Finanças, é também um bom exemplo da promiscuidade entre o público e o privado que gera fortes constrangimentos e prejuízos ao SNS.

Destruir o Serviço Nacional de Saúde será um retrocesso civilizacional de dezenas de anos que terá consequências desastrosas na qualidade de vida dos portugueses, mas também no desenvolvimento económico do país.

O que o PSD quer obter com a revisão constitucional e o PS vai concretizando no governo, é uma política de saúde a duas velocidades: uma para os detentores de altos rendimentos e outra caritativa, assistencial, de baixo perfil para os pobrezinhos. Lutaremos com todas as nossas forças contra a divisão de papéis que PS e PSD querem levar à prática e que se traduz numa ideia muito clara: financiamento para o Orçamento de Estado e os lucros para os grandes grupos económicos.

A luta em defesa do Serviço Nacional de Saúde exige não apenas a mobilização dos profissionais de saúde, mas os portugueses de uma forma geral. São bem vindas todas as iniciativas que tenham por objectivo defender a garantia do acesso aos cuidados de saúde a todos os portugueses. Mas não basta dizer-se que se está com o SNS, contra a revisão da Lei fundamental proposta pelo PSD. É preciso ter coerência entre o que se afirma e o que se faz, sermos determinados no objectivo de defender o SNS e não ter uma prática de compromissos com aqueles que querem servir-se dele ou mesmo destruí-lo.

É bom que se diga que o perigo maior neste processo não vem de quem faz a proposta, porque sozinhos não a podem concretizar, mas daqueles, como o PS, que tem um passado de cedências à direita, nesta e noutras matérias.

Ao longo dos anos e apesar dos ganhos em saúde alcançados em Portugal, após a Revolução de Abril, estarem estritamente associados ao desenvolvimento da rede de Cuidados de Saúde Primários (CSP), estes tiveram em muitos momentos o seu desenvolvimento contrariado pela oposição dos defensores da prestação privada de cuidados de saúde, que influenciaram decisivamente as políticas de saúde do PS, PSD e CDS.

Não é por acaso que a Organização Mundial de Saúde considera que os CSP são parte integrante do desenvolvimento sócio-económico da comunidade e do sistema nacional de saúde, de que constituem função central e são o principal núcleo. Os CSP são o primeiro elemento de um processo permanente de assistência sanitária que, ao aproximar os cuidados de saúde do lugar onde as pessoas vivem e trabalham, são o primeiro nível do seu contacto com o sistema nacional de saúde.

Não tem sido este o entendimento dos sucessivos governos do PSD e do PS. Hoje mais de 700 mil portugueses continuam sem médico de família, continuam a encerrar serviços de proximidade e a reforma assente nas Unidades de Saúde familiar (USF) e nos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACS) continua sem resolver os constrangimentos no acesso ao médico de família. As políticas que têm sido seguidas só não têm tido consequências mais negativas, dado o apego dos profissionais de saúde à causa do serviço público.

Há muito que o PCP chamou a atenção para o facto de que a designada reforma dos Cuidados de Saúde Primários, esboçada pelo Governo do PSD-CDS de Barroso/Santana Lopes e desenvolvida pelo Governo PS/Sócrates desde o início de 2006, é parte integrante de processos de privatização da prestação de cuidados de saúde.

Uma verdadeira rede de Cuidados de Saúde Primários necessitam de um significativo e planeado investimento público que os dote com os recursos indispensáveis à sua missão, em particular ao nível dos recursos humanos, mas também de instalações, equipamentos e competências técnicas essenciais.

O risco iminente de desagregação da rede de CSP impõe a adopção imediata de um Plano de Emergência que previna situações de ruptura na disponibilidade de profissionais para a prestação de serviço na rede de CSP e que assegure as condições de reabertura dos serviços entretanto encerrados sem alternativa eficaz, designadamente Serviços de Atendimento Permanente ou similares.

Nas últimas semanas voltámos a ouvir um coro de vozes bem afinadas, muito preocupadas com o aumento da despesa e das dívidas nos hospitais públicos. O aumento da despesa na saúde, particularmente nos hospitais públicos, tem sido uma das mais fortes linhas de ataque ao SNS.

Numa operação de demagogia eleitoral, o PS prometeu que os Hospitais Sociedades Anónimas passariam a ser Entidades Públicas Empresariais. Esta mudança de Estatuto jurídico, para além de facilitar a sua privatização, não foi acompanhada de quaisquer medidas de financiamento incentivadoras do aumento de eficiência e de qualidade. A desarticulação entre os cuidados hospitalares e os cuidados primários acentuar-se-á com a crescente desintegração da gestão entre eles, já que a empresa hospital se preocupa com os seus resultados e os centros de saúde, cuja privatização se antevê, têm a mesma preocupação. Assim as ineficiências manter-se-ão, tal como os custos de funcionamento.

Aumento da despesa que tem, particularmente nos custos com os medicamentos e na aquisição de serviços externos, a sua principal causa, áreas onde os compromissos com os grupos privados prestadores de cuidados de saúde, com a produção, distribuição e venda de medicamentos são muito significativos.

A tese defendida pelos defensores do primado do privado na saúde, é de que o Estado não tem os recursos necessários para manter, por si só, o financiamento do SNS. Gastamos mais do que podemos, dizem. Como é sabido os custos da saúde não são apenas resultantes de problemas de ordem biológica. Mas sobre isto os teóricos do neoliberalismo nada dizem. A pobreza e os baixos rendimentos das famílias, as más condições de trabalho, o desamparo social, as desigualdades socais, estão identificados como os mais poderosos indutores de estilos de vida insalubres e de doença. Ao contrário das opções que têm sido tomadas, uma política orientada para a eliminação de injustiças e desigualdades sociais é um componente indispensável da prevenção da doença e da promoção da saúde, condição necessária da sustentabilidade do SNS.

O seu adequado financiamento e reforço como serviço público de carácter universal, geral e gratuito, são condições essenciais para o desenvolvimento económico e o progresso social.

