um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

domingo, 29 de agosto de 2010

Até Amanhã, Camaradas - Filme de Joaquim Leitão



Portugal, 1944. Num país oprimido por uma ditadura retrógrada, servida por uma polícia política implacável (a PVDE), há quem resista e se organize para mobilizar o povo para a luta pelo pão e pela liberdade. Mesmo que isso lhe possa custar a prisão, torturas, ou até a vida. Pessoas como Vaz, Ramos, António e Paulo,militantes e funcionários do Partido Comunista, que desenvolvem a sua acção na clandestinidade, reorganizando o Partido nas zonas dos arredores de Lisboa e do ribatejo, ao mesmo tempo que preparam uma grande jornada de luta, com greves e marchas contra a fome. Esta série, adaptada da obra homónima de Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal), mostra o dia-a-dia dessa luta clandestina, vivida por dentro, no terreno. Os seus personagens são um retrato dos homens e das mulheres que dedicaram as suas vidas a essa luta. Dos seus ideais, das suas paixões e dos seus sacrifícios. Dos que mostraram fraqueza e dos que deram a vida pelo que acreditavam.

Até Amanhã, Camaradas - Filme de Joaquim Leitão com António Alcântara, Pedro Alpiarça, Amélia Corôa, São José Correia, Carlos Curto, Juana Pereira da Silva, Pedro Efe, Cândido Ferreira, Ivo Ferreira, António Filipe, Sara Graça, Adriano Luz, Paula Só, Luís Soveral, Adelino Tavares, Francisco Tavares, Leonor Seixas, Gonçalo Waddington.

a investigação histórica de Ivo Rafael Silva

O troço ferroviário “Mangualde – Recarei”
A «Estação de Recarei» no «famigerado novelo ferroviário» a Norte do Mondego, proposto em 1888, pelo Ministro das Obras Públicas, Emídio Navarro.

Na segunda metade do séc. XIX, o comboio havia transformado e muito este predominantemente rural rectângulo ibérico. Tornara-se num importantíssimo meio de transporte, potenciando, em larga medida, o desenvolvimento das regiões por ele atravessadas, nomeadamente através das indústrias que lhe estavam directa ou indirectamente associadas, proporcionando emprego, desenvolvimento económico-social e uma maior aproximação do interior com o litoral, principalmente com as grandes cidades de Lisboa e Porto. O caminho-de-ferro era assim uma mais-valia consolidada no nosso país, sinónimo de progresso e vanguarda, tendo a sua implementação, ocorrida em 1856, marcado definitivamente a nossa História.
É por nós sabida e sentida a forte relevância da implementação da linha ferroviária do Douro na nossa região. Ela permite-nos, em pleno séc. XXI, estar a escassas dezenas de minutos do centro da cidade do Porto com grande comodidade e de uma forma seguramente mais económica, se compararmos com os outros meios de locomoção disponíveis. Sabemos do grande benefício que, ao longo da História, a linha trouxe às populações das freguesias abrangidas pelo seu traçado, desde as iniciais obras de implementação até ao crescimento exponencial dos serviços industriais da ferrovia, da qual se destacavam, até meados do séc. XX, as oficinas de Ermesinde, Contumil, Campanhã, etc.
E se por si só, este traçado do Douro, com a configuração que hoje conhecemos tanto significou para as localidades a sul do concelho de Paredes, imagine-se o que seria esta terra e as demais confinantes, se porventura tivesse chegado a bom termo a proposta de abertura de uma nova linha até Mangualde, distrito de Viseu, tendo precisamente, como ponto de entroncamento, a Estação de Recarei.
Corria o ano de 1888. O Ministro das Obras públicas de então, o Dr. Emídio Júlio Navarro [1844-1905] propunha às cortes na sessão parlamentar de 1 de Junho, a criação de cinco novos troços ferroviários a norte do Mondego. A saber: o primeiro, de Mirandela a Bragança; o segundo de Vidago a Vila Franca das Naves; o terceiro de Chaves pelo Vale do Tâmega a entroncar na linha do Douro; o quarto de Braga por Guimarães a entroncar em Cavez; e finalmente, o quinto troço, partindo de Mangualde a entroncar na linha do Douro, mais precisamente na Estação de Recarei.
O orçamento deste «famigerado novelo ferroviário» considerado por Oliveira Martins como uma “verdadeira loucura”[1], situava-se nos 16.070 contos. O troço mais caro era precisamente o que ligaria Mangualde a Recarei, que teria um custo de 30 contos por quilómetro, o que multiplicado pelos 157 necessários daria uma despesa de 4710 contos, ou seja, quase 30 % do custo total da obra.
Antes de concluídos os estudos e cerca de um ano antes da apresentação da proposta de lei, já os deputados do Partido Regenerador contestavam o projecto do ministro, como se pode depreender pelo discurso proferido por José Gonçalves Pereira dos Santos, na sessão parlamentar de 23 de Maio de 1887: “Vemos, por exemplo, o illustre ministro das obras publicas mandar n'um dia fazer os estudos do caminho de ferro de Vizeu para Chaves, que nunca foi considerado em rede alguma do paiz dentro das que foram estudadas na associação dos engenheiros civis, ou em qualquer outra parte, e passado pouco tempo mandar estudar uma variante de Vizeu para Recarei, como se o caminho de ferro tivesse de satisfazer á condição de ligar Vizeu com a região do Tâmega, ou antes á de ligar Vizeu com a cidade do Porto. (…) Umas vezes os caminhos de ferro são estudados para via larga, outras vezes para via estreita, quando se não mandam estudar para as duas hypotheses! Umas vezes fazendo-se estudos n'uma direcção e outras n'outra. (Apoiados.) E assim successivamente. Isto é o que se chama caminhar sem plano, nem ordem. Sua regra, seu pensamento fixo, é andar perfeitamente ao acaso”
Quem, por outro lado, muito desejaria a construção destas linhas eram obviamente as câmaras dos municípios abrangidos pelo mapa de redes a implementar. A acta da sessão parlamentar de 10 de Abril de 1888, dá-nos conta de uma missiva da Câmara Municipal de Viseu “sobre a conveniência de ser aprovado e construído o mais breve possível o caminho de ferro, que, partindo da villa de Mangualde passe em Viseu, seguindo por S. Pedro do Sul e valle do Paiva a entroncar na estação de Recarei, da linha férrea do Douro.” Vinte dias depois, novo ofício era dado a conhecer aos deputados e no qual “o sr. Conde de Castelo de Paiva apresentou uma representação da Câmara Municipal de Arouca, pedindo a construção do caminho de ferro de Viseu a Recarei.”
Entretanto, na pasta das Obras Públicas, a Emídio Navarro sucedeu o também progressista Eduardo Coelho, que assumiu desde logo o compromisso de seguir a política e as iniciativas do seu antecessor. Decidiu então o novo ministro fasear todo o projecto do novelo ferroviário a Norte do Mondego, dando prioridade ao prolongamento do caminho de ferro de Mirandela a Bragança e do Corgo a Vila Real, por Vila Pouca de Aguiar a Chaves. Fazia-o por “dever de consciência”, alegou.
No entanto, em 1890, dá-se o “Ultimatum Inglês”. Os britânicos ordenaram a Portugal a retirada dos militares do território compreendido entre Angola e Moçambique (actual Zimbabwe). As cortes foram dissolvidas e os progressistas forçados a entregar o poder. Vivia-se num ambiente certamente avesso a iniciativas de grande calibre. O país atravessava um período de forte instabilidade e enorme conturbação política. Regeneradores e progressistas, os dois maiores partidos de então, digladiavam-se acerrimamente, alternando entre uns e outros em governos sucessivos. E este projecto, como tantos outros, acabaria por cair num saco sem fundo.
Onze anos depois e já completamente gorada a hipótese de se dar cumprimento ao projecto de Emídio Navarro, Eduardo José Coelho, recordava o assunto à câmara de deputados: “N'este anno [1888] foi apresentado ao parlamento o projecto de lei, que constituia o plano, ou as linhas tributarias ao norte do Mondego. Chamou-se então a este projecto de lei o projecto do novello dos caminhos de ferro. Este projecto, que era da solidariedade do governo progressista, tinha a assignatura do sr. Emygdio Navarro e Marianno de Carvalho, aos quaes, sem cumprimento, se póde e deve reconhecer uma assignalada proeminencia, como homens de estado, pelos seus indiscutiveis dotes de talento e de iniciativa governamental. Segundo as normas da politica indigena, contra este projecto de lei se levantaram as iras da opposição, grandes clamores e grandes indignações. Hoje a camara, serenamente, e com inteira segurança, poderá apreciar da justiça d'aquellas indignações, e que vantagens enormes teria auferido o paiz, se aquelle projecto fosse convertido em lei.”