A falta de motivação dos profissionais, uma política de recursos humanos que não garante uma carreira pública nem a valorização profissional e salarial dos profissionais de saúde, são as causas principais da fuga de muitos mais profissionais para o sector privado, mesmo sabendo que não é aí que vão encontrar as condições laborais que respondam ao seus anseios, e para o estrangeiro, gorando as expectativas de muitos jovens trabalhadores e desperdiçando mão-de-obra altamente qualificada em que o Estado também investe na sua formação.

Com o apoio parlamentar do PS, o anterior Governo desenvolveu um pacote legislativo que assenta em quatro vectores fundamentais: facilitar o despedimento, reduzir e eliminar direitos, agravar as condições de trabalho, atacar e desacreditar os sindicatos.

O actual Governo não só mantém todas as alterações introduzidas pelo anterior, como avançou com um conjunto de medidas, nomeadamente a regra de entrada de 1 trabalhador por cada 3 que saiam, que está a funcionar como um garrote que vai asfixiando os serviços até estes paralisarem, bem como a penalização de 6% nas reformas por cada ano a menos de trabalho, que tem levado à saída de centenas de médico por reforma.

Incrédulos quanto às reais possibilidades de alterações da situação, expectantes em relação às iniciativas do poder central e divididos pelos interesses e vícios instalados no sistema, muitos profissionais de saúde têm tido dificuldades em associar-se ao esforço necessário para definir propostas de defesa do SNS e à luta consequente por elas. No entanto cabe-lhes um papel chave na luta pela defesa e desenvolvimento do SNS.

O descontentamento acumulado na sociedade em relação à qualidade dos cuidado de saúde, pelo encerramento de muitos serviços locais sem criação de alternativa, têm tido expressões diferenciadas quanto à necessidade e possibilidade de êxito da luta em defesa do SNS público.

Em confluência com o esforço daqueles que sendo profissionais de saúde, organizações associativas, eleitos do Poder Local ou em outras instituições, tudo farão para dinamização da luta das populações e profissionais, na defesa e desenvolvimento do SNS e a garantia do direito à saúde de todo os portugueses que passa por:

- Promover a sustentabilidade e financiamento adequado do SNS, desenvolvendo plenamente as suas potencialidades, através do total aproveitamento da capacidade instalada e do reforço dos recursos humanos;

- Terminar com o actual modelo de empreserialização dos serviços de saúde públicos, reintegrando os Hospitais EPE no sector Público Administrativo, acompanhado de medidas que tornem eficiente a sua gestão;

- Acabar com o absurdo e injusto pagamento das taxas moderadoras;

- Avançar com uma verdadeira reforma dos Cuidados de Saúde Primários com um significativo investimento em meios humanos e técnicos, garantindo a todos o seu médico e enfermeiro de família;

- Melhorar as condições de trabalho, repor direitos e dignificar todas as carreiras de trabalhadores;

- Elaborar imediatamente um programa para a formação de profissionais de saúde, principalmente de médicos;

- Criar o Laboratório Nacional do Medicamento e incrementar a produção nacional;

- Avançar com legislação que defina, com rigor, a intervenção de cada uma das componentes do sector do medicamento, desde a produção até à venda a retalho, impedindo em qualquer momento alguma das partes possa ter uma intervenção do tipo cartel.


Eis um conjunto de propostas do PCP que são politicamente necessárias, socialmente justas e técnica e financeiramente exequíveis.

FC Porto- Ganhando desde 1893

Sem legendas, uma história de sucesso. ser muitas vezes o melhor.

sábado, 18 de setembro de 2010

Tarja Turunen - Walking In The Air

"Walking in the air" é uma canção de Natal e Tarja Turunen , ex-vocalista dos Nightwish, é finlandesa.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

relembrando um grande filme




Dersu Uzala, o Guerreiro das Estepes, de Akira Kurosawa (1975)
Co-produção União Soviética / Japão

padrões morais

OS ALTOS PADRÕES MORAIS DOS ESTADOS UNIDOS EM DIREITOS HUMANOS,

Desenho de Carlos Latuff

Legenda

Padrões morais...

Algures no Afeganistão...

- Sabes que eles apedrejam pessoas até à morte no Irão?!
- Sim! Eu vi isso na Fox News!
- Aqueles iranianos são bárbaros!

Menino do bairro negro - José Afonso

José Afonso

os idosos e os medicamentos

(da leitura de O PÚBLICO)

«Mais de um milhão de pensionistas de baixos rendimentos vão deixar de ter medicamentos grátis, um benefício que lhes foi atribuído há pouco mais de um ano. Também a comparticipação de alguns dos remédios que são dos mais usados em Portugal, como antiácidos e anti-inflamatórios, vai diminuir para quase metade (baixa de de 69 para 37 por cento), já a partir de segunda-feira. E muitos doentes crónicos passarão a pagar mais pelos medicamentos de que necessitam até ao fim da vida, a não ser que optem pelos fármacos mais baratos do mercado. A acompanhar as alterações nas regras de comparticipação estatal, ontem aprovadas em Conselho de Ministros e que provocam um aumento do preço de alguns fármacos, o Governo avança com uma descida administrativa de seis por cento do preço de todos os medicamentos, a partir de 1 de Outubro. A ministra da Saúde estima que estas medidas vão permitir ao Estado poupar cerca de 250 milhões de euros por ano. A baixa de preços vai beneficiar também os utentes, acredita Ana Jorge - que não especifica, porém, qual será o valor deste benefício.(...) Anunciada antes das eleições em 2009, a gratuitidade dos fármacos para os pensionistas cujo rendimento anual não exceda 14 vezes o salário mínimo nacional termina, assim, ao fim de um ano e três meses em vigor. Esta semana, a ministra revelou que esta medida saiu cara aos cofres do Estado - custou 100 milhões de euros, mais 60 que inicialmente fora calculado. Aliás, a justificação avançada para pôr fim a este benefício foi a de que era necessário combater os "abusos" verificados (...)».

Comentário: o "socialismo" socrático tem dias...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O PREÇO DA ENERGIA - estudo do economista Eugénio Rosa

O preço da energia pago pelas famílias em Portugal é muito superior ao preço médio dos países da União Europeia. E não se pense que são apenas os combustíveis, que têm merecido a atenção dos media. A situação é ainda mais grave em relação à electricidade e ao gás natural.
Para provar isso, vamos utilizar dados divulgados pela própria Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia. E para que depois as empresas e seus defensores não possam vir com a desculpa “esfarrapada” que a culpa é da elevada carga fiscal que existe em Portugal, como habitualmente fazem com o propósito de enganar a opinião pública, vamos utilizar, para fazer a comparação, preços sem impostos (sem IVA e e sem ISP), ou seja, preços que revertem totalmente para as empresas, e que constituem a fonte dos seus lucros.

Em Portugal, nos primeiros sete meses de 2010, o preço da gasolina95 sem impostos foi, em todos os meses, sempre superior ao preço médio da UE27 entre 3% e 7%, e o do gasóleo entre 6% e 7%. Isto determinou que só nos primeiros 7 meses de 2010 os portugueses tenham sido obrigado a pagar a mais às empresas 29,7 milhões € pela gasolina95 que consumiram e mais 143,8 milhões € pelo gasóleo. Em relação aos preços espanhóis também sem impostos, os cobrados em Portugal pelas empresas, só nos primeiros sete meses de 2010, determinaram que os portugueses tenham sido obrigados a pagar mais 2,5 milhões € pela gasolina95 e mais 56,7 milhões € pelo gasóleo que consumiram. Repetindo, tudo isto sem impostos para que as empresas e os seus defensores nos media não possam utilizar a justificação, como habitualmente fazem, que a culpa é da carga fiscal ser mais elevada em Portugal.

Mas a situação é mais grave em relação à electricidade. Em Portugal, a maioria das famílias têm consumos anuais entre 2500 e 5000 KWh e os preços, também sem impostos, cobrados pelas empresas a essas famílias, no 2º semestre de 2009, foram superiores em 13,6% aos preços médios da União Europeia, como revelam os dados da Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia. Neste escalão de consumo, em apenas três países (Chipre, Holanda e Irlanda) os preços são superiores aos praticados pelas empresas em Portugal. E como tudo isto já não fosse suficiente, em Agosto deste ano, o governo criou mais um fundo para subsidiar as empresas de electricidade, que vai custar mais 60 milhões € por ano aos consumidores portugueses, ou seja,um aumento no preço da electricidade entre 1% e 2% (apoio ao mercado liberalizado, o que prova que a liberalização no lugar de reduzir preços aumenta-os). E tanto a ERSE, a entidade reguladora, como o próprio governo nada fazem para pôr cobro a esta situação

Mas é em relação ao gás natural consumido pelas famílias que a situação é ainda muito mais grave. Em Portugal, os preços sem impostos cobrados pelas empresas por consumos anuais inferiores a 20 GJ são superiores aos preços médios da União Europeia em 21,3%; e para consumos iguais ou superiores a 20Gj e até 200GJ os preços sem impostos em Portugal são superiores aos preços médios da UE27 em 37,6%. E estes dois escalões abrangem a totalidade das famílias em Portugal que consomem gás natural. Tudo isto de acordo com dados da Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia. E ainda por cima a ERSE e o governo aprovaram um novo aumento de 3,2% que entrou em vigor em 1Julho 2010.

Segundos dados das próprias empresas o lucro líquido da GALP, no 1º semestre de 2010, foi de 260 milhões € quando, em idêntico período de 2009, tinha sido de 137 milhões €, ou seja, mais 89,8%; e o da EDP, no 1º semestre de 2010, atingiu 639 milhões € quando, em idêntico período de 2009, tinha sido 540 milhões €, ou seja mais 18,3%. Em conjunto, os lucros líquidos só destas duas empresas, no 1º semestre-2010, atingiram 899 milhões €, ou seja, mais 32,8% do que em idêntico periodo de 2009.
É de perguntar: Qual foi o português que viu os seus rendimentos aumentarem, em 2010, em 32,8%? Perante as dificuldades crescentes das famílias, e do próprio País, este aumento tão elevado dos lucros é um autêntico escândalo que as autoridades reguladoras (Autoridade da Concorrência e ERSE), e o próprio governo nada fazem para conter,o que prova que estão reféns dos grandes grupos económicos que operam em Portugal.