(recolhido em villarecaredi.blogspot.com)

U2 - Wake Up Dead Man (Elevation Tour)

Há uma versão muito interessante da nossa Maria João / Mário Laginha

da leitura da blogosfera

Os herdeiros Feteira

Tenho lido e ouvisto muito sobre o caso da enorme fortuna Feteira e os seus vários putativos herdeiros, e sobre o assassinato de uma senhora com quem o centenário vivia há anos ou décadas. Não faltará, decerto, quem com este rico (e triste) material faça romance, filme, telenovela, o que fôr...
Mas há uma coisa que me espanta. No mundo pôdre e criminoso em que tudo isto se move e no leque de herdeiros com origem em várias origens e cama(da)s, há uma questão que escapa e há uns herdeiros, porque fautores da fortuna, de que ninguém fala.
Esta herança enorme também é de falências de empresas e de negócios volumosos à beira de falências.
Entre os herdeiros, faltam os trabalhadores que sofreram essas falências e que não beneficiaram desses negócios. Trabalhadores que estão, sem qualquer dúvida, na origem da dita fortuna que despoletou estes escândalos e crimes (pelo menos um é conhecido, sem que, por enquanto, se conheçam os criminosos, executores e mandadores).
Sim!, porque essa fortuna não nasceu por obra e graça de espíritos santos, embora alguns destes possam ter ajudado a acrescê-la.

(surripiado de anonimosecxxi.blogspot.com)

sábado, 28 de agosto de 2010

cumplicidade

Desabafo _ não quero ser cúmplice de uma política tenebrosa e acrescento:

"Coerente não parece ser a resposta dos autarcas da região ao encerramento das escolas básicas. São 75 as escolas previstas encerrar. Acomodados, sem voz, fingindo não ver as consequências, os executivos municipais expressam a mais completa incapacidade em resistir, em discutir, em pensar.
Aos sempre atentos e venerandos Presidentes de Câmara socialistas, juntam-se os venerandos e sempre atentos Presidentes da Câmara social-democratas. São iguais.
As Cartas Educativas são ultrapassadas nas suas projecções, nos compromissos negociados com o Governo, nos princípios que as determinam. Tudo passa, tudo convém, tudo é possivel para vereadores sedentos de protagonismo e vaidade. Que a informação não circule para os interessados, que importa, que a rede de transportes escolares não exista, que importa, que os orçamentos camarários futuros sejam um buraco negro, que importa! As crianças e o seu percurso/futuro escolar, a sua segurança, a sua tranquilidade, não interessam, as necessidades das famílias que se lixem, o que não abrir direito em Setembro, abre manco em Janeiro. Há sempre um contentor onde se pode fingir dar aulas.
A coerência é uma palavra linda. Mas não é para todos".

a dialética muito particular de Fazenda



Na última Convenção do Bloco, em 2009, os apoiantes da Moção C (minoritária) questionaram o provável apoio do BE a um candidato presidencial que também poderia ser apoiado por José Sócrates, o que se confirmou. Na altura, a resposta coube a Luís Fazenda, em nome da Moção A (maioritária). A resposta foi categórica e ficou registada em audio.

Afinal eles já "contaram" a todo o mundo...

Acrescento este texto "Bloco de quê?", muito bem escrito como sempre, em http://adargumentandum.wordpress.com/

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

museu municipal de Penafiel




O Museu Municipal de Penafiel está instalado no palacete setecentista dos Pereira do Lago é de uma das últimas obras assinadas pelo arquitecto Fernando Távora (falecido em 2005) e concluída pelo seu filho, José Bernardo Távora. Foi inaugurado a 24 de Março de 2009, pelo Presidente da República Cavaco Silva. O acervo do museu é constituído por três núcleos, arqueologia, etnografia e história do concelho, uma área de exposições temporárias e uma sala multimédia.

O Museu Municipal de Penafiel merece bem uma visita

All Angels Gone - (Stephen H.)



All Angels Gone é um grupo de post-rock francês e o tema (Stephen H.) é uma preciosidade que mostra como se esbatem as barreiras musicais.

ACTIVIDADE PARTIDÁRIA - Conferência de Imprensa de 27-8-2010

O VALE DO SOUSA E BAIXO TÂMEGA PERANTE UM GRAVE DESAFIO

O Governo decidiu o encerramento de 94 Escolas Básicas no distrito do Porto, 13% do total nacional das escolas a fechar. Acresce que segundo os dados disponibilizados pela DREN - Direcção Regional de Educação do Norte, este número corresponde a 10% do total de escolas básicas existentes na região.

Os 8 concelhos que compõem o Vale do Sousa e Baixo Tâmega (Amarante, Baião, Felgueiras, Lousada, Marco de Canaveses, Paços de Ferreira, Paredes e Penafiel) perdem desta forma 20% do total de escolas básicas existentes (são 75 as escolas previstas encerrar).

Estes números evidenciam o forte impacto negativo que é de esperar junto da vida de milhares de alunos e suas famílias, bem como no acentuar da desertificação das zonas mais periféricas.

A lógica economicista que preside a estas medidas decididas pelo Governo via Ministério da Educação nada tem a ver com os interesses dos alunos, das suas familias e dos concelhos abrangidos. Percebe-se assim a pressa da divulgação das escolas a encerrar, bem como a falsa negociação que a envolve com os interessados.

É revelador deste facto aliás, que o Governo decida encerrar escolas não previstas anteriormente, violando o que havia aprovado nas Cartas Educativas, como acontece em Paredes ou Marco de Canaveses, e que implicaram ou o deveriam ter feito, um período de discussão com a comunidade escolar, autarquias e DREN.

É revelador que ainda hoje não estejam decididas as transferências de alunos que frequentavam escolas a encerrar quando os Centros Escolares, destino final, não estejam prontos, como em Amarante (onde nenhum Centro Escolar iniciou sequer a construção), no Marco de Canaveses ou ainda em Penafiel.

A título de exemplo, atente-se no caso das escolas nas freguesias de Rio Mau e Sebolido, em Penafiel, cujo encerramento foi decidido sem que se perspective a conclusão do respectivo Centro Escolar antes de Janeiro/Fevereiro. Até ao momento a única informação dada à Associação de Pais (que aponta para manutenção das escolas em funcionamento até à abertura do Centro Escolar) foi prestada por professores e contradiz a informação prestada pela DREN, que especifica como sendo no distrito de Bragança os únicos casos em que o encerramento de escolas será adiado. Esta contradição, somada à falta de informação de fontes oficiais, é motivo para que subsistam justificadas dúvidas sobre o destino destas crianças.

É revelador que as questões relativas aos transportes de alunos, a rede, a segurança e custos, bem como o reflexo nas contas de gerência das Câmaras, não tenham sido ou acautelados ou objecto de negociação e concretização como se queixam os autarcas do Marco Canaveses, por exemplo. Em Telões (Amarante), fecham duas escolas (Freita e S. Braz) e a nova Escola – Escola Básica da Estradinha - dista 8 km das anteriores.

É revelador que em casos como Paredes não esteja pronto qualquer Centro Escolar previsto (Mouriz, Vilela ou Gandra) e se anuncie desde já o encerramento de 14 escolas. Em Mouriz, por exemplo, não está construído qualquer acesso digno, sendo completamente ridícula a antiga via rodoviária que o serve.

È revelador que os encargos financeiros assumidos pelas Câmaras com empréstimos bancários se apresentem como ruinosos e constituem um salto no escuro.

A Direcção Subregional do Vale do Sousa e Baixo Tâmega do PCP vê com muita preocupação a presente situação e acusa o Governo e as autarquias envolvidas de procurar sacrificar o futuro estudantil da população escolar da região em nome de uma pretensa modernidade que só representa a estrita lógica economicista.

Não descurando a necessidade de novos equipamentos, e novas valências ao serviço da formação e sucesso educativo na Escola Pública, o PCP não pode calar a discordância com as soluções encontradas, com a irresponsabilidade que resulta de não haver condições claras de funcionamento das novas Escolas e com a desresponsabilização do Governo do funcionamento do sistema educativo.

Depois de finalmente ter sido tornada pública a lista de 701 escolas a encerrar a pretexto de um alegado “reordenamento” da rede escolar (75 das quais na região do Vale do Sousa e Baixo Tâmega), a Direcção Sub-regional do Vale do Sousa e Baixo Tâmega do PCP denuncia os efeitos que esta medida terá no futuro educativo de milhares de jovens e crianças e suas famílias.