Discurso de Adenoid Hynkel



Charlie Chaplin em O Grande Ditador

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

TEXTO DE MIA COUTO


A POBREZA SAI MUITO CARO

Cercado por uma espécie de guerra, refém de um sentimento de impotência, escuto tiros a uma centena de metros. Fumo escuro reforça o sentimento de cerco. Esse fumo não escurece apenas o horizonte imediato da minha janela. Escurece o futuro. Estamo-nos suicidando em fumo? Ironia triste: o pneu que foi feito para vencer a estrada está, em chamas, consumindo a estrada. Essa estrada é aquela que nos levaria a uma condição melhor.
E de novo, uma certa orfandade atinge-me. Eu, como todos os cidadãos de Maputo, necessitaríamos de uma palavra de orientação, de um esclarecimento sobre o que se passa e como devo actuar. Não há voz, não rosto de nenhuma autoridade. Ligo rádio, ligo televisão. Estão passando novelas, música, de costas voltadas para a realidade. Alguém virá dizer-nos alguma coisa, diz um dos meus filhos. Ninguém, excepto uma cadeia de televisão, dá conta do que se está passando.
A pobreza sai muito caro. Ser pobre custa muito dinheiro. Os motins da semana passada comprovam este paradoxo. Jovens sem presente agrediram o seu próprio futuro. Os tumultos não tinham uma senha, uma organização, uma palavra de ordem. Apenas a desesperada esperança de poder reverter a decisão de aumento de preços. Sem enquadramento organizativo os tumultos, rapidamente, foram apropriados pelo oportunismo da violência, do saque, do vandalismo.
Esta luta desesperada é o corolário de uma vida de desespero. Sem sindicatos, sem partidos políticos, a violência usada nos motins vitimiza sobretudo quem já é pobre.
Grave será contentarmo-nos com condenações moralistas e explicações redutoras e simplificadoras. A intensidade e a extensão dos tumultos deve obrigar a um repensar de caminhos, sobretudo por parte de quem assume a direcção política do país. Na verdade, os motins não eram legais, mas eram legítimos. Para os que não estavam nas ruas, mesmo para os que condenavam a forma dos protestos, havia razão e fundamento para esta rebelião. Um grupo de trabalhadores que observava, junto comigo, os revoltosos, comentava: são os nossos soldados. E o resto, os excessos, seriam danos colaterais.
Os que não tinham voz diziam agora o que outros pretendiam dizer. Os que mais estão privados de poder fizeram estremecer a cidade, experimentaram a vertigem do poder. Eles não estavam sugerindo alternativas, propostas de solução. Estavam mostrando indignação. Estavam pedindo essa solução a “quem de direito”. Implícito estava que, apesar de tudo, os revoltosos olhavam como legítimas as autoridades de quem esperavam aquilo que chamavam “uma resposta”. Essa resposta não veio. Ou veio em absoluta negação daquilo que seria a expectativa.
Poderia ser outra essa ausência de resposta. Ou tudo o que havia para falar teria que ser dito antes, como sucede com esses casais que querem, num último diálogo, recuperar tudo o que nunca falaram. Um modo de ser pobre é não aprender. É não retirar lições dos acontecimentos.
As presentes manifestações são já um resultado dessa incapacidade.
Para que, mais uma vez, não seja um desacontecimento, um não evento. Porque são muitos os “não eventos” da nossa história recente. Um deles é a chamada “guerra civil”. O próprio nome será, talvez, inadequado. Aceitemos, no entanto, a designação. Pois essa guerra cercou-nos no horizonte e no tempo. Será que hoje retiramos desse drama que durou 16 anos? Não creio. Entre esquecimentos e distorções, o fenómeno da violência que nos paralisou durante década e meia não deixará ensinamentos que produzam outras possibilidades de futuro.
Vivemos de slogans e estereótipos. A figura emblemática dos “bandos armados” esfumou-se num aperto de mão entre compatriotas. Subsiste a ideia feita de que somos um povo ordeiro e pacífico. Como se a violência da chamada guerra civil tivesse sido feita por alienígenas. Algumas desatenções devem ser questionadas. No momento quente do esclarecimento, argumentar que os jovens da cidade devem olhar para os “maravilhosos” avanços nos distritos é deitar gasolina sobre o fogo. O discurso oficial insiste em adjectivar para apelar à auto-estima. Insistir que o nosso povo é “maravilhoso”, que o nosso país é “belo”. Mas todos os povos do mundo são “maravilhosos”, todos os países são “belos”. A luta contra a pobreza absoluta exige um discurso mais rico. Mais que discurso exige um pensamento mais próximo da realidade, mais atento à sensibilidade das pessoas, sobretudo dessas que suportam o peso real da pobreza.
(Publicado no Jornal “O País”, 04 Setembro 2010)

Cats Musical - Memory

"Memory" do musical CATS de Andrew Lloyd Webber

as graçolas de RAP

SALAZAR HAVIA DE GOSTAR DE LER

Há dias, falei-vos aqui dos analistas de serviço e do principal argumento por eles utilizado contra a candidatura de Francisco Lopes: «é um desconhecido», ou «só é conhecido na Soeiro Pereira Gomes»...
Mais recentemente, falei-vos de um tenente-coronel reformado* que, repetindo o que Salazar dizia e mandava dizer há décadas, afirmava que «o PCP recebia ordens do Partido Comunista da União Soviética» - e que isso legitimava a prisão, a tortura e os assassinatos de comunistas...
Hoje falo-vos de Ricardo Araújo Pereira (RAP) que, na Visão, escrevendo sobre a candidatura de Francisco Lopes,
1 - repete - fazendo humor - o que os analistas de serviço - falando a sério - dizem do candidato comunista, e
2 - repete - fazendo humor - o que o tenente-coronel reformado - falando a sério - disse sobre o PCP.

Tapando o nariz, tomando as devidas precauções higiénico/sanitárias, e munindo-se de ilimitada paciência, qualquer cidadão está em condições de ler até ao fim o texto de RAP.
Quem o fizer, constatará que parte grande da prosa de RAP é a repetição - humorística - do que, sobre o candidato comunista, tem sido dito pelos analistas de serviço. Estes - falando a sério - dizem que «Francisco Lopes só é conhecido no PCP». RAP - fazendo humor - diz que Francisco Lopes é «um candidato que nem os militantes comunistas sabem exactamente quem é»...
(pergunto: das duas espécies expostas, quem é que é analista e quem é que é humorista?...)

Mas onde RAP revela toda a sua incomensurável criatividade humorística é quando (repetindo o que, sobre o PCP, o tenente-coronel reformado diz - falando a sério), escreve - fazendo humor - que «Francisco Lopes é o candidato do PCUS, o Partido Comunista da União Soviética».
A tirada é forte e cheia de humor, como se vê.
Mas RAP acha pouco, quer ser ainda mais engraçado, ter ainda mais piada, elevar ainda mais o elevado humor que o possui - e acrescenta: «Francisco Lopes parece uma escolha de Brejnev, embora um pouco mais conservadora».
(pergunto: das duas espécies expostas, quem é que é tenente-coronel reformado e quem é que é humorista?...)

Lendo o fedorento texto, há que reconhecer, no entanto, que nem os analistas de serviço nem o o tenente-coronel reformado diriam melhor.
E Salazar havia de gostar de ler...