27.08.2010

A Direcção Sub-Regional do Vale do Sousa e Baixo Tâmega do PCP

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A INVENÇÃO DO AMOR - DANIEL FILIPE

A INVENÇÃO DO AMOR
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e
detergentes na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absoIutamente vital que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas


Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher e o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra a afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno rasgam densos limites entre o dia e a noite E é preciso ir mais longe destruir para sempre o pecado da infância erguer muros de prisão em circulos fechados impor a violência a tirania o ódio

Entretanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem e da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas encerramos o aeroporto patrulhamos os cais há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resoIvê-la para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão, deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas» perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa
Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas o último número de uma revista de modas a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos Ficou provado que não se conheciam Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva sorriram inventaram o amor com carácter de urgência mergulharam cantando no coração da cidade


Importa descobri-los onde quer que se escondam antes que seja demasiado tarde e o amor como um rio inunde as alamedas praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)


DANIEL FILIPE (1925-1964)
Poeta caboverdiano

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Jeff Buckley - Eternal Life (Live at Sin-é)



Jeff Buckley (17 de Novembro de 1966 —29 de Maio 1997) foi um cantor, compositor e guitarrista norte-americano. Era filho do mítico cantor Tim Buckley. Conhecido por seus dotes vocais, Buckley foi considerado pelos críticos umas das mais promissoras revelações musicais de sua época. Entretanto, Buckley morreu afogado enquanto nadava no rio Wolf, afluente do Rio Mississipi, em 1997. Seu trabalho e seu estilo único continuam sendo admirados por fãs, artistas e músicos no mundo todo. E este Eternal Live possui um carácter premonitório de um percurso tão precocemente interrompido.

Conto (do meu amigo Carlos Fagundes)

“EMBETUMO”

Não havia professor na turma que não tivesse percebido que o Jorge não gostava rigorosamente nada da escola. Revelava-o não só por atitudes mas também e sobretudo com palavras. Nas minhas aulas, apesar de tudo aquelas que aparentemente ele menos detestava, muitas vezes afirmara que não queria saber daquilo para nada e que quando fizesse dezasseis anos ou quando o deixassem… “Ó pernas!…” “Fugia dali a sete pés!...” A aula de Inglês era uma tragédia, a de Música um castigo e a de Matemática um inferno. Chegou ao extremo de afirmar em plena aula, que Ciências era uma merda, o que, obviamente, lhe valeu uma expulsão. A única disciplina, para além de Português, de que ele não se queixava, na sua persistente e continua objecção de consciência a todo e qualquer tipo de aprendizagem, era a de Trabalhos Manuais. De resto uma razia completa. Esta pertinaz obstinação à escola aliada às fraquíssimas capacidades de aprendizagem de que era dotado, trouxeram-lhe sucessivas reprovações que ainda mais açularam a sua aversão por aulas, disciplinas e professores.
Certo dia, num dos meus furos, nos tempos em que ainda não havia aulas de substituição, ao passar num dos pátios da escola, encontrei o Jorge sozinho, acabrunhado e macambúzio, sentado num banco. Para gáudio seu a professora de Matemática tinha faltado e estava ali à espera da cantina abrir. Aproximei-me, pedi-lhe licença para me sentar ao seu lado. Passei-lhe, ao de leve, a mão pelo ombro e atirei de rompante:
- Olha lá, Jorge. Afinal porque é que não gostas de andar aqui, na escola? Porque não gostas nem das aulas, nem dos professores?
Resposta imediata e sucinta mas pouco racional:
- Porque não gosto.
- Mas isso não é razão – insisti. – Tens que te explicar melhor…
- Não quero. Não gosto da escola e pronto.
Era óbvio que por ali não ia a lado nenhum. Mudei de tema:
- E fora da escola? O que fazes quando não estás na escola?
- Vou para casa.
- E o que fazes quando sais da escola e vais a casa?
- Faço muita coisa.
Achei que tinha escolhido o caminho mais certo para manter o diálogo aceso e, por isso, insisti:
- E que coisas são essas que fazes em casa?
Resposta pronta, com um misto de alegria e um olhar de soslaio:
- Vou ajudar o meu tio, ele tem uma oficina de marceneiro.
Tentei então encorajá-lo para que a conversa não terminasse por ali:
- Ah! Bravo! Muito bem! – E prossegui. – E na oficina do teu tio, o que fazes?
- Muita coisa.
- E o que é “muita coisa”?
- Limpo as máquinas e o pó dos móveis, ajudo a carregar os móveis na carrinha e embetumo.
- O quê?!
- Embetumo as gavetas e as portas.
- O que é isso de embetumar?
- Embetumar é fazer assim uma coisa como por pasta de dentes para tapar os buracos e as rachas da madeira das gavetas e das portas dos móveis.
- Ah! Então embetumar é por betume nos móveis para lhe tapar os buracos e os alisar. Confesso que não conhecia essa palavra.
- Mas é “fixe”.
- É “fixe” o quê?
- Embetumar. É compor uma coisa de madeira que está furada ou rachada. Até há cinzento, castanho e doutras cores.
- E gostas de fazer esse trabalho e ajudar o teu tio?
- Gosto. Claro que gosto. É onde eu vou trabalhar quando me deixarem sair daqui. Quero ser marceneiro. É mais “fixe” do que andar na escola.
- E tu queres ser marceneiro, quando fores grande?
- Quero, claro que quero. – O seu rosto manifestava agora um enorme regozijo.
Confesso que vi o Jorge sorrir de alegria pela primeira vez. Depois de uma pausa e de um respirar de alívio, continuou: – Gostava era de poder estar lá todo o dia em vez de andar aqui sem fazer nada. Mas o meu tio é que não me deixa. Quer que eu venha para a escola todos os dias… e eu não gosto de vir. Obriga-me a vir todos os dias só para chatear os professores.
- E o teu tio ensina-te a arte de marceneiro? Sim, porque aquilo é como uma arte, é assim como uma disciplina, não é? Para ser um bom marceneiro é preciso aprender.
- Ensina, claro que ensina. No sábado estive lá a trabalhar até à noite. Aquilo é “fixe”. Trabalha-se até estar pronto.
- E depois de pronto, o que se faz ao móvel?
- Carrega-se na carrinha e leva-se ao polidor.
- E gostas de estar na oficina, mesmo aos sábados?
- Eu gosto. Ficava lá todo o dia. Eu quero é aprender a ser marceneiro. Quando fizer dezasseis anos saio da escola de vez e vou para a oficina aprender. Aos dezasseis já vou trabalhar de marceneiro.
- Quando fazes dezasseis?
- No dia vinte de Julho.
- Então para o ano já não vens para a escola?
- Era o que faltava. Claro que não venho. Já fico todo o dia na oficina a aprender de marceneiro.
- E estás contente por isso?
- Claro que estou. Eu gosto é daquilo. Agora até vou fazer uma cadeira pequenina. Vou pedir madeira ao meu tio e vou fazê-la sozinho. Meu tio só me vai dizendo como é. Eu é que vou fazer tudo sozinho. É “fixe”, não é professor?
- É! Claro que é! E quando não trabalhas, o que fazes?
-Trabalho.
- Mas nos tempos livres, naqueles em que não tens que fazer?
- Eu vou para a oficina na mesma. Vou ver o meu tio trabalhar. Ainda no domingo estive lá toda a tarde.
- E não vês Televisão?
- Vejo, de vez em quando.
- E brincar? Já não brincas?
- Eu brincava antes. Agora já não. Quero é aprender a ser um bom marceneiro.
A cantina abriu e o Jorge pisgou-se. Queria ser o primeiro a almoçar.
Mas aquela conversa perseguiu-me durante dias e dias E não é que, algum tempo depois, dei comigo em plena reunião do Conselho Pedagógico, a propor que o Currículo da Escola fosse enriquecido com uma nova disciplina, Marcenaria, e que o professor até era fácil de arranjar: podia muito bem ser o tio do Jorge.
(em blog Pico da Vigia)

A Guerra de 1908 - Raul Solnado e a "guerra de 2010" - Santos Silva

Quase todos conhecemos, ou pelo menos ouvimos falar, do histórico sketch humorístico de Solnado sobre a sua ida à “Guerra de 1908”. Foi representado numa Revista à Portuguesa e depois gravado em disco, no princípio da passada década de sessenta. Temos agora, em alternativa e numa versão para 2010, o sketch do Ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, que só por pouco não seguiu a excelente sugestão do “Cravo de Abril”: informar “o inimigo” sobre as identidades, horas e locais de chegada à guerra dos nossos futuros “espiões” militares no Afeganistão e no Líbano.

O primeiro sketch, cimentou o estatuto de Solnado enquanto grande comediante; o segundo, cimenta o estatuto do Ministro, enquanto perfeito idiota!

Tendo a possibilidade de colocar aqui o Solnado, não vou perder mais tempo com a miserável (embora hilariante) imitação de Santos Silva.


(retirado de samuel-cantigueiro.blogspot.com)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Suite Alentejana Nº 1 (Fandango) de Luís de Freitas Branco



Neste vídeo podemos escutar o "Finale" (Fandango), 3º e último andamento da Suite Alentejana Nº 1 de Luís de Freitas Branco, numa interpretação da Orquestra Sinfónica do Estado Húngaro, sob a regência do maestro Gyula Németh. E as imagens do Alentejo para lhe dar conteúdo.