(em blog cravo de abril )

* um tal de Brandão Ferreira

Acrescento um comentário certeiro de João Valente Aguiar- "E este era o tipo que há uns anos dizia numa entrevista que tinha adorado servir bifanas na Festa do Avante por causa da solidariedade ali existente. Como um indivíduo cede a preconceitos, a chavões e a tostões!" Todos eles bem graúdos"

terça-feira, 14 de setembro de 2010

sugestão de leitura


"O VELHO QUE LIA ROMANCES DE AMOR" - LUIS SEPÚLVEDA (1993)

Trata-se de um romance,que na melhor tradição da literatura latino-americana, aflora os temas da natureza e do homem, as tradições, os mitos e suas aventuras, num cenário onde a barbárie humana pode ser aliviada pela leitura de romances que falam de um amor ridículo mas possível. Com uma dedicatória a Chico Mendes, o defensor da Amazónia morto por madeireiros sem escrúpulos.

Ano lectivo 2010 - 2011: mensagem da fada madrinha

Vejam a lenga-lenga da fada madrinha, a sua pureza infantil ou o catecismo ideológico da sr.ª Vilar, no inicio do ano lectivo. A defesa da escola dos concentradinhos, dos certinhos, dos aplicadinhos, dos que seguem as orientações e as regras dos senhores professores. E estudar é assim como o desporto do cérebro. é por isso que as galinhas têm um cérebro pequenino, fraco e não capaz, elas não estudaram. O ano do ainda mais. É preciso dormir bem, é preciso alimentar bem, TODOS, com o pequeno almoço. O bom, a felicidade e o orgulho, de quem tem de saber que o dia tem 24 horas e não se pode fazer bem duas coisas ao mesmo tempo. Que convincente é a senhora! Se não tivesse 54 anos ia para a escola novamente.


Outro comentário da blogosfera
Mesmo sabendo que não vou ser original, pois já outros blogues pegaram neste assunto; mesmo não pretendendo assumir o papel de “serviço público”... a verdade é que me sinto na obrigação de fazer com que um ainda maior número de pessoas veja este espantoso quadro de comédia burlesca.
Trata-se de um vídeo verdadeiramente demencial, em que a nossa surpreendente Ministra da Educação faz uma comunicação «aos alunos, aos professores... e até às famílias», alinhando um impressionante chorrilho de disparates, de que o impagável «estudar desenvolve o cérebro» é apenas um exemplo. Tudo dito com um ar, para dizer o mínimo, aparvalhado e tristemente cómico.
Claro que posso estar enganado e esta seja uma qualquer técnica revolucionária de comunicação que a Dona Isabel Alçada tenha aprendido naquele famoso “mestrado” que adquiriu em apenas alguns dias, num rápido passeio aos Estados Unidos.
Fiquei (penosamente) à espera de que a comunicação terminasse com o tradicional «e depois casaram e viveram felizes para sempre»... mas nada feito.
Já nem as estórias da carochinha são o que eram!
(em blog o Cantigueiro)

CARTA DIRIGIDA AO GRUPO PARLAMENTAR DO PCP

Âmbito: Reclamação
Nome:
Mensagem:
Exmºs Senhores: É insuportável a situação provocada pela Etar de Castelões de Cepêda. Os cheiros pútridos que diariamente se fazem sentir, não permitem que tenhamos uma janela ou porta abertas. Não podemos respirar.Neste momento são insuportáveis os cheiros.Aliás, a descarga das águas da ETAR para o rio Sousa, mostra o seu deficiente funcionamento. O rio Sousa, a montante da ETAR tem a sua água límpida. A jusante, muda completamente. Este rio é um afluente do rio Douroque, por sua vez, abastece de água a Porto e concelhos limitrofes, através da empresa de águas Douro e Paiva.Acontece isto a qualquer hora do dia e da noite. Já foram apresentadas inúmeras reclamações e feitos pedidos de ajuda quer junto da Veólia - Águasde Paredes, quer junto do ministério do ambiente - através de e-mail -, de nada valendo. Continua a mesma situação. Pede-se ajuda.

(omite-se o nome e o contacto telefónico)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Syd Barrett - Dominoes

Os primitivos Pink Floyd, com Syd Barrett na composição e nas vozes.

Paul McCartney Something Live at Anfield, Liverpool 1st June 2008



A AUTORIA DE SOMETHING É DE GEORGE HARRISON E AÍ VAI A LETRA PARA CANTAR

Something in the way she moves,
Attracts me like no other lover.
Something in the way she woos me.
I don't want to leave her now,
You know I believe in how.

Somewhere in her smile she knows,
That I don't need no other lover.
Something in her style that shows me.
I don't want to leave her now,
You know I believe in how.

You're asking me will my love grow,
I don't know, I don't know.
Stick around, and it may show,
But I don't know, I don't know.


You know I love that women of mine.
And I need her all of the time.
Know am I telling to you.
That women..that women that make me blue.


Something in the way she knows,
And all I have to do is think of her.
Something in the things she shows me.
I don't want to leave her now.
You know I believe and how.

domingo, 12 de setembro de 2010

biografia de Rosa Luxemburgo

A Rosa da Revolução

«”A ordem reina em Berlim!” Estúpidos sequazes! A vossa “ordem” está construido sobre areia. Amanhã a revolução levantar-se-á vibrante e anunciará, para vosso terror: Fui, sou e serei!»
(Últimas palavras de Rosa Luxemburgo escritas na mesma noite do seu assassinato)

ROSA LUXEMBURGO: REVOLUÇÃO, INTERNACIONALISMO E EMANCIPAÇÃO
Rosa Luxemburgo (Zamosc, parte polaca do Império Russo, 5 de Março de 1871 – Berlim, Alemanha, 14 de Janeiro de 1919), talvez tenha sido a mulher marxista teórica mais importante do período revolucionário entre 1880 e 1918. O seu pai foi Elias Luxemburg, comerciante de madeiras judeu, e a sua mãe Line Löwenstein. Rosa teve quatro irmãos mais velhos do que ela e nasceu com um defeito no crescimento que a incapacitou fisicamente toda a sua vida.
Com apenas 22 anos Rosa Luxemburgo fundou em 1893 o jornal A causa dos trabalhadores (Sprawa Robotnicza, junto com Leo Jogiches y Julian Marchlewski, aliás ‘Julius Karski’), onde criticavam las políticas nacionalistas do Partido Socialista de Polónia. Rosa Luxemburgo acreditava que uma Polónia independente só poderia surgir de uma revolução proletária na Alemanha, Aústria e Rússia. Ela afirmava que a luta social contra o capitalismo era essencial, questionando de certo modo o posterior conceito do direito de autodeterminação das nações sob o socialismo, desenvolvido por Lenine, com quem manteve debates dialéticos a respeito.