PINTURA - ALMADA NEGREIROS

Candidatura Comunista nas Eleições Presidencais de Janeiro de 2011



Francisco Lopes candidato à Presidência da República

Dando seguimento à decisão tomada na reunião do Comité Central, em Abril, o PCP avança com uma candidatura própria: Francisco Lopes, membro da Comissão Política e do Secretariado do Comité Central foi anunciado como candidato à Presidência da República.

Nesta sua reunião de hoje, o Comité Central do PCP analisou os aspectos mais recentes da situação económica e social do país, bem como linhas essenciais da acção e iniciativa política do Partido para o próximo futuro. Debateu e decidiu da candidatura a apresentar pelo PCP às eleições presidenciais de Janeiro de 2011.

da leitura de um comunicado essencial

Os lucros e a situação fiscal dos principais grupos económicos nacionais, propostas do PCP para mais justiça social (extracto de comunicado)

...Só desde 2005, ano em que o Governo PS iniciou funções, até ao final do primeiro semestre de 2010, os 17 principais grupos económicos – incluímos os cinco principais bancos, energia e telecomunicações com EDP, REN, GALP, PT e ZON, cimentos e papel com Cimpor e Semapa, construção civil e autoestradas com Mota Engil, Soares da Costa e Brisa e grande distribuição com SONAE e Jerónimo Martins – acumularam 31.623 milhões de euros de lucros, tendo pago uma taxa efectiva de IRC (imposto sobre os seus lucros) de 19,4%, isto é, significativamente abaixo dos 25% pagos por qualquer pequena empresa.
Favorecimento fiscal e esbulho de recursos públicos, que no sector financeiro assumem uma dimensão ainda maior com o pagamento já durante o 1º semestre de 2010 de uma taxa efectiva de IRC de 10% sobre os seus lucros – sendo que só o BPI, o BES e o BCP viram os seus lucros crescer face ao semestre homólogo em 11,8%, 14,6% e 10,6% respectivamente. E é a própria Associação Portuguesa de Bancos a admitir a possibilidade dos lucros referentes ao ano de 2009 - mais de 5 milhões de euros por dia - virem a ter uma tributação efectiva de 4,3%, confirmando o escandaloso paraíso fiscal propiciado ao sector financeiro em Portugal.
Na verdade se sobre todos e cada um destes grupos económicos tivesse recaído uma taxa efectiva de IRC de 25% sobre os seus lucros, o Estado teria arrecadado mais 2.429 milhões de euros em receita fiscal.
Da mesma forma que se sobre o conjunto de operações financeiras, designadamente das que resultam da especulação e da acumulação de mais-valias bolsistas, recaíssem cobranças fiscais de acordo com a defesa dos interesses do país, seguramente que muitos milhões de euros que são necessários aos serviços de saúde, de educação, ou à melhoria das condições de vida das populações não estavam a ser hoje cortados.
Veja-se a vergonha que constituiu a mediática operação da venda da participação da PT na Vivo à Telefónica, cujo os mais de 6 mil milhões de euros de mais-valias bolsistas que a venda proporcionou, foram drenados por um paraíso fiscal na Holanda, para chegarem a Portugal sem pagarem impostos, e tudo isto com a conivência do Governo PS que anuiu a esse negócio, confirmando assim que o Estado português troca anualmente alguns milhões de euros de dividendos por muitas centenas de milhões de euros de impostos que a PT e outros grupos económicos e financeiros deveriam pagar em Portugal. ...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Keith Jarrett - Köln Concert - Part 1 (1 / 3)

Keith Jarrett - The Köln Concert Part1 (2 / 3)

Keith Jarrett - The Köln Concert Part 1 (3 / 3)

Para mim, o Concerto de Colónia de Keith Jarrett Parte 1 é a peça musical mais completa que conheço.

UMA CAUSA NOBRE

Salvemos a vida de Sakineh Mohammadi Ashtiani!

Extractos da petição promovida pela A.I.
Ayatollah Sayed Ali Khamenei
Líder de la República Islámica de Irão

Excelência,

Dirijo-me a V. ex.ª para exprimir a minha grande preocupação pela situación de Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma mujer iraniana condenada en 2007 por adultério e que poderia ser ser executada en qualquer momento.


(...) Por tudo isso, lhe peço que:

- comute a pena de morte imposta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, assegurando-se de que não seja executada nem mediante lapidação nem por nenhum outro método.

- reveja de maneira exaustiva o processo aberto contra Sakineh Mohammadi Ashtiani no caminho até à abolição total da pena de morte, e se declare uma suspensão das lapidações até que se promulgue uma lei que proiba inequívocamente tanto a lapidação como o uso da flagelação. Devem também despenalizar-se as relações sexuais consentidas entre adultos.

- se garanta que o filho de Sakineh Mohammadi Ashtiani, Sajjad Qaderzadeh, não seja objecto de hostilidade pelas manifestações que realizou preocupando-se pela vida de sua mãe.


Apelo: Assina a PETIÇÃO da Amnistia internacional em http://www.es.amnesty.org/actua/acciones/iran-lapidacion-mujer

Não caiamos no discurso desculpabilizador do multiculturalismo, nem absolvamos as práticas selvagens da teocracia iraniana. Em nome do anti-imperalismo e do nacionalismo, exijamos uma civilização moderna, de direitos individuais e respeito pela liberdade de consciência.

domingo, 22 de agosto de 2010

Tori Amos - Whole Lotta Love/ Thank you Live

a cantora norte-americana Tori Amos numa singular versão ao piano de dois temas dos Led Zeppelin

A MÃE




A peça "A MÃE" de Bertolt Brecht foi representada pela Comuna- Teatro de Pesquisa em 1978,com música de José Mário Branco. Foram 12 as canções da peça, cuja capa do álbum, reeditado em 1996, se reproduz acima bem como a letra de uma das canções.

As canseiras desta vida

As canseiras desta vida
tanta mãe envelhecida
a escovar
a escovar
a jaqueta carcomida
fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
faz a sopa de miséria
a contar
a contar
os tostões da minha féria
e a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia 30
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
- o que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
não há pão que o preço deixe
a poupar
a poupar
a notinha que se queixa
tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
a acartar o pão pró ninho
a cansar
a cansar
com a lama do caminho
só se sabe lamentar

É mentira, é verdade
vai o tempo, vem a idade
a esticar
a esticar
a ilusão de liberdade
pra morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
que está a chave escondida
do portão
do portão
deste beco sem saída
- qual será a solução?

Letra e música: José Mário Branco

A DISTÂNCIA





Diferentes observações da distância entre ricos e pobres, aqui no Brasil mas generalizáveis em muitos lugares...tão perto e afinal tão longe.

sábado, 21 de agosto de 2010

Á PROCURA DA COERÊNCIA PERDIDA

O Presidente Socialista da Câmara de Castelo de Paiva Gonçalo Rocha mostrou-se indignado (TVS, de 16 de Julho de 2010) com a falta de médicos no SAP de Castelo de Paiva num fim de semana de Julho em que decorreu na Vila uma Feira de Vinho Verde. E atribuiu tal falta a uma “irresponsabilidade” da direcção do ACES do Tâmega Sul que tutela esse SAP. Mais, afirmou pretender apresentar ao Secretário de Estado da Saúde um voto de desconfiança na referida direcção, com vista á mudança de responsabilidades nessa função.
Alega o referido Presidente que com garrafas, vidros e álcool o referido evento criaria um contexto de risco, que aliada á falta de ligações directas rápidas aos Hospitais de referência (Santa Maria da Feira e Penafiel), tornaram a situação potencialmente grave.

Desconhece o voluntarioso Presidente socialista que não houve interessados extra em assegurar o referido SAP nesses dias, apesar da proposta ter circulado nos serviços de saúde da região. Preocupado com os cortes e outras lesões físicas, o presidente socilista deveria ter em conta outros “cortes”, os orçamentais, mais graves, nomeadamene do pagamento de horas extraordinárias, a que direcções dos serviços de saúde locais e os prestadores de serviços se sujeitam, por causa das orientações do PEC do seu Governo.
Desconhece igualmente que as dificuldades de acesso de Castelo de Paiva aos Hospitais de referência resultam também da manutensão das vias existentes, a que não é alheia a suspensão de obras entretanto decidida pelo seu Governo, afectando até as condições de atractibilidade de Castelo de Paiva para os mesmos prestadores.

Conclui-se que o Presidente da Câmara de Castelo de Paiva experimenta o veneno que por aí Sócrates e companhia têm vinculado. E o respeito pela Directora Executiva do ACES, igualmente socialista, o deveria ter limitado nos seus impulsos populistas. Passada a Feira do Vinho Verde , deverá acordar para a realidade. Com coerência.

Cristiano Ribeiro

Pink Floyd - Atom Heart Mother [1/4] (Alunos do conservatório de Paris)

Pink Floyd - Atom Heart Mother [2/4] (Alunos do conservatório de Paris)

Pink Floyd - Atom Heart Mother [3/4] (Alunos do conservatório de Paris)

Pink Floyd - Atom Heart Mother [4/4] (Alunos do conservatório de Paris)

VERSÃO VIDEO EM 4 PARTES DE ATOM HEART MOTHER DE PINK FLOYD, PELOS ALUNOS DO CONSERVATÓRIO DE PARIS

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

LUTO / LUTA PELAS ESCOLAS

Lista das Escolas Básicas a encerrar em Paredes por decisão do Ministério da Educação e a conivência da Câmara do Sr. Dr. Celso Ferreira

Escolas da Cunha, Noval e Calvário - Vilela
Escolas de Gandra da Moreira, Vilarinho de Cima, Vilarinho de Baixo, Moreiró, Granja, e
Trás-A-Vessada - Gandra
Escola de Astromil - Astromil
Escola da Insuela - Besteiros
Escola de Soutelo e Lourosa (Bairro) - Mouriz
Escola de Olho de Mouro- Vila Cova de Carros

Governo soma crise à crise encerrando 10% das Escolas Básicas do distrito do Porto

Depois de finalmente ter sido tornada pública a lista de 701 escolas a encerrar a pretexto de um alegado “reordenamento” da rede escolar, a DORP do PCP viu confirmada a justeza das suas preocupações.

Este processo tem sido conduzido pelo Governo de acordo com uma lógica estritamente economicista e em total desrespeito pelo futuro educativo de milhares de jovens e crianças.

O Governo decidiu o encerramento de 94 Escolas Básicas no distrito do Porto, 13% do total nacional das escolas a fechar. Acresce que segundo os dados disponibilizados pela DREN - Direcção Regional de Educação do Norte, este número corresponde a 10% do total de escolas básicas existentes na região.

Trata-se de uma situação particularmente grave nos 8 concelhos que compõem o Vale do Sousa e Baixo Tâmega (Amarante, Baião, Felgueiras, Lousada, Marco de Canaveses, Paços de Ferreira, Paredes e Penafiel) que perdem desta forma 20% do total de escolas básicas existentes (são 75 as escolas previstas encerrar).

Estes números evidenciam o forte impacto negativo que é de esperar junto de milhares de alunos que ficam assim com o seu percurso escolar comprometido, de inúmeras famílias que serão directamente afectadas. Também não deve ser ignorado o contributo que esta medida dará para o acentuar da desertificação das zonas mais rurais.
O Governo decidiu “cortar a direito”, sem atender às especificidades de cada escola e comunidade. Esta decisão decorre de uma estratégia profundamente errada, que relega para segundo plano o sucesso real das aprendizagens, privilegiando as preocupações estatísticas e financeiras.
Com esta medida o Governo vem somar “crise à crise”. Numa das regiões do país mais afectadas pelo desemprego, pela precariedade, pelos baixos salários e pela pobreza, o PS decide encerrar mais serviços públicos fundamentais.
A DORP do PCP exige a suspensão imediata deste processo e apela à mobilização das populações, de pais e encarregados de educação e forças vivas dos concelhos afectados na defesa da Escola Pública.

20.08.2010
O Gabinete de Imprensa da DORP do PCP

Orquestra Sinfonica Juvenil de Venezuela + Texto já publicado

Gustavo Dudamel, o génio, e a obra Mambo de Leonard Berstein + um texto já publicado sobre El Sistema, a rede de orquestras sinfónicas juvenis da Venezuela

EL SISTEMA
(a razão da poesia de Aleixo ao som de um violino de Caracas)

Não se trata de uma alusão, mesmo que indirecta, aos negócios e bastidores do futebol. Trata-se de algo muito mais sério.
A melhoria da vida das populações, bem como da sua dignidade e auto-estima, passam por vezes por soluções originais. O exemplo vem da Venezuela e dura há já 31anos.
Um certo dia, um músico amador, economista e antigo governante da Venezuela, de seu nome António Abreu, lembrou-se que era possível transformar a Arte em instrumento de desenvolvimento social e de construção de melhores cidadãos. E para tal inventou um Programa de Ensino da Música, em parte financiado por privados e que fosse extensivo ás camadas mais carenciadas da população.
Centenas de milhares de crianças foram assim retiradas á marginalidade e á miséria através da música clássica. O objectivo era a prevenção de comportamentos criminosos através de uma prática educativa original. Localmente o programa é chamado El Sistema, Sistema Nacional de Orquestras Sinfónicas Infantis e Juvenis. Os resultados obtidos com ele permitiram que se constituíssem duzentas orquestras profissionais actualmente, pelo menos uma em cada Estado da Republica Federativa da Venezuela. Notável realização quando se sabe que no início, em 1975 havia duas orquestras sinfónicas no País…
Plácido Domingo, o célebre tenor, chorou quando ouviu o Concerto da Orquestra Juvenil Simon Bolívar da Venezuela. O Director da Orquestra Filarmónica de Berlim disse que esta experiência era actualmente a mais válida em todo o mundo na divulgação da música clássica. As grandes cadeias informativas televisivas como a CBS, a NBC, a BBC e jornais de referência como o Guardian fizeram eco do sucesso maravilhoso deste programa.
Cerca de 23 países da América Latina e do Caraíbe tentam adoptar programas semelhantes. Crescem as pressões para a introdução de versões de El Sistema na Escócia, Alemanha e Estados Unidos da América.
António Abreu recebeu recentemente por decisão unânime do júri o prestigiado prémio Glenn Gould de 50.000 dólares. Gustavo Dudamel, maestro da Orquestra Juvenil Simon Bolívar é aos 27 anos convidado para titular da Filarmónica de Los Angeles, uma vedeta imparável no sector.
Quando se vê imagens na Internet de um bairro periférico e empobrecido de Caracas, com crianças de poucos anos transportando a caixa do seu violino, e dirigindo-se para o centro escolar onde aprendem música, das 14 horas ás 18 horas, de segunda feira a sábado, só nos podemos sentir felizes. Afinal há futuro para a humanidade.
Para muitos na Europa e nos Estados Unidos, a Venezuela não era mais do que Hugo Chávez, petróleo ou basebol. Mas esta reconfortante iniciativa educativa, que ganhou já este ano o Prémio Príncipe das Astúrias de Arte, existe porque tem um orçamento este ano de 23 milhões de dólares do governo venezuelano. Mas tem sobretudo tal como diz a acta do júri deste Prémio “qualidade artística e uma profunda convicção ética aplicada á melhoria da realidade social”. O que leva à disseminação de El Sistema pelas prisões e o projecto de 500.000 crianças e adolescentes abrangidos em 2015.
E quando aqui no nosso País nos embalam com umas inconsequentes Actividades de Enriquecimento Curricular e uns inúteis Certificados avulsos das Novas Oportunidade, lembrei-me do poema do António Aleixo que diz:

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo
calai-vos, que pode o povo
qu’rer um mundo novo a sério

Cristiano Ribeiro

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

TARRAFAL E A VELHA HISTÓRIA DA FILHA-DA-PUTICE

Um jornalista cabo-verdiano lançou um livro sobre o campo de concentração do Tarrafal. "Tarrafal - Chão Bom. Memórias e Verdades", assim se chama o livro: dois volumes, mais de 600 páginas, a partir de entrevistas com 45 ex-presos do campo, editado pelo Instituto de Investigação e do Património Culturais de Cabo Verde.
Criado em 1936, o “campo da morte lenta" (como ficou conhecido) começou por receber antifascistas portugueses, sobretudo comunistas e anarquistas. No total foram 340, dos quais aí viriam a morrer 10% - incluindo o secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves, e Mário Castelhano, líder da central sindical anarcosindicalista, CGT.
Encerrado por pressão internacional após a Segunda Guerra Mundial, foi reaberto em 1962, por ordem do então ministro do Ultramar, Adriano Moreira, destinado a militantes dos movimentos de libertação de Angola, Guiné e Cabo Verde.