Militância no SPD alemão. Luta contra o imperialismo e pelo internacionalismo
Em 1898 Rosa Luxemburgo obteve a cidadania alemã ao casar-se com Gustav Lübeck e mudou-se para Berlim. A sua capacidad política e dialéctica levou-a rápidamente a ser um dos porta-vozes do partido. Temível tanto para o exterior, frente aos seus inimigos políticos e de classe, como para o interior do movimento socialdemocrata, onde denunciou repetidamente o crescente conformismo parlamentário do SPD frente à cada vez mais provável situação de guerra, Rosa insistiu que o conflicto entre capital e trabalho somente podía ser superado históricamente se o proletariado tomasse o poder e se produzisse uma mudança revolucionária em todo o contexto dos meios de produção.
Queria que os revisionistas abandonassem o SPD, o que não aconteceu, mas pelo menos conseguiu que o líder do partido, Karl Kautsky, mantivesse o marxismo no programa do SPD, ainda que a sua intenção fosse exclusivamente aumentar o número de mandatos no Reichstag. Desde 1900 Rosa Luxemburgo expressou as suas opiniões sobre os problemas económicos e sociais em vários artigos em jornais por toda a Europa. Os seus ataques ao militarismo alemão e ao imperialismo tornaram-se mais insistentes á medida que vislumbrava a possibilidade de uma guerra na Europa, e intentou persuadir o SPD no sentido de tomar a direcção oposta. Rosa Luxemburgo queria organizar uma greve geral que unisse solidariamente todos os trabalhadores europeus e assim evitar a Primeira Guerra Mundial, mas o líder do partido a isso se opôs e provocou a ruptura de Rosa con Kautsky en 1910.

Relações com Lenine e outros líderes operários
Entre 1904 e 1906 o seu trabalho viu-se interrompido debido a três prisões por motivos políticos. No entanto, Rosa Luxemburgo manteve a sua actividade política; em 1907 tomou parte no V Congreso do Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR) en Londres, onde se encontrou con Lenine. O POSDR foi o partido de Lenine e dos bolcheviques (sector maioritário do partido) antes da sua transformação em Partido Comunista com a Revolução socialista de 1917 na Rússia. No Segundo Congresso Socialista Internacional em Stuttgart (Alemanha), apresentou uma resolução —que foi aprovada— para que todos os partidos operários europeus se unissem com o objectivo de evitar a guerra.
Por esses anos Rosa começou a ensinar marxismo e economia no centro de formação do SPD em Berlim. Um dos seus alunos mais tarde convertir-se-ía no líder del SPD e primeiro Presidente de la República de Weimar, Friedrich Ebert, que teve muito a ver com o desenlace final da vida de Rosa Luxemburgo, como veremos mais adiante.
Em 1912, como representante do SPD, participou nos congressos socialistas europeus como o que teve lugar em Paris. Ela e o socialista francês Jean Jaurès propuseram que no caso de que estalasse a guerra, os partidos operários da Europa deviam declarar a greve geral. Ao ocorrer o atentado de Sarajevo contra o arquiduque Francisco Fernando e sua mulher, que foram assassinados em 28 de Junho de 1914, e aparecer a guerra como algo já inevitável, organizou várias manifestações (por exemplo em Frankfurt) clamando à objecção de conciência no serviço militar e a não obedecer ás ordens. Por causa disto foi acusada de «incitar á desobediência contra a lei e a ordem das autoridades» e foi sentenciada a um ano de prisão. A sua detenção, contudo, não ocorreu imediatamente, o que lhe permitiu tomar parte numa reunião da direcção socialista em Julho, em que confirmou desoladoramente que o sentimento nacionalista dos partidos operários era mais forte que a sua consciência de classe.

A sua ruptura com o SPD: antimilitarismo e fundação da ‘Liga de Spartakus’
Activa militante do SPD alemão até 1914, ano em que abandona este partido ao considerar a adesão do SPD à “guerra entre imperialistas” e ao nacionalismo alemão como uma traição aos princípios da Internacional. De facto, após começar a Primeira Guerra Mundial em Agosto de 1914, o SPD fez sua a política de União Sagrada, que consistia em colaborar con o Kaiser (Imperador do II Reich alemão) e os chefes do exército para levar a cabo a guerra, não cumprindo desta maneira os acordos dos congressos da II Internacional no sentido de opôr-se à guerra por todos os meios. Outro tanto sucedeu con os socialistas franceses apesar da oposição do seu líder, Jean Jaurès. A II Internacional rompia-se em pedaços. Só um pequeno grupo da esquerda do partido alemão manteve os postulados antibélicos, agrupados en torno do deputado Karl Liebknecht, Franz Mehering, Clara Zetkin, Leo Jogiches e onde se destacava a figura de Rosa Luxemburgo. A partir de 1916 este grupo é conhecido pelo nome de Liga de Spartakus, (os espartakistas) porque inicia a publicação de uma revista que tem o título de Cartas de Spartakus (en memória de Espartaco, herói comunista dos escravos sublevados na antiga república de Roma há mais de vinte séculos).
O novo grupo rechaçou o «alto ao fogo» entre o SPD e o governo alemão del Káiser Guillermo II na questão do financiamento da guerra, lutando veementemente contra e intentando provocar uma greve geral. Como consequência disso, em 28 de Junho de 1916 Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram sentenciados a dois anos e meio de prisão. Durante este tempo escreveu vários artigos usando o pseudónimo de ‘Junius’, os quais sairam clandestinamente do cárcere e publicados ilegalmente. Neles se distinguia o titulado «A Revolução russa», na qual criticava os bolcheviques e com lúcida antecipação avisava do perigo de que se desenvolvesse uma ditadura se se seguisse o critério bolchevique (ainda que continuasse utilizando o termo “ditadura do proletariado”). Foi nesse contexto que escreveu a sua famosa frase: «Freiheit ist immer die Freiheit des Andersdenkenden» (“A liberdade sempre foi e é a liberdade para aqueles que pensam diferente”).
Em Abril de 1917 produz-se a cisão do SPD, surgindo o USPD (Partido Socialdemocrata Independente Alemão) que se opõe á guerra e propõe uma paz negociada. Os espartaquistas, aproximadamente um milhar de militantes, integram-se no novo partido, que conta com uns cem mil filiados. A grande maioria da classe operária alemã e das classes médias compartilham o fervor nacionalista que se tinha suscitado com o início da guerra, no entanto, as grandes perdidas humanas, as privações crescentes e o impacto da revolução russa, foram gerando um grande descontentamento no povo alemão. En 1917 produziu-se um primeiro motim na Marinha de Guerra. Em Janeiro de 1918 houve uma greve geral num grande número de cidades, formando-se os primeiros conselhos operários à semelhança dos soviets (conselhos) russos. O gobierno reagiu através da repressão dos trabalhadores, mas houve uma nueva greve em Berlim em Abril de 1918 organizada pelos chamados delegados revolucionários, militantes independentes dos partidos, que gozavam da confiança de seus companheiros.