O já conhecido José Pedro Castanheira, jornalista do Expresso, chamou a terreiro tal livro recente e dele extraiu a notícia de que fez título: o campo teria sido visitado por duas vezes pela Cruz Vermelha Internacional (quando?), que, segundo o relato do agente da PIDE/DGS que os acompanhou, se mostraram "espantados com as condições encontradas". De acordo com o mesmo relato, um dos emissários da Cruz Vermelha comentou mesmo que o Tarrafal "não era uma prisão mas sim um paraíso" (!).
Os responsáveis da Cruz Vermelha teriam ficado especialmente surpreendidos com "as idas semanais ao mar dos presos, as sessões de cinema, a biblioteca, as consultas ao Hospital da Praia, a possibilidade de estudar e fazer exames".
Nesta fase, e até ao 25 de Abril de 1974, estiveram no Tarrafal cerca de 230 nacionalistas africanos, tendo alguns falecido mas por razões que o autor não imputa directamente às condições carcerárias (!)Relevo entre os tarrafalistas para quatro escritores angolanos, todos do MPLA, que ali cumpriram pesadíssimas penas de prisão: Luandino Vieira, Mendes de Carvalho, António Cardoso e António Jacinto. Quase toda a obra de Luandino Vieira, posterior ao célebre "Luuanda", foi escrita na prisão, tendo conseguido fazer sair clandestinamente os respetivos manuscritos.

O Sr. Castanheira persiste no seu nojento trabalho de formiga. Não se tem poupado a esforços para tentar ilibar a PIDE e o regime colonial do assassinato de Amílcar Cabral. As suas investidas no Tarrafal têm o mesmo objectivo:descredibilizar a verdade histórica, e os testemunhos dos seus protagonistas /heróis. Ausentes as declarações dos presos vivos constantes do livro, ausentes os testemunhos dos guardas da prisão, ele procura convencer-nos de que o autor do livro acredita na tese do Tarrafal como “paraíso”, versão PIDE ou delegação da Cruz Vermelha Internacional. .
O fascismo assim branqueado nunca matou, nunca torturou, a frigideira nunca existiu, as celas nunca existiram, a própria morte não passava da desistência da vida. E até os FdP podem ser jornalistas.

saxon shore - marked with the knowledge

Grande instrumental dos Saxon Shore. E o video comercial da Sony (publicidade gratuita...) o que prova que algumas multinacionais têm bom gosto ah ah ah ah

Sony Tumble Spot - Saxon Shore "Marked With The Knowledge"

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

DA LEITURA - REFLEXÃO

DA LEITURA DO LIVRO “TEXTOS POLÉMICOS” (1971) – Organização e Prefácio de Zeferino Coelho, Edição Cruz dos Santos

O livro “Maio e a crise da civilização burguesa” foi escrito em 1970 pelo historiador António José Saraiva (e publicado em Edições Europa-América). Consiste em um diário, três ensaios e um posfácio, com três anotações. O polémico texto renegava teses fundamentais apresentadas anteriormente, nomeadamente em 1960 pelo mesmo autor (como em Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes).
Viveu AJ Saraiva em Paris desde 1960, como Investigador do Departamento de História Moderna do CNRS e assim assistiu á crise de 1968 em França, embora se diga como “observador marginal”. “Maio e a crise da civilização burguesa” nasce neste contexto, e é classificado por Zeferino Coelho, no seu texto, de um cadáver pedante superfinamente enroupado segundo o dernier cri”.
É a discussão do percurso desse pensamento, que expressa paixão, ressabiamento e até uma autoflagelação quase mística, a que nos aparece em obra que reune textos críticos de outros intelectuais (Daniel G. Pinho, Jofre Amaral Nogueira, José Pacheco Pereira, Mário Sottomayor Cardia e do próprio Zeferino Coelho), publicados em 1971 com o título de “Textos Polémicos”.
A reflexão de AJSaraiva pressupunha em 1960 a “dissecação do mito do inimigo reputado principal”, o sistema politico económico e social de então. Apresentava então conceitos fundamentais como “esquerda” e “direita” como “coordenadas de orientação, exigidas pelo instinto”. Existia nessa reflexão uma diferenciação entre os que tinham direitos politicos, sindicais e culturais, e possuem bens / riqueza e eram sujeitos da vida politica e os que não tendo eram mero objecto da mesma vida politica. Senhores e servos, assim expressos, servidões naturais e sociais, assim identificadas.
Presidia nela uma análise marxista, objectiva, progressista da sociedade. Nesta era possível descortinar as limitações da lógica do lucro, perante as espectativas crescentes (e necessidades) dos sectores menos qualificados e sem bens, a luta pelo usufruto de bens sociais, as “paixões”.
Assinalavam-se historicamente os momentos de crise como o ascenso de regimes fascistas na Europa como resultantes da crise económica de classe média. Interrogava-se o carácter progressista da burguesia perante o ascenso da classe operária nos países industrializados e não só.
Assinalavam-se as vantagens da instrução pública como factor de libertação e emancipação social (contra a “inevitabilidade da miséria”, ou o “determinismo social do berço”) e de valorização de uma nação.
Reafirma-ve o direito natural à posse do fruto do trabalho e à igualdade de “oportunidades sociais”. Salientava-se a solidariedade como caracteristica progressista. Era 1960.


Mas com “Maio e a crise da civilização burguesa” há um refazer da teoria social, um revisionismo que é conformismo e abdicação, uma mudança de armas de intervenção social. AJSaraiva encontra a sua Estrada de Damasco, uma amálgama doutrinária, que justifica pela “experiência” em contraponto á anterior via doutrinária. Os modelos de análise substituem a realidade ou a tentam conformar.
A crise que em AJS nos é proposta analisar não é a de uma classe social ( a burguesia) ou do capitalismo de finais de 60, e também não é a crise da inserção de um grupo social nas relações de produção existentes. A crise para AJSaraiva é de uma mentalidade dita “burguesa” de uma “classe média”, a seu ver “massa única, homogénea”, em expansão.
Há a tentativa de abolir as classes, eliminando o proletariado que de “multidão enigmática” do século XIX passa a “multidão pacata” no século XX, caminhando para o seu desaparecimento. Não há mais explorados! proclama AJ Saraiva. Resta uma “ampla burguesia”, o campesinato, as “massas estudantis”, certos “intelectuais, o lumpen-proletariado...
A Escola segundo AJS teria fornecido conhecimentos ás massas trabalhadoras mas também teria provocado a assimilação de valores (“burgueses”, claro!). Não teria sido só ela. A própria Revolução Industrial teria integrado na cultura dominante, “burguesa”, os deslocados do campo, assim assimilados, após o desenraízamento dos seus valores. A cidade assimila.. e assim afasta a revolução! AJ Saraiva dixit.
Nega-se a conciência histórica como aceleradora da História e inventa-se outras dimensões para negar o progresso material como resultado da ciência ao serviço da possibilidade de transformar o mundo. Proclama-se a suprema virtualidade para um mundo melhor de uma “mudança espiritual” num idealismo que sente o Homem como único e excepcional .
Inventa AJ Saraiva um capitalista parasitário que só recebe os juros do capital e que geraria cada vez menos a empresa, e um capital de dinâmica subjectiva, não respondendo a lógicas e a principios.

( a continuar...)

poema

Problemas do subdesenvolvimento (cultural)

Monsieur Dupont chama-te inculto,
porque ignoras qual era o neto
preferido de Victor Hugo.

Herr Müller pôs-se aos berros,
porque não sabes o dia
(exacto) em que morreu Bismark.

Teu amigo Mr. Smith,
inglês ou ianque, não sei...,
irrita-se quando escreves shell.
(Parece que apagas um ele,
e, além disso, pronuncias chel.)

Bom... e depois?
Quando for a tua vez,
manda-os dizer otorrinolaringologista
pergunta-lhes o que fica para lá do Marão,
se sabem onde desagua o Guadiana,
e em que lugar deste planeta
morreu Bento Gonçalves.

Ah!... e um favor:
que te falem sempre em português

Poema de Nicolas Guillén, poeta cubano 1902-1989, traduzido e “adaptado” por Sérgio Ribeiro
(em anónimo século xxi)

da leitura da blogosfera, com nojo



Ex-soldado israelita põe fotos com prisioneiros no Facebook

Eden Aberyl, antiga soldado israelita, colocou no Facebook fotos onde posa sorridente rodeada de prisioneiros palestinianos vendados e de mãos atadas. "Exército: Os melhores dias da minha vida" foi o título dado por Eden Aberyl às fotografias tiradas durante o serviço militar obrigatório que a antiga soldado israelita colocou na sua página do Facebook.
O caso já suscitou vivas críticas quer por parte da Autoridade Palestiniana, quer do próprio exército de israel. "Não fiz nada de errado. Não há violência ou intenção de humilhar quem quer que seja nas fotografias", disse hoje ao fim da manhã Eden Aberyl, de 26 anos de idade, numa entevista à Rádio do Exército.
Eden Aberyl confessou-se surpreendida com a polémica gerada pela fotos e disse ter sido ameaçada de morte depois do caso se ter tornado público.
Tiradas em 2008 numa base perto de Gaza, as fotografias estão a provocar grande polémica em Israel. A página do Facebook foi entretanto retirada depois de ter estado acessível durante algumas semanas.
As fotografias "mostram a mentalidade do ocupante, orgulhoso de humilhar os palestinianos", disse o porta-voz da Autoridade Palestiniana, Ghassan Khabib. "Não há nada que possa justificar esta humilhação, que faz parte das práticas diárias da ocupação israelita".
"É um comportamento vergonhoso por parte da soldado", disse, em comunicado, um porta-voz do exército israelita. O caso será investigado pelas autoridades militares embora Eden Aberyl tenha passado à disponibilidade há cerca de um ano, ficando por isso fora do alcance da Justiça militar.

(em Expresso on line)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Fado triste - Vitorino & Elba Ramalho



FADO TRISTE

Vai ó sol poente
vai e não voltes
sem trazer no primeiro raio
notícias de quem se foi
Numa madrugada amarga e triste
um navio de proa em riste
levou tudo o que eu guardei

Na caixa escondida dos afectos
no lembrar dos objectos
que enfeitavam o meu quarto
Tudo perde a cor a forma o cheiro
ficaram só coisas esquecidas
da importância que tiveram

Volto sempre ao rio
às sextas feiras p'ra lembrar
dias descuidados noites à toa
Espero que o navio sempre queira
trazer de volta o sussurro
dos teus passos
numa rua de Lisboa.

O INCONCEBÍVEL RETROCESSO NO ACESSO AO ENSINO SUPERIOR

É sobejamente conhecido que Portugal tem taxas de acesso ao ensino superior que estão muito aquém das que se verificam, não apenas na generalidade dos países da União Europeia, mas mesmo em países que são considerados como menos desenvolvidos. Impunha-se por isso um grande esforço do Estado português no apoio ao acesso ao ensino superior por parte dos jovens portugueses, em nome da superação do atraso nacional e a bem das possibilidades de acesso a emprego qualificado por parte das gerações futuras.

Fez-se precisamente o contrário. As propinas no ensino superior público, que meados dos anos noventa tinham um valor simbólico, estão hoje acima dos 900 euros anuais. Isto nas licenciaturas e nos mestrados integrados, já que nos mestrados não integrados as propinas ascendem a milhares de euros anuais. Acresce que o famigerado processo de Bolonha se encarregou de desgraduar as licenciaturas, fazendo com que a habilitação exigida para o acesso a profissões qualificadas seja o mestrado.

Não tenho qualquer dúvida que existe hoje uma grave selecção económica no acesso ao ensino superior. Basta olhar para a média salarial praticada em Portugal e para o crescente empobrecimento do extracto social a que se convencionou chamar “classe média” para perceber que grande parte das famílias portuguesas não tem condições económicas para que os seus jovens frequentem o ensino superior público, e por maioria de razão, privado.

Dizia hipocritamente o ministro Mariano Gago que o problema se resolvia por via da concessão de bolsas de estudo aos jovens de famílias carenciadas para que pudessem frequentar o ensino superior. Demagogia. É mais que sabido que as condições de acesso a bolsas são de tal modo restritivas que deixam de fora amplas camadas da população que vivem com sérias dificuldades económicas. E para piorar as coisas, vem agora o PEC retirar as bolsas de estudo a 20 % dos actuais beneficiários.

Portugal, os jovens portugueses do presente, e as gerações futuras, vão pagar muito caro o retrocesso inconcebível que a doutrina neoliberal posta em prática pelos Governos PS/PSD/CDS impôs ao nosso país em matéria de ensino superior. A menos que esta política seja travada. A menos que o acesso à formação superior deixe de ser considerada como um privilégio individual de alguns privilegiados e volte a ser encarada como um desígnio estratégico para o desenvolvimento económico, social e cultural de Portugal.

(em Caderno de Apontamentos - Blog da António Filipe - Deputado do PCP)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A Flor Mais Grande do Mundo (José Saramago)

António Fernando





António Fernando

Nasceu a 28 de Maio de 1940 na cidade do Porto. Licenciado em pintura pela escola de Belas-Artes do Porto. Professor do Ensino Secundário. Licenciado em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1976 a 1980. Recusou o Prémio “ex-aequeo” do Ciclo Especial das Artes Plásticas da ESBAP, atribuído em 1980 pela Fundação Eng. António de Almeida. Professor do Ensino Secundário de 1980 a 1983.
Monitor das cadeiras de iniciação à Pintura e Anatomia e Desenho de Modelo na ESBAP de 1979 a 1981. Professor de desenho da Escola Superior de Artes e Design (Matosinhos) desde 1989

domingo, 15 de agosto de 2010

OPINIÃO

DA ESCOLA AO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO

José Henriques Soares na última edição de O Verdadeiro Olhar surpreende-nos com um artigo sobre Educação, cujo conteúdo não desdenhariamos subscrever.
Sublinhe-se o registo histórico feito da evolução das escolas na Finlândia, Reino Unido e Estados Unidos da América para centros de menor dimensão, evitando assim, a sobrelotação. Esta orientação é completamente discordante do trilho de Maria Lurdes Rodrigues/ Isabel Alçada / Celso Ferreira.
José Henriques Soares, certamente com o conhecimento resultante de ter sido Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara de Paredes, no anterior mandato, fala da Carta Educativa de Paredes e do contexto que presidiu á sua elaboração. E aqui as revelações são transcendentes, embora as dúvidas há muito tempo que pairam nos espíritos: o pagamento foi a “peso de ouro” tanto à empresa que elaborou o documento como ao arquitecto que projectou os equipamentos.
E os alertas de Henriques continuam, tanto para as deslocações de autocarros em crianças tão jovens, como para a segurança assim tão sacrificada,como para a exposição ás contingências do tempo, como para as horas retiradas ao sono e ao lazer, para uma concentração que não é condição de resultados de excelência. Bem pelo contrário.
Chamar “campo de concentração” ao grandes centros escolares é excessivo. Mas para ouvir uma orientação discordante, que possa influenciar a decisão política, nunca é tarde. Os que não quiseram ou souberam ouvir a CDU de Paredes têm uma oportunidade de ouvir o mesmo pela boca do PSD.

fotografia do Largo do Carmo em dia de revolução


To Our Children's Children's Children

Em 1969, a 5ª missão tripulada do Programa Apollo, a Apollo 11, permitiu que o primeiro Homem pusesse a pé na Lua. Neil Amstrong e Edwin Aldrin transformaram o sonho em realidade. Em 1969 foi publicado um álbum dos The Moody Blues intitulado "To our children's children's children". O video expressa a feliz coincidência de 1969, a viagem espacial e a viagem pelas três primeiras faixas (Higher and higher, Eyes of a child, Floating) do álbum dos The Moody Blues.

sábado, 14 de agosto de 2010

Maria João & Mário Laginha - Beatriz

um tema de Edu Lobo /Chico Buarque de Holanda na interpretação de Maria João & Mário Laginha

um vídeo fabuloso

GRIPE

A pandemia da Gripe A acabou. A declaração é da Organização Mundial de Saúde, que suspendeu a fase 6 de alerta da pandemia de gripe. Desde Abril de 2009, teria havido em Portugal 1 milhão de casos, 1436 internamentos e 124 casos mortais.
A infeção humana do vírus H1N1 despertou preocupação, mobilizou recursos extraordinários e criou cenários hipotéticos que felizmente não se concretizaram.
Dúvidas persistem sobre se não terá havido um alarmismo desnecessário, se não terá havido um condicionamento das autoridades de saúde á lógica empresarial das multinacionais do medicamento, se certezas científicas não são senão conjunturais correntes de opinião maioritárias.
Mas com esta ameaça de epidemia da gripe á escala mundial criou-se uma maior responsabilidade de todo o cidadão, baseado na sensibilização correcta e na informação recebida, alheios os factores económicos que certamente existirão no futuro.

cartoon


NOITES DE SINGAPURA (Saint Jack) - Filme (1979)

As pessoas fazem amor por qualquer razão, até por dinheiro...Jack Flores (Ben Gazzara), um americano determinado, tenta fazer fortuna na Singapura dos anos 70. O desejo de conseguir dinheiro em pouco tempo fá-lo investir num bordel. Administrando este género de negócio, sonha voltar aos EUA rico para levar uma vida de luxo. Em plena Guerra do Vietname, Jack é contactado pela CIA para gerir uma casa do mesmo género somente para os soldados americanos de licença em Singapura.