A paz e o sinal para a revolução… ou a reforma
Em Outubro de 1918 sublevaram-se as tripulações dos barcos de guerra ancorados no porto báltico de Kiel, o que foi o detonador de uma grande vaga revolucionária em toda a Alemanha. De Kiel a revolução estende-se a Hamburgo, Holstein, Hannover, Brunswick, Colónia, Munique, Rostock, Leipzig, Dresden, Stuttgart, Núremberg e outras cidades… O dirigente do SPD, Scheidemann, proclama no Reichstag a “República Alemã”. Duas horas depois, Liebknecht proclama perante os manifestantes a “República Socialista Livre da Alemanha”, mas cedo ficará claro que será a primeira declaração a prevalecer.
O surgimento dos conselhos de operários e de soldados em toda a Alemanha é uma criação espontânea das massas, influenciadas —sem dúvida— pelo exemplo russo, mas ao mesmo tempo esses conselhos, dominados por oficiais burgueses do exército, são maioritariamente socialdemocratas na sua composição e suas aspirações coincidiam com os objectivos reformistas das cúpulas do SPD e do USPD: conclusão inmediata da paz, abolição da monarquia, instauração da república parlamentar, reformas sociais, etc. Para superar a —para eles— perigosa fase revolucionária, o SPD levantará a bandeira da unidad socialista (reunificação do SPD e do USPD), com um apoio maioritário nas assembleias multitudinárias que se sucedem por toda a Alemanha.
Face a esta “situação acomodatícia”, levantar-se-ão os espartaquistas e outros grupos da esquerda revolucionária alemã. Estes, secundados em certa medida pela ala esquerda do USPD, fazem um apelo às massas a aprofundar a revolução e a transformar-la em socialista, explicando que, para alcançar esses objectivos, é necessária a luta armada para fazer frente aos militares da burguesía e aos próprios dirigentes socialdemocratas, aos que qualificam de traidores e contrarrevolucionários. Mas a correlação de forças é adversa. Entre 16 e 20 de Dezembro de 1918 reúne o I Congresso de conselhos de soldados e operários da Alemanha. De 480 delegados, 292 são do SPD, 84 do USPD, 11 pertencem ao grupo de extrema esquerda União de Revolucionários e 10 à Liga Spartakus.
A divisão estratégica entre ambos os blocos, reformista-parlamentarista e revolucionário-bolchevique acentuou-se antes, em Novembro, quando o SPD consegue, no processo de transição para a república após a abdicação do Káiser Guillerme II, duas importantes iniciativas políticas: a primeira que seja o socialdemocrata Ebert quem assuma o cargo de chanceler alemão das mãos do príncipe Max de Bade, presidente interino depois da abdicação de Guillerme II. A segunda iniciativa consistiu em lograr atrair o USPD para um governo unitario deixando de fora os espartaquistas. Em 10 de Novembro Ebert anuncia a formação de um novo governo con três ministros de cada partido que apresenta num grande comício no Circo Busch de Berlim. No mesmo acto Karl Liebknecht, líder junto a Rosa Luxemburgo dos espartaquistas ocupa a tribuna para —entre otras coisas— afirmar que a Revolução Alemã “está ameaçada pelos que hoje marcham com a revolução e ontem estavam contra ela”. Em alusão aos príncipes, generais e dirigentes socialdemocratas que tinham negociado a saída republicana parlamentar. Também afirma que “os inimigos da revolução utilizam pérfidamente para sus próprios fins a organização dos soldados”, aludindo à hegemonía do SPD entre os conselhos de soldados que incluíam dirigentes de alto grau que se tinham passado para o campo republicano, face aos conselhos dos operários, con maior predomínio revolucionário… mas vozes de “¡unidade!”, “¡unidade!” calaram as palavras de Liebknecht.

Rosa Luxemburgo e os espartaquistas fundam o Partido Comunista de Alemanha
Os espartaquistas permanecem un mês e meio mais no USPD, para em finais de Dezembro de 1918 lançar um ultimato à sua direcção para romper com o processo farsa liderado pelos generais e o SPD. O ultimato é rechaçado e no Natal de 1918 a Liga Espartaquista celebra uma Conferência Nacional em que decide formar, junto a outros pequenos grupos, o Partido Comunista da Alemanha (KPD Spartakusbund, em alemão) que celebra o seu congresso fundador em 30 de Dezembro, com o seu orgão oficial Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha) e varios milhares de militantes distribuidos por toda a Alemanha, mas ainda com pouca força em Berlim.
No Congresso triunfam as propostas de Rosa Luxemburgo, que expõe a a luta pelo poder revolucionário com a condição de ganhar previamente o apoio maioritário da classe trabalhadora, que maioritariamente confiava na socialdemocracia. A tarefa imediata dos espartaquistas (já comunistas) devia consistir em impulsionar as lutas parciais dos trabajadores e difundir entre eles o programa revolucionário socialista. Outros, que com o tempo ganhariam para sua causa Liebkneck, advogavam uma conquista imediata do poder, ao modelo russo, esquecendo que na Alemanha em Novembro já se havia firmado a paz, com o que essa bandeira, além do facto dos camponeses, nitidamente conservadores na Alemanha, os privava das mesmas condições que tiveram na Russia os seguidores de Lenine. Estas diferenças estratégicas tiveram a sua consequência nas decisões tácticas; por exemplo na decisão final, face à opinião de Rosa Luxemburgo, de não participação nas eleições à Assembleia Nacional constituinte da República alemã de Weimar. [O KPD foi, já entrada a década de 1930, o partido comunista mais poderoso e massivo de Europa Ocidental, com uma força crescente em relação com o SPD. Os comunistas alemães conseguiram 100 mandatos no Reichstag nas eleições de 1932].

A revolução que não pôde ser… “Uma ‘mulher diabólica’ e um tipo ‘disposto a jogar o tudo por tudo’ à frente dos espartaquistas
Em Janeiro uma segunda onda revolucionária sacudiu a Alemanha, ainda que os líderes del KPD —incluída Rosa Luxemburgo— não a desejassem promover previendo que ia acabar mal (ainda que outros intentasem aproveitar-se). A situação precipita-se quando, após uma crise de governo com a USPD, o chanceler Ebert decide destituir nos inícios de 1919 o director da polícia de Berlim (Eichhorn, do USPD). O comité berlinês do USPD, os delegados revolucionarios e o KPD convocam uma manifestação de protesto no 5 de Janeiro em Berlim que conta com dezenas de milhar de participantes. Os representantes das três organizações convocantes decidem continuar a acção e os manifestantes ocupam as sedes de alguns diários e algumas dependências do governo como a direcção da Polícia. Declara-se a Greve Geral e convoca-se uma manifestação para o dia seguinte.
Em resposta ao levantamento, o líder socialdemocrata Friedrich Ebert utilizou a milicia nacionalista, os «Corpos Livres» [Freikorps, posteriormente o germen dos primeiros grupos nazi-fascistas alemães], para sufocá-lo. O SPD dá “plenos poderes” a Gustav Noske, governador de Berlim e membro da ala direita do SPD, para organizar a repressão em colaboração com os chefes militares através dos corpos livres, milicias paramilitares com oficiais de confiança e mercenários a soldo. Um dos chefes desses corpos livres, o general Maercker fala aos seus homens dando algumas chaves sobre o conflicto: “eu sou um velho soldado. Durante 34 anos servi três imperadores. Amo e venero [Kaiser] Guillermo II como no dia em que lhe prestei juramento. Mas agora o governo imperial foi substituido pelo do chanceler Ebert. E este governo encontra-se numa situação muito difícil. Essa Rosa Luxemburgo é uma mulher diabólica e Karl Liebknecht un tipo decidido a jugar o tudo por tudo[...]”.
Entre os dias 11 e 14 de Janeiro de 1919 produziram-se duros combates em Berlim. O governador Noske lança os corpos activos na ofensiva no dia 11, recuperando nos dias seguintes os bastiões dos revolucionários e a Direcção de Policía. Tanto Rosa Luxemburgo como Liebknecht foram capturados em Berlim no dia 15 de Janeiro de 1919, sendo assassinados nesse mesmo dia. Rosa Luxemburgo foi golpeada até morrer e o seu corpo foi lançado para um canal próximo. Liebknecht recebeu um tiro na nuca, e o seu corpo foi enterrado numa fossa comum. Centenas de membros do KPD foram assassinados e os seus comités foram suprimidos.

Algumas consequências da Revolução alemã: a História rectifica Marx
A história demonstrou que Marx subvalorizou as forças do imperialismo e do nacionalismo para que a revolução não triunfasse na industrializada Alemanha e sim na depauperada e campesina Russia.
O desaparecimento em Janeiro de 1919 da figura de Rosa Luxemburgo privou-nos prematuramente de uma das mulheres mais destacadas na história dos teóricos e intelectuais do socialismo. Talvez por partilhar com Karl Marx a sua origem judia, liberta de falsos chauvinismos, entendeu de uma maneira muito precisa o internacionalismo como estratégia fundamental para a causa da classe trabalhadora, sujeita na época a penosas condições de exploração e ao imperialismo, e combatendo assim os desvios nacionalistas e reformistas do movimento socialdemocrata. A morte de Rosa Luxemburgo privou o socialismo internacional de um de seus mais eminentes teóricos marxistas e facilitou pelo contrário, o desenvolvimento de tendências sectárias no seio do KPD e da própria Internacional. As suas críticas ao menosprezo por certos aspectos formais da democracia (participação dos comunistas en assembleias, eleições, etc.) e as estratégias que conduziram ao triunfo da teoria do “socialismo en um só país” que acabou por impor Staline depois da morte de Lenine, marcavam um contraponto cuja evolução teria sido interessante para o movimento comunista internacional. Mas haverá outros homens e mulheres que retomarão a sua proposta.
Rosa Luxemburgo foi uma das primeiras mulheres intelectuais do movimento operário. Junta-se a Clara Zetkin, e à espanhola Dolores Ibarruri e a um escasso mas significativo número de outras mulheres que, naquilo que hoje qualificariamos como uma sociedade terrivelmente machista, se atreveram a partilhar debates, lutas e aventuras com os seus homólogos masculinos.
Algumas das obras de Rosa Luxemburgo publicadas são Reforma ou Revolução (1900), Greve de massas, partido e sindicato (1906), A Acumulação de Capital (1913) e A revolução russa (1918), onde surge uma crítica construtiva à mesma e sustenta que a forma soviética de fazer a revolução não pode ser exportada para outros países, ainda que defenda ao mesmo tempo a existência da “ditadura do proletariado” como estadio histórico prévio ao comunismo.

Texto: José Gabriel Zurbano* / Ciudad futura
* Historiador.
Tradução do espanhol: CR