FICHA TÉCNICA:Duração: 112 M
Produção: Roger Corman
Realização: Peter Bogdanovich
Autoria: Peter Bogdanovich/Howard Sackler
Tit. Original: «SAINT JACK»
Origem: EUA - 1979
Com: Ben Gazzara/Denholm Elliott

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Ennio Morricone, "The Ballad Of Sacco And Vanzetti", Warsaw



Ennio Morricone - Concerto em Varsóvia. "The Ballad Of Sacco And Vanzetti" - canta Dulce Pontes

incêndios

Os incêndios florestais e a situação da floresta portuguesa
Quarta 4 de Agosto de 2010
Conferência de Imprensa de Agostinho Lopes, membro do Comité Central do PCP

1 - Na continuidade de 2009, em que arderam 87 mil hectares, o balanço dos últimos 15 dias de Julho, veio demonstrar, mais uma vez, que os problemas estruturais da floresta portuguesa estão longe de estar resolvidos. Como o PCP tem denunciado.

Quando os principais responsáveis pelo Plano Nacional Defesa Floresta Contra Incêndios, Ministro e Secretário de Estado da Administração Interna, perante o crescer do número de ocorrências e área ardida, da dimensão e duração de alguns dos incêndios florestais, voltam a invocar as condições meteorológicas adversas – calor e humidade – e os incendiários, para justificar a situação, estamos perante a fuga a assumir a responsabilidade política pela causa essencial e central dos incêndios florestais: o estado da floresta portuguesa. A que se deve juntar algumas “poupanças” por conta do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), como acontece com as carências de meios nas Áreas Protegidas!
Esquecendo-se os mesmos governantes, que ainda “ontem”, em 2007 e 2008, anos de baixo índice de severidade diário (medida do risco de ocorrência de um incêndio tendo em conta as condições meteorológicas), atribuíam às medidas do Governo o sucesso de anos com reduzidos incêndios florestais e área ardida.

Estas constatações não põem em causa as melhorias verificadas no dispositivo de combate. Bem pelo contrário, elas demonstram que depois de um longo período de incúria e subestimação pela política de direita de sucessivos governos (PS, PSD e CDS), responsáveis por mais de 2,7 milhões de hectares de floresta queimada nos últimos 25 anos, depois dos anos calamitosos de 2003 e 2005, foi possível, como o PCP sempre afirmou e propôs, travar o flagelo.
E que tal aconteceria com investimento público adequado em meios e recursos humanos, com outra organização do dispositivo de combate e a convocação e o envolvimento de todas as entidades e agentes mais directamente interessadas e preocupadas com o problema dos incêndios florestais – produtores florestais e compartes dos baldios e as suas associações, corpos de bombeiros, municípios, departamentos de instituições universitárias.

Como sempre afirmamos, era possível caminhar para respostas necessárias a um combate eficiente, reduzindo substancialmente a dimensão e o número de fogos, os prejuízos e os riscos de acidentes pessoais. Mas como sempre alertámos, o cerne do problema era e é o estado da floresta e das matas portuguesas.

2 - Ora, as questões estruturais da floresta, o seu ordenamento e gestão activa, e a chamada prevenção estrutural, não passaram do papel! Se dúvidas há sobre esta afirmação, é fácil comprová-la. Basta fazer o balanço de concretização da “matriz de responsabilidades e indicadores de implementação da Estratégia Nacional para as Florestas (ENF)”! Estratégia, aprovada pelo Governo, em Resolução do Conselho de Ministros de 15 de Setembro de 2006, após os desastres de 2003 e 2005.

Confluindo com políticas agro-rurais (e não só), que agravaram o abandono da agricultura e a desertificação humana e económica de muitas regiões, as políticas agro-florestais, pese as boas intenções afirmadas, patinaram, sem vencer estrangulamentos e défices causados pelas políticas dos últimos 30 anos. Nesse impasse, pesa como questão decisiva as consequências directas e indirectas da contenção orçamental, determinada pelo PEC.

O forte e cego condicionamento financeiro, reduziu e estilhaçou os serviços do Estado para a Floresta (sistema de mobilidade especial, reconfiguração da Direcção Geral dos Recursos Florestais na Autoridade Florestal Nacional), atingiu drasticamente o investimento na floresta e o avanço no ordenamento florestal. Processo que acaba por frustrar a enorme disponibilidade, empenhamento e até entusiasmo de produtores e técnicos florestais, compartes dos baldios e o grande envolvimento das suas associações!

São exemplos flagrantes a total ausência de investimentos PRODER na floresta. Se o quadro geral desse Programa é de um enorme atraso, a situação na floresta é um desastre: nem um projecto aprovado nem um contratualizado! A situação com o Fundo Florestal Permanente (30 milhões de euros/ano) não é melhor. A maior parte das suas dotações tem sido “desviada” de uma aplicação directa na floresta, a favor do suporte de serviços e actividades florestais dos municípios e administração central, a par de um crónico atraso no pagamento de investimentos realizados (projectos de 2008)!

Relativamente às Zonas de Intervenção Florestal (ZIF), o Governo vai enchendo a boca com a área florestal já formalmente abrangida (500/600 mil hectares), mas é incapaz de informar quantas já têm uma intervenção real no ordenamento e gestão florestal activa! E fundamentalmente, não tomou as medidas de apoio necessárias ao seu desenvolvimento no terreno.

Em matéria de Cadastro Florestal, instrumento imprescindível à concretização de qualquer política florestal, o Governo anunciou um Projecto-piloto, envolvendo 7 concelhos e um investimento de 15 milhões de euros. A ENF previa que o Cadastro Florestal das áreas baldias e das áreas integradas em ZIF estivesse realizado até final de 2009, e concluído em 2013! Ou seja, investimentos de centenas de milhões de euros!

Sem falar do mercado da madeira e dos seus preços ruinosos, nada incentivadores de qualquer efectiva produção florestal, sob o domínio monopolista de alguma grandes empresas, particularmente no sector do eucalipto/pasta de papel, onde o Governo ou a Autoridade da Concorrência, continuam sem qualquer intervenção. O preço da pasta de papel evoluiu entre 2008 e 2010 de 580€/tonelada(t) para 700€/t enquanto a matéria-prima/eucalipto descia dos 45€/t para os 39€/t!

3 - Mas mesmo no quadro do dispositivo de prevenção e combate aos incêndios florestais se notam as consequências das restrições orçamentais, mesmo se aparentemente, não têm criado problemas na eficiência do Dispositivo de Combate aos Incêndios Florestais. Alguns exemplos são bem ilustrativos desses constrangimentos.

O GAUF, Grupo de Análise e Uso do Fogo, criado em 2006, e visando introduzir um maior grau de tecnicidade e conhecimento na estratégia de combate aos fogos florestais, tem vivido uma permanente instabilidade contratual com o Estado. Grupo de técnicos credenciados no uso e comportamento do fogo, passaram de um regime de recibos verdes no seio da DGRF a uma situação de empresa de serviços contratada pela AFN/ANPC em 2009. Ainda a 15 de Junho, desconheciam o seu futuro no DECIF 2010, acabando por ser contratados até 17 de Novembro!

Nas Áreas Protegidas, as carências em meios e recursos humanos permanecem, nomeadamente vigilantes da natureza e viaturas de 1ª intervenção. Uma expressiva manifestação desse quadro, é a informação do Secretário de Estado do Ambiente, já em plena Fase Bravo que tinham sido abertos concurso para a contratação de mais vigilantes e tinham sido apresentadas candidaturas ao QREN para a aquisição de viaturas!

Nos sectores sob tutela do MAI, avulta o atraso no reequipamento em viaturas de combate dos Bombeiros (cerca de 2000 a necessitar de substituição), e das prometidas 95 novas viaturas em 2007, muitas continuam por entregar! Mas o caso mais paradigmático é sem dúvida, o das comunicações. Desde sempre assinalado com um elemento crucial do Dispositivo, o se verifica, é que passados vários anos sobre os acontecimentos de 2003 e 2005, os Corpos de Bombeiros e os Serviços Municipais de Protecção Civil, continuam fora do SIRESP!

O PCP, sem descurar a necessidade de reforçar e satisfazer as carências do Dispositivo Nacional de Combate aos Incêndios Florestais, dando particular atenção aos problemas das Corporações de Bombeiros Voluntários, vai na sua acção política geral e intervenção institucional, continuar a privilegiar a luta e propostas que respondam aos problemas estruturais da floresta portuguesa. Onde é elemento central outra política agrícola.

basta fazer as contas

BASTA FAZER AS CONTAS

No ano de 2008, havia em Portugal 10 400 milionários (indivíduos com fortunas superiores a um milhão de dólares).

No ano de 2009, esse número subiu para 11 000 - mais 600, portanto, o que corresponde a um aumento de 5,5%.

Assim sendo, também o número de pobres vai aumentando: segundo a Eurostat, existem em Portugal cerca de 2,5 milhões de pobres, dos quais mais de 200 mil em situação de miséria extrema.

Posto isto, basta fazer as contas e encontraremos a resposta à pergunta formulada há mais de um século por Almeida Garrett:

«E eu pergunto aos economistas, aos políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria (...) para produzir um rico?»

(em cravodeabril.blogspot.com)